
sábado, 20 de setembro de 2008
TUA NUDEZ

sexta-feira, 19 de setembro de 2008
TÂNTALO

quinta-feira, 18 de setembro de 2008
PRELÚDIO [© DE João Batista do Lago]
Fonte da Ilustação: http://www.clips-poemas.com/imagens/em_noites_top.jpgPRELÚDIO
© DE João Batista do Lago
Sei-te senhor da sabedoria
Sei-te ordenador das luzes
Sei-te fonte de toda caloria
Sabes tão pouco do meu ódio
Sabes tão pouco da praga que te jogo
Quando surges, a leste, no teu exórdio:
Ladras manhãs que me roubam.
Prefiro teu epílogo quando queda no oeste!
Neste instante todas luzes brilham
Todas as estrelas cintilam e bailam sob os telhados
Todos os astros se acomodam
É quando surge minha aurora:
Desnuda!
Voa em minha direção e me abre os braços
- e as pernas! –
E num só enlaço me leva ao mais profundo dos mundos
Sol de todas as fontes de felicidades...
Mesmo que na manhã seguinte renoves teu discurso
- ainda assim –
Aguardarei o poente da tua sabedoria
Donde surgirá em beleza esplêndida
Nua
Carnuda
Desnuda
Trazendo-me todos os louvores e augures
A mais bela amante da minha alegoria...
(E cantamos a inteira noite o prelúdio das cigarras!)
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
MENSAGEM DO TINHOSO
MENSAGEM DO TINHOSO

O ônibus saiu da Rodoviária às oito horas em ponto. Durante vinte e dois minutos ficou a olhar a paisagem, como num filme de Godard, onde tudo se vê e em nada se fixa. O dia caminhava feio. Tudo cinza abaixo e acima da garoa fina e da névoa intensa que ora mostrava o topo da morraria próxima, ora descortinava os montes mais altos no horizonte. Dia feio e frio. Dia em que perro não sai de cima do jornal na soleira da porta, gato não desenrola do rabo e do canto do sofá, pernilongo não voa, besouro não zumbe. Dia pra beber chimarrão e chupar muita xícara com café fumegante.
Cansado da leitura da paisagem e das viagens mentais abriu a mochila, sacou o livro, retomando a leitura da noite anterior. Grande Sertão e Veredas. Estava ele ainda pela página 45, apesar de 13 dias de leitura, quando o telefone disparou. Disparou e parou antes que pudesse atendê-lo. Voltou à leitura e mais uma vez o telefone esganiçou no seu bolso. Tentou ler a mensagem, mas nada havia. Quem ligou não concluiu a primeira frase – "E ai mano...". Com o olho novamente na paisagem ficou mirando o rendilhado das lavouras de arroz alagadas e algumas que ensaiavam brotar as plantas para fora da água, mas que se mantinham cinzas pela ausência de luz. Estava assim, viajando na viagem, quando o telefone apitou com grunhido doido, insistente. Acelerou o gesto para tentar interromper o barulho incômodo para ele e para os outros passageiros.
Desta vez a mensagem chegou inteira:
_ E ai mano desejo boa sorte pro wil que vá pra ganhar eu estou em uma reunião por isso não estou ai pastor Gelson
Intrigado e chateado com aquela interrupção da sua leitura e da viagem do olhar no interior da paisagem resolveu respondê-la, mesmo não sabendo quem, onde, ganhar o quê, Wil, Gelson, sorte, ganhar, perder, pastor...
Passou os próximos trinta minutos construindo no celular a mensagem-resposta para aquelas palavras vindas do hiperespaço celulante da telefonia mundial. Por estar lendo Guimarães foi influenciado na construção do texto. Foi difícil apertar com precisão aquelas teclas tão pequenas com seu dedo gordo. Mas foi em frente...
