quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A CASA [© DE João Batista do Lago]

A CASA

 

© DE João Batista do Lago

 

Desde sempre

Habitaram-me numa casa...

Numa casa de todos os mundos

Numa casa de todos os seres

A casa não tem porão

Nem sótão a casa tem

É uma casa temporã:

– serôdica e tardia! –

Quando me escondo

A casa sem porão me segrega no ventre

Quando me exponho

A casa sem sótão me pariu e revela

Habitaram-me assim

Numa casa sem porão

Numa casa sem sótão

Numa casa de todos os mundos

Numa casa de todos os seres

Numa casa só de mim:

Espelho!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Pleased to meet you!

Pleased to meet you!

 

© DE João Batista do Lago

 

Pleased to meet you!

Sou filho/a dos mangues

Nascido/a das entranhas das gangues

Feitas de vermes cagados

Pelas douradas bundas

Reformadas por silicones

Comercializadas em cobras

Branca-negra serpente das noites cariocas...

 

Sou prince and pricess dos morros

Cidades dos deserdados

Pilhas de carnes cruas

Vendidas no asfalto branco

Consumo da burguesia

Beauty dos mares do sul

Cassino de gozos múltiplos

Depósito de férias dos absolutos...

 

Sou wonderful: maravilhosa cidade

Lamento de toda miséria

Sustento da família e da mocidade

"We spent the summer at the beach

Para sustentar o turismo sexual

Capaz de enganar a falta da carne

Carne que inexiste na mesa

Branca-negra mesa das noites cariocas...

 

Pleased to meet you!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

SE EU FOSSE VOCÊ NÃO DEIXARIA DE LER ESTE TEXTO!!!

Trampas do traje

 

Garments gambits

 

 

Mariza Corrêa

Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu e professora convidada do Departamento de Antropologia, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, ambos da Unicamp. mariza@unicamp.br

 

 

RESUMO

O fato de que o melhor da poesia latino-americana no século dezessete tivesse se encarnado numa autora, numa época em que as mulheres eram em geral iletradas, já é, por si só, algo que merece reflexão. O fato de que, ao contrário do que dizem vários dos comentaristas de sua obra, ela não se masculinizou, mas que, sim, seus interlocutores foram obrigados a se feminizar para se opor a ela, também parece interessante. O artigo faz uma breve incursão pelo mundo de Sor Juana, na esperança de que ela venha a ser mais conhecida dos leitores brasileiros.

Palavras-chave: Juana Inês de la Cruz, Travestismos, Poesia Latino-Americana, México.

ABSTRACT

That a woman was considered to be the best poet in Latin America in the 17th century is in itself worth of consideration – since most women there, and around the world, were then illiterate. That she was not mannish, as many have hinted, but instead, that her opponents were obliged to feminize themselves to face her seems interesting. This article tries to call attention to Sor Juanas life and works.

Key words: Juana Inés de la Cruz, Travestism, Latin American poetry, Mexico.

 

Si Aristoteles hubiera guisado, 
mucho más hubiera escrito. 
Sor Juana Inés de la Cruz

 

1 - breve recapitulação da vida de Juana

Por ser pouco conhecida por estas plagas, a história de Juana de Asbaje merece uma rápida recapitulação. Nascida num pequeno povoado mexicano, em 1651, segundo a história oficial, ou em 1648, de acordo com a documentação examinada por Octavio Paz1, a trajetória dessa menina bastarda assemelha-se em muitos aspectos à de várias outras meninas de seu século. Sem pai nem dote, viveu dos oito aos dezesseis anos com parentes abastados na cidade do México, foi depois colocada por eles como dama na corte do vice-rei do território que era então a Nova Espanha, obteve uma dotação de um fidalgo católico que lhe permitiu tornar-se freira, tendo morrido, aos 44 ou 47 anos, no mesmo convento da Ordem de São Jerônimo, no qual professara aos 18 ou 21 anos, conforme a data que se aceite como de seu nascimento.

Aqui cessam as semelhanças com as outras meninas de sua época e condição: tendo aprendido a ler muito cedo, na biblioteca de seu avô materno, Juana nunca mais abandonou os livros – seu biógrafo faz uma excursão pelo impressionante conhecimento de época dominado por ela, analisando as referências em suas obras poéticas – e seus retratos sempre a mostram vestida de monja tendo ao fundo sua biblioteca. Apenas duas coletâneas de seus trabalhos foram publicadas durante sua vida, em 1689 e 1692, ambas na Espanha e ambas encomendadas pela esposa do vice-rei que voltara para seu país, e da qual se tornara amiga, a Condessa de Paredes – Maria Luísa Manrique de Lara. Seus manuscritos e suas cartas se perderam, o que torna incerta a atribuição de datas à sua produção literária – boa parte dela, segundo Octavio Paz, eram versos ou peças teatrais de ocasião: a chegada de um novo vice-rei, a morte de outro, um batismo, uma data comemorativa. Perderam-se também em conjeturas suas possíveis contribuições à música e à pintura: há quem atribua a ela a autoria de um dos seus retratos.

Octavio Paz comenta sua poesia com grande admiração e aponta para o fato de que,

por mais antiga e ilustre que seja a tradição da literatura erótica e até libertina escrita por religiosos [..] não há na história de nossas letras outro exemplo de uma monja que tenha sido, com o aplauso de todos, autora de poemas eróticos e também de sátiras sexuais que poderiam ter sido assinadas por um discípulo de Quevedo.

