sexta-feira, 26 de outubro de 2007

HEDONISMO

HEDONISMO

© by João Batista do Lago

O capricho dos deuses
É pura ignomínia
Destinaram-me aos prazeres
Mas roubaram-me a hedonímia...

Assim subjugado
Maldito e condenado
Carrego este fado

Maldito – repito! - este destino
Que me tira o rumo e o tino
Das vidas outrora prazerosas
Entre deusas amorosas
Que a Juventude carnosa
Virtuosa e valorosa – em rosa
Reinava em bacantes dionisíacas

Depois dos vários prazeres
Restou-me deles os faleceres
Das fugacidades vivídicas
Hoje nem mesmo os saberes
De aretes apolínicas são verídicas
Aretes não são hedônicas – são vidas jurídicas
Distante – e longe – das bacantes dionisíacas

Mas negam-se os deuses
Aceitarem tamanha tirania
Desde os tempos de Elêusis
E para resgatar a Ética
O grande Zeus já dizia:
“- Não são os deuses, mas sim os próprios homens,
que pela sua imprudência aumentam os seus males”.

[…]

Maldito e condenado
Carregando este fado
Assim subjugado

Este Homem sem destino – sem tino
Segue transferindo seus lamentos
Procurando encontrar para suas dores
Um campo dêitico para deitar seus horrores

CARTA PARA OUTRO-EU

© by João Batista do Lago

Olá, meu caro.
Há quanto tempo não nos falamos!
Gostaria de ter notícias tuas...
Como andas? O que tens feito da vida?
Sabes, ainda ontem andei pensando em nós dois.
Quando éramos crianças (lembras?)
brincávamos no alpendre lá de casa,
corríamos por entre quartos, paredes e corredores...
Ah, o Rex sempre nos atormentando,
atravessando nossos caminhos
mordendo nossos tornozelos...

- Parem, meninos, parem com essa correria.
Gritava mamãe sempre que passávamos por ela,
escrava que era daquela máquina de costurar:
tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic...
tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic...
Assim ela ia cosendo nossas vidas, nossas histórias... e nossas estórias.
Dia após dia de intermináveis costurares!
Mas nós continuávamos a brincar, a correr, a pular:
E ela: - Parem, meninos, parem com essa correria – insistia em nos alertar.
E a máquina: tchic, tchic... tchic,tchic... tchic,tchic... tchic, tchic... tchic,tchic...
tchic, tchic... tchic,tchic... tchic,tchic... tchic, tchic... tchic,tchic...

Ah, meu caro, tenho pavor às saudades, mas
percebo que hoje, ao alcançar esta minha idade,
elas se apresentam tão salientes que são difícil não escutá-las.
Elas estão presentes em tudo e em todos os lugares!
Ó, amigo, essas saudades são de amargar, me
incomodam e se instalam em qualquer lugar
ficam o tempo todo a me vasculhar...
Saudades são como carrapatos de almas,
verdadeiros parasitas inconfessos
sanguessugas de velhas e novas lembranças, (que)
roubam a consciência da presente esperança.

Sabes! Hoje tenho nítida sensação de me haver
internado numa masmorra. Sinto-me preso.
Estou isolado num infinito labirinto.
Não sei quando entrei... e nem por onde.
Não encontro portas de saída. Estou só.
Vago noites e dias entre as paredes frias da
minha masmorra sem portas. Ouço o
lamento do vazio num eterno calafrio de
vozes que me vêm do além mais próximo de mim:
ecos de dores... de horrores. São
quermesses do nada exaltando o meu fim.

Vês, meu caro, o quanto sinto tua falta?
Preciso-te. Necessito alentar minha dor, pois
somente a palavra do poeta – palavra de sofredor! -
não resolve a carência maior de minha paixão em flor.
Sim! Preciso-te, caro amigo, para
novamente corrermos entre quartos, paredes e corredores
conversarmos com o vento e a infância, sem
precisar ficar espantado com a adulta ignorância.
Sim! Preciso-te. Urgentemente preciso-te.
Preciso-te para viver minha eternidade de criança.
Preciso-te para sair desta masmorra. Deste labirinto.