_ Pastor Gelson, acho que nos desigualamos. Não sou seu mano. No momento estou no sertão de Santa Catarina, que apesar de santa, se hoje viesse pousar aqui, tinha de vir armada, com bala nos dentes, porque a gente daqui é tanto ruim, como um outro ruim dia um. Mas venha. Venha com sua carantonha. Se não prestar, outra cara a ela nois empresta. Causo ela fique muito furada, disminuimos as balas. Não tenha receio, o medo da morte só bate no bobo do corpo, não no interno das coragens. Pois venha.
Enviou a mensagem e, satisfeito com a missão cumprida, retornou ao livro se misturando com Riobaldo, Diadorim, a jagunçada, o tinhoso, a piriquitada e as veredas mineiras de histórias, estórias além de muitas sabedorias "Olhe: Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato..."
Tonicato Miranda
Curitiba, 15/Setembro/2008.
UM POEMA DEDICADO A MINHA AMIGA MITUCHA
BUSCA
(Dedicado a Maria Tereza [mitucha], com todo meu afeto)
© DE João Batista do Lago
As vozes da minha natureza
Ressoam as melodias dos hinos sânscritos
Que se avolumaram pelos tempos
Agora ressurgem em todos cânticos de meus deuses
Que me moram e de mim fazem igrejas
– ora sagradas, ora malditas! –
Onde procissões de mim(s)
Constroem na profundeza dos meus infernos
A mais rubra torre de pedras que me levam aos céus
Que vergastam minha mente
No silencio do meu mais profundo
Dharma sem deus
Da minha maior profundeza
De me saber-me nada
terça-feira, 16 de setembro de 2008
FRAÇÕES [© DE João Batista do Lago]

FRAÇÕES
© DE João Batista do Lago
A noite está fria
Meus pés estão frios
Meu corpo está frio
Meu cérebro está frio
Meus pensamentos... Congelados!
Sou um móvel.
Tantas são as gavetas!
Penso abri-las:
Tenho medo.
Há muita desordem...
Não quero limpar nada agora.
Prefiro este caos...
Sinto medo dos sujeitos que as gavetas guardam!
Não sei se eles são melhores ou piores,
Assim como não sei se sou melhor ou pior.
Acredito mesmo que todos são iguais.
Até mesmo a cor ocre do móvel
Equivale à cor ocre do meu espírito
Cada gaveta, um sujeito.
Cada sujeito, um segredo.
Cada segredo, um medo.
Cada medo, um eu.
Não! Hoje não!
Abrirei a gaveta...
Sim! Abrirei...
Mas, somente quando eu voltar.
sábado, 13 de setembro de 2008
Quadras ao Gosto dos Devaneios dos Finais das Tardes
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
O SUMO [DE João Batista do Lago]
© DE João Batista do Lago
O vazo que se me resta de asco
Já não mais agride o objeto do ser
Pereniza-se num semblante...
A dicotomia do asco e do ser
Juntam-se para um último trago dialético
E assim bebem o vinho do escarro
Sou-me de mim a uva pisada
De entrededos escorregam sucos
Ficam unhas impregnadas de sementes
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
TRADIÇÃO E RUPTURA: A Lírica Moderna de Nauro Machado
TRADIÇÃO E RUPTURA: A Lírica Moderna de Nauro Machado
© DE João Batista do Lago
Desde que ganhei um exemplar deste livro – TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado –, que me foi ofertado pelo protagonista do mesmo, o poeta maranhense Nauro Machado, esta é a quinta leitura que acabo de realizar. Leitura e releituras que me renderam significativas notas! Há tempo queria sobre isto falar alguma coisa, mas sempre relegava para o futuro sem me dar conta de que, escrever sobre este livro é uma exigência; mas, ao mesmo tempo, uma operação difícil de executar, pois, o seu autor, Ricardo Leão, se não esgotara o assunto deixara muito pouco por ser dito. A pesquisa feita por Ricardo Leão é de uma profundidade epistemológica insuperável, além do que, a metodologia da sua analítica me soa bem ao espírito e a alma: a fenomenologia, que reduz ao máximo os enfoques psicologistas.