E conclui que sua impunidade devia-se à proteção do palácio e à própria ambigüidade de sua situação:

ao mesmo tempo que escrevia vilancicos [canções de natal e outras festas] para a catedral e loas para o palácio, compunha sonetos e liras de amor. Uma atividade compensava a outra.2

Tal impunidade não duraria para sempre. Octavio Paz pinta o cenário dos últimos anos de Sor Juana: em 1691, chuvas e inundações, seguidas de perda das colheitas, deram origem a motins e protestos na cidade do México, que culminaram com o incêndio do palácio do novo vice-rei – a esta altura asilado num monastério – e a execução de vários amotinados, a maior parte indígenas. Procissões e auto-flagelações públicas, éditos do arcebispo contra os especuladores, que armazenavam grãos, aliados à tibieza do vice-rei, tornaram a Igreja o "sustentáculo das instituições" em meio a um clima geral de "castigo de Deus" pelas catástrofes naturais e sociais. Sor Juana perdia seus aliados no paço – e não os tinha no palácio do arcebispo.3 Assim, diz Paz, quando o segundo tomo das obras de Sor Juana chegou ao México, foi visto como um desafio às leis naturais e manifestação de rebeldia de uma religiosa. Solitária, Sor Juana mandou chamar seu antigo confessor, com quem havia rompido, e assinou uma confissão por seus pecados: "há tantos anos que vivo na religião, sem religião, senão pior do que poderia viver um pagão", diz um trecho do texto.4 Passou a fazer uso de cilícios e, finalmente, em 1694, entregou seus livros, instrumentos musicais e instrumentos científicos ao arcebispo para que os vendesse e distribuísse o obtido entre os pobres. Morreu um ano depois, como tantas outras religiosas do Convento de São Jerônimo, quando ele foi atingido por uma epidemia desconhecida.

 

2 - Artes de Sor Juana

Ler e escrever não eram as únicas ocupações de Sor Juana no convento – em várias linhas e entrelinhas ela conta como as atividades cotidianas em São Jerônimo interferiam com sua rotina intelectual.5 Cozinhar era uma dessas atividades e Sor Juana usa sua experiência na cozinha para fazer ironias a respeito da posição das mulheres na sociedade:

Pois, que lhe poderia contar, senhora, dos segredos naturais que descobri cozinhando? Ver que um ovo se frita na manteiga ou no azeite e, ao contrário, se desmancha na calda; ver que para que o açúcar se conserve fluido, basta adicionar-lhe uma pequena porção de água na qual se haja mergulhado marmelo ou outra fruta ácida; ver que a gema e a clara de um mesmo ovo são tão opostas que quando usadas com açúcar, cada uma serve por si mesma, mas não juntas. Mas não devo cansá-la com tais leviandades, que apenas menciono para dar-vos notícia completa do meu modo de ser e creio que vos fará rir; mas, senhora, que podemos saber as mulheres a não ser filosofias de cozinha? Disse bem Lupercio Leonardo: Que bem se pode filosofar e preparar a janta. E eu costumo dizer, observando essas pequenas coisas: Se Aristóteles tivesse cozinhado, muito mais teria escrito.6

A observação de Sor Juana poderia conter um segundo nível de ironia, como era comum nos seus escritos, isto é, além da apresentação irônica de si e das mulheres em geral, supostamente dedicadas apenas a coisas comezinhas, ela poderia estar referindo uma convenção comum à América hispânica e portuguesa no século XVII, a de que os conventos eram lugar de produção de uma culinária elaborada.7 Mas eram também, apesar de sua população feminina, ou talvez até por causa disso, lugar de tertúlias e "conversações sábias" – ou de filosofias de cozinha, conforme a burla de Sor Juana. Octavio Paz mostra bem como a "cela" da monja era de fato um conjunto de aposentos muito espaçosos, onde ela recebia com freqüência as pessoas da corte para entretê-las com sua poesia e prosa – e, eventualmente, com sua culinária.8 Quando a condessa de Paredes lhe enviou uma tiara de penas de colibri, "como as dos chefes astecas", Juana retribuiu com um poema – e um doce de nozes.9 E, quando um poeta espanhol a chamou de Fênix, respondeu, bem humorada, que sendo Fênix, "não terei de moer chocolate/nem me amolarão as visitas".10

Bom humor e ironia transparecem também nas conhecidas redondilhas em que censura os homens e defende as mulheres11:

 

Hombres necios que acusáis

Homens bobos que acusais

a la mujer sin razón,

as mulheres sem razão,

sin ver que sois la ocasión,

sem ver que são ocasião,

de lo mismo que culpáis:

daquilo do que as culpais:

si con ansia sin igual

se com ânsia sem igual

solicitáis su desdén,

solicitais seu desdém,

por qué queréis que obren bien

como esperais que ajam bem

si las incitáis al mal?

se as incitais ao mal?

[..]

 
Qué humor puede ser más raro

Que alento tão raro

que el que, falto de consejo,

que, por falta de conselho,

él mismo empaña el espejo

empana ele o espelho,

y siente que no esté claro?

e o lamenta por ser baço?

[..]

 
Opinión, ninguna gana;

Fama, nenhuma ganha;

pues la que más se recata,

já que a mais recatada,

si no os admite, es ingrata,

se não os aceita é ingrata,

y si os admite, es liviana.

e se os aceita, é leviana.

[..]

 
Quál mayor culpa ha tenido,

Quem culpa maior há tido

en una pasión errada:

numa paixão errada:

la que cae de rogada,

a que cai derrogada,

o el que ruega de caído?

ou quem roga decaído?

O cuál es más de culpar,

A quem se deve inculpar,

aunque cualquiera mal haga:

se ambos se vão danar:

lo que peca por la paga,

a quem peca por pagar,

o el que paga por pecar?

ou quem paga por pecar?

