segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

O CIO



Por João Batista do Lago

A madrugada é primaveril
Lá fora não há calor nem frio
Da janela do meu quarto
Olho uns quintais com suas casas
Num dos quintais uma cadela no cio
Do outro lado da cerca de arame
Um cão tortura-se em amantes latidos
A cadela assanha-o ainda mais
Encosta o sexo na cerca e permite-lhe a lambida
O cão ensandecido de desejo rodopia de alegria
Corre de um lado para o outro em desarmonia
Tenta escalar a cerca de arame em agonia
Tudo em vão
Resta-lhe a condenação de ser apenas cão

(no meu quarto ouço uma serenata: Brahms)

Da janela do meu quarto
Interiorizo-me na alcova dos casais
Quantas mulheres com o sexo em brasa
Recostam em cada marido distante
Ressuam o corpo como perfume exalante
Da flor-dos-amores em cio suplicante de carícias e beijos
Nenhuma cerca as separa de seus amantes
Apenas o ronco estridente e o ranger de dentes
Daqueles que outrora foram grandes amantes
E o cio assim dessas donzelas em cio
Aos poucos vai morrendo a cada desafio
Sem saber se é mulher ou apenas calafrio
Numa noite de primavera
Onde não faz calor nem frio

(no meu quarto a serenata de Brahms finda)

7 comentários:

vlad leon 3 disse...
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vlad leon 3 disse...

Parabéns, Migo João Batista, pela poesia CIO, profunda, sensual e inovadora. Teu estilo é leve, puro, nítido, envolvente. ABÇSSSSSSSSSSSSSSSS!!!

VERBERANDO disse...

Amigo Vlad, além de poder interagir você pode mandar suas poesias que eu as postarei também. Um abraço e boa semana.

Menina_marota disse...

"...Aos poucos vai morrendo a cada desafio
Sem saber se é mulher ou apenas calafrio
Numa noite de primavera
Onde não faz calor nem frio..."

ou nas minhas palavras...


É noite... nada vibra...nada fala...
Tudo mergulha num sonho vago e mudo.
E a solidão desprende-se de tudo
Qual bálsamo subtil que a noite exala.

Silêncio...estou sozinha...eu me desnudo
Manifestando a dor, sem disfarçá-la.
E por adormecê-la e suavizá-la,
A noite envolve a terra, qual veludo!

Eu não quero quebrar esta magia!
Silêncio...a noite morre...é quase dia.
E eu não sei quem sou, nem onde vou.

Nada murmura...nada...tudo dorme.
A noite é para mim deserto enorme,
Aonde meu destino me atirou!



Um abraço e grata pela partlha da tua poesia.

Menina_marota disse...

Brahms... uma boa escolha!

Gostei.

Um abraço ;9

Johannes de Silentio disse...

Bela poesia, João Batista!

Expressa-se poeticamente um problema cada dia mais comum entre casais de um mundo urbanizado e atordolhado pelo ativismo do mundo globalizado.

Abraços!

Johannes de Silentio disse...

digo, atordoado pelo ativismo ...