segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

CÂNTICO INVERSO

CÂNTICO INVERSO

© De João Batista do Lago

Macacos me mordam!
Vê-se animais sagrando o não-Sagrado
Vê-se animais!
Desconfiados dão-se bênçãos
E sentam-se nos colos de assassinos e ladrões
E contentam-se com a miséria que se lhes nasce
E geram a desgraça do abraço
No afeto do beijo de fel: todo feto
Que se lhes apimenta a língua ferina
Que será comida como troféu

Vê-se animais!
Sim, vê-se animais
Nos arraiais do céu!

sábado, 29 de dezembro de 2007

HABITAT

HABITAT

© De João Batista do Lago

Habito-me de versos
Na casa dos meus fragmentos
Todos os meus lamentos
São quartos do meu prédio
Onde resido como ancião
Contestante.

Como minha juventude
– Salada de novas vidas! –
Ocra vermelha salgada
Debulhada na madeira do ser
Que me endurece a alma
Sustentáculo do vir-a-ser.

Habito-me, pois, com pavor
Rasgando os meus fragmentos
Presos pelos discernimentos
Torturados pelos intestinos
Vadios que me ejetam da nave:
Excremento de puro ser.

Assim habito-me: não-Ser
Disfuncional na funcionalidade
Substancial da presença
Marcada pela ausência do ser.
Habito-me, pois, assim:
Escala da vida dantes já morta!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

DIÁLOGO DO TEMPO E DO ESPAÇO

DIÁLOGO DO TEMPO E DO ESPAÇO

© De João Batista do Lago

Eu que não mais estou aqui
Aqui estou para agradecer
As mesuras das tuas palavras
Que nem foram escritas para ti
Mas para um tempo que já não há
Que muito distante está
- seja de mim; seja de ti.

Obrigado a você que me lê agora.
Confesso: gostaria de saber por quê comigo choras!
Estes lamentos descritos noutros tempos;
De aventuras e desventuras sem laços,
Duma alma que passou pela vida sem espaço,
Que nunca sentiu o frescor do próprio ungüento…
Por que merece, agora, roubar esse teu tempo?

Naquele tempo, ó meu caro viajor,
O mundo era um labirinto de dor.
Talvez por isso estranhes o langor da poesia
Reflexo do horror que havia em toda periferia
Macabra terra e residência da miserável guerra
Que nunca se dera a oferecer como anjo da paz
Que sempre se fizera de toda vida só quimera.

Sinto muito, meu caro. E como o sinto
Não poder dar-te outra imagem senão esta.
Bem gostaria de te falar de gloriosas festas…
Bem gostaria! Mas se assim fizesse
Não me restaria outro apelido: farsante!
Tomaste toda poesia para cantar o onirismo presente,
Porém esquecestes do real Ser, ser o principal ausente.

Quando vês que reclamo em mim a criança
Podes crer, estava sufocando sem o ar da esperança
Quando assistes ao meu lamento em pranto
Crê, era a presença do meu eterno (então) desencanto
Já tanto e quanto cansado do grito (sempre) sufocado
Pela cicuta-da-europa ou mesmo pela cicuta-do-norte,
Que me oprimia tanto e quanto até me levar à morte.

Se nessas páginas me vês (por vez) ensandecido
Era o grito mais profundo do ser em mim esquecido,
Era o choro sem lágrimas pelo canto varrido
Das almas penadas. Se me vês assim… Assim eu fora!
Uma voz ao vento feito relincho de jumento em cio
Louco para gerar no ventre do barro e da água
Toda lavoura que se pudera agasalhar a fome e o frio.

Sim, meu caro, sempre me fora assim: princípio, meio e fim.
Mas se princípio fora; meio não me fizera, não me contivera;
Do fim apenas me restara o sabor de nada entender…
E aí sepultado dentro do meu próprio ser
Embalsamado e esquecido na câmara sarcófica do não-Ser,
Trancado pela chave do sagrado na palavra mortal
Aprendera que todo sofrimento resulta do pensar animal.

