terça-feira, 11 de dezembro de 2007
O PASSO
© by João Batista do Lago
Restam-me (ainda) sons e
vozes dos passos,
descompasso da insensível
mordaça dos cascos,
desalinho que a cada passo
lança no espaço, no
coração da consciência,
toda arrogância do poder.
Não estou de todo livre dos
passos. Descompassos!
Como rastros (ainda) se alastram!
Sons de cascos reverberam
noutros espaços; noutros lugares…
passos que passam no passo de cascos;
galope que fere com aço a liberdade, fere de
morte a justiça, o direito – toda dignidade.
Não calem as consciências,
nem as canções;
não calem os cantores,
nem os poetas;
não calem as telas,
nem os pintores.
Se calados ficarem
morrerão as flores!
Calem os sons dos passos,
párem a tropeada dos cascos,
estanquem o galope dos aços…
A paz não pode ter espaço para o
cangaço da intolerância,
nem a guerra pode viver como
metáfora da esperança. Dai, pois, o passo.
Sim, mas o passo de uma criança.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
ROSA NEGRA
© by João Batista do Lago
Da senzala
- a grande casa! –
exala o cheiro de almas
que agora deambulam
pela casa vazia
que grita os berros
que ficaram presos
nas gargantas ornadas
com colares do ferros.
Da senzala
- a grande casa! –
vem-me os gritos das
dores contidas
das costas entrecortadas
pelo gargalhasso da chibata
que estala no dorso encantado
da negra mucama acorrentada
ao dedo-de-deu que aponta para o céu
Da senzala
- a grande casa! –
poder cretino do senhor dengoso
ouve-se, então, o choro do menino
filho do estupro matutino… ou vespertino
daquela escrava que outrora apanhava
ao pelourinho para gozo do senhorinho
que jamais irá saber do filho negrinho
condenado a viver – toda vida! – sem carinho
Da senzala
- a grande casa! –
ouço os acordes duma canção em lamento:
- Não deixem que apaguem das memórias
as histórias de horror
e de sofrimento,
as dores,
os choros,
os tormentos.
Não esqueçam os estupros.
Não! Não permitam que as flores
apesar da beleza e do aroma
escondam o pólen da dignidade,
da justiça e da virtude.
Não! Não permitam que as rosas
apesar do encanto
e da diversidade das cores,
mascarem a beleza da rosa negra.
domingo, 9 de dezembro de 2007
ALMAGORIA
© by João Batista do Lago
(Verso)
Queria guardar minh’alma
Como se fosse um escriturário
Mas minh’alma tomei-a por posse
Assim transformei-me em mercenário
Minh’alma resolveu ser mais capaz que eu
Daí aos poucos, fui plantado num orquidário
A terra-mãe resolveu que me guardaria do mal
Juntou-me aos pedaços e pô-los no seu berçário
Pensei estar de todo seguro do mundo sem-razão
Quanta tolice deste pobre vivente tolo incompetente
Aos poucos fui vendo lentamente: da vida era anedotário
(Reverso)
Aos poucos fui vendo lentamente: da vida era anedotário
Quanta tolice deste pobre vivente tolo incompetente
Pensei estar de todo seguro do mundo sem-razão
Juntou-me aos pedaços e pô-los no seu berçário
A terra-mãe resolveu que me guardaria do mal
Daí aos poucos, fui plantado num orquidário
Minh’alma resolveu ser mais capaz que eu
E assim me transformei em mercenário
Mas minh’alma tomei-a por posse
Como se fosse um escriturário
Queria guardar minh’alma
sábado, 8 de dezembro de 2007
SIMILARIDADE
© by João Batista do Lago
Soweto
No Brasil
Rima com gueto
Aqui é pardo
Lá é preto
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
RESGATE
© by João Batista do Lago
Carregas contigo a
Vileza do teu breve sorriso
Acomodado à face:
Retrato do disfarce da
Vergonha encalacrada.
Carregamos nós a
Vergonha insidiosa da
Tua representação:
Ferradura dum ladrão que
Rouba do povo o miserável pão.
Maldita sina!
Desde o Império
Essa corja assassina
Rouba e dilapida a nação:
Campo minado pela corrupção.
Até quando havemos de suportar
Esse sorriso de miserável torpor,
Essa sangria da nação em dor?
Até quando?
Até quando?
(Para resgatar a Virtude
Basta apenas a necessidade…
Lutar sem perder a dignidade!
Essa é toda Verdade.
De que adianta todas essa solidariedade,
Se nela não corre o sangue da sanidade?
De que adianta a vã e mesquinha atitude,
Se nela não ocorre o ente revolucionário da Virtude?)
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
PINGOS DE CHUVA
© by João Batista do Lago
O dia amanheceu como as almas tristes!
Cinzento!
Chorando suas mágoas,
Suas dores,
Seus horrores.
Mendigo de amores perdidos nos
Passados dias de sorrisos.
Quanta falta faz ao dia o abraço do sol!
Chora. Chora de mansinho.
Devagarinho vai desfilando sua sorte, pois,
Refém da sua própria morte
Sabe-se, logo ali, ser aluvião na
Vazão das almas que inundam de podridão o
Lixo já sem perdão do humano verme, que
Encalha os esgotos da
Alma já podre de palavras e canções, que
Infectam os corações das miseráveis sensações dos
Dias infelizes gerados nos humanos corações.
O dia cinzento de
Choro cinzento
Revela o espírito do
Ser sem dia…
Amargo…
Sem alegria.
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
SIGNIFICANTE VAZIO
© by João Batista do Lago
Vês, este meu excrito,
não te parece escrito;
na imagem de tua mente
é palavra doente, é
texto proscrito que
nasce de um indolente.
Assim é meu escrito:
significante vazio excrito,
anáfora de si, proscrito do
sujeito que não te faz sentido,
linguagem sem fala no
moderno mundo já perdido.
PENEIRA
© by João Batista do Lago
o corpo
não côa-o
dissipa-o.
desamor
antecipa
a sua dor.
o corpo
filtra-o:
alma só.
o corpo:
sepulcro
da sua dor!
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
ALUCINAÇÃO
© by João Batista do Lago
visagens do dia!
o sol a pique
como um dique:
fome denuncia.
(a cachaça só
aliment’a dor).
Essa, toda filosofia
que o mercado prenuncia:
- fins racionais –
estética do trabalhador.
__________
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
LIBERTAÇÃO
© by João Batista do Lago
Essa ambígua ordeiricidade brasileira, e
conseqüentemente, do seu povo:
país do carnaval! da mulata brasileira!
país do futebol! da malandragem fagueira!
é ufanismo trigueiro da burguesa “Luzes”
subjetivismo do discurso da dominação.
Sob este manto praticam-se o
terrorismo social e o econômico, o
político e o cultural, abstrusos, mas
coesos no seu conjunto ideológico
incrustado no terrorismo de Estado, que não
permite aos comuns cidadãos
perceberem, desde sempre, a condenação de
suas almas numa constante subjugação.
A tudo isso se junte, ainda, a
medíocre “democracia racial”:
falsa consciência da inclusão
sob o beneplácito das elites, da
classe média e da burguesia.
E os ladrões de sempre,
que roubaram, que roubam e, por certo,
roubarão este povo que teima em não acordar, que
continua “dormindo em berço esplêndido”,
continuam nos palácios a nos encantar
com a máxima da escravidão:
“O Brasil é uma nação ordeira” - dizem.