 

Sua língua afiada é legível também em alguns epigramas e sonetos satírico-burlescos. Em resposta a alguém que mencionara sua bastardia12, escreveu:

 

El no ser de Padre honrado

Não provir de pai honrado

fuera defecto, a mi ver,

creio que só seria defeito

si como recibí el

se, como ele havia feito,

ser de él, se lo hubiera yo dado.

a vida, eu tivesse dado

Más piadosa fue tu Madre,

Tua mãe, por piedade,

que hizo que a muchos sucedas:

fazendo-te herdeiro de tantos,

para que, entre tantos, puedas

deixou-te a veleidade

tomar el que más te cuadre.

de escolher entre muitos.

 

Os sonetos satírico-burlescos são poucos, e, comenta o organizador de suas obras completas, grosseiros, de acordo com a época. Mostram, além de sua língua afiada, uma arguta observadora dos costumes mexicanos, como este:

Aunque eres, Teresilla, tan muchacha, 
le das quehacer al pobre Camacho, 
porque dará tu disimulo um chacho 
a aquél que se pintare más sin tacha. 
De los empleos que tu amor despacha 
anda el triste cargado como um macho, 
y tiene tan crecido el penacho 
que ya no puede entrar si no se agacha. 
Estás a hacerle burlas ya tan ducha, 
y a salir de ellas bien estás tan hecha, 
que de lo que tu vientre desembucha 
sabes darle a entender, cuando sospecha, 
que has hecho, por hacer sua hacienda mucha, 
de ajena sembra, suya la cosecha.

A tradução é árdua, tento uma paráfrase13:

Embora sejas tão jovem, Teresinha, 
dás muito trabalho ao pobre do Camacho, 
pois por sonsa lhe darás herdeiro 
ao primeiro bonitão que te apareça. 
Dos usos que fazes do amor 
anda o triste carregado como um macho, 
e já tem tão crescido o penacho, 
que só pode entrar se se agacha. 
Estás a troçar dele tão afeita, 
e a te saíres bem tão acostumada, 
que lhe dás a entender, quando suspeita, 
que o que sair do teu ventre foi feito, 
para aumentar em muito sua colheita, 
com semente alheia, em terra dele.

Podia-se ser feminista no século XVII? – pergunta retoricamente Octavio Paz, analisando essas estrofes, para mais uma vez reconduzir Sor Juana ao âmbito seguro das convenções de seu tempo. Seu livro é de fato, além de um admirável trabalho de levantamento de fontes e de uma profissão de fé de admirador da poeta, uma extensa tentativa de comprovar o convencionalismo dela.14 Deduzindo da análise da sociedade hierarquizada e estratificada da Nova Espanha na época, e de suas convenções sociais, especialmente a etiqueta da corte, um comportamento que assentia a essas convenções, Octavio Paz acaba por fazer o retrato de uma Sor Juana quase estereotipada – apesar de suas vivas demonstrações do contrário. Afinal, foi por ser uma voz dissonante que a dela foi ouvida para além das fronteiras de seu país, tornando-a uma intelectual ímpar em seu tempo.15 Talvez a discussão a respeito de sua feminilidade/ masculinidade, centro do debate sobre ela desde o início de sua fama, seja o ponto crucial dessa escolha pela estereotipia e vale a pena, assim, examiná-la mais de perto.

 

3. A décima musa

Em 1946 um alemão de nome onomatopéico, Pfandl, resolveu lançar mão de seus conhecimentos psicanalíticos para analisar Sor Juana, numa obra definida por Octavio Paz como "um delírio de interpretação", e "aborrecidos repertórios dos lugares comuns da psicanálise".16 O autor analisa a obra de Sor Juana a partir de uma suposta fixação paterna, ironizada por O. Paz, já que ela provavelmente nem conhecera o pai, e a define como intersexual.

A ambigüidade de gênero de há muito a perseguia: na carta em que praticamente rompia com seu confessor, graças à insistência dele em que abandonasse seus estudos, ela se queixava de que tivera de mudar até a forma de sua letra – muito masculina, dizia-se. Vários de seus biógrafos enfatizam a sua idéia, gorada, de vestir trajes masculinos para poder freqüentar a universidade – e sutilmente vinculam suas amizades femininas, e os poemas amorosos escritos para suas amigas, à ambigüidade que Pfandl analisaria. Mas o efeito de ambigüidade mais interessante em sua história tem passado quase desapercebido, por assemelhar-se a uma trampa religiosa – trampas da fé – quando parecia tratar-se, de fato, de um comentário sobre masculinidade e feminilidade na sua época.

Quando criticou o sermão do padre Vieira17, Sor Juana arriscou-se a ocupar um palco reservado não apenas a religiosos de renome, mas a religiosos homens. O bispo de Puebla, Manuel Fernandez de Santa Cruz, ao mandar publicar o texto, publicou junto uma reprimenda por ela não se dedicar mais a assuntos sacros – afirmando que, se é verdade que São Paulo disse que as mulheres não deveriam ensinar, não disse que não deveriam aprender. "Quis apenas prevenir o risco de presunção no nosso sexo, sempre propenso à vaidade".18 O bispo assinava Sor Filotea, aludindo a outros textos teológicos e, no pseudônimo, à conclamação a favor das letras sacras. É justamente para essa Irmã Filotea o texto em prosa mais feminista, se se pode dizê-lo sem anacronismo, de Sor Juana, que se deleita em tratar o bispo como sendo do seu sexo. Toda a peça pode ser lida em duas claves, a aparente, na qual Sor Juana se defende das críticas, e uma espécie de sub-texto, na qual faz ressoar, insistentemente, um coletivo, "nós, mulheres", que sabia não adequado ao bispo, mas que parece diverti-la, apesar da seriedade da situação em que se encontrava. No final da carta, quase deixa transparecer no texto seu conhecimento do autor, fazendo uso de um jogo de palavras com o véu da religião e o véu do pseudônimo do bispo:

Se o estilo desta carta, minha venerável Senhora, não tiver sido como a vós é devido, peço perdão pela familiaridade caseira ou menos autoridade que, tratando-vos como a uma religiosa de véu, minha irmã, me fez esquecer a distância de vossa ilustríssima pessoa, pois, se a visse sem véu, tal não ocorreria; mas vós, com vossa cordura e benemerência, suprireis ou corrigireis os termos; e se vos parecer incongruente o vós que utilizei, por parecer-me que para a reverência que vos devo é muito pouca reverência para a Reverência, transformai-o no que vos parecer decente ao que vós mereceis, pois eu não me atrevi a exceder os limites de vosso estilo nem a transpor a fronteira de vossa modéstia.19

Octavio Paz mostra toda a trama política mais ampla que se pode ler a partir dessa pequena intriga colonial e não vem ao caso repetir aqui sua avaliação e, claro, comenta a defesa do "sexo fraco" feita no texto.20 Esse é apenas um dos reiterados travestismos envolvidos em toda sua trajetória, conhecidos dos personagens em privado, e utilizados, aparentemente, para satisfazer convenções públicas da época.21 Um bispo, príncipe da Igreja, não mandaria publicar (ainda que ele lhe tenha dado seu aval) uma crítica escrita por uma religiosa, sem colocar-se no seu nível – mas por que assumir uma persona feminina?22 Assim também, quem assinava a resposta à crítica de Sor Juana a Vieira, só publicada em 1727, era a monja portuguesa Irmã Margarita Inácia – mas a autoria era de seu irmão, Luiz Gonçalves Pinheiro. Isto é, que ao contrário do que pensava Pfandl, não foi Sor Juana que se masculinizou para adequar-se ao mundo das letras, mas sua entrada nele parece ter produzido um efeito de feminização em série em vários quadrantes.23 Ela própria, em seu testamento, "feminizou" seu nome, ao afirmar que no mundo era conhecida como Dona Juana Ramirez de Asbaje, quando no uso espanhol o sobrenome de seu pai viria antes – Juana de Asbaje Ramirez. O nome do pai parece lhe ter sido devolvido por Amado Nervo em Juana de Asbaje – e assim constava de uma moeda mexicana cunhada com sua efígie em 1991.24

Já Sor Juana afirmava em muitos textos em prosa e verso que as almas não têm sexo. E, a um peruano que lhe aconselhava tornar-se homem, respondia com graça que em Latim uxor (mulher) só se diz para as casadas, sendo os virgens "comum de dois":

pues no soy mujer que a alguno 
de mujer pueda servirle; 
y sólo sé que mi cuerpo, 
sin que a uno u otro se incline, 
es neutro, o abstracto, cuanto 
solo el Alma deposite.25

Poeta, Sor Juana amiúde invoca as musas, "as nueve Hermanas", com quem parece estar em permanente conluio: assim como ela troca doces e confidências com a Condessa, elas lhe emprestam retalhos de vestidos para cobrir seu estilo nu e acorrem pressurosas quando ela as chama.26 Intelectual de seu tempo, tendo sido tão enfatizada sua afinidade com os neo-platônicos, parece justo que tenha vindo a ser conhecida como a décima musa – expressão de um epigrama de Platão dedicado a Safo.27

Sabemos que a tensão entre a virgem de Guadalupe – Maria, aparecida a um índio mexicano – e a Malinche – amante e tradutora de Cortés – perpassa a história cultural mexicana.28 Sabemos também que Sor Juana professou num dos conventos dedicados exclusivamente às crioulas, nativas da terra, e conhecemos suas evocações e uso da língua náhuatl (asteca) e dos ritmos e costumes de seu povo em seus poemas.29 Não sabemos se era mestiça – mas sabemos que mesclou a sua e outras terras, a sua e outras tradições nos seus versos: mestiça, se não no sangue, nas idéias, como dizia Silvio Romero, referindo-se à mestiçagem brasileira. Seu traje de monja, suas líricas de adulação ao poder, seus sonetos religiosos, eram, de fato, uma trampa (trama, enredo, tramóia), a única disponível no seu tempo, para registrar essa gramática americana, de um modo um tanto enviesado, já que não foi escrava, mas mesmo assim honrou o nome da mãe.

 

 

Recebido para publicação em dezembro de 2003, aceito em março de 2004.

 

 