Abraço-te, meu caro.
Eu.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

EUNOMIA

EUNOMIA

© by João Batista do Lago

Não sou filho,
Apenas - e só –,
da Idiotia.
Mas sou filho,
Apenas – tão só –,
da Política:
na transcendência
sou imanência;
do divino, sou o profano;
da exterioridade sou a subjetividade;
da phisys sou o espírito;
no sensível sou res extensa
no inteligível sou res cogitans

[…]

Sim, sou filho
Apenas – e só –
da Metafísica,
da Matemática,
da Ilusão e
assim sou Razão.

[…]

Sou Zeus.
Sou Mito.
Sou Deus.

[…]

Sou tríade:
Idéia Absoluta.
Uno.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

ETERNA PAIXÃO

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ETERNA PAIXÃO

by João Batista do Lago

Como jardineiro solitário
Reguei cada flor dos (nossos)
Desencontros nunca marcados (e)
Em cada rosa
Plantei uma pétala de versos
Pensando um dia ela fosse colhida
Pelas mãos da Justiça
Oh! Themis
Hoje trago espinhos nas mãos (e)
A mesma esperança d’um dia
Ser-te espada e balança (e)
Com a doçura do nosso amor-criança
Ver nascer do jardim-infância
Aquele amor-paixão (quase)
Esquecido no jardim da ilusão

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

SONHO ESTRANHO


SONHO ESTRANHO


© by João Batista do Lago

Ontem a noite tive um sonho…
Lá pelas tantas da madrugada.
Um sonho no mínimo estranho.
Desses difíceis de revelar.
Sonhei que tinha morrido num
domingo de primavera.
E tão bela a morte me viera
trazendo consigo a bela Quimera!
Oh! Quão bela donzela:
Metade mulher; metade serpente
Ah, essa Quimera ardente
transfromou a pedra fria em
leito quente e me amou
despudoradamente… apaixonadamente…
Ah! essa Quimera envolvente não
tinha cabeça de leão, nem
tinha o dorso da cabra, tampouco o
a parte posterior do dragão.
Ah, essa quimera só tinha paixão
e me amava, a mim, Belerofonte, em desrazão
sobre o dorso de Pégaso a caminho do Olimpo
onde somente os deuses amam com total razão.
- - - - - - - - - -
Crédito da Ilustração: http://www.casadacultura.org/arte/arte_digital/bruno_santos/quimera_grd.jpg

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ÓPERA DO HUMANO

ÓPERA DO HUMANO

© by João Batista do Lago



Proliferam deuses… Senhores donos do mundo!
Surgem da escuridão e das noites dos tempos
Eterno movimento de sanguessugas modernos
Encenam no teatro da vida a tragédia dos infernos

Desventura da miserável ópera humana
O homem protagoniza o enredo da sorte
Entoa em salmos sua oração mais profana:
Vencer o irmão e subjugá-lo até a morte

Oh! Atores das desgraças abissais
Homens desgraçados por séculos serão
Tua triste sina não se findará jamais

E quando tudo restara sem esperança
No encanto da criação só restará do
Humano o homem feito danado cão

sábado, 20 de outubro de 2007

ODE A SÃO LUIS



ODE A SÃO LUIS©

by João Batista do Lago

Ó tu, leito-mãe dos Tupinambás
Reina dos mares do Sul, sois vós
Vitoriosa, oh! amada Upaon-açu
Carregas nome e cetro de realeza
N’alma saber e virtude de Atenas
No peito o brasão de viva Natureza

Ó tu, São Luís – Ilha dos Amores!
Amada de francos, lusos e neerlandeses
Sois vós o encanto de Arúspice
Profeta da vossa eterna glória e pureza:
- Vosso destino é conservar em si toda beleza
serás deste teu Orfeu a eterna Eurídice