E assim continuamos nossa sina
- com o apoio do burguês trabalhador que
vendeu sua dignidade, que
teve seu espírito comprado, que se
esconde sob a proteção de sindicatos
fascistas e sustentados pelo Estado terrorista que
assalta, que furta o trabalhador comum
compulsoriamente dilapidando o miserável salário,
que se lhe arranca da boca a comida, do
intelecto a educação, do
corpo a moradia.
Não menos indulgente é a
burguesia intelectual
que num eterno louva-deus
locupleta-se com migalhas furtadas
comprantes das ideologias de
plantão que permite assegurar o
quinhão da dominação.
Da mesma maneira o ramo
podre da religião assim também age
utilizando o campo do sagrado
como fonte inexorável de opressão
fazendo cair sobre os desgraçados da sorte o
fogo do inferno se porventura desejarem libertação.
No mesmo ritual teleológico
segue o burocrata, o empresário e o político,
os três Poderes: o Judiciário, o Executivo, o Legislativo
– a “representação do povo”!
Não é, pois, o momento da indignação?
Porventura não é chegada a hora da libertação?
A nação não pode condescender com seus
detratores, com seus ladrões, com seus
usurpadores, com seus facínoras, com seus
ditadores - falsos democratas, antiprofetas da salvação.
Prestai atenção, ó brasileiros!
Ó povo dos trabalhadores,
povo deserdado, vexado e proscrito!
Povo (que é) aprisionado, (que é) julgado e (que é) morto!
Povo ultrajado, povo marcado!
Não sabeis que mesmo para a paciência,
mesmo para a dedicação, há um limite?
Não deixarás de dar ouvidos a estes
oradores do misticismo que te dizem
para rezar e esperar,
pregando a salvação pela religião ou pelo poder e cuja
palavra veemente e sonora te cativa?
Teu destino é um enigma que nem a força física,
nem a coragem da alma, nem as iluminações e o entusiasmo,
nem a exaltação de nenhum sentimento pode resolver.
Aqueles que te dizem o contrário enganam-te e seus
discursos servem apenas para retardar a hora de tua libertação, que
está preste a soar.
O que são o entusiasmo e o sentimento?
O que é uma poesia vã diante da necessidade?
Para vencer a necessidade há apenas a Necessidade,
razão última da natureza, pura essência da matéria e do espírito.
Dá-me, agora, ó brasileiros, um pouco da vossa atenção!
Tomai como vosso este poema e cantai em toda praça a todo cidadão.
Sustentai este grito de alerta, de levante, de atitude revolucionária
contra os vituperadores que tomaram esta nação:
(é) uma convocação para a revolta,
(é) uma ode à desobediência civil,
(é) um convite à marcha contra os canalhas,
(é) uma incitação à derrubada do Estado terrorista.
Mas também quero vos alertar:
os ladrões do Brasil e de seu povo, a
camarilha instalada nos três poderes, a
elite, a classe média e os burgueses,
jamais concordarão com este deblaterar.
E dirão com certeza:
- Não passa de um ‘esquerdista radical’,
um ‘maoísta’, um ‘leninista’, um ‘marxista’,
enfim...
‘um comunista’.
Ou, no mínimo, dirão:
um “revoltado”,
um “louco”...
Aí então deverás, desde sempre,
rechaçar e repelir veementemente a
prosa ditirâmbica dessa camarilha de ladrões.
Não dareis, jamais, o direito de te definirem,
de te identificarem, de te marcarem (feito gado encurralado)
segundo seus conceitos, seus preceitos, seus preconceitos.
E direis:
- Tens agora, ó indignos bufões, o
vicejar de um novo Sujeito,
tens, aqui, por certo, o
discurso da indignada nação, que
não quer ver o seu povo,
por toda eternidade,
dirigido pela corrupção, que
não deseja ser representado
por congressos de ladrões,
governado por rufiões do poder, que se
escondem sob a toga da inquisição.
E afirmareis a sentença da libertação:
“Se os apelos dos movimentos urbanos não são atendidos,
se os novos caminhos políticos permanecem fechados,
se os novos movimentos sociais não se desenvolvem totalmente,
então, tais movimentos
- utopias reativas que tentarão iluminar o caminho a que não tinham acesso –
retornarão, mas dessa vez, como sombras urbanas,
ávidas por destruir as muralhas cerradas de sua nação cativa”.
__________
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES, 2006, Ed. Lulu Press)
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
OBREIRO
OBREIRO
© by João Batista do Lago
Desorientado!
Sim, desorientado saíra de casa…
Casebre.
No caminho do trabalho ia mastigando sua febre de 40º,
ruminando desespero do filho sem leite,
da mulher recém parida,
que ficara na casa – casebre! –
já quase sem vida.
E ele, obreiro de muitas obras,
de tantas e quantas obras,
não tinha obra nenhuma para doar à família.
Toda obra que construíra fora para pagar o salário miserável que consumia no dia-a-dia da sua miserável vida.
Ruminava e ruminava.
Ruminava inconsciente a caminho do matadouro
onde entregaria sua mente a preço vil,
sua força de trabalho restaria na produção covil.
No dia seguinte tudo se repetia.
Ainda assim esperançava um dia
ser dono da mais valia que lhe roubava o pão nosso de cada dia.
E pensava:
“Antes de morrer hei de ver meu filho banhar-se de leite,
minha mulher entre sedas, pedras preciosas e ouro…
Hei de ver! Hei de vencer!”
Passava o tempo e todo dia a mesma coisa se repetia:
refém da mais valia, mas esperançava sempre – um dia! –,
o velho trabalhador, ter a alegria de ser livre,
de não ser apenas um sofredor; ser dono da sua força de trabalho,
não ser apenas o curinga do baralho ou apenas peça descartável do mercado.
Hoje, velho e maltrapilho… (maltratado!), arrasta-se entre ladrilhos de esperanças, contudo espera que sua criança – ainda sem leite! – não perca a esperança de um dia ser dono da sua laborança,
que seja refratário ao vil capital do consumo,
que seja libertário e que não se deixe pregar à cruz,
para de lá, como eu, apenas dizer:
“consummatum est!”
domingo, 25 de novembro de 2007
MENINAS
© by João Batista do Lago
Quanta saudade tenho
daqueles tempos de criança
daquelas meninas de trança
brincando na corrente mansa
do rio Itapecuru.
Lembro de toda molecada!
Era um verdadeiro sururu
quando saíamos da escola:
correndo em desabalada
íamos olhar as coxas peladas
das meninas de trança que
banhavam no rio Itapecuru.
Passou o tempo! Passa, enfim, a vida!
Passaram águas; ficaram saudades!
E eu, jaburu sem rio e sem guarida
estou à margem das iniquidades.
As meninas de tranças; coxas peladas,
onde andarão? Será que são amadas?
Que águas lavam aqueles mamilos retesados?
Quanta saudade tenho
daqueles tempos de criança
daquelas meninas de trança
brincando na corrente mansa
do rio Itapecuru.
sábado, 24 de novembro de 2007
HISTÓRIA DE POETA
O velho poeta descia a serra pontiaguda
Tão ligeiro como pedra desembalada.
No pé da serra esperava sua amada.
Mas, ao descer, teve a perna quebrada.
Coitado! Lá no meio da serra esparramado
Ficou o poeta – e sua dor – impossibilitado.
Não mais era possível alcançar a amada.
E ela, sem perceber, não sentiu a dor do amado.
No meio da serra, ao chão então estirado,
O poeta sentiu-se um miserável; desgraçado.
Chorou o abraço não dado na jovem amada.
