sábado, 30 de dezembro de 2006

MEUS "AIS"

(Para Otília Martel [Portugal])







Por João Batista do Lago

Alma minha além mares
Teus desejos de felicidades
São ecos dos teus cantares
Que rompem dificuldades
Viajam mundo afora
E se despejam em todos lugares
Aceito-os. Os teus desejos
São bem-quereres
Que se fixam nos meus umbrais
Até que a eternidade
Toda prenhe de felicidade
Ouça os meus "ais"
E nos junte por toda eternidade.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

NOLONTADE

Por João Batista do Lago

Não me ofereçam
a “nolontade”
como prêmio
perene de verdade
Do mundo tenho
apenas o meu corpo
No mundo tudo mais
é representação
O amor: pura ficção
apenas vontade de viver
A felicidade: pura ficção
apenas medo de sofrer

[...]

Mas
porventura
não sou feito do insano
matéria da dor
alma da irracionalidade?

[...]

Ah, a ausência
não tem essência
mesmo na representação
não tem consciência
é pura vida de anulação.
Afasta de mim esse cálice
de nolontade
de escravidão da verdade
Apesa de toda chatice
quero a vida vivê-la
com intensidade
sem pensar jamais morrê-la

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

VIRTUDE E PODER

João Batista do Lago

Convocado pelo editor deste portal a escrever sobre estes tempos, em princípio, tinha a intenção de recusar a deferência. O motivo da pretensa escusa era estritamente pessoal. Pensava tomar estes dias para dar-me a possibilidade de vivenciar uma experiência monacal. Era minha idéia e intenção refletir sobre a arte da Virtude e do Poder. Mas esconder-me já não seria contradizer a “Arete”? Não seria contra-senso pensá-la só e solitariamente? Foi aí que me ocorreu repensar o convite e aceitá-lo prontamente. Se minha exteriorização reflexional se fará essente em terceiros é coisa de somenos importância... Pessoalmente acredito que compartilhar com alguém – um que seja! – é a travessia para uma nova realidade... para uma nova experiência de vida... para o atingimento de um novo saber! Portanto resta-me dizer, tal qual Júlio César, ao atravessar o rio Rubicão com suas tropas, contrariando a ordem do Senado romano, em 49 a.C.: “alea jacta est” (a sorte está lançada).
Esta minha reflexão tem origem com os Sofistas. Estes pensavam (e assim agiam) que a Arete (virtude) podia ser ensinada para os jovens helênicos, aristocratas da burguesa Athenas, que se interessavam pelas questões do Estado. Aqueles jovens queriam aprender a virtude para exercerem o poder. Eis aqui o primeiro grande problema que me ocorre: pode, a Virtude e o Poder, fazerem parte de um mesmo corpo orgânico? Serem uma e a mesma coisa? Ou, a Virtude é incompatível com o Poder? Ou, a Virtude contem em si o Poder? Ou, o Poder difere da Virtude? Evidentemente que este problema sugere e pressupõe uma longa tese. Entretanto, neste artigo, não tenho a mínima intenção de assim proceder por razões óbvias: o tempo e o espaço, aqui, não permitem tal procedimento. Apesar disso, penso, o período atual favorece-me à reflexão.
Traçando um paralelo analogístico, ou seja, uma parecença, isto é, criando semelhanças de funções entre elementos dentro de suas respectivas totalidades, podemos, verificar por conclusão, que, os sofistas modernos são os nossos atuais marqueteiros políticos. E por quê traço essa analogia? Por quê aqueles (os sofistas) como estes (os marqueteiros) têm um fundamento em comum: ganhar dinheiro fácil com o seu ofício. A contestação da existência daqueles (os sofistas) não difere da contestação destes (os marqueteiros), ou seja, o método de educação não cria e nem favorece a Arete ou Virtude. Isto não significa dizer que, tanto na época da Sofística quanto na atual época dos marqueteiros políticos, o ofício, em si, não tenha algum tipo de valor. Tampouco se está dizendo aqui que o trabalho não deva ser remunerado. São conceitos que não cabem neste artigo. (Vê-se, pois, assim, que a origem do Marketing Político é mais antigo do que pressupõe a vã filosofia política da modernidade.)
O que tudo isso tem a ver com o problema criado lá atrás: pode, a Virtude e o Poder, fazerem parte de um mesmo corpo orgânico? Serem uma e a mesma coisa? Ou, a Virtude é incompatível com o Poder? Ou, a Virtude contem em si o Poder? Ou, o Poder difere da Virtude?
Antes de qualquer coisa, de qualquer resposta, contextualizo este artigo ao tempo presente. A estes dias de Festas (Natal e Ano Novo), nos quais estamos vivenciando, de alguma maneira, essa sensação, e que, por isso mesmo, somos sensíveis a essa problemática, muito embora não nos damos conta que ela é latente em nós. Pois bem, 2006 foi um ano em que a Virtude e o Poder estiveram presentes com muita clareza. Fizeram partes de nossas vidas de tal forma que, acredito com substância, que todos – todos mesmo – fomos acometidos por algum tipo de mudança – seja interiormente ou exteriormente. Mudamos. Uns mais, outros menos. Mas mudamos. O Brasil mudou. O Legislativo mudou. O Executivo mudou. O Judiciário mudou. O demos mudou. A consciência de todas essas mudanças (não importa a quantidade ou a qualidade delas) sugere-nos, a todos, ter consciência como Sabedoria da Virtude e do Poder que há em cada sujeito imanente desse mesmo corpo.
Retomo aqui a questão central deste artigo: pode, a Virtude e o Poder, fazerem parte de um mesmo corpo orgânico? Serem uma e a mesma coisa? Ou, a Virtude é incompatível com o Poder? Ou, a Virtude contem em si o Poder? Ou, o Poder difere da Virtude?
Não quero agir como um sofista, ou seja, ser apenas um retórico. Em razão disso sugiro que tomemos esta questão e a realizemos interiormente em cada um de nós. Que saibamos descobrir conscientemente qual Virtude nos compete e nos compele para um mundo futuro onde a Ética seja a essência para todo o corpo. Para a “alma” e para o “corpo”: mente sã em corpo são.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