É possível, sim; ser tudo mentira tudo o que falara.
É possível nem mesmo acreditar no mal que tanto e quanto causou.
Sim, tudo é possível, bem sei! Quem sabe fora apenas mentira!
Só não é possível esquecer que a vida de si esqueceu,
Que a tantos e quantos deu e a tantos e quantos roubou:
Uma rosa murchou; uma flor não floresceu. A vida morrera?
Mas nem mesmo isso regara o coração dos indulgentes.

Lê-me, então, ó viandante de todos os tempos;
Lê-me com os passos do pensamento de um romeiro contrito.
Mas, se porventura vês no meu escrito só dor e lamento
Rogo-te: tomas essa estética do sonho de um poeta maldito
Como a hóstia sagrada da realidade da vida, pois
Mesmo que ela te cause dor ou qualquer ferida
Há-de ser pela eternidade, não teu delito, mas o teu veredicto.

O SER DOS MEUS OLHOS










O SER DOS MEUS OLHOS

© De João Batista do Lago

Meus olhos seguem o ser que se esvai
No esfumacento entardecer
Onde irá o meu ser?
Que visões irão atravessar?
Onde irão os meus olhos?
Meu ser?
Quem sabe!
Eu não sei.
Amanhã, meus olhos já não mais seguirão ninguém
No escurecer da entardecer!
Onde estará meu ser?
Onde estarão meus olhos?
Quem sabe!
Quem soubera?
Quem saberá?

- Eu não sei.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

OBLATAS

CANTO VIÉS

© De João Batista do Lago

Que adianta o lirismo,
Que adianta estética,
Que adianta o belo
Residente na poética?

Sim!
Que adianta tudo isso
Se a vida não é assim?

Foges pela tangente do real
Escapas pelos esgotos da beleza
Cegas-te para não enxergar a dureza
Cruel gerada na alma animal
Do homem que da vida é só vileza!

Oh, meu caro João, não me tome por mal;
Bem sei da beleza que na vida há. Bem sei!
E um dia hei-de a cantar nalgum verso toda essa beleza,
Mas agora é prudente falar da maldade que há
Instalada – em qualquer lugar – na beleza
Perdida no barro da criação.

- Não tenho dúvida, João, sou filho da indignação.

Que adianta cantar a esperança, se matam em mim a criança?
Que adianta cantar a paz, se me constroem soldado das guerras?
Que adianta cantar a vida, se dela não me há qualquer guarida?

Não. Não tenho por que sorrir…
Nem mesmo lágrimas me restaram para chorar.
Todo sorriso; toda lágrima
Restaram consumados na insensatez da próprio Ser.

Quero sim, à vida cantar!
Dizer dela toda beleza no plural e no singular:
A rosa, são rosas
A flor, são flores
O amor, são amores
Na dor, não há-de haver dores
Na fome, há-de haver todo alimento
No Ser, toda solidariedade
Da ação, nenhuma maldade

Quero, pois, assim,
Toda vida cantarolar.

domingo, 23 de dezembro de 2007

OBLATAS

OBLATAS

© De João Batista do Lago

Sinto deste Natal apenas o gosto amargo do fel
Não vejo nenhuma escritura que fale dessa obsessão
Não há literatura que relate tamanha vergonha
Dessa criatura louvada pela torpeza dos homens
Que buscam uma vez mais a desrazão da riqueza
Na perene sutileza de louvar o Filho do Deus

Possivelmente não terei nenhuma razão
Para contrariar os senhores donos do mundo
Que fazem festa para obrar toda dominação
Que do engodo do mercado fazem uma só oração
Razão suprema dum povo deserdado
Fiéis professos da procissão dos adestrados

Sou de todos assim louco defenestrado
Mago não guiado pela estrela do consumo
Indigno de viver num mundo administrado
Lixo na festa do menino-deus-mercado
Que a todos vê como oradores encantados
Fiéis oblatos da religião dos engalanados

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

REGRESSIÓN

Regresión

© by João Batista do Lago

Vuelvo todos los pensamientos
A los niños desesperanzados
Desabrigados y desamparados
Solos y desnudos de los todos
Descubiertos de la seguridad
Cerrados en sus vidas
Tragados por el camino
desgraciado de la vergüenza
indulgente del capitalismo carrasco