E ela, sem perceber, não viu que havia-o passado.
Depois de alguns instantes de infinda espera
Resolve a jovem amada subir a serra.
E ao ver o poeta inanimado – como pedra –
Cai sobre seu corpo em pranto. Desespera.
Acaba assim a história do velho poeta:
Jaz na terra versos que se plantariam em sua amada!
Acaba assim a história da jovem amada:
Jaz por terra versos não plantados na Poesia amada!
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
NUVENS
© by João Batista do Lago
Do universo do meu quarto
Vejo o infinito universo!
Lá ao longe as nuvens dançam
Num ballet magistral da natureza,
Capaz de criar em minha mente a
Figura da mulher amada que
Ficara quando me fora adolescente.
Instante de estética fenomenal, mas o
Vento – ciumento e atroz! – baniu a
Amada da minha mente, e para me
Indignar ainda mais, pintou nos
Céus nuvens de monstros, onde
Antes era a imagem genial de Themis,
Agora resta – tão-somente! – a realidade presente.
sábado, 17 de novembro de 2007
SE EU PUDESSE...
(1979) *
© by João Batista do Lago
Deus,
ah se o mundo me
pudesse ouvir
pediria a todas as gentes,
a todas as pessoas,
que gravassem em suas mentes o
Luar do meio-dia,
que fascina e ressoa
Nos lábios do dia
a paz que de mim soa.
Diria a essa gente:
imagine por um instante
um mundo prenhe de paz…
Imagine!
Já seria o suficiente para
aceitar o Sol da meia-noite;
a paz no coração da mente
reluziria incandescente
n’alma de todas as gentes
reféns de guerras indulgentes.
(Se eu pudesses ao mundo falar!)
__________
* Revisada
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
LAMENTO
© by João Batista do Lago
Ó velhos porões de almas!
Ciganos errantes. Ledos.
Aluviões de antigos medos
que singram os mares com
seus degredos de sorte vil,
ilusões paridas d’um só covil.
Ó velhas embarcações de ossos!
Teus degredos… Teus medos
são fraturas expostas dos teus
crimes de lesa alma, que pungem
toda dor da miserável sorte de
ser, apenas, o ser da morte.
Ó velhas cangalhas de carne!
Tua pena é a cena do afastamento
da divinal condição do ser e
neste teu enclausuramento és,
enfim, todo triste lamento, do
humano que pretendera Ser.
terça-feira, 13 de novembro de 2007
ORFANDADE
© by João Batista do Lago
O odor do enxofre dos ventres
Rasgados por obstetras da alma,
Não consegue perfumar o ser.
Ele perdeu-se na miséria
De ser parido de deuses;
Hoje órfão deseja renascer.
- Não há mais obstetras de almas!
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
CONTRA-CANALHAS!
© by João Batista do Lago
Quanto tempo ainda restará
Para conviver com os canalhas?
Vive-se um tempo de batalha: a
Virtude é pura moeda rara!
Perdeu-se a vergonha da cara;
Falta coragem de usar a navalha.
Ó, República da vagabundalha,
República de miserável sorte,
Rasgaram-te as vestes da Ética (e)
Curvaram-te ante essa estética
Sangram-te, ó mãe, os canalhas!
Arrancar-te o Direito do peito é
Tudo que deseja a vagabundalha:
Nação inerte; prostrada ao leito.
Sangram-te, ó mãe, os canalhas!
Mas haverá dia que todo malfeito
Restará findo… restará morto…
A nação cativa se levantará do jugo
Então aí – o povo –, plebe ignara,
Tomará as rédeas do desatino e
Fará da nação cativa seu destino:
República de Virtude, Ética e Direito.
domingo, 11 de novembro de 2007
DESEJOS
© by João Batista do Lago
Dispensai os vossos choros, eles
Maculam a madeira que me serve de
Leito e que mo levará para a santa terra
Onde me plantará pau-d’arco roxo ou como
Cedro para servir ao bom lenhadeiro da mais
Fértil vida que se instalará no instante do futuro
Dispensai vossos elogios tardios, eles
Ofendem à dignidade do ser que deseja
Adormecer sem as torpes palavras que
Lavram bocas enferrujadas de dentes doentes e
Preparados para comer a carne do escárnio:
Manjar de vermes que se me pensam morto
Dispensai a procissão ao campo santo, ela se
Tornará pedra na liberdade do meu caminho
Deixai-me as veredas livres; deixai-me sem religião
Preciso – se Deus há – encontrá-Lo sozinho
Buscá-Lo agora nesta minha sagrada morte
Vivê-Lo minh’eternidade; sê-Lo minha liberdade
PRIMAVERIS
PRIMAVERIS
(Para Themis)
© by João Batista do Lago
Tuas coxas de primavera
Primaveris!
Secretos segredos guardam
Da flor do sexo
Sequioso de
Embeber-te da
Mais pura e límpida água que
Brota como sumos da terra (da)
Mais pura terra que de mim há
Carregas em ti o
Centro da vida da primavera
Primaveris!
Almas que se segredam em
Secretos exalares da
Flor mais pura de cheiro mais túmido
Essência que se me preparas na
Alcova do teu corpo
Sacrário exótico da (minha) eterna paixão
sábado, 10 de novembro de 2007
POUIÇÃO
POLUIÇÃO
© by João Batista do Lago
As ventas de Deus
de tanto entupidas
já não respiram vidas!
E de tanta fumaça
já não mais há graça
no paraíso, que
perdeu o sorriso das
flores e das rosas;
e que aos poucos
cauteriza o
ventre da terra…
[…]
Estão entupidas
as ventas de Deus
pelo vírus do
consumo humano
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
INSIGHT
© by João Batista do Lago
Trabalhe o homem sua loucura
Entregue à sua bravura do
Enternecer-se na violência candura
De miseráveis vidas.
Distantes da vida,
Sufocados pelo silencio do
Nada ser diante de si;
Encontro de eus sem o ser.
Ser que é nada,
Quando divaga sua loucura
Na ternura do seu ser!
Ser que de mim o é
Apenas violência candura da
Eterna magia de toda loucura!
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
FOTOGRAFIA
© by João Batista do Lago
Neste ensaio imagético
vejo-te inclusa
neste meu solitário cósmico
deste meu campo excluso.
No meu laboratório de visões
busco toda tua presença.
Nela não me há...
Há um branco total.
Nenhuma imagem.
O filme está queimado.
A burguesa igualdade não me deixa amar-te em toda a tua ebanidade.
E mesmo na cidade dos meus sonhos, na loucura das minhas noites,
és escondida em prostíbulos onde o amor se dá como propriedade
num modo de produção modernista incapaz de se permitir os
fulgores amantes da multiculturalidade.
As mentes diafragmáticas estão fechadas...
O flash não mais dispara feito clarão relâmpico, para
iluminar todo o breu da minha escuridão notúrnica, que
precisa urgentemente
dessa tua imagem resplandecente para
reacender o fogo e dissipar a diáspora para o
Tártaro mais profundo da existência de Gaia.
(Amanhã será outro dia e nele a certeza da tua foto hei de imprimir!)
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
O CORO (OU...