Tenho em conta ser o ludovicense Nauro Machado o maior poeta da língua portuguesa brasileira. Maior que seus conterrâneos Sousândrade, Gonçalves Dias ou Ferreira Gullar, por exemplo; maior que seus compatriotas Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira ou Affonso Romano de Sant’Anna, por exemplo. Isto não significa dizer que estes não tenham valor literário. Ao contrário: têm-no até demasiadamente. Contudo significa destacar e enfatizar que a poética de Nauro Machado supera quaisquer dos citados. E o livro de Ricardo Leão [aos meus olhos] vem provar exatamente isto.
Para além do resgate que faz da obra poética de Nauro Machado, Ricardo Leão restabelece “uma” verdade que, ainda hoje, está escondida sob o domínio de uma aculturação imperativa e imperialista do eixo Rio-São Paulo. Aculturação que produz e reproduz o conceito do colonizador sobre o colonizado, do ponto de vista da literatura brasileira. “Esse trabalho de Ricardo Leão é de significativa importância não só porque representa, para a cena crítica acadêmica e para o leitor da boa poesia, um poeta de larga produção qualificada, como Nauro Machado, mas também porque recoloca a reflexão, um tanto adiada, do fazer poético da contemporaneidade” [grifo meu] – (Valdelino Soares de Oliveira, professor de Teoria Literária da Universidade Estadual Paulista).
Ricardo Leão não mediu a extensão do fôlego. Não teve medo. Fez imersão na obra nauriana de tal profundidade que desconheço trabalho idêntico. E digo sem medo de, aqui e agora, fazer qualquer exageração que TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado é um livro indispensável para quem quer, honestamente, estudar a literatura brasileira sem apelos de regionalismos ou submisso a uma indústria cultural bajulatória e concentradora de mesmisses que conspurcam a inteligência, o pensamento e as artes literárias daquilo que “eles” chamam de “o interior do Brasil”. Afirmo que qualquer estudo que se realizar no campo da literatura nacional e não se fizer menção a este livro, nada está (ou se considerará) completo, posto que, faltará sempre esta verdade sobre a poética de Nauro Machado.
E para finalisar resgato uma questão levantada pelo autor de TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado: “que fato de natureza literária ou não, explica a ausência de consagração absoluta em torno da obras de Nauro?” (p. 224). Ricardo Leão enumera e discorre sobre algumas nuanças para responder a esta pergunta. Todas factíveis. Todas prenhes de respostas ainda não dadas. Pessoalmente tenho outras tantas nuanças que poderiam ou podem ser enumeradas (o que não é o caso presente), mas a principal delas [aos meus olhos], não tenho qualquer dúvida, reside no seguinte fato: Nauro Machado jamais baixou a cueca para o eixo Rio-São Paulo, construtor de mitos de barro... de igrejinhas... de curriolas... Enfim, Nauro Machado, jamais quis sair do seu torrão, da sua São Luis, da sua Atenas, para integrar os círculos de comensais circulatórios e circundantários de uma indústria cultural voltada para si mesma.
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FICHA TÉCNICA
Martins, Ricardo André Ferreia (Ricardo Leão)
Tradição e Ruptura: a lírica moderna de Nauro Machado / Ricardo André Ferreira Martins (Ricardo Leão. São Luis: Fundação Cultural do Maranhão, 2002.
388 pp.
Livro impresso pela Indústria Gráfica e Editora LITHOGRAF. End.: Av. Ferreira Gullar, 40 – São Luis – Maranhão.
Fone: (0xx98) 3235-2082
domingo, 7 de setembro de 2008
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Mys Moradas
El fondo
véese despues
de las orillas
my corriente de
moradas:
el puente
– ligero y fuerte –
la lluvia
– en olas furiosas –
el cielo e la tierra –
coligación de los divinos
e los mortales
Soy un puente
Soy un lugar
Soy my espacio:
tierra e cielo;
los divinos
e los mortales
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
A CARNE
Monstrengos há!