Ó tu, São Luís – Jamaica brasileira
Sou-vos grato pela vida inteira pois
Sabei-vos de muitos ser uma só pessoa
Jamais vos deixaste vencer. Sois guerreira!
Ainda que vos queira estuprar o monstro da modernice
Haverá sempre um filho teu que não fugirá a luta

Ó tu, São Luís – Cidade dos Azulejos
Perdoai o jugo da desgraçada sorte (e)
Tomai por exemplo o Cristo da hora da morte
Perdoai os filhos que vos sangra em realejos
Todos serão defenestrados, enfim, para que
Possamos amar-vos entre ruas e curvas de azulejos

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

FIÉIS




FIÉIS

by João Batista do Lago


Vês

Quanta gente-nada

Assiste ao sermão da

Mumificação do ser?

Essa gente desesperada na

Eterna busca do não-sei-o-quê

Alimenta a dominação

Enriquecendo a igreja da alienação.


Vês

Quanta alma é contrita na

Infinita diasporia da

Crucificação do não-ser?

Essa alma regalada

Revelada em pecado

Cai de joelhos aos bocados e

Morre dia-a-dia na igreja que não crer.


Quanta gente se acredita

Desgraçada eterna ser

Busca em cada esquina… Em cada igreja

Um deus-qualquer para vencer

Presas fáceis são do falso saber

Cristos de toda alienação

Reféns fiéis da dominação

Proscritos e miseráveis continuarão.

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Crédito da Ilustração (foto): http://cidadesdobrasil.com.br/img_cn/IMG14-522-820.jpg

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O QUARTO




O QUARTO


(Para Marconi Caldas e Mário Lincoln)

by João Batista do Lago

No quarto resido com minha intimidade
Segredados na clausura da não-presença
Ouvimos as vozes da casa-fantasma (que)
Fala da vida enterrada em seu sepulcro
Há choro em cada gargalhada desesperada
Onde subjaz o Ser defenestrado do si

O quarto é o único lugar onde não desespero
Espaço sagrado onde converso com mortos-vivos
É de lá que muitas vezes atravesso a porta
Sabendo que não terei companhia da vida vazia
- alma que perambula pela casa –
Prenhe da solidão sarcófica da razão posta

É o quarto assim: a minha casa de paz e saúde
Local onde exerço minhas operações…
Onde cozinho os pratos mais perfeitos
Onde minh’alma e eu – e minha intimidade
Nos deitamos para o gozo mais supremo
Onde nas madrugadas chegamos ao extremo

Na sala do meu quarto recebo os ilustres
Conversamos por horas sem a linha do tempo
Tempo que enfeixa… que amarra as almas
No meu quarto o tempo não crucifica… não prende
Nem mesmo tem tempo de ter calma… nem pressa
Do meu quarto depois da travessia não se regressa
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Crédito da Ilustração(foto): http://users.design.ucla.edu/~badgerow/Db-room.jpg
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VAZIO



VAZIO

by João Batista do Lago

A casa está vazia
Há vazio em toda casa
As pessoas da casa: vazias!
Há vazio em toda casa
Que se esvazia de transeuntes
De olhares vazios
De palavras vazias
De pensares vazios

[…]

Na casa vazia apenas um sujeito: TV
O sujeito vê a casa vazia
As pessoas vazias
Olhares vazios
Pessoas vazias
Pensares vazios
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Crédito da Ilustração (foto em p&b): http://mentehumana.weblogger.terra.com.br/img/vazio.jpg
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domingo, 7 de outubro de 2007

PRIMAVERIS


PRIMAVERIS

Tuas coxas de primavera

Primaveris

Secretos segredos guardam

Da flor do sexo

Sequioso de

Embeber-te da

Mais pura e límpida água que

Brota como sumos da terra (da)

Mais pura terra que de mim há

Carregas em ti o

Centro da vida da primavera

Primaveris

Almas que se segredam em

Secretos exalares da

Flor mais pura de cheiro mais túmido

Essência que se me preparas na

Alcova do teu corpo

Sacrário exótico da (minha) eterna paixão

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Crédito da Ilustração (foto): http://www.agriturismovetriceto.it/images/immagini%20stagioni%20primavera.jpg

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segunda-feira, 28 de maio de 2007

PASSAGEIRO DO EU

PASSAGEIRO DO EU

Por João Batista do Lago

Sou-me – de mim -,
apenas eu – e eu mesmo -,
passageiro da própria passagem.