FELIZ NATAL

Feliz natal...

Neste natal eu gostaria de
desinternar-me.

Dar-me alta.

Gostaria de ser entendido,
de ser ouvido a partir de mim mesmo,
jamais por intermédio da palavra do outro.

No verbo do outro-eu nunca sou eu falando.
Estou sempre representado na rouca voz do eu-outro: na ágora, na arena, no teatro.

Neste natal gostaria de elaborar o meu discurso, de escorregar minha palavra por todo o corpo,
extasiadamente,
até poder reencontrá-la na essencialidade do ser,
até cansar-me de jamais cansar a liberdade,
onde a prometáfase congumélica
não desintegre vidas, mas
exploda de encontros desordenados e complexos,
babélico,
simétricos e assimétricos,
mas livre da inclusão que exclui
no discurso do eu-outro-eu-nós-eu.
Feliz natal!

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

DÚVIDA

João Batista Lago

O que faço
neste espaço?

Solitário e só
planto-me
em campos
de alienação
já sem-esperança
de ser-me a mim
tão-somente em mim.

Se puro nascido
logo alienado
fui produzido
no úbere da mater,
da santa família,
da educação,
da religião.

Alienado eu sou – então –
desde o primeiro chão
no suor da labuta;
e assim - desde sempre -
em confusa luta,
tateio (vida-ermo) feito
solitário errante-enfermo.

[...]

O que faço
neste espaço?

A Terra, meu cangaço...
O Humano, meu assassino...
A Palavra, minha hipótese...
Deus, meu condomínio...
O que façoneste espaço?!

[...]

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

...Lá das Minas Gerais

"Encaminhar ao poeta João Batista:

Regina Maranhão Caldas escreveu:

Atualmente, mais para se ver e descobrir, do que para se comprar e se ler nas bancas e livrarias. Nas bibliotecas, nem pensar. Vê lá se biblioteca, seja de Universidade ou de escolas de ensino médio - é lugar para livros de poetas vivos. Desses que andam e falam pelas ruas da cidade. Que bebem cerveja e outros ingredientes mais fortes. Que perambulam pelos becos, pelas favelas, pelos corredores da universidade, atentos à crise da Argentina, à crise da política brasileira, ao movimento sucessório nacional. O certo é que os poetas nada faturam. Uma noite de glória no cada vez mais reduzidíssimo círculo de amigos e iniciados. Uma nota nos jornais mais lidos da capital. Algumas notas suplementares.Talvez. alguns e-mails . E precisa mais? O que poderia um poeta desejar além disso. Ser reconhecido pela como benfeitor da sociedade? Ser aplaudido como um atleta? Ser admirado como uma top-model? Ser famoso como um traficante? Espaço nas faculdades de Letras? Isto já é querer demais. Professores e alunos, de todos os níveis e idades, estão preocupados mesmo é com os poetas mortos – morto para eles intelectuais ingratos – devoradores de signos, dissecadores de cadáveres.Por mim, sinto-me bem onde estou. Dentro e/ou fora das antologias. Desta ou daquela. Longe dos grupos, das gretas, dos guetos, das guerras, das grutas minerais. Se estou, não reclamo. Faço tudo, desde que comecei a literaturar desaforos, por volta dos 12 e 14 anos de idade. Lida diária. Se mereço, não sou eu que devo dizer.No mínimo, o editor. É por isto que prefiro ficar quieto. Saborear poemas em silêncio de quase vertigem como quem mastiga pedras, saboreia frutas silvestres. Doce de leite ou cachaça. Prefiro adivinhar, desde de antes dos gregos, o sem sentido do mundo. Procurar. Reviver, de perto, pássaros e pessoas, antidiluvianos. Ficar onde nunca estou. Entre anônimo e anômalo, desfrutar o tempo, como queria Drummond, tal qual se oferece. Viver o desfuturo, o lado excuso do poema. Do planeta. Sua escassa solidez. De passagem. E porque não? Afinal, em país que pouco se lê - e leitura é passar os olhos sobre - e menos ainda se quer ver, a vinda à luz de um livro de poemas é realmente coisa para se festejar. Ainda que seja uma antologia, uma babel, labirinto de espelhos e espantalhos. Literatura à parte, vale mais a vida, a busca de leitores livres para a grande aventura de escalar, perder-se em letras e ruas de palavras a cidade branca, à espera da poesia, o não lugar dos poetas, as antologias.