© by João Batista do Lago
Nas terras de Lisárbukus
A Humanidade se repete
Na ignomínia dos desejos
E as almas sem qualquer pejo
A toda miséria se submete
Oh! Triste Humanidade
Carece por toda eternidade
Da Virtude e da Justiça
E assim condenada vive
No gerar-se e no morrer-se
Oh! Filhos de Lisárbukus
Teu destino não é diferente
Das almas de antigamente
Repetes a miséria do mundo
Nesse teu espírito de dor ingente
Teu caminhar, filhos de Lisárbukus
Erra em campos ermos e plangentes
Choras todas as dores da não-essência
Da tocha de fogo em constante ausência
Que te condena à eternidade de indigentes
Os filhos de Lisárbukus são órficos!
Deuses e deusas de toda eternidade
Condenaram os filhos de Lisárbukus
À miséria sem pena nem piedade
Errantes são? São águias… São urubus
Oh! Filhos tartáricos de Lisárbukus
Teus destinos não são desatinos dos deuses
A desgraça... a dor... a peste... e a morte
São as conjurações da vida gerida
São tributos da tua própria sorte
Enfim... é este o teu único destino
Homens e mulheres de Lisárbukus
Parir a sorte para evitar a morte
Derrotar os encantos dos desatinos
Para alçar voo à Virtude dos deuses
(Esta poesia é o Canto Introdutório do drama, em três atos, LISÁRBUKUS, que escrevi; mas que estou no momento fazendo uma revisão, para, posteriormente, publicá-lo. Todo o drama ocorre num país imaginário onde a disputa pelo Poder é a trama central).
domingo, 4 de novembro de 2007
NUMA NOITE DE FINAL DE VERÃO
© by João Batista do Lago
O mais leve toque de minhas mãos no teu corpo
dá-me a impressão do puro desvirginamento
de toda doçura que reside com tamanha candura
nas tuas curvas agora cobertas pelo lençol
mas que ainda há pouco sugava meu suor
em frêmitos gemidos de prazerosa sede carnal.
Não me contenho diante de tanta beleza (e)
vagarosamente, sutilmente, descortino tua pureza
para gravá-la no mais fundo dos meus olhos (e)
tatuá-la no mais recôndito da minha consciência
para jamais esquecer toda ternura das tuas curvas
que me fazem enlouquecer de louca paixão.
Como se tivesse tocando na mais nobre rosa
vou-me imbricando entre as pétalas da tua alma
nascente do mais puro perfume que jorra amor (e)
aos pouquinhos vou-me perdendo no teu mar
vou-me afogando (e) vou-me afundando na paz
do mais puro gozo que reluz de ti.
sábado, 3 de novembro de 2007
PALAVREIRO
© by João Batista do Lago
Por que essa vontade louca de
Tudo encerrar na palavra?
Afinal, não é o pensamento que lavra
A gleba de imagens de larvas que a
Alma jamais deixa transigir?
“- A palavra não encerra minha alma!”
Essa é a grande mentira do poeta:
Depois da palavra ele jamais se acalma.
Retorna ao labirinto de sua lavoura
Revira a terra do ser e do não-ser
Para reencontrar na palavra
Qualquer sentido para renascer.
Encerrado na mais profunda dor
Dorme o poeta – eterno sofredor! –,
Mas ao acordar toma a palavra para
Tombar a terra e plantar o amor
Ah, o poeta! Este eterno enganador,
Veste-se da palavra mais pura e bela,
Ou mesmo da palavra mais amarela,
Para sugerir que não é um sofredor
Mas, sabe ele, que a palavra mais bela
Jamais lavra a terra infértil que desvela
Toda dor que sua palavra não revela;
Insiste: “- A terra do ser é fértil querela!”
NÔMADE
NÔMADE
© by João Batista do Lago
Caminho-me dentro do eu-cidade
Perambulo entre avenidas sofridas
Vago ermo procurando a felicidade
Deusa ausente desta cidade vencida
(Macabra)
Monstruosa no seu lamento profano
A cidade me açoita feito vagabundo
Insano; escorregadiço entre humanos
Viajo a saudade da solidão do mundo
(Sânscrito)
Entre os tijolos do sagrado vou
Construindo os deuses da cidade
Velha moradia; mórbida felicidade
Onde o ser sem palavra ficou
(Marginal)
Desço às profundezas da marginalidade
Invisível sujeito castigado pelo ócio da
Produção de classes marginalizadas nos
Guetos dos templos sagrados do moderno
[…]
Na cidade macabra
Caminho minhas dores
Sânscrito deserdado
Marginal dos amores
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
MODELO
© by João Batista do Lago
Vocês vêem ali aquela mulher?
Ah, como era bela e formosa!
Jovem, aquela mulher,
Despertava paixões,
Encantava poetas.
Uma luxúria, aquela mulher.
Uma celebridade, aquela mulher.
Vocês vêem ali aquela mulher?
Ah, como era bela e formosa!
Jovem, aquela mulher,
Agora, desperta pena e dó
Não tem mais passarelas
Não encontra mais poetas tagarelas
E morre-se lentamente anoréxica
terça-feira, 30 de outubro de 2007
MARAVILHISMO
© by João Batista do Lago
Pari-me aqui e acolá de
Mãe eterna assexuada
Sou assim parteiro de mim
– eu mesmo enfim –
Gritei toda dor placentada
A noite muda gritou no dia
Fez reverência a toda miséria:
“Maravilhas!” – soaram as cornetas
Heróicas torres das Artes
Aqui e acolá foram feitas
O século agora pode exibir
Pode ofertar aos proxenetas
Pode da Virtude querer exigir
Salmos e cânticos a baionetas
Dizer a todos: “Venham ao elixir”
Encantados – o parteiro e eu –
Segredados em noite e em dia
Parimo-nos no poeta, no artista
Brindamos à cortesia capitalista
Damos graças à fome em agonia
Agora não são apenas sete os ricos
Também não são apenas as sete irmãs
Pari-me aqui e acolá – há-me em todo lugar –
Até no alto do morro está Alá a brilhar
Abraçando a miséria em farto ejacular
Maravilha-se: “Ó santa pobreza!
Tua é a miséria e minha é a beleza
Manter-vos-ei sob os meus pés
Guardar-vos-ei nos sopés da montanha
Guarda-alma de miséria tamanha”
domingo, 28 de outubro de 2007
IMAGINEI FAZER UM POEMA DE AMOR
© by João Batista do Lago
Imaginei fazer um poema de amor
Cantar a beleza da vida
Falar dos rios – e dos peixes
Conversar com os animais
Sentar-me à sombra de uma mangueira
Escutar a voz do vento
Ouvir a sinfonia da floresta...
Imaginei...
Imaginei fazer um poema de amor!
Mas como cantar a vida
Se dela toda sorte é toda morte?
Como falar com os rios – e os peixes –
Se deles restam apenas sorte?
O que conversar com os animais
Se eles são apenas restos mortais?
Imaginei...
Imaginei fazer um poema de amor!
As mangueiras sem sombras estão
São sós carvão e brasa – e fogo –
O vento - quanta magia! – já não assovia
Virou aluvião: pavor e inundação
As florestas! Ah, essas então, pedem socorro
E executam em pranto seu último réquiem
Imaginei fazer um poema de amor
Mas toda miragem lírica era somente dor!
EUNUCO
© by João Batista do Lago
Ah! Essa tola e infantil vaidade
Ainda sequer pela vida gerada
Imbecil e arrogante mocidade
Entulho da verdade famigerada
Desfila sua arrogante jovialidade
Julga-se da Poesia o grande Apolo
Ó, eco de velhos casarões da cidade
Indigno de dizer-se: “- Extrapolo!”