1 PAZ, Octavio. Sor Juana Inês de la Cruz o las trampas de la fe. México, Fondo de Cultura Económica, 1982.         [ Links ]
2 ID., IB., p.368. 
3 Paz pinta o arcebispo como um misógino e também inimigo das letras. Que o perigo rondava Sor Juana é indicado pelo número de vezes em que ela menciona não ter ofendido o Santo Ofício, na famosa Respuesta a sor Filotea (1691), texto no qual sua altivez também transparece em todas as linhas. Na carta ela responde a acusações que lhe teriam sido feitas por ter publicado uma crítica a um sermão do Padre Antonio Vieira. Diz ela, a certa altura: "Se é, como diz o censor, herética, porque não a denuncia? Com isso, ele ficará vingado e eu contente, pois aprecio, como devo, mais o nome de católica e de filha obediente de minha Santa Madre Igreja do que todos os aplausos por douta. Se está bárbara, que nisso acerta, ria-se, ainda que seja, como se diz, com o riso dos coelhos; que eu não lhe digo que me aplauda, pois, como fui livre para dissentir de Vieira, o será qualquer um para dissentir de minha opinião.” IMBERT, Enrique Anderson e FLORIT, Eugenio. Literatura hispano-americana. Antologia e introducción histórica. N.Y., Holt, Rinehart and Winston, 1960, p.145.         [ Links ]
4 Octavio Paz desdenha da interpretação dos biógrafos religiosos de Sor Juana de que ela tenha abdicado de suas atividades literárias, conforme reza o título da profissão de fé de 1694: "Declaração que, assinada com seu sangue, fez de sua fé e amor a Deus a madre Juana Inês de la Cruz, quando abandonou os estudos humanos para prosseguir, livre desta inclinação, no caminho da perfeição.” O poeta argumenta que ninguém viu o documento original, impresso pela primeira vez num dos livros póstumos de Sor Juana; que o título foi, provavelmente, atribuído pela mesma pessoa que nomeara outras peças literárias desse livro, e que não há, no texto, qualquer menção daquele abandono – tratando-se segundo ele de uma peça que seguia as convenções religiosas da época. E acrescenta que, quando morreu, Sor Juana deixou um poema inacabado no qual retomava os mesmos temas tão caros a outros textos seus: seu único mérito havia sido estudar, sendo mulher, e estudar sem professores. PAZ, O. Sor Juana Inês de la Cruz... Op. cit., p.592. 
5 Ainda que, certamente, tenha escolhido uma das pouquíssimas vias abertas à carreira intelectual para uma mulher do século 17. Como nota Octavio Paz, professar, fazer os votos, era uma profissão na época, particularmente para jovens sem paternidade definida e sem dote. Mesmo essa ‘profissão’ tinha, no entanto, distinções internas: Sor Juana professou pela primeira vez no convento das Carmelitas Descalças, em 1667, e o abandonou três meses depois. 
6 Respuesta a sor Filotea. In: IMBERT, E. A. e FLORIT, E. Literatura hispanoamericana. Op. cit., p.144. Muitos outros autores comentaram a relação entre escrever e cozinhar. Roland Barthes observa: "Cadmo, que trouxe a escrita para a Grécia, havia sido cozinheiro do rei de Sidon. Seja dado esse traço mitológico como apólogo à relação que une a linguagem e a gastronomia. [..] Cortou a língua, acabou-se o gosto e a palavra.” Leitura de Brillat-Savarin, em O Rumor da língua. São Paulo, Brasiliense, 1988.         [ Links ]Bakhtin também associa a comilança "à palavra, à conversação sábia, à verdade alegre”: "Em toda parte, desde a Coena Cypriani até as homilias de Zenão e as sátiras e paródias mais recentes dos séculos XV e XVI, as imagens de banquete liberam a palavra, conferem um tom livre e sem temor a toda obra”. BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo, Hucitec, 1987, ê         [ Links ]nfase removida. A página de Sor Juana na internet (www.dartmouth.edu~sorjuana) menciona um Libro de cocina: selección y transcripción atribuídas a Sor Juana Inês de la Cruz, Convento de San Jerônimo. 
7 Paz cita um viajante do século dezessete que afirmava ser comum que os frades visitassem as monjas, passando o dia com elas "escutando sua música e degustando seus doces e guloseimas”. "Enquanto eles comem, as monjas os distraem com suas vozes”. PAZ, O. Sor Juana Inês de la Cruz... Op. cit., p.171. 
8 Sor Juana, como as outras freiras, tinha uma escrava que viveu com ela cerca de dez anos, quando foi vendida, "com um filho de peito”, para sua irmã. Isto é, foi vendida quando deixou de ser senhorita? 
9 O romance tem o número 23 na Lírica Personal e é um primor de alusões engraçadas: afirma que o deus Apolo, que é "um deus muito humano”, a trata como irmã e que, depois de saber que ela era querida na corte, pede-lhe que interceda junto à Condessa para obter favores. Apolo é também feminizado num dos versos, pois lhe teria dito: "guarda essas nozes, de quem fui Cozinheira”. 
10 "no he de moler chocolate,/ni me ha de moler a mi/ quien viene a visitarme.” Citado por PAZ, O. Sor Juana Inês de la Cruz... Op. cit., p.395. 
11 Obras Completas de Sor Juana Inês de la Cruz, vol. I Lírica Personal, com introdução e notas de Alfonso Méndez Plancarte. México, Fondo de Cultura Econômica [1951], 1997.         [ Links ]Minha tradução é ligeiramente diferente da de Vera Mascarenhas de Campos em BARRETO, Teresa Cristófani. Letras sobre o espelho. São Paulo, Iluminuras, 1989.         [ Links ]