Jornalista, poeta e coordenador do curso de jornalismo da Puc-Minasem Arcos, Minas Gerais.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

terça-feira, 12 de dezembro de 2006


Nada existe de mais significativo para um poeta, para um escritor, para um artista, saber que sua obra repercutiu em algum lutar - qualquer que o seja -, que atingiu a alma de uma outra pessoa, de um outro poeta, que transcendeu ao seu espaço específico, enfim... que atemporalizou-se e materializou-se na etrnidade do universo.
Estas palavras foram motivadas pela querida Menina Marota (Otília Martel), de Portugal, que em verdadeiro "cio poético" deu à luz dos nossos olhos, pensamentos e sentimentos, um poema onde a marca da sua alma é imanente.
"...Aos poucos vai morrendo a cada desafio
Sem saber se é mulher ou apenas calafrio
Numa noite de primavera
Onde não faz calor nem frio..."
(João Batista do Lago)

ou nas minhas palavras...

(João Batista do Lago (Brasil e Otília Martel (Portugal)
É noite... nada vibra...nada fala...
Tudo mergulha num sonho vago e mudo.
E a solidão desprende-se de tudo
Qual bálsamo subtil que a noite exala.
Silêncio... estou sozinha... eu me desnudo
Manifestando a dor, sem disfarçá-la.
E por adormecê-la e suavizá-la,
A noite envolve a terra, qual veludo!
Eu não quero quebrar esta magia!
Silêncio...a noite morre...é quase dia.
E eu não sei quem sou, nem onde vou.
Nada murmura...nada...tudo dorme.
A noite é para mim deserto enorme,
Aonde meu destino me atirou!
(Otília Martel [Menina Marota] - Portugal)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

O CIO



Por João Batista do Lago

A madrugada é primaveril
Lá fora não há calor nem frio
Da janela do meu quarto
Olho uns quintais com suas casas
Num dos quintais uma cadela no cio
Do outro lado da cerca de arame
Um cão tortura-se em amantes latidos
A cadela assanha-o ainda mais
Encosta o sexo na cerca e permite-lhe a lambida
O cão ensandecido de desejo rodopia de alegria
Corre de um lado para o outro em desarmonia
Tenta escalar a cerca de arame em agonia
Tudo em vão
Resta-lhe a condenação de ser apenas cão

(no meu quarto ouço uma serenata: Brahms)

Da janela do meu quarto
Interiorizo-me na alcova dos casais
Quantas mulheres com o sexo em brasa
Recostam em cada marido distante
Ressuam o corpo como perfume exalante
Da flor-dos-amores em cio suplicante de carícias e beijos
Nenhuma cerca as separa de seus amantes
Apenas o ronco estridente e o ranger de dentes
Daqueles que outrora foram grandes amantes
E o cio assim dessas donzelas em cio
Aos poucos vai morrendo a cada desafio
Sem saber se é mulher ou apenas calafrio
Numa noite de primavera
Onde não faz calor nem frio