Vuelvo todos los ojos
A todo los niños invisibles
Ocultados y subyacentes de la incapacidad
De todo los seres garantizados
por las monedas usurpadas
por todo los encantadores
por todo los brujos tiranos
cargadores de ganancias
asesinos del futuro y de la existencia

¡Más tardíamente lo pensamiento
revuelto podrá instalarse!
Entonces los soldados de toda la miserabilidad
Los niños sacados de toda la vida
Surgirán de todas las villas engañadas
Y marcharán sobre las ciudades
Sobre todas las metrópolis
Sobre todas las capitales
Sobre todas las naciones
Sobre todos los pueblos

(Y como enjambre de abejas inquietadas
cobrarán al mismo tiempo todo... todo...
la muerte de los tiranos
- e de los inocentes, sin duda)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O BODE DO LAGO - Um conto de Natal

O BODE DO LAGO – Um conto de Natal

© De João Batista do Lago

Nunca imaginei viver uma experiência como a que estou vivendo neste natal. Pela primeira vez resolvi sair do meu ambiente natural. Sempre vivi próximo ao lago; onde sempre me senti seguro; onde nunca fui ameaçado; onde até mesmo as maiores feras possíveis e pensáveis me respeitam. Mas esta experiência tem-me sido de fato muito engraçada. Curiosa mesmo!
Estou na cidade. Cidade de bichos homens e de mulheres! Cidade dos bichos humanos! E somente agora percebo claramente que não sou bicho: sou bode! É estranho este sentimento que sinto agora! Muito estranho mesmo! Queria expressá-lo, mas tenho dúvidas em fazê-lo… Como explicar esses bichos amontoados nesta selva de concreto? Como entender suas ações? Como classificar suas formas de vida? Como justificar seus comportamentos?
Bem, é melhor prestar atenção e pensar mais um pouco…
Pelo que entendi até aqui são muito estranhos esses bichos humanos! Criaram um Ser além deles próprios para adorar. Daí não ficaram satisfeitos e inventaram um filho desse tal que vive nas nuvens, mas logo se zangaram com ele e o crucificaram. Daí criaram um bicho inumano a quem deram o nome de Espírito. Este, de certa maneira substitui o que por eles foi assassinado. Que coisa estranha esses humanos!
Outra coisa que me custa entender é essa mania que esses bichos têm pelos grandes templos. São casas riquíssimas! E eles ainda vão para esses lugares e deixam o seu pão de cada dia num ofertório ao sagrado. Mas que sagrado é esse que esses bichos tanto adoram? (…)
Resolvi então visitar um desses templos. Qual não foi o meu espanto!
Vi bichos ajoelhados diante de estátuas de barro. Uns choravam. Outros rezavam. Aquele pedia perdão pelo mau que praticou durante o ano. Este fazia promessa: “serei um bom homem”. Aquela outra prometia ajudar os pobres. Isto me chamou atenção: que é isso, pobre? Auscultei com mais vagar e calma o que ela dizia. Daí entendi que pobre era um seu semelhante. Engraçado!
Esses bichos se dividem em classes. Tem o miserável, o pobre, o menos pobre menos rico, o rico e o milionário. Que loucura!
Mas hoje, que eles chamam de Natal, que comemoram o nascimento… daquele tal que eles mataram, a quem chamam de Menino Jesus, eles se juntam para uma tal de confraternização. E aí ocorre o mais engraçado: brindam e bebemoram a paz que no dia seguinte vira guerra; juram amor eterno pela mulher e pelo marido, mas no íntimo dizem-se: “que lixo!”; distribuem cinquenta dinheiros, mas amanhã roubam cem; abraçam o negro e a negra – “tens alma branca”, dizem –, mas no dia seguinte mandam entrar pelo fundo da igreja; amam as crianças, mas no novo dia lhas roubam toda esperança; juntam-se numa só ceia; mas amanhã negam o pão que alimenta a multidão…
Esses bichos são mesmo engraçados!
Saio dali da igreja e vou para as ruas. Nestas, os bichos humanos estão de sorrisos largos, o que, de certa forma, me fez lembrar dos lobos e das hienas. Lobos e hienas também sorriem uns para os outros. Lobos e hienas também andam em matilhas. Lobos e hienas são traiçoeiros… Enfim, como se parecem esses bichos humanos, os lobos e as hienas!
Mas continuo em minha peregrinação tentando entender esses bichos humanos. Logo encontro um casebre, mas ao lado há um palácio. Acho estranha essa harmonia! Então resolvo entrar nesses ambientes. No casebre há “fartura” de tudo; no palácio há fartura de tudo. No casebre há uma família miserável; no palácio há uma família milionária. No casebre nenhum pedaço de pão; no palácio há tanto… tanto… tanto… que empanturra até cão. No casebre há um pai desempregado; no palácio há o senhor do mercado. No casebre um filho e todos os degredos; no palácio nenhum filho, mas todos os brinquedos. No casebre a mulher é só pelanca; no palácio a mulher é só botox. No casebre o afeto é um abraço; no palácio o afeto é um carro. No casebre o vinho é água pura; no palácio é champanhe cara. Que loucura! (…)
Estou de novo nas ruas. As matilhas de transeuntes passam por mim. Não me notam. Claro, eu sou bode. Se me notarem serei crucificado, como o tal Jesus, ou simplesmente sacrificado para ser ofertado na ceia dos senhores e (também) dos miseráveis. Serei comprado ou vendido por trinta dinheiros: valor da traição que reside em cada coração depois do beijo…
É melhor mesmo que não me vejam. Se me virem são capazes de se vestirem como cordeiros; daí estarei em perigo. Serei morto e oferecido na ceia dos discípulos de Babel. Não! Não quero ficar nesta selva. Aqui não a relva onde eu possa deitar minha liberdade; nem água pura onde eu possa me embriagar de amor… Meu lugar é à beira do lago. Lá sou bode, não sou animal.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