12 A expressão "filha da Igreja” em sua certidão de batismo será retomada com orgulho em outras ocasiões – como quando elogia a Condessa de Paredes por ser piedosa e, mesmo sendo seu filho legítimo, querer chamá-lo de filho da Igreja. Romance 24 na Lírica personal. 
13 Ruedas analisou este soneto numa palestra no Instituto de Estudos da Linguagem em outubro de 2003, observando que, ao contrário do que dizem alguns de seus analistas, tais versos não seriam exemplo de um "anti-feminismo” de Sor Juana, mas o contrário. Octavio Paz corrobora essa visão. Arrolando os vários casos de mães solteiras na família de Sor Juana, diz ele que "sua sátira contra os homens e sua defesa das mulheres deixam de ser uma opinião: são uma reação moral e até física ante experiências vividas”. PAZ, O. Sor Juana Inês de la Cruz... Op. cit., p.102. 
14 Convenções poéticas e convenções cortesãs à parte – e Sor Juana parecia versada nelas – ela certamente era uma prenda da Coroa e na sua obra poética, mesmo quando se tratava de elogiar os poderosos, lê-se claramente a troca envolvida na sua relação com eles. Sobre o tema da bajulação aos poderosos no teatro religioso do início da história americana, ver KARNAL, Leandro. Teatro da fé. Representação religiosa no Brasil e no México do século XVI. São Paulo, Hucitec, 1998.         [ Links ]
15 "Em seu século, apenas Lope de Veja, Góngora e Calderón tiveram fama tão ampla; depois, na época moderna, só Dario, Neruda e Borges.” Ver também sua metáfora do pecado como desafinação. PAZ, O. Sor Juana Inês de la Cruz... Op. cit., pp.414; 312. 
16 PAZ, O. Sor Juana Inês de la Cruz... Op. cit., p.95. O livro de Ludwig Pfandl foi publicado em espanhol em 1963 - Sor Juana Inês de la Cruz, la décima musa de México. Su vida, su poesia, su psique. É         [ Links ]interessante que em sua defesa de Sor Juana contra a análise de Pfandl, O. Paz caia na armadilha de uma metáfora sexualizada, ao compará-la com Calderón: "Temperamento especulativo, Calderón constrói torres de razões e conceitos; Sor Juana cava minas e galerias interiores.” PAZ, O. Sor Juana Inês de la Cruz... Op. cit., p.94. 
17 "Carta atenagórica de la madre Juana Inés de la Cruz, religiosa profesa de velo y coro en el muy religioso convento de San Jerónimo... Que imprime y dedica a la misma sor Filotea de la Cruz, su estudiosa aficionada en el convento de la Santísima Trinidad de la Puebla de los Ángeles”. O folheto foi publicado em 1690 e Octavio Paz esclarece que atenagórica quer dizer digna da sabedoria de Atenas. 
18 PAZ, O. Sor Juana Inês de la Cruz... Op. cit., p.519. 
19 IMBERT, E. A. e FLORIT, E. Literatura hispano-americana. Op. cit., p.147. A tradução que faço é ligeiramente diferente da publicada em português por Teresa Cristófani Barreto em Letras sobre o espelho. São Paulo: Iluminuras, 1989. 
20 Resumidamente, tratava-se de uma disputa pelo arcebispado. O arcebispo afinal nomeado era grande amigo de Vieira e Sor Juana amiga do bispo de Puebla, de quem um de seus sobrinhos foi secretário e biógrafo. 
21 Parece ter outro sentido o fato de a primeira edição de sua obra ter sido feita por um cavalheiro espanhol, encobrindo a verdadeira patrocinadora da publicação, a Condessa de Paredes, a quem as poesias de Inundación Castálida eram dedicadas. 
22 Dizia ele na apresentação do folheto – aliás, sinalizando, de passagem, que eram comuns os votos amorosos entre mulheres – que "há muito anos lhe beijou as mãos” e desde então "vive enamorado de sua alma”. Citado em PAZ, O. Sor Juana Inês de la Cruz... Op. cit., p.183. (Teria ele escrito "enamorado” ou "enamorada”?) 
23 O. Paz cita um anagrama em homenagem a Sor Juana, publicado no segundo tomo de suas obras (1692), e que usa versos dela para defendê-la em seu direito a escrever poesia: Claro honor de las mujeres/y del hombre docto ultraje,/vos próbais que nos es el sexo/de la inteligencia parte. PAZ, Octavio. Sor Juana Inês de la Cruz... Op. cit., p.560. 
24 Ver a observação sobre seu testamento, sem a conseqüência que tiro dela, em Lírica personal, p. LVII. 
25 Lírica personal, romance 48. 
26 Ver sua evocação das nove irmãs nos romances 48 e 50. Lírica personal. 
27 Ver a referência de Donna Haraway, neste número, a esta expressão da escritora americana Hortense Spillers, que comenta a crise no léxico do gênero como conseqüência da inexistência do nome do pai num continente marcado pela escravidão. 
28 PAZ, Octavio O labirinto da solidão. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984.         [ Links ]
29 "Qué mágicas infusiones/de los índios herbolarios/de mi pátria, entre mis letras/el hechizo derramaron?” Ver, em Paz, p. 418, um poema escrito em náhuatl e p. 419, outro, inspirado na fala dos negros: "Tumba, la-la-la;tumba lale- le;/que donde ya Pilico, escrava no quede!/ Tumba, tumba, la-le-le;tumba lala- la,/que donde ya Pilico, no quede escrava!”.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