Desconhece a humildade necessária
Arroga-se agora deus da palavra (e)
Fere de morte o Templário que lavra
Sua triste e torpe alma desnecessária
Condenada a penar por séculos afins (a)
Infeliz mocidade aventureira da sorte
É verme sem versos da cidade que morre
Prenhe de demônios que se julgam serafins
sábado, 27 de outubro de 2007
IDEOGRAMA
IDEOGRAMA
© by João Batista do Lago
Hoje acordei com alma da Paixão
Quero este dia na minha eternidade
Reencontrar a criança que deixei lá atrás
Reviver minha infância (e)
Retornar a adolescência (e)
Reencontrar-me eterno neste instante
Hoje estou apaixonado pelo Amor
Quero-o em sua plenitude
Tomar tua mão… Andar por aí…
Passear em teu corpo sem pedir perdão
Sentir o teu gosto de açucena
O teu perfume de mulher
Ah, hoje acordei como as árvores
Translúcido de galhos e de frutos
Prenhe de orvalhos desnudos
Sedento em saciar a sede da Virtude
Plena raiz de harmonia com a terra-mãe
Sem pedir perdão para ser feliz
Hoje sou a Paz mais profunda
Desperto para o abraço mais apertado
Trago n’alma toda ideografia do Amor
Tatuagem plena de saber-te Eu
Sinal de quem deseja derrotar a dor
Marca da vitória sobre o Homem sofredor
= = = = = = = = = =
Crédito da Ilustração: http://www.ebanataw.com.br/roberto/fengshui/kanji/RMWamor.jpg
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
HEDONISMO
© by João Batista do Lago
O capricho dos deuses
É pura ignomínia
Destinaram-me aos prazeres
Mas roubaram-me a hedonímia...
Assim subjugado
Maldito e condenado
Carrego este fado
Maldito – repito! - este destino
Que me tira o rumo e o tino
Das vidas outrora prazerosas
Entre deusas amorosas
Que a Juventude carnosa
Virtuosa e valorosa – em rosa
Reinava em bacantes dionisíacas
Depois dos vários prazeres
Restou-me deles os faleceres
Das fugacidades vivídicas
Hoje nem mesmo os saberes
De aretes apolínicas são verídicas
Aretes não são hedônicas – são vidas jurídicas
Distante – e longe – das bacantes dionisíacas
Mas negam-se os deuses
Aceitarem tamanha tirania
Desde os tempos de Elêusis
E para resgatar a Ética
O grande Zeus já dizia:
“- Não são os deuses, mas sim os próprios homens,
que pela sua imprudência aumentam os seus males”.
[…]
Maldito e condenado
Carregando este fado
Assim subjugado
Este Homem sem destino – sem tino
Segue transferindo seus lamentos
Procurando encontrar para suas dores
Um campo dêitico para deitar seus horrores
CARTA PARA OUTRO-EU
Olá, meu caro.
Há quanto tempo não nos falamos!
Gostaria de ter notícias tuas...
Como andas? O que tens feito da vida?
Sabes, ainda ontem andei pensando em nós dois.
Quando éramos crianças (lembras?)
brincávamos no alpendre lá de casa,
corríamos por entre quartos, paredes e corredores...
Ah, o Rex sempre nos atormentando,
atravessando nossos caminhos
mordendo nossos tornozelos...
- Parem, meninos, parem com essa correria.
Gritava mamãe sempre que passávamos por ela,
escrava que era daquela máquina de costurar:
tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic...
tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic...
Assim ela ia cosendo nossas vidas, nossas histórias... e nossas estórias.
Dia após dia de intermináveis costurares!
Mas nós continuávamos a brincar, a correr, a pular:
E ela: - Parem, meninos, parem com essa correria – insistia em nos alertar.
E a máquina: tchic, tchic... tchic,tchic... tchic,tchic... tchic, tchic... tchic,tchic...
tchic, tchic... tchic,tchic... tchic,tchic... tchic, tchic... tchic,tchic...
Ah, meu caro, tenho pavor às saudades, mas
percebo que hoje, ao alcançar esta minha idade,
elas se apresentam tão salientes que são difícil não escutá-las.
Elas estão presentes em tudo e em todos os lugares!
Ó, amigo, essas saudades são de amargar, me
incomodam e se instalam em qualquer lugar
ficam o tempo todo a me vasculhar...
Saudades são como carrapatos de almas,
verdadeiros parasitas inconfessos
sanguessugas de velhas e novas lembranças, (que)
roubam a consciência da presente esperança.
Sabes! Hoje tenho nítida sensação de me haver
internado numa masmorra. Sinto-me preso.
Estou isolado num infinito labirinto.
Não sei quando entrei... e nem por onde.
Não encontro portas de saída. Estou só.
Vago noites e dias entre as paredes frias da
minha masmorra sem portas. Ouço o
lamento do vazio num eterno calafrio de
vozes que me vêm do além mais próximo de mim:
ecos de dores... de horrores. São
quermesses do nada exaltando o meu fim.
Vês, meu caro, o quanto sinto tua falta?
Preciso-te. Necessito alentar minha dor, pois
somente a palavra do poeta – palavra de sofredor! -
não resolve a carência maior de minha paixão em flor.
Sim! Preciso-te, caro amigo, para
novamente corrermos entre quartos, paredes e corredores
conversarmos com o vento e a infância, sem
precisar ficar espantado com a adulta ignorância.
Sim! Preciso-te. Urgentemente preciso-te.
Preciso-te para viver minha eternidade de criança.
Preciso-te para sair desta masmorra. Deste labirinto.
Abraço-te, meu caro.
Eu.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
EUNOMIA
© by João Batista do Lago
Não sou filho,
Apenas - e só –,
da Idiotia.
Mas sou filho,
Apenas – tão só –,
da Política:
na transcendência
sou imanência;
do divino, sou o profano;
da exterioridade sou a subjetividade;
da phisys sou o espírito;
no sensível sou res extensa
no inteligível sou res cogitans
[…]
Sim, sou filho
Apenas – e só –
da Metafísica,
da Matemática,
da Ilusão e
assim sou Razão.
[…]
Sou Zeus.
Sou Mito.
Sou Deus.
[…]
Sou tríade:
Idéia Absoluta.
Uno.
terça-feira, 23 de outubro de 2007
ETERNA PAIXÃO
ETERNA PAIXÃO
by João Batista do Lago
Como jardineiro solitário
Reguei cada flor dos (nossos)
Desencontros nunca marcados (e)
Em cada rosa
Plantei uma pétala de versos
Pensando um dia ela fosse colhida
Pelas mãos da Justiça
Oh! Themis
Hoje trago espinhos nas mãos (e)
A mesma esperança d’um dia
Ser-te espada e balança (e)
Com a doçura do nosso amor-criança
Ver nascer do jardim-infância
Aquele amor-paixão (quase)
Esquecido no jardim da ilusão
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
SONHO ESTRANHO
SONHO ESTRANHO
© by João Batista do Lago
Ontem a noite tive um sonho…
Lá pelas tantas da madrugada.
Um sonho no mínimo estranho.
Desses difíceis de revelar.
Sonhei que tinha morrido num
domingo de primavera.
E tão bela a morte me viera
trazendo consigo a bela Quimera!
Oh! Quão bela donzela:
Metade mulher; metade serpente
Ah, essa Quimera ardente
transfromou a pedra fria em
leito quente e me amou
despudoradamente… apaixonadamente…
Ah! essa Quimera envolvente não
tinha cabeça de leão, nem
tinha o dorso da cabra, tampouco o
a parte posterior do dragão.