Espelhado em águas de mares
reclusos, como nau perdida em alto mar,
tornaram-me (re) excluso de portos seguros.

E assim, de posse da minha lepra e da minha loucura,
erguido como representação de anti-poder,
jamais fui construído sujeito mensurável para ser calculado.

Fizeram de mim um vivo morto – ou morto vivo! -
quando me beijou a face, o patrão, no horto das oliveiras,
quando me excluíram e me internaram no palácio dos leprosos.

Venturosos da nau dos loucos, de poderes moucos,
estabeleceram no campo das açucenas
quermesses de dominações sem quaisquer penas.

E lá recluso, e excluso, de mim e do mundo,
açoitado pelo poder como qualquer vagabundo
continuo louco, recluso e excluso, passageiro da própria passagem.

A nau – este mundo -, leprosário da minh’alma
reflete em águas profundas o impuro narciso do poder
num vai-e-vem de ondas mortais de loucos e leprosos.

E agora, já definitivamente condenados, todos – e eu -,
passageiro da própria passagem já não encontro portas de saída
para enfrentar o meu fetiche... Para deitar minha lepra e minha loucura!

quarta-feira, 23 de maio de 2007

DIÁLOGO DE ATHENAS

DIÁLOGO DE ATHENAS
(Réquiem a São Luis)

Por João Batista do Lago

- Olá, poeta.
Há quanto tempo não nos víamos!

- Que olhares,
Que visões têm da ilha?

- Carrego ainda olhares de Athenas,
Visões de um tempo de querências.

- Ainda bem que podes tê-las,
Pois cá não mais a temos... Tudo é demência!

- Da arte que conhecestes pouca coisa restou.
Hoje há muita miséria, violência e dor,

os jardins da cidade não têm mais flores,
as rosas sumiram, os jasmins secaram.

Sobraram as dores dos desamores
e a cidade poeta virou bandida.

Hoje as almas são dormentes ambulantes
De um bonde carregado de miseráveis,

de miseráveis criaturas sem espaço,
sem rosto, sem fé, vermes sem sacristia,

carentes e tolos viventes de vida sem vida,
sem qualquer guarida de telhados e azulejos,

sem histórias, sem eira nem beira,
sem mar e sem praias, sem sal e sem terra.

Ó, poeta,
as gentes dessa cidade já não têm sol

e nem mesmo a lua flutua em suas almas
para lhes sincronizar a sinfonia de Dionísio,

pois elas perderam o riso da harmonia
e se tornaram almas mortas de agonias.

A cidade, poeta, hoje é “apenas”
alma que pena suas dores e seus horrores,

dissimulada de Athenas sem cantores,
sem poetas, sem poesia,

ilhada no besteirol da vaidade comum
pensada, apenas, na vermelha lama do consumo.

É assim, hoje, a tua ilha: cercada de grilhões
que aprisionam Prometeus nas rochas da ignomínia,

que favorecem os tufões da incompetência
que se sentam à mesa dos poderosos

e diante de um lauto manjar
exigem dos poetas a continência,

exigem toda reverência
para lhes legitimar toda incompetência.

Poeta... Perdemos os telhados.
Todos os telhados perdemos.

Perdemos as sacadas.
Todas as sacadas perdemos.

Perdemos nossas ruas.
Todas as ruas perdemos.

Perdemos nossas fontes.
Todas as fontes perdemos.

Não temos telhados,
nem as sacadas temos.

Não temos ruas,
nem as fontes temos.