(no meu quarto a serenata de Brahms finda)

domingo, 10 de dezembro de 2006

O ENTERRO DE NIETZSCHE


João Batista do Lago
(Ficção)
Esta é uma revelação que guardei por muitos anos, e que dou, aqui e agora, a conhecer a todo mundo – quem o quiser saber. Não lhes peço credibilidade quaisquer, pois credibilidade não se constrói. Ela é um dos enigmas da filosofia pura: não está antes e nem depois. Ela só existe no aqui e agora. Mas, se chegastes até aqui – aviso-te: ainda tens tempo suficiente para usar da tua autonomia e abandonar-me, a mim e a este relato, antes que te o seja caro, que te o envolvas definitivamente na sua trama – é porque desejas saber realmente como aconteceu o enterro de Nietzsche.
Antes de tudo devo matar essa tua curiosidade. Naturalmente desejas saber quem sou. Não quero deixar a impressão de um ser grosseiro, mal educado, irreverente, prepotente, ou qualquer outro adjetivo que, porventura, me queiras administrar. Mas há de convir comigo: não estou aqui para dar conta de minha vida. Ela tem muito pouco interesse para ti. Ela não representa o que estás a pensar neste exato instante: “Ecce homo deve ser mais louco que o próprio Nietzsche”. Não é isso que pensas neste momento? Sinceramente, para mim pouco se me dá o teu pensamento... Ele é só um pensamento (há muitos outros pensamentos não seguidos, por exemplo, e por isso mesmo adormecidos). E posso inclusive dizer-te que ele não é real – é pura e tão-somente uma representação do real no campo da irrealidade presente em tua memória inestética. Concordas comigo? Ou não? Se não concordas, por quê então acreditas que Nietsche inferiu que Deus está morto? Acreditas que Deus está morto? Mas, se concordas comigo, então, quem está morto és tu. Concordas? Assim sendo tu não existes. Tu não és real. Correto? Bem te avisei: já não mais tens o direito de deixar de me acompanhar neste relato, pois dele tu serás discípulo e apóstolo – já te enfiastes até o pescoço, faltando, apenas, dar-me a tua cabeça para pensá-la comigo. Ou então serás, apenas, túmulo e morte. Concordas? Duvidas? Mas com o que exatamente concordas? E do que estás a discordar? [...] Ah, estás pensando no Deus que Nietzsche disse está morto... “Quem matou Deus?” – É este o teu pensamento agora? Para resolver esta tua curiosidade tu precisas, primeiramente, resolver a questão anterior à morte de Deus. Proponho-te a seguir que te faças uma pergunta: quando Deus nasceu? De quem ele nasceu? Onde Deus nasceu? Não vale responder com dogmatismos religiosos. Isso é senso comum. E o senso comum é o não-pensamento. Esta resposta merece o teu pensamento, portanto, pergunto-te: o que pensas aqui e agora? Veja bem: aqui e agora, neste instante... O que pensas? [...] Pronto, dei-te a ti e ao teu pensamento os tempos necessários. Digo-te, agora, o seguinte: toma-a (a resposta) e guarda-a bem dentro do teu pensamento. Mas antes precisas responder se o pensamento existe, como te propus lá atrás... Nunca esqueças disso. Uma coisa tem a ver com a outra. Todas se interpenetram. Ah, mais uma coisa: foge imediatamente dessa tua dualidade. A dualidade é uma falsa representação da realidade. A dualidade não é Realismo. Pensar pela ótica da dualidade implica reduzir a vida simplesmente à causa e efeito. E a vida não é só isso: causa “versus” efeito. Ou é? Mas, se não é, então, o que é a vida? E se ela é, então, o que ela é? O que diz o teu pensamento a este respeito? Dá-me, a mim, aqui e agora, o teu pensamento para junto pensarmos. Pensemos: se a vida não é, o Homem não é. Deus não é. O Ser não É... Mas a vida sendo o homem não é, Deus não é, e o Ser não É. Assim não sendo tudo é representação. Concordas? Não concordas? Então toma este poema e pensa-o:

Descaminho

Há uma pedra no caminho;
no caminho há um homem.

Há um homem no caminho;
no caminho há uma pedra.

Há um caminho sem uma pedra;
no caminho não há um homem.

Há um caminho sem um homem;
no caminho não há uma pedra.

Há uma pedra livre porque o caminho está livre do homem.
Há um homem livre porque o caminho está livre da pedra.
Há um caminho livre porque o caminho está sem uma pedra.
Há um caminho livre porque o caminho está sem um homem.

[...]

Há um caminho livre por quê não há nem homem, nem pedra!