Ah, essa quimera só tinha paixão
e me amava, a mim, Belerofonte, em desrazão
sobre o dorso de Pégaso a caminho do Olimpo
onde somente os deuses amam com total razão.
- - - - - - - - - -
Crédito da Ilustração: http://www.casadacultura.org/arte/arte_digital/bruno_santos/quimera_grd.jpg
ÓPERA DO HUMANO
© by João Batista do Lago
Proliferam deuses… Senhores donos do mundo!
Surgem da escuridão e das noites dos tempos
Eterno movimento de sanguessugas modernos
Encenam no teatro da vida a tragédia dos infernos
Desventura da miserável ópera humana
O homem protagoniza o enredo da sorte
Entoa em salmos sua oração mais profana:
Vencer o irmão e subjugá-lo até a morte
Oh! Atores das desgraças abissais
Homens desgraçados por séculos serão
Tua triste sina não se findará jamais
E quando tudo restara sem esperança
No encanto da criação só restará do
Humano o homem feito danado cão
sábado, 20 de outubro de 2007
ODE A SÃO LUIS

by João Batista do Lago
Ó tu, leito-mãe dos Tupinambás
Reina dos mares do Sul, sois vós
Vitoriosa, oh! amada Upaon-açu
Carregas nome e cetro de realeza
N’alma saber e virtude de Atenas
No peito o brasão de viva Natureza
Ó tu, São Luís – Ilha dos Amores!
Amada de francos, lusos e neerlandeses
Sois vós o encanto de Arúspice
Profeta da vossa eterna glória e pureza:
- Vosso destino é conservar em si toda beleza
serás deste teu Orfeu a eterna Eurídice
Ó tu, São Luís – Jamaica brasileira
Sou-vos grato pela vida inteira pois
Sabei-vos de muitos ser uma só pessoa
Jamais vos deixaste vencer. Sois guerreira!
Ainda que vos queira estuprar o monstro da modernice
Haverá sempre um filho teu que não fugirá a luta
Ó tu, São Luís – Cidade dos Azulejos
Perdoai o jugo da desgraçada sorte (e)
Tomai por exemplo o Cristo da hora da morte
Perdoai os filhos que vos sangra em realejos
Todos serão defenestrados, enfim, para que
Possamos amar-vos entre ruas e curvas de azulejos
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
FIÉIS

FIÉIS
by João Batista do Lago
Vês
Quanta gente-nada
Assiste ao sermão da
Mumificação do ser?
Essa gente desesperada na
Eterna busca do não-sei-o-quê
Alimenta a dominação
Enriquecendo a igreja da alienação.
Vês
Quanta alma é contrita na
Infinita diasporia da
Crucificação do não-ser?
Essa alma regalada
Revelada em pecado
Cai de joelhos aos bocados e
Morre dia-a-dia na igreja que não crer.
Quanta gente se acredita
Desgraçada eterna ser
Busca em cada esquina… Em cada igreja
Um deus-qualquer para vencer
Presas fáceis são do falso saber
Cristos de toda alienação
Reféns fiéis da dominação
Proscritos e miseráveis continuarão.
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Crédito da Ilustração (foto): http://cidadesdobrasil.com.br/img_cn/IMG14-522-820.jpg
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O QUARTO

O QUARTO
(Para Marconi Caldas e Mário Lincoln)
by João Batista do Lago
No quarto resido com minha intimidade
Segredados na clausura da não-presença
Ouvimos as vozes da casa-fantasma (que)
Fala da vida enterrada em seu sepulcro
Há choro em cada gargalhada desesperada
Onde subjaz o Ser defenestrado do si
O quarto é o único lugar onde não desespero
Espaço sagrado onde converso com mortos-vivos
É de lá que muitas vezes atravesso a porta
Sabendo que não terei companhia da vida vazia
- alma que perambula pela casa –
Prenhe da solidão sarcófica da razão posta
É o quarto assim: a minha casa de paz e saúde
Local onde exerço minhas operações…
Onde cozinho os pratos mais perfeitos
Onde minh’alma e eu – e minha intimidade
Nos deitamos para o gozo mais supremo
Onde nas madrugadas chegamos ao extremo
Na sala do meu quarto recebo os ilustres
Conversamos por horas sem a linha do tempo
Tempo que enfeixa… que amarra as almas
No meu quarto o tempo não crucifica… não prende
Nem mesmo tem tempo de ter calma… nem pressa
Do meu quarto depois da travessia não se regressa
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Crédito da Ilustração(foto): http://users.design.ucla.edu/~badgerow/Db-room.jpg
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VAZIO

by João Batista do Lago
A casa está vazia
Há vazio em toda casa
As pessoas da casa: vazias!
Há vazio em toda casa
Que se esvazia de transeuntes
De olhares vazios
De palavras vazias
De pensares vazios
[…]
Na casa vazia apenas um sujeito: TV
O sujeito vê a casa vazia
As pessoas vazias
Olhares vazios
Pessoas vazias
Pensares vazios
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Crédito da Ilustração (foto em p&b): http://mentehumana.weblogger.terra.com.br/img/vazio.jpg
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domingo, 7 de outubro de 2007
PRIMAVERIS

PRIMAVERIS
Tuas coxas de primavera
Primaveris
Secretos segredos guardam
Da flor do sexo
Sequioso de
Embeber-te da
Mais pura e límpida água que
Brota como sumos da terra (da)
Mais pura terra que de mim há
Carregas em ti o
Centro da vida da primavera
Primaveris
Almas que se segredam em
Secretos exalares da
Flor mais pura de cheiro mais túmido
Essência que se me preparas na
Alcova do teu corpo
Sacrário exótico da (minha) eterna paixão
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Crédito da Ilustração (foto): http://www.agriturismovetriceto.it/images/immagini%20stagioni%20primavera.jpg
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segunda-feira, 28 de maio de 2007
PASSAGEIRO DO EU
Por João Batista do Lago
Sou-me – de mim -,
apenas eu – e eu mesmo -,
passageiro da própria passagem.
Espelhado em águas de mares
reclusos, como nau perdida em alto mar,
tornaram-me (re) excluso de portos seguros.
E assim, de posse da minha lepra e da minha loucura,
erguido como representação de anti-poder,
jamais fui construído sujeito mensurável para ser calculado.
Fizeram de mim um vivo morto – ou morto vivo! -
quando me beijou a face, o patrão, no horto das oliveiras,
quando me excluíram e me internaram no palácio dos leprosos.
Venturosos da nau dos loucos, de poderes moucos,
estabeleceram no campo das açucenas
quermesses de dominações sem quaisquer penas.
E lá recluso, e excluso, de mim e do mundo,
açoitado pelo poder como qualquer vagabundo
continuo louco, recluso e excluso, passageiro da própria passagem.
A nau – este mundo -, leprosário da minh’alma
reflete em águas profundas o impuro narciso do poder
num vai-e-vem de ondas mortais de loucos e leprosos.
E agora, já definitivamente condenados, todos – e eu -,
passageiro da própria passagem já não encontro portas de saída
para enfrentar o meu fetiche... Para deitar minha lepra e minha loucura!
quarta-feira, 23 de maio de 2007
DIÁLOGO DE ATHENAS
(Réquiem a São Luis)
Por João Batista do Lago
- Olá, poeta.
Há quanto tempo não nos víamos!
- Que olhares,
Que visões têm da ilha?
- Carrego ainda olhares de Athenas,
Visões de um tempo de querências.
- Ainda bem que podes tê-las,
Pois cá não mais a temos... Tudo é demência!