Estamos sós... Ilhados estamos.
Perdidos – todos – somos, poeta.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

ESTA MULHER - (DIA DAS MÃES)

Esta Mulher

João Batista do Lago

Vejo hoje esta mulher
(ou seria apenas uma semimulher?)
de tantas lutas, de tanta força
consumida e consumindo-se nos dias do dia-a-dia

vê-se nela
a ausência
da carente
alegria
não-presente!

O tempo maldito no espaço da vida
- há tempo – que lha toma o tempo sem pena de morrê-la...

Cadê os brilhos dos seus olhos?
Para onde foi sua juventude?
E aquela garra que só ela dispunha?
E a palavra forte
(mas justa)
da hora do castigo?
Onde está o beijo da noite que me acomodava na rede em balanço?:

Boi... boi... boi...
boi da cara preta
pega esta criança
que tem medo
de careta.

Lembro daquela mulher ainda orgulhosa
dos seus feitos diários:
ao amanhecer o serviço do café
durante a manhã a tarefa leva à casa limpa,
ao fogão e ao almoço das 13 horas
quando a presença do marido já se fazia presente.

A sesta era curta
e logo ela tornava ao trabalho ainda hoje
não remunerado... não reconhecido;
muitas vezes criticado
(e quantas e tantas vezes criticado!)
mais fogão, tanque de lavar, ferro de passar e o “banho das crianças”...

Assim era aquela mulher que hoje vejo
semiprostrada
sentada à cama
mendigando uma mão
para levantar-se
já sem forças
e combalida
esperando a morte chegar
como sina desta triste vida
que não lha deu oportunidade
que não fora a da procriação

Esta mulher hoje chama atenção pela sua contrição não devida
mas, e ainda assim, por vezes, tomo-a pedindo perdão com um terço à mão:
“onde foi que eu errei?”...
reza por mim e por meus irmãos
pelo Pedro não-presente
(quanta e tanta falta deste ausente!)
percebo no seu balbuciar silente
nas noites que se findam em cada si morrer
a necessidade do amor carente
que se eternizou
virou mito e
transmutou-se em fetiche
sem a consciência do amuleto

E nada posso fazer nesta minha impotência!

Sinto que cada dia do dia-a-dia de d. Júlia
é o pouco do muito que me resta
e por mais paradoxal que pareça
tenho que fazer disto uma festa
um estudo de caso
um laboratório
um consultório para minha loucura
um hospício para a minha cura
no fazer da brochura
apenas um poema de saudades antecipadas.

quinta-feira, 22 de março de 2007

POLUIÇÃO

Por João Batista do Lago

As ventas de Deus
de tanto entupidas
já não respiram vidas...
E de tanta fumaça
já não mais tem graça
do paraíso
que perdeu o sorriso
das flores e das rosas
e que aos poucos
cauteriza o ventre da terra...
.............................................
Estão entupidas
as ventas de Deus
pelo vírus do consumo humano

quarta-feira, 21 de março de 2007

PORQUE HOJE É O "DIA DA POESIA"


A POESIA É...

João Batista do Lago

A poesia lapida o diamante bruto.
A poesia amolece o coração xucro.
A poesia vê a beleza onde os olhos
enxergam apenas mísera tristeza.
A poesia desvela e revela
a alma do povo em cada nova palavra
como novo alvorecer.
A poesia transforma o ser.
A poesia briga.
A poesia deblatera.
A poesia chora.
A poesia ri.
A poesia ama e odeia e grita.
A poesia anoitece no amanhecer,
como amanhece no anoitecer.
A poesia acontece em qualquer ser.
A poesia é filosofia e
também sociologia.
A poesia é deus e o diabo.
A poesia é Horácio, é Hesíodo.
A poesia é Aristóteles e Platão.
A poesia é Jesus e João,
Herodes e Salomé.
A poesia é feita de Hércules e de Náusicaas.
A poesia é vida e morte.
A poesia é azar e sorte.
A poesia é língua, fala e linguagem.
A poesia é Paidéia.
A poesia é Arete.
A poesia é.