E agora, que me dizes tu? Qual caminho tu tomará como teu? O caminho livre do homem? O caminho livre da pedra? Ou o caminho (simplesmente) livre – sem nem um homem, sem nem uma pedra? Mas a todas estas questões quero inserir mais uma: - Qual caminho tomou Nietzsche quando inferiu a morte de Deus? Qual a realidade de Deus, em que Realismo Deus existe? Ou Deus é só Romantismo? E mais uma pergunta: - Por quê inferir apenas a morte de Deus? E o Diabo?... Existe? Continua vivo? Ou também foi morto? Por quem? E se ambos existem – ou existiram –, quais caminhos tomaram como seus? Vê o que nos diz o poeta:

A Maçã do Éden

o cadáver da vida
floresceu entre os parreirais
o diabo lho fizera prece
deus e o diabo beberam
do mesmo vinho dionisíaco
hoje apolínicos em suas dimensões
ambos reclamam Adão e Eva

E aí, que me respondes tu, diante dessa celeuma que deblatera dentro do teu espírito? Êpa... mas que é isto, o Espírito? De que matéria constitui-se o Espírito? Quem te deu esse espírito? Se o tens, o que és então: matéria ou espírito? E se te condensas nos dois, quem é o desencadeador da Razão? E a Razão o que é senão a realidade da matéria? Se a Razão é, pois, a realidade da matéria, o espírito não tem razão de Ser? Concordas? [...] Ah, resolvestes dar o ar da graça... Discordas do meu pensamento. Então discutamos o teu pensamento. Presumes que o Espírito é Deus. Correto? Pois bem... Se o espírito é Deus, tu és Deus. Concordas? Ah, não concordas! Neste caso nem tu, nem Deus, existem. Concordas comigo que tu não É, assim como Deus não É? Discordas. “Deus é o Princípio e o Fim” – dizes-me tu. Consideras um Fim em Deus, então, dás razão a Nietzsche... – “Deus está morto”. Neste caso, assim como Nietzsche, tu aceitas como Verdade a preexistência de Deus... Correto? Ah, Deus está fora de si? Onde? [...] Bem sei estás cansado e eu também, contudo, vejamos até onde chegamos: à Verdade. Tomas o meu pensamento por Verdade? Se assim o consideras, elejo-te, então, meu discípulo e apóstolo. Se não me tomas por verdadeiro, então qual é a tua verdade? Qual caminho tu seguirás após nossa conversa? Qual pensamento será o teu desencadeador de agora por diante? Terás um pensamento próprio, ou continuarás refém de outros pensamentos?
[...]
Ah, ia me esquecendo: no dia do enterro de Nietzsche postei-me ao lado esquerdo do caixão. Era madrugada. Entre 2 e 3 horas. Somente eu estava ao lado do caixão. Ele olhou-me. Sorriu faceirosamente. Com um estupendo gozo eterno e me confidenciou:
- Vocês são todos loucos, mas dou-te, somente a ti, meu caro Atsitabj Ogal, este meu testamento: não fui eu quem matou Deus... (cochichando) ...nem sei se Deus morreu... (piscou o olho para mim e acenando com a cabeça pediu que eu chegasse mais perto) ...foi a humanidade... o homem... o humano... foram as religiões que mataram Deus. Ah, quanto ao Diabo, nem se preocupem, ele não fará tanto mal assim como pregam por aí... Será que me compreenderam? Dionísio contra o crucificado? (depois desta frase desfaleceu).
[...]
Depois do enterro, no dia seguinte, Lou Salomé, que tomava café ao meu lado, confidenciou:
- Nietzsche queria ser Deus...

ALGUMA POESIA

Alienação

Por João Batista Lago

O que faço
neste espaço?

Solitário e só
planto-me
em campos
de alienação
já sem-esperança
de ser-me a mim
tão-somente em mim.

Se puro nascido
logo alienado
fui produzido
no úbere da mater,
da santa família,
da educação,
da religião.

Alienado eu sou – então –
desde o primeiro chão
no suor da labuta;
e assim - desde sempre -
em confusa luta,
tateio (vida-ermo) feito
solitário errante-enfermo.

[...]

O que faço
neste espaço?

A Terra, meu cangaço...
O Humano, meu assassino...
A Palavra, minha hipótese...
Deus, meu condomínio...

O que faço
neste espaço?!

[...]

====================

Contradições

Por João Batista do Lago

Quem tu és?
Perguntaram-me certos dias.

Nunca imaginei
A questão assim
Tão saliente

Antes, porém
Pensei na Filosofia
Aquilo parecia alegoria

Quem sou?!
- Sou abstrato
- Sou concreto

Quando verdade
Sou mentira
Na realidade

Se me penso livre
Estou preso na cidade
Onde não há liberdade

Acredito-me crente
- ah, esse tolo inocente
é apenas um ser carente

Sou um socialista...
Anticapitalista eu sou.
Síntese: um mero sofista

Sou o todo
Também parte sou
Resultado: sou único

Sou o ator
Sou o teatro
Sou tragédia e dor

Sou o vernáculo
Na inação da nação
Sou sem-linguagem

Sou o sim
Assim o não eu sou
Da certeza a incerteza

Do inicio sou o fim
Da explosão sou a poeira
Recluso da terra-lixeira

Quando sou noite
Do outro lado estou dia
Antiduplo em sodomia

Assim eu sou
O perto e o longe
O diabo e o monge

Do amor sou o ódio
Do verso a não-palavra
Apenas rima sem lavra

Assim sou eu
Se crente sou ateu
Do humano o pigmeu

================



Estética

Por João Batista do Lago

Não sou, sob hipótese qualquer
- como pretendes fazer crer -,
engenheiro de pedras-mortas;
sou arquiteto da Palavra em água.