POEMA SEM-CARAS

POEMA SEM-CARAS

© DE João Batista do Lago

Quando eu nasci
Anjos anunciaram
Por toda parte:
“Nem la gauche
nem la droite serás.
Teu destino é ser fractal.”

E assim fui jogado no mundo:
Como um vagabundo
Sem rumo e sem eira,
Sem leira nem beira
– apenas um debulhador
de besteira –

Não terás faces:
Nem uma,
Nem sete;
Mas todos os olhos
Marejados de Nada
No bordel do condenados.

Teus versos serão quebrados:
Não terão lados, mas
Todos serão quadrados
No espaço da esfera
Duma só palavra que vocifera
A natureza dos amargurados.

“Vai. Não sê gauche na vida!”
Trombetearam os anjos.

A POESIA ENTRE A REALIDADE E O REAL

A POESIA ENTRE A REALIDADE E O REAL

 

© DE João Batista do Lago

 

Talvez a questão mais complicada para a maioria dos atores da Poesia esteja na complicada equação filosófica de realidade e real. Mesmo aqueles a quem se podem considerar os mais evoluídos são, quando em vez, traídos por essa matemática do pensamento universal. O Poeta, como um pensador do (seu) mundo, isto é, fundamentado nas suas percepções oníricas, intuitivas e sensitivas, não foge a essa regra calculatória. Ele é resultado dessa imbricação fenomênico-escatológica, ou seja, o poeta sempre está a pensar entre dois campos imanentes e latentes na poesia: a Filosofia e a Teologia. Mas isso, contudo, é muitíssimo pouco – ou quase nada mesmo! – compreendido entre os principais agentes da Poesia: poetas, escritores e críticos. Aliás, pode-se mesmo inferir, que são raríssimos os que teriam essa compreendidade. Muitos entendem que, são poetas, somente pelo fato de saberem, habilidosamente, concatenar frases e rimas.

Que se me perdoem os puristas cheios de pruridos de literatura áulica. E que são muitos espalhados por aí afora! Mas o que se vê, e lê, por aí são, para dizer o máximo, uma certa tipologia de prosa poética ou historietas contadas em formas vérsicas. Mas saímos dizendo por aí que esses escritos são Poesias (!), posto que, a sonoridade, a métrica e a rima, ou mesmo nenhuma destas – muitas vezes -, nos agradam e nos elevam a alma e o espírito. É exatamente neste ponto que erramos, ou seja, quando nos deixamos levar e enlevar pelo simplesmente belo ou pela simplória estética musicálica que balança no campo da nossa imaginação palavras, frases e versos condicionados e condicionantes de efeito factível. E quando nos perdemos nessa imaginação criadora, inerente em cada ser humano, por mais humilde que o seja, perdemos a capacidade consciente e ciente de analisar, compreender, sentir, e de, sobretudo, “pensar” a Poesia como uma fonte de águas mais claras que a Filosofia ou a Teologia.

O que ouso, neste ponto, é salientar um posicionamento político, ou seja, dizer com todas as letras que o conjunto de conceitos e práticas que orientam a Poesia não se reduz, nem se traduz, tampouco re-traduz, pura e simplesmente, ao estádio cognoscitivo do pensamento do poeta. Tudo isto não passaria de um paradigma metodológico, isto é, tudo isto não é mais que um obstáculo para o processo consciente e ciente da construção da Poesia. O que afirmo é que, aos meus olhos, a Poesia não pode e não deve ser condicionada somente ao campo da realidade, mas deve, sobremodo, ser criada, ou ser fazida, a partir do campo do real. Realidade é Filosofia; é Teologia. Real é o e-xistente; a práxis do ente no e-xistir do ser, ou seja, é o real do sujeito na sua infra-estrutura. O que afirmo é que, o poeta e a sua poesia são o resultado do pensamento da intuição do seu instante. Ele abstrai duma realidade qualquer a fazedura do seu real: eis aqui o resultado da equação.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

APENAS UMA LETRA DE MÚSICA... [não musicada, ainda]

CAÇA E CAÇADORA

(letra de música)

 

DE João Batista do Lago

 

Não posso e não devo negar

Pela vida afora hipnotizada sou

Vivo a vagar... Ao luar!

Sempre a te procurar estou

 

Todas as noites de bar em bar

Feito um Zumbi entre néons

Afogando-me pelas madrugadas

Vou tropeçando corações pelas calçadas

E vou me morrendo em cada canto

Encruzilhadas de desencontros

Mas não te encontro, meu grande amor

Para aplacar meu peito em dor

 

E quando raios de sol no céu despontam

Percebo mais uma noite perdida

Sinto a lâmina do nada rasgando meu peito

Deitando-me solitária no meu leito

Daí volto pra casa desiludida...

Mas amanhã serei de novo mais decidida

E voltarei pelas ruas... Nas madrugadas...

Com esperança renovada de te encontrar um dia

 

Mas, ao te encontrar... Se estiveres acompanhado

Por favor, não baixe a cabeça. Não perca a elegância.

A dor será minha. Só minha. Bem sei!

Não pense que o meu amor é só beligerância. Não!

Saberei compreender meu destino contumaz

E sairei de mansinho sabendo que não terei jamais

O calor do teu corpo esquentando meu leito frio

O teu corpo dentro do meu dentro do teu corpo

 

Não posso e não devo negar

Pela vida afora hipnotizada sou

Vivo a vagar... Ao luar!

Sempre a te procurar estou


sábado, 1 de novembro de 2008

SEI LÁ QUE CAMINHOS TRACEI [DE Heloisa B.P.]

**SEI LÁ QUE CAMINHOS TRACEI**

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Sei lá!...

Que caminhos tracei

Por onde andei

que solos pisei!...

 

Sei lá!...

Qual a força que me atrai

que Magnético Norte me orienta

Que tortuosas veredas

Me desorientam!(?)...

 

Sei lá...

Em que Céu

Se encontra a Estrela Polar

- Estrela do Norte –

Ou a Estrela da Tarde,

Que fulgura e cintila

Ao esmaecer do SOL

Ao “Resplandecer” da LUA!(??)...

 

- SEI LÁ - !...

 

Eu sei Lá,

Em que leitos adormeci

Macios

- ou vazios –

Em que linhos Alvos

Ou “Estamenhas”

(De “Antanho”)...

- SEI LÁ!?...

 

Sei lá...

Em que Vales me perdi

Em que Sombras me escondi

Em que Muros me enconstei

Em que Castelos me isolei

Em que Torres me fechei!...

- SEI LÁ!???...

 

...Sei Lá,

Que caminhos Tracei

Por onde andei

que Solos pisei...

sei Lá!??

- SEI LÁ!???...

 

- NEM SEI, SE ME INTERESSA SABER!

...SEI LÁ!???????????????????????????

 

Heloisa B.P.