terça-feira, 6 de março de 2007

Os Ricos, os Pobres e a Globalização

Por João Batista do Lago[1]

Questionar a globalização e suas conseqüências dá-nos a impressão de malhar em ferro frio. Mas será isso mesmo? Devemos nos acomodar e aceitá-la sem quaisquer questionamentos? Devemos admitir, por definitivo, que o Mercado é o nosso “deus”? Devemos introjetar no nosso existir a submissão absoluta às rezas da igreja global? Devemos aceitar a demonização dos que insistem em discordar dos métodos e das metodologias dessa igreja? Essas são questões reflexivas...
Dizem os apologistas da globalização, ainda hoje, que ela é a medida exata para diminuir as distâncias entre pobres e ricos; que cabe aos mercados ditar as regras; que compete aos mercados propor e gerir as diferenças entre ricos, novos ricos, pobres e miseráveis. Será isto uma verdade insofismável? Será isso o que vem ocorrendo? Ou será que as nações pobres estão ficando miseráveis e as nações ricas mais trilhardárias, aprofundando assim ainda mais as diferenças? Essas são questões reflexivas...
Aos meus olhos, a globalização, é um engodo. É a forma mais sutil, porém a mais vil, a mais estúpida e a mais selvagem fonte de dominação de povos e nações pobres e miseráveis por parte das nações ricas. A queda das tais barreiras comerciais não passa de pura desterritorialização dos Estados-Nação que, assim, ficam vulneráveis e unicamente dependentes de um tipo de capital virtual que, num clique pode varrer do mapa nações e povos do terceiro, quarto ou quinto mundos.
Mas assim como para toda e qualquer ação temos uma contra-ação natural e original, assim está ocorrendo com a globalização (e não é de hoje!) que teimava em não mostrar, em segregar, em esconder, em reprimir a miséria e a pobreza existentes no mundo, sob o discurso de que o mercado iria resolver tais questões. Ledo engano. Os formuladores da globalização jamais imaginariam que a miséria e a pobreza, com a queda das tais barreiras comerciais, também se introduziriam como mercadoria ou moeda de exportação.
E agora o que fazer com esse paradigma?
Pois é. Esqueceram-se os ideólogos da globalização que a pobreza e a miséria poderiam constituir-se em causa-efeito desse mesmo paradigma universal: a globalização. Paradoxalmente essa mesmíssima globalização que serve para engordar a “burrinha” dos ricos, não dimensionaria uma vertente: a migração da pobreza e da miséria que se estão espalhando pelos seus quintais, noutras palavras, que se estão globalizando entre as nações ricas.
Em Londres (Inglaterra), por exemplo, jamais se vira, antes do advento da globalização, vendedores de hot-dog em frente ao palácio da rainha-mãe, que chegou inclusive a ficar incomodada (e reclamar) com o odor que exalava do apetitoso “cachorro quente”, bem conhecido entre nós, brasileiros. Esse é apenas um exemplo emblemático e com todas as tintas para a pintura de quadro surracionalista.
Quanta ironia!
[1] João Batista do Lago é poeta, escritor, teatrólogo e jornalista.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

POR QUE AS ELITES E A NEOBURGUESIA BRASILEIRASSE OURIÇAM QUANDO SE FALA EM GUERRA VIVIL?