Seus caninos afiados
feitos presas de javalis
vislumbram o ataque fatal...
Mas, depois de devorada a tartaruga
percebem o grande mal que a si fizeram:
suas carnes estão sendo comidas
pouco-a-pouco são corroídas
nos palácios dos seus ancestrais...
Paradoxo do mal
Gabali não mais lhes dará abrigos!
O ventre que se lhes gerara recusa a imolação
Será o javali santo ou assassino?
Na pedra da imolação
Terá que comer seu própiro ventre
Pensou engravidar-se da tartaruga
Mas, fez-ze apenas oblação
Será o javali santo ou assassino?
O Sujeito-Áporo
O SUJEITO-ÁPORO
© DE João Batista do Lago
Cava dentro em mim
O inseto amargurado
Solitário em sua dor
Cava… cava… e cava
Cava silenciosamente
Desesperadamente só
Cava sem lamento (e)
Tudo que encontra: pó
Só ele vê as crateras
Onde reside o pus (do)
Ser: verme em vulcão
Humano: danado cão
Pois mesmo escavado
Não se dá por vencido
E assim convencido
Gera-se deus-inseto
Metamorfoseia-se!
Orquídico em Fénix
Surgente das cinzas
Vê-se sujeito presente
- Inseto agora ausente –
Voltado das cavernas
Pretende ser gente (e)
Plantar orquídea essentia
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Abdução
© DE João Batista do Lago
Os olhos do meu quarto
Espreitam o monstro esférico
– Nele há um mistério de deus e diabo –
A begônia trepadeira me sorri
E me pergunto:
- O que será que ela quer?
- Quererá me ornar?
- Quererá me curar?
[...]
Os olhos esféricos me observam!
A begônia é uma matilha de lobas famintas
Seja jarro; seja carne
Ela me espera com olhares de paixão
Não resisto
Corro em sua direção...
(Alma e espírito foram abduzidos!)
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Angústia
Angústia
© DE João Batista do Lago
calaram-se:
o criador e a criatura!
o verbo não se lhes fora suficiente
para a tripudiagem
que se lhes emana de almas vagabundas
calaram-se:
o criador e a criatura!
agora tristes e insuficientes
perderam o tino a coragem e a vergonha
- não tenham medo de perder a opinião! -
os deuses são assim: feitos de ilusão absoluta
não tenham medo de perder santos e anjos
aqui no inferno vos dareis abrigos
aqui podereis espiar vossas miseráveis felicidades
e podereis ter a justa angústia de si
e a certeza da remissão de pecados
vinde, pois, criador e criatura
aqui vivereis com seus humanos
aqui sabereis da virtude dos demônios
seres encantados, mas reais profanos
adoradores das imagens sagradas
dos infernos mais profundos do ser
vinde, ó criador... ó criatura...
o vinho da poesia nos confortará
nele dissaparemos todas as dores
dele sairemos embriagados
e depois de torturados pelas ressacas da incompetência
haveremos de bebê-lo
e de novo dele renasser plenos de consciência
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Carta ao poeta Tonicato Miranda
Curitiba (PR), sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Prezado Tonicato Miranda
Bem sejas.
Caríssimo poeta.
O “devaneio” diurno – aos meus olhos – tem maior significado que os “sonhos” noturnos. Mas, antes de tudo, infiro que este “campo” de devaneio ou do sonho pode ocorrer na sua metástase inversa. E ninguém melhor que os poetas para “si” nos dizerem destes fenômenos. E como sabem, muito bem, diferenciá-los os poetas sem que, para isso, façam qualquer tratado (ou mesmo teoria) psicológico ou psicanalítico!
Tenho em conta que, por isto mesmo, os poetas, transcendem os filósofos e os psicólogos. O poeta toma a natureza bruta do fenômeno e constrói, num verso ou numa poesia, toda a história do humano.