- Da arte que conhecestes pouca coisa restou.
Hoje há muita miséria, violência e dor,
os jardins da cidade não têm mais flores,
as rosas sumiram, os jasmins secaram.
Sobraram as dores dos desamores
e a cidade poeta virou bandida.
Hoje as almas são dormentes ambulantes
De um bonde carregado de miseráveis,
de miseráveis criaturas sem espaço,
sem rosto, sem fé, vermes sem sacristia,
carentes e tolos viventes de vida sem vida,
sem qualquer guarida de telhados e azulejos,
sem histórias, sem eira nem beira,
sem mar e sem praias, sem sal e sem terra.
Ó, poeta,
as gentes dessa cidade já não têm sol
e nem mesmo a lua flutua em suas almas
para lhes sincronizar a sinfonia de Dionísio,
pois elas perderam o riso da harmonia
e se tornaram almas mortas de agonias.
A cidade, poeta, hoje é “apenas”
alma que pena suas dores e seus horrores,
dissimulada de Athenas sem cantores,
sem poetas, sem poesia,
ilhada no besteirol da vaidade comum
pensada, apenas, na vermelha lama do consumo.
É assim, hoje, a tua ilha: cercada de grilhões
que aprisionam Prometeus nas rochas da ignomínia,
que favorecem os tufões da incompetência
que se sentam à mesa dos poderosos
e diante de um lauto manjar
exigem dos poetas a continência,
exigem toda reverência
para lhes legitimar toda incompetência.
Poeta... Perdemos os telhados.
Todos os telhados perdemos.
Perdemos as sacadas.
Todas as sacadas perdemos.
Perdemos nossas ruas.
Todas as ruas perdemos.
Perdemos nossas fontes.
Todas as fontes perdemos.
Não temos telhados,
nem as sacadas temos.
Não temos ruas,
nem as fontes temos.
Estamos sós... Ilhados estamos.
Perdidos – todos – somos, poeta.
sexta-feira, 11 de maio de 2007
ESTA MULHER - (DIA DAS MÃES)
João Batista do Lago
Vejo hoje esta mulher
(ou seria apenas uma semimulher?)
de tantas lutas, de tanta força
consumida e consumindo-se nos dias do dia-a-dia
vê-se nela
a ausência
da carente
alegria
não-presente!
O tempo maldito no espaço da vida
- há tempo – que lha toma o tempo sem pena de morrê-la...
Cadê os brilhos dos seus olhos?
Para onde foi sua juventude?
E aquela garra que só ela dispunha?
E a palavra forte
(mas justa)
da hora do castigo?
Onde está o beijo da noite que me acomodava na rede em balanço?:
Boi... boi... boi...
boi da cara preta
pega esta criança
que tem medo
de careta.
Lembro daquela mulher ainda orgulhosa
dos seus feitos diários:
ao amanhecer o serviço do café
durante a manhã a tarefa leva à casa limpa,
ao fogão e ao almoço das 13 horas
quando a presença do marido já se fazia presente.
A sesta era curta
e logo ela tornava ao trabalho ainda hoje
não remunerado... não reconhecido;
muitas vezes criticado
(e quantas e tantas vezes criticado!)
mais fogão, tanque de lavar, ferro de passar e o “banho das crianças”...
Assim era aquela mulher que hoje vejo
semiprostrada
sentada à cama
mendigando uma mão
para levantar-se
já sem forças
e combalida
esperando a morte chegar
como sina desta triste vida
que não lha deu oportunidade
que não fora a da procriação
Esta mulher hoje chama atenção pela sua contrição não devida
mas, e ainda assim, por vezes, tomo-a pedindo perdão com um terço à mão:
“onde foi que eu errei?”...
reza por mim e por meus irmãos
pelo Pedro não-presente
(quanta e tanta falta deste ausente!)
percebo no seu balbuciar silente
nas noites que se findam em cada si morrer
a necessidade do amor carente
que se eternizou
virou mito e
transmutou-se em fetiche
sem a consciência do amuleto
E nada posso fazer nesta minha impotência!
Sinto que cada dia do dia-a-dia de d. Júlia
é o pouco do muito que me resta
e por mais paradoxal que pareça
tenho que fazer disto uma festa
um estudo de caso
um laboratório
um consultório para minha loucura
um hospício para a minha cura
no fazer da brochura
apenas um poema de saudades antecipadas.
quinta-feira, 22 de março de 2007
Por João Batista do Lago
As ventas de Deus
de tanto entupidas
já não respiram vidas...
E de tanta fumaça
já não mais tem graça
do paraíso
que perdeu o sorriso
das flores e das rosas
e que aos poucos
cauteriza o ventre da terra...
.............................................
Estão entupidas
as ventas de Deus
pelo vírus do consumo humano
quarta-feira, 21 de março de 2007
PORQUE HOJE É O "DIA DA POESIA"

João Batista do Lago
A poesia lapida o diamante bruto.
A poesia amolece o coração xucro.
A poesia vê a beleza onde os olhos
enxergam apenas mísera tristeza.
A poesia desvela e revela
a alma do povo em cada nova palavra
como novo alvorecer.
A poesia transforma o ser.
A poesia briga.
A poesia deblatera.
A poesia chora.
A poesia ri.
A poesia ama e odeia e grita.
A poesia anoitece no amanhecer,
como amanhece no anoitecer.
A poesia acontece em qualquer ser.
A poesia é filosofia e
também sociologia.
A poesia é deus e o diabo.
A poesia é Horácio, é Hesíodo.
A poesia é Aristóteles e Platão.
A poesia é Jesus e João,
Herodes e Salomé.
A poesia é feita de Hércules e de Náusicaas.
A poesia é vida e morte.
A poesia é azar e sorte.
A poesia é língua, fala e linguagem.
A poesia é Paidéia.
A poesia é Arete.
A poesia é.
terça-feira, 6 de março de 2007
Os Ricos, os Pobres e a Globalização
Questionar a globalização e suas conseqüências dá-nos a impressão de malhar em ferro frio. Mas será isso mesmo? Devemos nos acomodar e aceitá-la sem quaisquer questionamentos? Devemos admitir, por definitivo, que o Mercado é o nosso “deus”? Devemos introjetar no nosso existir a submissão absoluta às rezas da igreja global? Devemos aceitar a demonização dos que insistem em discordar dos métodos e das metodologias dessa igreja? Essas são questões reflexivas...
Dizem os apologistas da globalização, ainda hoje, que ela é a medida exata para diminuir as distâncias entre pobres e ricos; que cabe aos mercados ditar as regras; que compete aos mercados propor e gerir as diferenças entre ricos, novos ricos, pobres e miseráveis. Será isto uma verdade insofismável? Será isso o que vem ocorrendo? Ou será que as nações pobres estão ficando miseráveis e as nações ricas mais trilhardárias, aprofundando assim ainda mais as diferenças? Essas são questões reflexivas...
Aos meus olhos, a globalização, é um engodo. É a forma mais sutil, porém a mais vil, a mais estúpida e a mais selvagem fonte de dominação de povos e nações pobres e miseráveis por parte das nações ricas. A queda das tais barreiras comerciais não passa de pura desterritorialização dos Estados-Nação que, assim, ficam vulneráveis e unicamente dependentes de um tipo de capital virtual que, num clique pode varrer do mapa nações e povos do terceiro, quarto ou quinto mundos.