Não sou, sob hipótese qualquer
- como pretendes fazer crer -,
engenheiro de formas tortas;
sou arquiteto da Virtude da água.

Não sou, sob hipótese qualquer
- como pretendes fazer crer -,
o engenheiro de paredes em desalinho;
sou arquiteto do Belo que se há no mar.

[...]

Sou engenheiro da Palavra,
Arquiteto da Virtude e do Belo.

=====================

Eunomia

Por João Batista do Lago

Não sou filho,
Apenas - e só,
da Idiotia.
Mas sou filho,
Apenas – tão só,
da Política:
na transcendência
sou imanência;
do divino
sou o profano;
da exterioridade
sou a subjetividade;
da phisys
sou o espírito;
no sensível
sou res extensa
no inteligível
sou res cogitans

..............

Sim, sou filho
Apenas – e só:
da Metafísica,
da Matemática,
da Ilusão e
assim sou Razão.

..............

Sou Zeus.
Sou Mito.
Sou Deus.

..............

Sou tríade: Idéia Absoluta.

Hedonismo

Por João Batista do Lago

O capricho dos deuses
É pura ignomínia
Destinaram-me aos prazeres
Mas roubaram-me a hedonímia...
Assim subjugado
Maldito e condenado
Carrego este fado

Maldito – repito! - este destino
Que me tira o rumo e o tino
Das vidas outrora prazerosas
Entre deusas amorosas
Que a Juventude carnosa
Virtuosa e valorosa – em rosa
Reinava em bacantes dionisíacas

Depois dos vários prazeres
Restou-me deles os faleceres
Das fugacidades vivídicas
Hoje nem mesmo os saberes
De aretes apolínicas são verídicas
Aretes não são hedônicas – são vidas jurídicas
Distante – e longe – das bacantes dionisíacas

.............................................................

Mas negam-se os deuses
Aceitarem tamanha tirania
Desde os tempos de Elêusis
E para resgatar a Ética
O grande Zeus já dizia:
“- Não são os deuses, mas sim os próprios homens,
que pela sua imprudência aumentam os seus males”.

Maldito e condenado
Carregando este fado
Assim subjugado
Este Homem em destino – sem tino
Segue transferindo seus lamentos
Procurando encontrar para suas dores
Um campo dêitico para deitar seus horrores

UM JOÃO BATISTA VERBERANTE

UM JOÃO BATISTA VERBERANTE

Mhário Lincoln (*)