E é esta práxis que transforma o poeta num fenomenólogo, pois sabe o poeta, pela “intuição do instante – (G. Bachelard)”, que é preciso lutar contra a predisposição que leva a considerar os resultados dos processos perceptivos como descrições objetivas do mundo e os conteúdos ordinários da mente como verdades obvias.
Ao contrário – ensina-nos Edmund Husserl – é preciso assumir atitude fenomenológica, desinibida, desinteressada e crítica em relação aos hábitos mentais do próprio sujeito.
O texto escrito acima, caro poeta, decorre de posterior “leitura” de “uma” sua poesia publicada em PALAVRAS, TODAS PALAVRAS1.
E que bela poesia!
E que intuição do instante brutalmente fenomênica!
Cresci aprendendo e apreendendo que nos menores frascos encontram-se os melhores perfumes. E, permita-me a analogia, pois, em LUZES DA TARDE2 encontramos um frasco de perfume poético capaz de tornar o mundo mais cheiroso. Um frasco de perfume poético que estava (e é) guardado no “cofre” que “reside” no solar da casa-corpo! Perfume poético, que de tão estonteante fez abrir o guarda-roupa, não para perfumar uma roupa qualquer, não para perfumar uma roupa que “veste o ego”, mas para de lá arrancar num final de tarde deste agosto um corpo - “o corpo-casa” - que lá estava guardado e estendido num cabide, como se fora um corpo-smoking velho e surrado e apertado simetricamente verticalizado entre tantos outros black-tie (já) quase sufocados pela falta de oxigenação.
E quanta e tanta dialética da estética num dia de agosto, há “antes que a tarde acabe”!
O “sujeito” que fala em LUZES DA TARDE briga autocriticamente ou ao autocriticar-se com o real e a realidade implícita em si: “dúvida que de mim duvida/mais um desenho a fazer/ou num poema me fazer”.
Permita-me, poeta amigo, extrair destes versos, imagens (ou desenhos) agora puramente minhas. E começo a construção dessas imagens por uma pergunta que se me ocorre nesta minha intuição do instante: o que há ou melhor, noutras palavras, o que houve, o que de fato ocorrera “antes que a tarde acabe”?
Ocorre-me a seguinte ilação: eis aqui a questão central; eis aqui a chave do corpo-casa (armário de sentidos). Eis a chave que abre e que revela “o espírito obrando sua casa”; eis a chave que revela o corpo-casa fazendo uma tipologia fenomênica de metempsicose: “olho à janela e vejo a luz”.
Ao se colocar na primeira pessoa do verbo, o “sujeito” que fala na poesia transmuda-se; já não é mais o espírito do corpo-casa, mas a casa-humana, a casa-em-si, a casa-mesma, o ente, o ser, o poeta, o “sujeito” que faz e dá sentido à sua mundanidade!
E é assim, e somente assim, que, aqui e agora, o “sujeito” (já) posto em toda sua mundanidade, consegue “dialetizar” o fenômeno de “sentir” e de ter a “sensação” do “ar parado/o calor manso desta tarde”.
Quanta “intimidade” há no desvelo deste armário-casa!
E, se me permita, ainda, caro poeta, mais esta ilação imagética: se tomarmos a palavra armário como “um” centro de intimidade da casa-corpo ocorre-nos imaginar o devaneio (imagem) que esta palavra se nos provoca!
A primeira sílaba desta palavra - “ar” - desvela o caráter do ar que sufocava o “corpo-smoking velho e surrado e apertado simetricamente verticalizado entre tantos outros black-tie (já) quase sufocados pela falta de oxigenação”, que mencionei lá atrás.
E na mesma dimensão da imensidão desse espaço de intimidade, a última sílaba - “rio” - finda a palavra num outro fenômeno: o rio.
Porventura não é um rio, isto é, suas águas, um estádio perene de movimentos constantes e inacabáveis?