Mas assim como para toda e qualquer ação temos uma contra-ação natural e original, assim está ocorrendo com a globalização (e não é de hoje!) que teimava em não mostrar, em segregar, em esconder, em reprimir a miséria e a pobreza existentes no mundo, sob o discurso de que o mercado iria resolver tais questões. Ledo engano. Os formuladores da globalização jamais imaginariam que a miséria e a pobreza, com a queda das tais barreiras comerciais, também se introduziriam como mercadoria ou moeda de exportação.
E agora o que fazer com esse paradigma?
Pois é. Esqueceram-se os ideólogos da globalização que a pobreza e a miséria poderiam constituir-se em causa-efeito desse mesmo paradigma universal: a globalização. Paradoxalmente essa mesmíssima globalização que serve para engordar a “burrinha” dos ricos, não dimensionaria uma vertente: a migração da pobreza e da miséria que se estão espalhando pelos seus quintais, noutras palavras, que se estão globalizando entre as nações ricas.
Em Londres (Inglaterra), por exemplo, jamais se vira, antes do advento da globalização, vendedores de hot-dog em frente ao palácio da rainha-mãe, que chegou inclusive a ficar incomodada (e reclamar) com o odor que exalava do apetitoso “cachorro quente”, bem conhecido entre nós, brasileiros. Esse é apenas um exemplo emblemático e com todas as tintas para a pintura de quadro surracionalista.
Quanta ironia!
[1] João Batista do Lago é poeta, escritor, teatrólogo e jornalista.
sábado, 24 de fevereiro de 2007
POR QUE AS ELITES E A NEOBURGUESIA BRASILEIRASSE OURIÇAM QUANDO SE FALA EM GUERRA VIVIL?
Negação
Não aceitarei jamais
A decisão faceira
De me enquadrares
Dentro do quadrado
Mágico da ordem
Bem-estabelecida.
Essa tua guarida
É pura morte
Morte da palavra
Que se calada
Fica de toda ferida
Nos currais da ordem.
Tirai o tapete estendido
Dele não me utilizarei
Minha passagem será livre
Será escarlate – bem sei
Portanto não te ofereças tanto
A quem amor não te tem.
Quanto ao teu corrupto vintém
Assegura-o em tua desgraça
Ele não se fará mordaça
Da livre palavra que graça
Em toda praça com raça
Deste povo que não é chalaça.
=*=
(In EU, PESCADOR DE ILUSÕES, LAGO, João Batista do - Ed. Mhario Lincoln do Brasil, 2006 – 1ª Edição – E - Book Grátis)[3]
Feitas estas considerações vamos ao que interessa, ou seja, tentar responder a questão que intitula este artigo: Por que as elites e a neoburguesia brasileiras se ouriçam quando se fala em Guerra Civil?
Antes de tudo, porém, vale dizer que minhas palavras (como bem foi observado por alguns dos interragentes da entrevista) não contêm em si nada de novo. Isto é fato. Antes de dizê-las muitos já manifestaram o mesmo pensamento. Portanto, nada há de novo naquilo que disse ao jornalista Mhário Lincoln. E reflete pura e tão-somente uma manifestação pessoal, melhor dizendo, uma representação da minha mente que teima em não ficar adormecida pelo ópio do Poder, da Dominação, da Burguesia e das Elites que não têm o Brasil como referência, mas seus intestinos. E que, por isso mesmo, pouco se lhes dá em discutir o Brasil real, posto que, o que se lhes interessa é o brasil (com “b” minúsculo) do carnaval, da mulata, do samba, do futebol – manifestações culturais que já nem mais são do povo-massa ou do povo-nação – como “sujeitos operadores” de uma país de alienados. Eis, aqui, a metáfora implícita na “guerra civil” por mim ditada. E neste sentido não tiro uma palavra, uma vírgula sequer, do que declarei. E repito: este país precisa da sua guerra civil para constituir-se como nação, para criar sua identidade e sua cultura próprias. E isto significa dizer, noutras palavras: as elites brasileiras, com o beneplácito das burguesias nacionais, sobretudo essa elite que não mostra a cara, que está escondida nos porões do capitalismo nacional, nos palácios, nos governos, nas instituições, falharam. E falharam feio.
E diz mais adiante o professor Darcy Ribeiro: “Ao contrário do que alega a historiografia oficial, nunca faltou aqui, até excedeu, o apelo à violência pela classe dominante como arma fundamental da história. O que faltou, sempre, foi espaço para movimentos sociais capazes de promover sua reversão. Faltou sempre, e falta ainda, clamorosamente, uma clara compreensão da história vivida, como necessária nas circunstâncias em que ocorreu, e um claro projeto alternativo de ordenação social, lucidamente formulado, que seja apoiado e adotado como seu pelas grandes maiorias”.
E enfatiza o professor Darcy Ribeiro: “Não é impensável que a reordenação social se faça sem convulsão social, por via de um reformismo democrático. Mas ela é muitíssimo improvável neste país em que uns poucos milhares de grandes proprietários podem açambarcar a maior parte de seu território, compelindo milhões de trabalhadores a se urbanizarem para viver a vida famélica das favelas, por força da manutenção de umas velhas leis. Cada vez que um político nacionalista ou populista se encaminha para a revisão da institucionalidade, as classes dominantes apelam para a repressão e a força”.
Tão claras são as palavras do professor Darcy Ribeiro que dispensam comentários, mas servem para serem introjetadas e pensadas por todos que não se encontram adormecidos pelas benesses dessa “classe dominante”, mas que prefiro continuar chamando de elites brasileiras.
Por outro lado, e por fim, quero encerrar este artigo dizendo o seguinte: minha gênese é o barro do debate, da discussão, e em razão disso aceito, muito embora não concorde ou discorde veementemente dos seus enunciados ou conteúdos discursivos ou ideologias, que sejam postas à mesa, mas ao mesmo tempo sou radicalmente contrário às manifestações academistas ou academicistas, com ar de uma tipologia de professorado, como aquelas que desejam esconder a verdade mais-que-real dentro do campo de um pretenso saber conceitualístico, oriundo de reservas compilatórias de bibliotecas virtuais; assim como não aceito, sob hipótese quaisquer, o encavernamento - por intermédio de um escapismo barato - do núcleo do debate, como aquele que se diz simplesmente que tudo não passa de mero sensacionalismo. Aos defensores desta arte retórica resta-me assinalar o seu grau de aculturação sócio-político, e bem dizê-los promissores defensores da “classe dominante”.
[1] João Batista do Lago, 56, é jornalista, poeta, teatrólogo e escritor.
[2] http://mhariolincoln.jor.br/
[3] Solicitar livro: mhario@globo.com
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007
NUMA NOITE DE FINAL DE VERÃO
O mais leve toque de minhas mãos no teu corpo
dá-me a impressão do puro desvirginamento
de toda doçura que reside com tamanha candura
nas tuas curvas agora cobertas pelo lençol
mas que ainda há pouco sugava meu suor
em frêmitos gemidos de prazerosa sede carnal.
Não me contenho diante de tanta beleza
e vagarosamente, sutilmente descortino tua pureza
para gravá-la no mais fundo dos meus olhos
e tatuá-la no mais recôndito da minha consciência
para jamais esquecer toda ternura das tuas curvas
que me fazem enlouquecer de louca paixão.
E como se tivesse tocando na mais nobre rosa
vou-me imbricando entre as pétalas da tua alma
nascente do mais puro perfume que jorra amor
e aos pouquinhos vou-me perdendo no teu mar
vou-me afogando e vou-me afundando na paz
do mais puro gozo que reluz de ti.