Big-Bang: Fez-se luz à sombra hermética do todo poético. Fez-se lua à poesia moderna, sem varinha mágica, à classitude ferina dos sonetos e poemas esparramados n’alma e ejaculados por força perceptível do talento e da experiência intelectual de JOÃO BATISTA DO LAGO.
Eis o explícito-legítimo da alma do livro EU, PESCADOR DE ILUSÕES. Às vezes construções poéticas imprudentes, mas literalmente racionais:
- Ah, como eu queria ter podido ficar com todas as putas...
Se em Gênesis, “no começo era o VERBO”, para João Batista do Lago, o poeta, a Palavra tem pasto livre, ama e odeia feito besta fera. Mas meiga, paterna e alertante: A los niños desesperanzados (...) são indulgentes (...) del capitalismo carrasco.
Eis um João Batista de todos os Lagos mais maduro e impecável. Belo anti-poeta da rima, mas profundo conhecedor da Filosofia e Poesia, apoiando-se na disciplina, na supra-disciplina e em momentos transnacionais, para prender-se aos elos da poética filosofal e da poética factual, num metabolismo quântico, fixado em três grandes momentos de vivência: solidão, protesto e o auto-renascimento.
Desta feita, após EU, PESCADOR DE ILUSÕES, os críticos terão que incluir a poesia filosófica de João Batista do Lago, na reservada lista de grandes nomes de poetas, filósofos e críticos, como um Hegel, um Vico, um Baudelaire, um Valery, um Rilke e porque não dizer, um Mário de Andrade com sua espetacular obra Paulicéia Desvairada, livro pioneiro do Movimento de 22.
Ao arregaçar as páginas do livro – EU, PESCADOR DE ILUSÕES - chego à conclusão incomum: só escreve tais versos quem tem asas de homem–pássaro; ou, paradoxalmente, quem consegue numa ponta livreira cativar-se com Edgar Allan Poe e Franz Kafka; Fernando Pessoa, Machado de Assis e Marx; sonhar com Miguel de Cervantes e fazê-lo laboratório para as suas agruras dantescas.
- No meu laboratório de visões/busco toda sua presença./Nela não me há.
E numa outra ponta intelectual encontrar e conviver pacificamente com a pedra filosofal, desde os Milésios – Tales, Anaximandro e Anaxímenes, passando pelos ensinamentos de Sócrates, Platão e Aristóteles; pelos sofistas Protágoras e Górgias; por entre os cínicos e céticos Diógenes e Pirro; os Estóicos e Escolásticos; chegando por fim a Kant, Nietzsche, Schopenhauer e Kierkegaard, até atingir toda a história do pensamento dos frankfurtianos e seus pós:
Apenas os idiotas pensam que o “Eu” é o único dos sujeitos.
Ou ainda, simplesmente, chorar ouvindo Gardel, para compor seu alerta para os de sua gente:
– Essa ambígua ordeiricidade brasileira (...) Sob este manto praticam-se o terrorismo social e econômico, o político e o cultural, abstrusos (...) Prestai atenção, ó brasileiros! (...) Povo deserdado, vexado e proscrito. Ou mais: Irmãos dos campos (...) é hora de guarnecer.
Eis o explícito legítimo da alma do livro: Intimidade com sua infância nas barrancas do rio Itapecuru, no Maranhão:
-Sapo Cururu,/Na beira do Itapecuru,/Há tanta saudade mirim,/Do Itapecurumirim). Uma fantástica regressão poética, com estrume e cheiro de memoráveis picardias.
Assim é João Batista do Lago. Homem-Bala no picadeiro da vida. Do Sul ao Norte poético em alguns segundos. Da infância ribeirinha ao cosmos filosofal, num dobrar de página. Assim é João Batista do Lago: num piscar d’olhos vai do telúrico ao estado de nirvana:
– Estou debruçado na janela do mundo.
Ou arrasa conceitos e dogmas em construções magníficas desprovidas de concorrência cristã:
- O cadáver da vida/floresceu entre os parreirais/O Diabo lho fizera prece/Deus e o diabo beberam/do mesmo vinho dionisíaco.
Eis em EU, PESCADOR DE ILUSÕES, um momento raro de proximidade com o perfeito e com a raridade da orquestração de forma e conteúdo:
- morro-me a cada instante. Ou (...) O canto não canta/a rima não versa.
João Batista do Lago, ao longo de sua produção poético-filosófica navega sob a bússola do ordenamento gradual e imperceptível. Acumula insights leves e conceituais em determinados momentos; mas eis que de repente, explode numa rima empírica textual:
- Nenhuma dor é tamanha/Que nela não me contenha.
Quem vai ler este João Batista de todos os Lagos, nesses devaneios e hipóteses poéticas, sentirá imediatamente sua energia magnética corroendo o bestunto dos incrédulos e moendo a medula dos hipócritas (Enganar é preciso; votar não é preciso não... com precisão). Terá, sobretudo, a oportunidade de embarcar numa viagem inesquecível pelo cérebro de um homem nascido no interior do Maranhão, em Itapecuru Mirim, mas fugaz no hábito de revirar a terra brasilis, da América Latina ou mesmo na inspiração proscrita de Crítica do Juizo, de Kant (1790), da Teoria da Ciência de Fichte ou do Bildungroman, de Goethe, na incessante busca para encontrar suas minhocas fantasmas, escondidas em montinhos de terra-santa nas velhas meias colegiais, transformadas em bola de chute e escondidas no fundo de seus armários de pau-d’arco roxo.
Quem vai ler João Batista do Lago, também viajará num tempo e espaço intermináveis para salvar este apêndice da poesia brasileira, onde Emmanuel Kant e Mario de Andrade se juntam para compor o raro cenário desta magistral pesca de ilusões, onde muita coisa pode ainda ser salva. Inclusive o autor:
- nas asas da liberdade serei salvo.
Eis o explícito-legítimo da alma do livro: João Batista do Lago está salvo, sim! Pois dá à poesia brasileira uma abissal chance de se recompor.

