segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

PASSAGEM DE ANO

Por João Batista do Lago

O céu da cidade brilha
Fogos coloridos dançam no ar
É um balé de fogos em explosões
Manifestação de corações
Que se juntam no tim-tim de taças
Cheias de vinho e esperanças
Vazias na hora seguinte dos abraços
Revelam o novo ano das desgraças
Que se eternizarão nas massas

Adeus Ano Velho!
Feliz Ano Novo!

E assim o eterno decadente povo
Arrimo da existência perdida
Festeja nos banquetes sua diáspora
Esquece toda dor... toda miséria sofrida
E embriaga-se de novos sonhos
E adormece sua consciência
E cala sua guerra na paz conveniente
E aceita o “ora pro nobis!” convincente
Que consome toda alma e toda mente

Adeus Ano Velho!
Feliz Ano Novo!

8 comentários:

Menina_marota disse...

De um Poeta para outro Poeta... já que as minhas palavras são pobres para responder...


"Carta A Um Poeta"

"Meu amigo Poeta
ontem chegando em casa abatido e entediado
(e eu moro bem no alto de Sta.Tereza
e da minha janela a cidade distante
tem uma outra grandeza
e uma expressão parada de sonho e torpor...)
- abri teu livro
e confesso,
que muitas vez fechei-o deslumbrado
para bem penetrar toda a sua beleza
e para melhor sentir todo o seu esplendor!

Ao chegar tinha os ouvidos surdos, cheios
da algazarra das ruas
e nos lábios um gosto de poeira
e de fel,
(toda tarde, ao voltar, eu devo ter esse ar
mais morto do que vivo,
de um fugitivo
daquele mundo louco que anda lá por baixo
num tremendo escarcéu. . .)

Amigo Poeta,
quantas vezes já escancaraste tua janela
assim como quem pendura na parede do quarto
uma viva aquarela
onde a paisagem foge até perder de vista!
E em silêncio ficaste a pensar como eu fico
absorto, sem razão,
no quanto há de sublime em nossa alma
de artista,
bêbeda de sonho
e louca de inquietação!

Tu sabes, eu o sei, nós dois sabemos
quanto é inútil, sendo bela,
essa ânsia detua alma eternamente inquieta
e esses desejos meus. . .
Mas, quem pode matar também dentro do Poeta
Essa fé que acredita em cousas que não cremos
E esse desejo louco de querer ser Deus?!

Os poetas são, pelo mundo, ora uma sombra amena
e distraída
que erra,
ora uma luz serena
e colorida
que a essência da própria Vida
descerra!
- são sobre-humanos troféus,
as lembranças que os deuses deixaram
na Terra
depois que um dia voltaram
para os céus!


Ao voltar para casa no silêncio
das horas de descanso
longe do mundo,
foragido
da vida, em seus tons mais fortes, mais diversos,
que bem faz um poente a fugir tão manso
e a gente se sentar, e abrir folha por folha
lentamente, comovido,
um livro cheio de versos!

Porque à hora em que o céu se enche todo de estrelas
que as mãos fecundas da noite vão semeando,
na alma da gente, azul, uma emoção penumbra
vai baixando
como a tarde que desce trêmula e discreta.. .

Essa hora, feita de tons, de meios-tons suaves
quando em bandos no céu, se recolhem as aves,
é sempre a melhor hora para conversarmos
com um poeta!

Meu amigo Poeta
como sabes sentir! os estranhos, os leigos
os ignorantes
dirão
que o que há pelos teus versos é imaginação,
beleza de linguagem
festa de imagens loucas,
mas não compreenderão
(ah! as almas como a tua são tão poucas!)
o que eu só pude ver, eu só pude entender
nessa encantada viagem,
porque eu sou teu irmão!

Não compreendem tua alma vivendo
agora um trecho feliz
depois de um dia tristonho
em mil segundos de intranqüilidade!
Coitados! não podem ver que essa imaginação
é a trepadeira verde que dá a flor do sonho
mas que nasceu no entanto
da verdade!

Não sabem que a alma da gente
por mais direita que se
contornando as surpresas e os espinhos,
é muita vez incoerente
e sinuosa, como os caminhos!

Não vêem que o que está no papel é a impressão
da nossa alma,
a ressonância da vida,
o que ficou cantando em nós, depois que a vida
passou...
aquele ruído do mar, nas conchas, que uma criança
tirou de dentro do oceano
e sem querer guardou!

