Sábado, 3 de Maio de 2008

TERCETOS, NADA MAIS QUE TERCETOS (© DE João Batista do Lago)

TERCETOS, NADA MAIS QUE TERCETOS

© DE João Batista do Lago

Aviso aos “haicaístas” de plantão: os versos abaixo não são, em hipóteses quaisquer, Haicai. Segundo a minha concepção são (e nada mais do que isso são) tercetos que fazem parte de um estudo poético que desenvolvo. Nestes tercetos introduzo práxis técnica e metodológica “metricamente” diferentes e contrários àqueles que são utilizados pelo haicai, ou seja, a construção do haicai compõe-se de três versos de dezessete sílabas: o primeiro e o terceiro versos são de cinco sílabas; o segundo de sete. Já nos tercetos que componho o primeiro e o terceiro versos são de sete sílabas e o segundo de cinco sílabas.

Outro aspecto que considero relevante destacar, para delimitar definitivamente a diferença dos tercetos que construo, reside no seguinte fato: o haicai, genericamente, deve concentrar pensamento poético e/ou filosófico inspirado nas mudanças que o ciclo das estações provoca no mundo concreto. Já os “meus” tercetos concentram pensamentos variados (p. ex.: filosofia, economia, sociologia, sociedade e comportamento social, religião, etc.) oriundos da concretitude do concreto da realidade, do real, da infra-estrutura (a partir de conceito filosófico marxista oriundo do “new criticism” da Escola de Frankfurt).

Para, além disso, devo destacar outro ponto que me distancia definitivamente da corrente haicaísta vernacular (até porque só entendo o haicai estruturado a partir da essencialidade vernáculo-epigramático japonês): cada vez mais a minha poética torna-se ôntico-ontológica e caminha no, assim, sentido de se amalgamar no conceito do Surracionalismo bachelardiano, sobretudo quando infere: “O exterior e o interior formam uma dialética de esquartejamento, e a geometria evidente dessa dialética nos cega tão logo a introduzimos em âmbitos metafóricos. Ela tem a nitidez crucial do ‘sim’ e do ‘não’, que tudo decide. Fazemos dela, sem o percebermos, uma base de imagem que comandam todos os pensamentos do positivo e do negativo. Os lógicos traçam círculos que se superpõem ou se excluem, e logo todas as suas regras se tornam claras. O filósofo, com o interior e o exterior, pensa o ser e o não-ser (o caso da ”minha” poética, especificamente). A metafísica mais profunda está assim enraizada numa geometria implícita, numa geometria que – queiram ou não – especializa o pensamento; se o metafísico não desenhasse, seria capaz de pensar? O aberto e o fechado são metáforas que se liga a tudo, até aos sistemas” – Gaston Bachelard in A Poética do Espaço, pp. 215 e 216.

* * * * *

I

Como macho repetem

Elas são assim:

Feministas, competem.

II

O capital confesso:

Homem é peça.

O mercado professa.

III

Amor só é ilusão

Reduz todo ser

À miserável prisão

IV

O cigarro vem antes

O uísque depois

Amor de um não é dois

V

A vida: só um sonho

Simples ilusão

Espera nela ponho

VI

No amor a dominação

Plena sujeição!

No processo: produção

VII

Cantai à felicidade

Diz o profeta

Imita assim ao poeta

VIII

A palavra na arte

Lavra amor e dor

Colhe o fruto sofredor

IX

Fé remove montanha

Demove do homem

Fortaleza tamanha

X

Quem canta, males espanta!

Cantai aos prantos

Desespero vos encanta

XI

A paz da guerra salva

A guerra acalma

Todo poder sem alma

XII

Visitai sempre a alma

Ela é só calma

Na diversa confusão

XII

Corpo reflexo: tempo.

Mente reflete

Toda morte presente

Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

SONETOS LXXVIII - © (DE João Batista do Lago)

SONETOS

© DE João Batista do Lago

LXXVIII

Avara! Mulher sem pena... Sem piedade.

Por que negas tanto a este ser mendigo,

A mim, andarilho, eterno bordigo (e)

Que vivo às margens da tua vontade?

Por que me negas o que Deus proveu,

Em ti, por obra e graça da Sua bondade;

Enfim, por que me negas o amor teu?

Tua beleza – prodígio da natureza! –

É o barco da vida que pretendo guiar

Os teus encantos, águas que pretendo singrar...

Então, por que me negas, avara mulher;

Por que me impões tamanho castigo?

Não! Não quero a sina eterna do bordigo.

Quero ser leme... Singrar teu corpo-mulher.

Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

SONETOS - LVIII (© (DE João Batista do Lago)

SONETOS

© (DE João Batista do Lago

LVIII

Canta minh’alma triste... Canta! Cant’os

Versos tristes minha solidão inglória

Navegante d’um mar vil e tormentoso.

Não me há-de sobrevir vida sem ti

Sou-me condenado, pobre, desditoso.

Náufrago solitário de vida errante;

Miserável viajor se não te sou amante.

Qu’interesse há desta vida agora

Sem os abraços e o calor do teu corpo quente?

Ah! Quanta saudade do tempo d’outrora

Quanta falta faz o teu beijo ardente.

Não me há maior castigo, nem desdita,

Teus olhos brilharem por figura maldita:

Prefiro morrer à vida de tão triste sorte.

Sábado, 26 de Abril de 2008

APAGOGIA (© DE João Batista do Lago)

APAGOGIA

© DE João Batista do Lago

Ora a minha solidão

No vazio inerte das igrejas

Busca encontrar na pedra sagrada

A hóstia já sangrada

Pelo vício da palavra.