Por João Batista do Lago[1]
Esta questão ocorreu-me após uma entrevista que dei ao jornalista Mhário Lincoln, editor do portal MHARIO LINCOLN DO BRASIL[2], no domingo de carnaval, mas veiculada somente na quarta-feira de cinzas, onde, muito ligeiramente falei sobre essa questão. Para meu espanto, minhas palavras imediatamente à veiculação causaram uma tipologia de “ouriçamento” na audiência do site: 1) visível, e 2) invisível. E isso, para mim, foi uma excelente descoberta (e creio, a será para o jornalista Mhário Lincoln), ou seja, a home tem uma audiência que mostra a cara, que não tem medo de interagir, que não se esconde; e outra: que não se expõe, que se esconde, que é covarde, e que ainda por cima, quando seu nome é exposto na penumbra pede para não ser identificada. Deste fato ocorre-me a seguinte conclusão: a) a existência de uma elite e uma burguesia saudável e b) a existência de uma elite e uma burguesia arrogante, prepotente, discriminatória e preponderantemente ditatorial, e o pior de tudo, insensível às questões nacionais, isto é, preocupadas pura e tão-somente com o enchimento de suas burrinhas e o “brutal” enriquecimento, em contraste com 90% de um povo-nação de miseráveis e pobres. Com aquela (a) pode-se concatenar conversação, debate, discussão, e até justapor ou contrapor idéias no sentido de uma saída para nossas agruras como violência, crime, miséria, pobreza, educação, saúde, favelização... Com esta (b) é impossível quaisquer concatenações, pois, seu método é o já conhecido anonimato e suas práticas ameaçadoras. A esta (b) este meu aviso em forma de poesia, minha arma letal, que jamais se apagará, “apesar de você”:

Negação

Não aceitarei jamais
A decisão faceira
De me enquadrares
Dentro do quadrado
Mágico da ordem
Bem-estabelecida.
Essa tua guarida
É pura morte
Morte da palavra
Que se calada
Fica de toda ferida
Nos currais da ordem.
Tirai o tapete estendido
Dele não me utilizarei
Minha passagem será livre
Será escarlate – bem sei
Portanto não te ofereças tanto
A quem amor não te tem.
Quanto ao teu corrupto vintém
Assegura-o em tua desgraça
Ele não se fará mordaça
Da livre palavra que graça
Em toda praça com raça
Deste povo que não é chalaça.

=*=
(In EU, PESCADOR DE ILUSÕES, LAGO, João Batista do - Ed. Mhario Lincoln do Brasil, 2006 – 1ª Edição – E - Book Grátis)[3]