Que o poeta é aquela concha, e aquela concha é um pouco
do coração imenso e louco
do mar!
Poesia é ressonância
é música à distância
é ânsia!
voz que vem não sei de onde, e que canta na sombra
e fica em suspenso no ar!

Se a vida é a noite, a sombra... a poesia é o luar!

O Poeta, quando é grande,
é a fronde que cresce, e se eleva, e se expande,
e se enche com a algazarra e a música dos ninhos,
e abriga o caminheiro exausto e trôpego
dos caminhos,
é fronde (folha e flor) é som, é movimento
de ramos, ao vento,
ou ao sopro suave
da viração. . .

E os outros homens são sementes que caíram
e não nasceram
nem se abriram
e ficaram estéreis dormindo no chão!

Meu grande amigo e Poeta
benditos os que como tu trazem
a alma de harmonias repleta,
felizes os que como nós,
podem desabafar consigo mesmo
e ainda encontram consolo ouvindo a própria voz!

Benditos os que foram sementes fecundas
e à luz do sol surgiram,
se abriram
e cresceram,
e sobre todos os quintais vizinhos
foram levar a música dos ninhos
e a alegria dos ramos que se enfloresceram!

No mundo exausto e cansado, na vida que entedia,
mesmo irrequieta,
bendito aquele dia
em que nasceu o Sonho! e em que cantou o Poeta !"

(Poema de J. G.de Araujo Jorge
do livro "AMO !" 1938)

Um Abraço e feliz 2007, pleno de Poesia.

Rosa Brava disse...

Um Feliz 2007

Abraço ;)

Cris disse...

Excelente!

Quebro o silêncio para lhe deixar um desejo:


Que bom que era, se fosse festa
Aqui,
Ou aí,
Mais logo!

Que bom que era,
Se não dormisse
Sob pedaços de cartão!

Que bom que era
Se lhe conhecêssemos o sorriso,
Vestido de Janeiro quente de Sol!

Que bom que era
Celebrarmos todos juntos
A Felicidade
Ao ouvi-lo dizer
(Velho ou Novo,
Pouco importava!)
Sou Feliz!


Cheguei aqui pela mão da Heloísa...em boa hora!
Permita-me que o junte aos meus blogs favoritos.

Um abraço,
Cris

VERBERANDO disse...

Bem-vinda sejas!
Heloisa é uma amiga muito estimada que ganhei por essas vias. Assim como Menina Marota e o Henrique Sousa. Espero que te juntes sempre a nós, nesta "casa" onde abrigamos palavras, versos e poesias.
Bem-vinda sejas, pois!

Cris disse...

Obrigada :-)
Os Amigos da Minha Maninha Heloísa são meus Amigos também, tal como cantava o nosso tão saudoso Zeca Afonso.
Deixo te o Poema que diz tanto!

Traz outro amigo também

Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja benvindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também


José Afonso

Cris disse...

Não sei se nessa margem se cantam as Janeiras.
Aqui, até há bem pouco tempo, era delicioso receber os grupos de rapazes e raparigas desde o dia 2 até aos Reis (6 de Janeiro)

Deixo-te, então esta bela cantiga, que se espalhava por todos os lares que nos quisessem receber.
Depois?
Depois o dono da casa servia a ceia e brindava-se o Novo Ano.
Está a perder-se a tradição, mas que era por demais bonita, era!

Se conseguir, por email, enviar-te-ei a versão das Janeiras do Zeca Afonso, salvo erro, incluida no seu trabalho, "Cantares de Andarilho" de 1968.

01-Natal dos Simples
(Cantar as Janeiras)

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura

José Afonso

Que seja um Bom Ano para todos!
Bem hajas, Amigo!

Menina_marota disse...

Meu querido Amigo, espero que não se importe que tenha roubado das suas "Poesias Coligidas" que teve a gentileza de me enviar e postar no "Ora Vejamos..." também, um soneto que me apaixonou... e que ousei postá-lo aqui...

http://roseiraldoamor.blogspot.com/

Um abraço carinhoso e bom fim de semana ;)

Rosa Brava disse...

O Poema de sua autoria, também poderá ser lido aqui...

http://horabsurda.com/moodle/mod/resource/view.php?id=149

Um abraço carinhoso e grata por tanta partilha ;)