Londres, em 20/07/04

 

 

Estou relendo, mais uma vez, *Divagando*, livro de poemas de autoria da minha ilustre poeta Heloisa B.P. Um livro que teimo em lê-lo por entender que há nele um conjunto poético tão diverso, e ao mesmo tempo tão uníssono, quanto polifônico e polissêmico.

A poesia acima é uma das que mais me chamou a atenção. E por quê? Porquê nela Heloisa B.P. desveste-se, a si e à sua alma lírica, para sem medo e sem pejo deblaterar:

 

“Sei Lá...

Em que vales me perdi (...)”

 

Os “vales” dos quais fala a poeta sempre se encontram nos sopés das montanhas, onde

 

“Se encontra a Estrela Polar

- Estrela do Norte –

Ou a Estrela da Tarde,

Que fulgura e cintila

Ao esmaecer do SOL

Ao “Resplandecer” da LUA!(??)...”


É muito interessante perceber que no processo dessa “perdição” heloísica, a poeta não esquece sua fonte de saber – o “SOL” – que vai “Resplandecer” do outro lado da sua poética – a “LUA” – ponto facultativo onde guarda todas suas dores num lamento de sabedoria memorável, e diria mesmo, inigualável.

COMO UM ÍCARO [DE João Batista do Lago]

COMO UM ÍCARO

 

© DE João Batista do Lago

 

lá no fundo do quintal da minha casa

mora um homem marginal:

louco de pedra

imagina ter asas de cisne

intenta trespassar os céus

pretende dá um beijo na face do sol

 

..................................................

 

será outro Ícaro condenado?

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

RESGATADA LÁ DO FUNDO DO BAÚ...

O Homem Que Ruminava Dívidas no Fundo do Quintal

ali estava ele sentado

se guardando de todos os males

ali estava ele

bem no fundo do quintal

ruminando dívidas

dívidas de vidas

todas divididas

no espectro funeral

daquele homem

então morto de tantas vidas

devidas de divididas dívidas

crescidas em cada amanhecer...

no pé do sapotizeiro

- único confidente solitário

daquele homem solitário -

a molecada gritava sem medo da vida

ainda não dividida pelas dívidas da vida...

e todo aquele zoeiro era observado

pelos olhos dum vivo-morto

aquele homem já velho e cansado

de tanto e tanto e quanto amargurado

de tanta e tanta e quanta dívida

de quanta e quanta e tantas vidas divididas

soletrava com os olhos o carinho que amava a molecada...

mas naquele dia algo estava diferente

sua expressão não demonstrava carinho

tampouco dor ou qualquer horror

não havia como decifrar aquele olhar indecifrável

frágil, distante, com uma pedra de lágrima escorrendo

pelas paredes das narinas até atingir a boca onde ficara parada sem qualquer degustação...

comprendeu-se então que aquele homem

não mais olhava a molecada, não mais sentia

a barriga cheia de dívidas - dor de barriga de dívidas de vidas divididas! -

não mais havia aquele homem ruminando dívidas no fundo do quintal

não mais havia sapotizeiro nem o carinho zombeteiro daquele olhar cheio de dívidas

não mais havia cobrador para dizer: "Ele não está. Saiu. Foi caminhar..."

terça-feira, 28 de outubro de 2008

ORFANDIDADE

ORFANDIDADE

 

 

© DE João Batista do Lago

 

 

Fez-se-me o alvorecer

Duma manhã friorenta

Entrecortada de neblina

 

 

Os nós que me prendiam

Foram todos ablaqueados

E, então, vi-me pássaro

 

 

E voei sobre minha eternidade

E lá bem distante grunhi pensamentos

No silêncio da humanidade

 

 

Senti de todos os espíritos os lamentos

Passarem ligeiros como tufões

E os vi se transformarem em poeiras

 

 

E no encadeamento do grande eterno

Juntei todas aquelas leiras

E ungi meu corpo de sagração

 

 

E voei... voei... voei... voei...

Tão alto que me perdi no espaço

E pousei como um anjo no orfanato do sagrado

domingo, 26 de outubro de 2008

DEAMBULATORIUM

DEAMBULATORIUM

 

 

© DE João Batista do Lago

 

 

Acordo num ofertório do dia

Onde a primavera solícita

Oferece-me o sorriso das flores

Ouço as palavras das rosas

Dizendo-me: “Bom dia!”

O sol oferece-me a luz

Translúcida de ternuras (e)

Banha meu corpo no

Delírio do deslumbramento

Matinal duma primavera única

Sinto o rio que corre dentro de mim

Levando meus pensamentos às

Profundezas rochosas do meu ser

Lavando as pedras ressecadas pelo tempo

Transformando num movimento alquímico

Meus sentimentos em pérolas de esperança

Assim amanheço no meu hoje

Renovando-me do meu divino caos

Recriando-me no ovário do sagrado

Espaço de todas minhas manhãs

Feitas de flores

                        De rosas

                                       De Primaveras

terça-feira, 21 de outubro de 2008

PAINTING

PAINTING

 

© by João Batista do Lago

 

In the wall of the time

I am the instant deepest

Painting in three dimensions

Loaded of tragic traces

In the without-end of the spaces

 

The multicolorful inks

They reflect in the screen

Forms, models and corpus

Of the tragic and comic magic of the life

- Comedy of dying itself of itself to be born itself -

 

In double flicks it goes constructing the artist

Its epic diversity in the line of the time

Double of a unit dialectic: Reason and Imagination

In both the deforms poems of gratefulness and oblations

They go disclosing to days and nights of sciences and poetries

 

All sees thus the painter its workmanship

Looking at the screen of the side nothing

It sees that only of this angle

It has perspective… It has life! It has death!

Succession of the instant deepest