(*) MHÁRIO LINCOLN é jornalista e advogado; Editor-chefe do portal www.mhariolincoln.jor.br Mhário Lincoln do Brasil

EU, PESCADOR DE ILUSÕES

EU, PESCADOR DE ILUSÕES
Arte e Literatura de Valor Intelectual e Filosófico

Johannes de Silentio (*)

Kierkegaard certa vez escreveu que "o poeta é o gênio da recordação". E ele tinha razão. Isto faz do poeta um elemento fundamental num grupo social, que tem uma valiosa missão: registrar para as gerações presentes e futuras, através de sua arte: os sentimentos, as idéias e os fatos mais relevantes de seu contexto histórico específico. Não é uma tarefa fácil, exige não somente a técnica, mas acima de tudo, uma habilidade natural, uma vocação. O poeta louva e elogia o belo, porém da mesma forma censura e critica o inestético.
E nesta atividade do poeta é preciso liberdade de expressão, pois caso contrário sua tarefa se torna irrelevante. Sempre digo: o poeta é censor do clima intelectual e sentimental de seu tempo. E aqui temos um poeta brasileiro contemporâneo: João Batista do Lago com o seu primeiro e esperamos não último livro de poesias – EU, PESCADOR DE ILUSÕES.
Com certeza as Musas, filhas do senhor do Olimpo, inspiradoras das artes, auxiliaram este autor a transformar a matéria bruta das intuições sensíveis e intelectuais em formas preciosas de expressão poética. É uma obra que consiste numa coletânea de poesias, que nasceram numa fértil imaginação e que expressam uma grande variedade de sentimentos e reflexões. Exibem uma riqueza de palavras e idéias de ótima qualidade. Encantam com a beleza da forma e do estilo literário. Impressionam com a profundidade semântica dos conceitos trabalhados. Cativam com a relevância histórica política e social.
Esta obra é fruto de uma mente genial e brilhante e que demonstra ser amante do saber. É uma obra plena de ideais nobres e humanitários, que fecundam não na mente de um jovem inexperiente e ingênuo, mas ao contrário, na mente de um “ancião”, que fluiu existencialmente na história por vários momentos antagônicos.
Nesta obra é importante destacar o empenho intelectual de compreender o mundo percebido não como uma representação idealista, estática e alienada do tempo-espaço natural, mas pelo contrário, seguindo o exemplo pioneiro de Heráclito, uma tentativa de compreender o mundo numa representação realista e dinâmica.
Percebe-se um elemento dialético, às vezes paradoxal, no movimento das palavras, neste fluir poético, que expressa um pensamento vivo e interessante. Poesias que procuram expressar adequadamente a realidade histórica e natural em constante movimento. São pensamentos que não pretendem ser a expressão de uma realidade eterna e distante, mas sim, o retrato de uma realidade viva e experimentada, em todas as suas contradições.
O poeta João Batista do Lago, cidadão consciente e culto, nesta sua obra, expressa e reflete sobre variados temas. Com isto demonstra aptidão e conhecimento em várias áreas do conhecer humano: Filosofia, Arte, Antropologia, Sociologia, Mitologia, Literatura, Política, História, Ecologia e outras mais.
Evidencia portanto não só a qualidade intelectual da obra, mas também a própria erudição do autor. Deste modo a obra não se limita somente a satisfazer o gosto estético do leitor, mas procura satisfazer também o gosto intelectual e às vezes apela até mesmo à volição.
A obra não consiste somente numa coletânea de poesias com o fim de satisfazer o desejo pelo belo. Objetiva também a reflexão sobre a própria atividade reflexiva do homem, revelando seus potenciais e suas limitações, numa perspectiva dialética. Expressa o sentimento de finitude do homem, um ser que questiona o infinito e que busca respostas para questões transcendentes à própria existência natural.
João Batista do Lago é um poeta, e nesta obra não só louva e celebra o belo, mas censura os abusos políticos, nacionais e internacionais, testemunhados pela nossa história contemporânea. Poesias que denunciam atos desumanos dos que estão no poder. É um poeta que incita a indignação. Censura por exemplo: a corrupção política, a exploração do pobre pelo mais rico, os agentes da injustiça social, a cumplicidade das instituições que preservam e reproduzem ideologias, a atividade tecnológica do homem que destrói a natureza. Poesias que até mesmo profetizam libertação social e fazem apelo à ação.
Concluindo, "EU, PESCADOR DE ILUSÕES" é uma bela obra de arte, mas também, uma peça literária de valor intelectual e filosófico muito grande. Uma obra que exige, portanto, um tempo razoável de reflexão, pois toca em temas complexos e profundos da existência humana. É uma obra relevante para o homem contemporâneo, pois fala do que aconteceu e acontece aqui e agora. Será também uma obra de relevância histórica, retratando o sentimento e pensamento de um cidadão culto, que no seu tempo refletiu criticamente a história política e social.



(*) Johannes de Silentio (ou Paulo Sérgio Alves) - Formação acadêmica em Teologia e Processamento de Dados. Atua como Profissional Liberal.
28 de Novembro de 2006.