É claro que sim!
Então o que isso quer-nos dizer?
Aos meus olhos, esta imagem agora revelada significa que o “ar parado/no calor manso desta tarde” é o ponto de libertação da “dúvida que de mim duvida”, ou seja, é melhor que o ar fechado, preso, inerte e sufocante da casa-corpo (armário).
Mas a imagem desse movimento vai mais além! E se completa totalmente quando o “sujeito” que fala na poesia infere que, neste final de tarde de um dia de agosto há “borboletas belas na tarde”.
Que imagem fantasticamente fenomenal!
As borboletas são as rainhas do movimento! São incansáveis nas suas formas de movimento! São insuperáveis nos jogos dialéticos do movimento!
Não é, pois, à toa que o “sujeito” que fala na poesia, depois de extasiar-se com a intuição deste seu instante fenomenal, resolveu, enfim, declarar-se definitivamente separado do seu paradigma de racionalismo idealista para assumir, por definitivo, sua condição de “sujeito” mundano-existencialista, e nesse sobrevôo vestir a roupa mais simples, porém, a mais perfumada; perfumada com o perfume de um existencialismo concreto, onde dúvidas, egos, vontades, desejos, hábitos, crenças, fé, religião, pré-juízos, juízos, pré-conceitos, conceitos... fiquem todos entre parênteses: “a vontade de desenhar [geometria do racional] perdeu/para a vontade do poema [geometria do devaneio]”.
E de posse dessa “epoché fenomenológica – (E. Husserl)” renascer do “rio” de uma armário velho, para navegar na correnteza do “rio” prenhe de movimentos em direção ao “mar” (que também reside na palavra armário) de conhecimentos plenos: “foi bom não perder a tarde/farei desenhos mais tarde”.
Foi assim, meu caro poeta, que sua poesia veio residir em mim.
Evidentemente não sou nenhum psicólogo, não sou nenhum psicanalista, não sou nenhum crítico literário. Possivelmente nenhum destes concordem com as minhas palavras (e provavelmente não concordarão!) sobre a sua poesia, que até poderá ser vista por eles como meras palavras ou como uma poesia banal, de palavras banais; ou mesmo como um grande texto, uma poesia excepcional, de significados e significantes meta-existenciais, corolário de patologias sexuais ou de estados de mentes esquizofrênicas, donde – eles – possam extrair um não “sei quê!” de excentricidade para justificar suas rabugices ou suas regurgitações acadêmicas.
Quanto a mim, caro poeta, é preciso que o diga, elas vêem consolidar imagens mentais que povoam a consciência dum poeta que crê na fenomenologia do instante, no brutal instante em que surge: avassalador, incorrigível, irracional, animal, feroz, deblaterador... enfim, visceralista, donde sua única forma é a forma que chega no seu formato fenomenológico... gestáltico... ou mesmo louco... ou mesmo patológico...
Peço-te, meu caro poeta, mil perdões pela subversão que pratiquei no teu texto.
Ao encerrar esta missiva, peço-te mais perdão pela indiscrição de dar publicidade em alguns espaços que mantenho na globosfera.
Atenciosamente
João Batista do Lago
http://joaopoetadobrasil.wordpress.com
http://joaobatistalago.multiply.com
http://batistadolago.blogspot.com
2LUZES DA TARDE poema de tonicato miranda
Agosto 21, 2008 14:40 pm de Equipe Palavreiros da Hora
para os palavreiros
antes que a tarde acabe
dúvida que de mim duvida
mais um desenho a fazer
ou num poema me fazer
não falo de fazer como quem
veste o ego ou uma roupa
mas de fazer o corpo-casa
o espírito obrando sua casa
olho à janela e vejo a luz
apraz-me este ar parado
o calor manso desta tarde
borboletas belas na tarde
a vontade de desenhar perdeu
para a vontade do poema
foi bom não perder a tarde
farei desenhos mais tarde