INFERNO

INFERNO

© De João Batista do Lago

Quem me dera morto havê-lo nascido
A rosa que de mim tão bela não teria murchado
A vida não me houvera como sacrifício
E eu nas alamedas cortando a selva de pedra com o machado

Quem me dera morto não teria crescido
Feito lobo faminto dessa selva de ensandecidos
Não mostraria os dentes para saldar os já vencidos
Desta guerra sem fim dos que em si nunca foram nascidos

Quem me dera morto a rosa sobreviveria
Porque vivo as pétalas choram em mim o eterno
Sabem do tormento que é viver nesse inferno
O morto que mesmo vivo é preso de sua cadaveria
__________




















ALEGORIA



ALEGORIA
© De João Batista do Lago

Quando em vez o irmão da morte
Abraça-me com carinho;
Me faz carícias,
Promete a experiência de novas visões;
Diz que viverei o encanto d’outras belas jornadas,
Que não me arrependerei ao trilhar essas estradas.

Quando em vez sou tentado ao convite:
Viver a magia dos sonhos;
Perder-me nos encantos das bacantes
De deusas oníricas do não-Ser;
Desfalecer feito adolescente
No rubro colo dessa realidade ausente.

Quando em vez aceito a taça do cansaço!
Então, embriagado, o irmão da morte
Me serve o último trago:
sonhos que logo desfaço

Ao ouvir a voz da Sabedoria,
Que logo me alerta contra tais alegorias:
- Junta-te a Dionísio, pois terás muito tempo para dormir.
__________
Crédito da Ilustração: http://www.rainhadapaz.com.br/projetos/artes/imagens/im_quatrofases/S_alegoria.jpg
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sábado, 15 de dezembro de 2007

ESSAS NOITES...

ESSAS NOITES…

© De João Batista do Lago

Sinto que minhas noites já se transformaram em dias!
Dias negros como os dias dos mortais,
dias infecundos, restos dos dias dos sinais
que vêm da mais profunda eternidade;
dias onde se plantam e condensam as maldades
plantadas nos corações dos homens.