O verbo está velho e cansado

Não mais atinge a essencialidade

A alma revoltada cancela o oratório

Feito de silêncios:

A pia batismal é seca e rachada.

Procura o confessionário perfeito

Contudo não encontra ouvidos atentos:

Ficaram surdos com a procissão dos gritos

Que soam das cavernas mais torpes

Ecos solenes que vagam nos tempos do Ser.

Terça-feira, 22 de Abril de 2008

O Fim do Homem (DE João Batista do Lago)

O Fim do Homem

© DE João Batista do Lago

Finda o Homem!

E finda na sua essencialidade

Quando atinge a capacidade

Do excesso...

E quando atinge a incapacidade

Da falta...

Finda pois, assim,

O Homem.

Nada mais há por Ser

Já que tudo existe no não-Ser.

Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Soneto Para Isabela (DE João Batista do Lago

SONETO PARA ISABELA

© DE João Batista do Lago

Dá-me o prazer desta valsa

Vem. O salão é todo nosso

Deixa qu’eu te enlace o dorso

Qu’eu me perca numa nota falsa

Dá-me por instante teu virgem corpo

Quero dele calor ardente nesta dança

E como se fosse boneca de criança

Deixa-me sentir as pétalas da tu’alma

Dizer a todos sem nada balbuciar:

És flor! És rosa que fecunda meu horto.

És vida! Enfim, minha falsa valsa de ninar.

Vem! Levanta desta tumba fria, vem!

Vem... Vês, a valsa já vai acabar...

Vem, ó Isabela, esta falsa valsa comigo dançar.

Sábado, 19 de Abril de 2008

CARNIFICENTE (DE João Batista do Lago)

CARNIFICENTE

© DE João Batista do Lago

Vem!

Rasga meu peito sem medo

Toma em tuas mãos meu coração (e)

Bebe todo o sangue...

Sangue que sangra como rio

Sangue que dá vida ao corpo frio (e)

Que se faz larva do fogo da paixão

Deixa-o correr por entre veias

Vazias.

Deixa-o lavar o esgoto

Deixa-o penetrar as profundezas

Do teu corpo-mar

Deixa-o, enfim, embriagar...

Até – (quem sabe!?) – que o doce tédio dos teus lábios

Alcance a sarjeta do verdugo (e)

Beije silenciosamente a terra que te é pó (mas)

Que nunca se dera como palavra – nem verbo!

E quando sóbrio te encontrares

Com o gosto do sangue à boca

Verás que tens por alimento

A desdita de ser o que nunca fostes

Sendo o que jamais serás

Na eternidade dos tempos – e das almas sem espírito:

Deus maldito que professo fogo

Planta fome (e)

Mergulha no mar de lama

Onde almas sem ser dançam a valsa apocalíptica num

Balé de águas que se vão e que se vêem

Sem jamais serem passageiras da mesma viagem

Sábado, 5 de Abril de 2008

Velejador [DE João Batista do Lago]

Veleja(dor)



© (DE João Batista do Lago)



sempre sempre

venho volto solto

no fato dos atos

sinto sinto sinto

desacatos velhacos

ser desprendido

rugindo vazio

calafrio

alma alma

nunca calma

depois da calma

gritos dores

silêncio

vazio...

velo velo

veleiro

sem leme

sem navegador

carregas dor

só dor

lamento do vento

sustento do ser

que não quer ser

ser ser ser

faca de dois gumes:

direito esquerdo esquerdo direito

mar de estrumes...

navego ego

cego cego cego

nau de loucos

mortos dos meus cemitérios

condenados todos

loucos loucos loucos

velejam rezas

procissões desejos

pesco versos inconfessos

diversos dispersos

mares de peixes perdidos

sepulcro do ser

ser não-ser ser

nasceres mal-resolvidos...

findo fim enfim

mal-resolvido:

ser não-ser ser não-ser

dizer o quê?

viver morrer:

não-ser ser não-ser ser

ondas sem volume

não-ser ser do lume

topo de águas

volume de mágoas

ser-me não-ser-me

navegante navegador navegado

singrante singrador singrado

mar sujeito desprendido

Quarta-feira, 26 de Março de 2008

MULHER ESPERANÇA NA VOZ DE ZÉLIA SANTOS


Domingo, 23 de Março de 2008

ACABADO O JEJUM... UM NOVOLIVRO FOI PARIDO!!!

Esta é uma poesia do meu novo livro que pretendo lançar após uma revisão final. Penso que até o final de abril ele estará literalmente concluido:

Compreendidade

© DE João Batista do Lago

Disse-o a todos um dia na eterna juventude

Quanto e tanto amo-te pela vida afora

Entretanto, tu, jamais a saberias

Fostes só silêncio! Não sei o que dizer agora

Amo-te, assim… Assim, eternamente

Amo-te por toda vida só em mim

Jamais pude ter-te junto ao peito solenemente

Falar-te do fogo que me queima a alma em paixão

Ebulição tamanha rasgando as veias das minhas emoções

Dilacerados os meus pensares estão

Agora, passado tanto e quanto tempo

Vejo: resta-me de tanto amor apenas solidão

Mas se pudesse dizer-te agora o quanto a amo

Faria deste meu ocaso uma eterna declaração

Diria: sou mais leve agora nesta juventude de ancião

Sou-o mais sábio silenciosamente em mim

Compreendo, pois, o teu eterno silêncio

Mar revolto que me banha o ser sem tormento

Sou-o eterno na eternidade do silêncio do tempo

Compreendido desde a primeira paixão ao último amor

Sou-o, sim, a compreensão do silêncio por toda vida só em mim

__________
Curitiba/2008