Feitas estas considerações vamos ao que interessa, ou seja, tentar responder a questão que intitula este artigo: Por que as elites e a neoburguesia brasileiras se ouriçam quando se fala em Guerra Civil?
Antes de tudo, porém, vale dizer que minhas palavras (como bem foi observado por alguns dos interragentes da entrevista) não contêm em si nada de novo. Isto é fato. Antes de dizê-las muitos já manifestaram o mesmo pensamento. Portanto, nada há de novo naquilo que disse ao jornalista Mhário Lincoln. E reflete pura e tão-somente uma manifestação pessoal, melhor dizendo, uma representação da minha mente que teima em não ficar adormecida pelo ópio do Poder, da Dominação, da Burguesia e das Elites que não têm o Brasil como referência, mas seus intestinos. E que, por isso mesmo, pouco se lhes dá em discutir o Brasil real, posto que, o que se lhes interessa é o brasil (com “b” minúsculo) do carnaval, da mulata, do samba, do futebol – manifestações culturais que já nem mais são do povo-massa ou do povo-nação – como “sujeitos operadores” de uma país de alienados. Eis, aqui, a metáfora implícita na “guerra civil” por mim ditada. E neste sentido não tiro uma palavra, uma vírgula sequer, do que declarei. E repito: este país precisa da sua guerra civil para constituir-se como nação, para criar sua identidade e sua cultura próprias. E isto significa dizer, noutras palavras: as elites brasileiras, com o beneplácito das burguesias nacionais, sobretudo essa elite que não mostra a cara, que está escondida nos porões do capitalismo nacional, nos palácios, nos governos, nas instituições, falharam. E falharam feio.
Tome-se como exemplo as palavras de um dos maiores intelectuais que esta nação já produziu, o antropólogo Darcy Ribeiro; brasileiro consciente como poucos ou como nenhum outro: “O povo brasileiro pagou, historicamente, um preço terrivelmente alto em lutas das mais cruentas de que se tem registro na história, sem conseguir sair através delas, da situação de dependência e opressão em que vive e peleja. Nessas lutas índios foram dizimados e negros foram chacinados aos milhões, sempre vencidos e integrados nos plantéis de escravos. O povo inteiro, de vastas regiões, às centenas de milhares, foi também sangrado em contra-revoluções sem conseguir jamais, senão episodicamente, conquistar o comando de seu destino para reorientar o curso da história”.
E diz mais adiante o professor Darcy Ribeiro: “Ao contrário do que alega a historiografia oficial, nunca faltou aqui, até excedeu, o apelo à violência pela classe dominante como arma fundamental da história. O que faltou, sempre, foi espaço para movimentos sociais capazes de promover sua reversão. Faltou sempre, e falta ainda, clamorosamente, uma clara compreensão da história vivida, como necessária nas circunstâncias em que ocorreu, e um claro projeto alternativo de ordenação social, lucidamente formulado, que seja apoiado e adotado como seu pelas grandes maiorias”.
E enfatiza o professor Darcy Ribeiro: “Não é impensável que a reordenação social se faça sem convulsão social, por via de um reformismo democrático. Mas ela é muitíssimo improvável neste país em que uns poucos milhares de grandes proprietários podem açambarcar a maior parte de seu território, compelindo milhões de trabalhadores a se urbanizarem para viver a vida famélica das favelas, por força da manutenção de umas velhas leis. Cada vez que um político nacionalista ou populista se encaminha para a revisão da institucionalidade, as classes dominantes apelam para a repressão e a força”.
Tão claras são as palavras do professor Darcy Ribeiro que dispensam comentários, mas servem para serem introjetadas e pensadas por todos que não se encontram adormecidos pelas benesses dessa “classe dominante”, mas que prefiro continuar chamando de elites brasileiras.
Por outro lado, e por fim, quero encerrar este artigo dizendo o seguinte: minha gênese é o barro do debate, da discussão, e em razão disso aceito, muito embora não concorde ou discorde veementemente dos seus enunciados ou conteúdos discursivos ou ideologias, que sejam postas à mesa, mas ao mesmo tempo sou radicalmente contrário às manifestações academistas ou academicistas, com ar de uma tipologia de professorado, como aquelas que desejam esconder a verdade mais-que-real dentro do campo de um pretenso saber conceitualístico, oriundo de reservas compilatórias de bibliotecas virtuais; assim como não aceito, sob hipótese quaisquer, o encavernamento - por intermédio de um escapismo barato - do núcleo do debate, como aquele que se diz simplesmente que tudo não passa de mero sensacionalismo. Aos defensores desta arte retórica resta-me assinalar o seu grau de aculturação sócio-político, e bem dizê-los promissores defensores da “classe dominante”.
[1] João Batista do Lago, 56, é jornalista, poeta, teatrólogo e escritor.
[2] http://mhariolincoln.jor.br/
[3] Solicitar livro: mhario@globo.com

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

NUMA NOITE DE FINAL DE VERÃO

Por João Batista do Lago

O mais leve toque de minhas mãos no teu corpo
dá-me a impressão do puro desvirginamento
de toda doçura que reside com tamanha candura
nas tuas curvas agora cobertas pelo lençol
mas que ainda há pouco sugava meu suor
em frêmitos gemidos de prazerosa sede carnal.
Não me contenho diante de tanta beleza
e vagarosamente, sutilmente descortino tua pureza
para gravá-la no mais fundo dos meus olhos
e tatuá-la no mais recôndito da minha consciência
para jamais esquecer toda ternura das tuas curvas
que me fazem enlouquecer de louca paixão.
E como se tivesse tocando na mais nobre rosa
vou-me imbricando entre as pétalas da tua alma
nascente do mais puro perfume que jorra amor
e aos pouquinhos vou-me perdendo no teu mar
vou-me afogando e vou-me afundando na paz
do mais puro gozo que reluz de ti.