Não! Afastem-se de mim essas noites-dias!
Não as quero por mais belas que se me apareçam
essas noites. Que se percam nos seus dias claros.
Quero-as como dantes
- não como os delírios de Dante –, mas
dionisíacas, donde nas minhas bacantes

Themis reinava em toda sua supremacia
e depois me deitava em sua cama macia,
onde me acariciava e me amava.
E de onde eu acordava qual Vesúvio:
explodindo vida por todos os poros
depois de amá-la como um gigante.
__________




















sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

O SER DOS MEUS OLHOS

O SER DOS MEUS OLHOS

© De João Batista do Lago

Meus olhos seguem o ser que se esvai
No esfumacento entardecer
Onde irá o meu ser?
Que visões irão atravessar?
Onde irão os meus olhos? Meu ser?
Quem sabe!
Eu não sei.
Amanhã, meus olhos já não mais seguirão ninguém
No escurecer da entardecer
Onde estará meu ser? Onde estarão meus olhos?
Quem sabe!
Eu não sei.

ABSTRATO HUMANO

ABSTRATO HUMANO

De João Batista do Lago

Ausente desta minha presença
Essente!
Vulgo capítulo de um existir carente
Na suprema corte dos deuses indolentes
Vago a vida feito uns vagabundos

No imundo palácio do mundo
(sem sais!)
Onde a palavra não fala…
O canto não canta…
A rima não versa…

E cessa a conversa do sagrado
Na linguagem da filosofia
Pobre porfia da busca real
No imaterial metafísico
Do imanente racional:
Abstrato humano: animal!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

ANDRÓGENO

ANDRÓGENO

© De João Batista do Lago

De toda minha prenhez
Somos criador e criatura
Não-sendo nem criador
Não-sendo nem criatura

Sou cultura arquetípica
Da não-cultura do humano
De toda não-literatura
Toda literatura de imagens

Que se revelam na matéria
Do não-humano do humano
E findam na essência criatura

Sou assim: divinal iteridade do ser
Alma-corpo-espírito da ossatura
Eterno mendigo do meu viver

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

O PASSO

O PASSO

© by João Batista do Lago

Restam-me (ainda) sons e
vozes dos passos,
descompasso da insensível
mordaça dos cascos,
desalinho que a cada passo
lança no espaço, no
coração da consciência,
toda arrogância do poder.

Não estou de todo livre dos
passos. Descompassos!
Como rastros (ainda) se alastram!
Sons de cascos reverberam
noutros espaços; noutros lugares…
passos que passam no passo de cascos;
galope que fere com aço a liberdade, fere de
morte a justiça, o direito – toda dignidade.

Não calem as consciências,
nem as canções;
não calem os cantores,
nem os poetas;
não calem as telas,
nem os pintores.
Se calados ficarem
morrerão as flores!

Calem os sons dos passos,
párem a tropeada dos cascos,
estanquem o galope dos aços…
A paz não pode ter espaço para o
cangaço da intolerância,
nem a guerra pode viver como
metáfora da esperança. Dai, pois, o passo.
Sim, mas o passo de uma criança.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

ROSA NEGRA

ROSA NEGRA

© by João Batista do Lago

Da senzala
- a grande casa! –
exala o cheiro de almas
que agora deambulam
pela casa vazia
que grita os berros
que ficaram presos
nas gargantas ornadas
com colares do ferros.

Da senzala
- a grande casa! –
vem-me os gritos das
dores contidas
das costas entrecortadas
pelo gargalhasso da chibata
que estala no dorso encantado
da negra mucama acorrentada
ao dedo-de-deu que aponta para o céu

Da senzala
- a grande casa! –
poder cretino do senhor dengoso
ouve-se, então, o choro do menino
filho do estupro matutino… ou vespertino
daquela escrava que outrora apanhava
ao pelourinho para gozo do senhorinho
que jamais irá saber do filho negrinho
condenado a viver – toda vida! – sem carinho

Da senzala
- a grande casa! –
ouço os acordes duma canção em lamento:
- Não deixem que apaguem das memórias
as histórias de horror
e de sofrimento,
as dores,
os choros,
os tormentos.
Não esqueçam os estupros.
Não! Não permitam que as flores
apesar da beleza e do aroma
escondam o pólen da dignidade,
da justiça e da virtude.
Não! Não permitam que as rosas
apesar do encanto
e da diversidade das cores,
mascarem a beleza da rosa negra.

domingo, 9 de dezembro de 2007

ALMAGORIA

ALMAGORIA

© by João Batista do Lago

(Verso)
Queria guardar minh’alma
Como se fosse um escriturário
Mas minh’alma tomei-a por posse
Assim transformei-me em mercenário
Minh’alma resolveu ser mais capaz que eu
Daí aos poucos, fui plantado num orquidário
A terra-mãe resolveu que me guardaria do mal
Juntou-me aos pedaços e pô-los no seu berçário
Pensei estar de todo seguro do mundo sem-razão
Quanta tolice deste pobre vivente tolo incompetente
Aos poucos fui vendo lentamente: da vida era anedotário

(Reverso)
Aos poucos fui vendo lentamente: da vida era anedotário
Quanta tolice deste pobre vivente tolo incompetente
Pensei estar de todo seguro do mundo sem-razão
Juntou-me aos pedaços e pô-los no seu berçário
A terra-mãe resolveu que me guardaria do mal
Daí aos poucos, fui plantado num orquidário
Minh’alma resolveu ser mais capaz que eu
E assim me transformei em mercenário
Mas minh’alma tomei-a por posse
Como se fosse um escriturário
Queria guardar minh’alma

sábado, 8 de dezembro de 2007

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

RESGATE

RESGATE

© by João Batista do Lago

Carregas contigo a
Vileza do teu breve sorriso
Acomodado à face:
Retrato do disfarce da
Vergonha encalacrada.
Carregamos nós a
Vergonha insidiosa da
Tua representação:
Ferradura dum ladrão que
Rouba do povo o miserável pão.
Maldita sina!
Desde o Império
Essa corja assassina
Rouba e dilapida a nação:
Campo minado pela corrupção.

Até quando havemos de suportar
Esse sorriso de miserável torpor,
Essa sangria da nação em dor?
Até quando?
Até quando?

(Para resgatar a Virtude
Basta apenas a necessidade…
Lutar sem perder a dignidade!
Essa é toda Verdade.
De que adianta todas essa solidariedade,
Se nela não corre o sangue da sanidade?
De que adianta a vã e mesquinha atitude,
Se nela não ocorre o ente revolucionário da Virtude?)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

PINGOS DE CHUVA

PINGOS DE CHUVA

© by João Batista do Lago

O dia amanheceu como as almas tristes!
Cinzento!
Chorando suas mágoas,
Suas dores,
Seus horrores.

Mendigo de amores perdidos nos
Passados dias de sorrisos.

Quanta falta faz ao dia o abraço do sol!

Chora. Chora de mansinho.
Devagarinho vai desfilando sua sorte, pois,
Refém da sua própria morte
Sabe-se, logo ali, ser aluvião na
Vazão das almas que inundam de podridão o
Lixo já sem perdão do humano verme, que
Encalha os esgotos da
Alma já podre de palavras e canções, que
Infectam os corações das miseráveis sensações dos
Dias infelizes gerados nos humanos corações.

O dia cinzento de
Choro cinzento
Revela o espírito do
Ser sem dia…
Amargo…
Sem alegria.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

SIGNIFICANTE VAZIO

SIGNIFICANTE VAZIO

© by João Batista do Lago

Vês, este meu excrito,
não te parece escrito;
na imagem de tua mente
é palavra doente, é
texto proscrito que
nasce de um indolente.
Assim é meu escrito:
significante vazio excrito,
anáfora de si, proscrito do
sujeito que não te faz sentido,
linguagem sem fala no
moderno mundo já perdido.

PENEIRA

PENEIRA

© by João Batista do Lago

o corpo
não côa-o
dissipa-o.
desamor
antecipa
a sua dor.
o corpo
filtra-o:
alma só.
o corpo:
sepulcro
da sua dor!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

ALUCINAÇÃO

ALUCINAÇÃO

© by João Batista do Lago

visagens do dia!
o sol a pique
como um dique:
fome denuncia.
(a cachaça só
aliment’a dor).
Essa, toda filosofia
que o mercado prenuncia:
- fins racionais –
estética do trabalhador.
__________