sexta-feira, 26 de outubro de 2007

CARTA PARA OUTRO-EU

© by João Batista do Lago

Olá, meu caro.
Há quanto tempo não nos falamos!
Gostaria de ter notícias tuas...
Como andas? O que tens feito da vida?
Sabes, ainda ontem andei pensando em nós dois.
Quando éramos crianças (lembras?)
brincávamos no alpendre lá de casa,
corríamos por entre quartos, paredes e corredores...
Ah, o Rex sempre nos atormentando,
atravessando nossos caminhos
mordendo nossos tornozelos...

- Parem, meninos, parem com essa correria.
Gritava mamãe sempre que passávamos por ela,
escrava que era daquela máquina de costurar:
tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic...
tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic...
Assim ela ia cosendo nossas vidas, nossas histórias... e nossas estórias.
Dia após dia de intermináveis costurares!
Mas nós continuávamos a brincar, a correr, a pular:
E ela: - Parem, meninos, parem com essa correria – insistia em nos alertar.
E a máquina: tchic, tchic... tchic,tchic... tchic,tchic... tchic, tchic... tchic,tchic...
tchic, tchic... tchic,tchic... tchic,tchic... tchic, tchic... tchic,tchic...

Ah, meu caro, tenho pavor às saudades, mas
percebo que hoje, ao alcançar esta minha idade,
elas se apresentam tão salientes que são difícil não escutá-las.
Elas estão presentes em tudo e em todos os lugares!
Ó, amigo, essas saudades são de amargar, me
incomodam e se instalam em qualquer lugar
ficam o tempo todo a me vasculhar...
Saudades são como carrapatos de almas,
verdadeiros parasitas inconfessos
sanguessugas de velhas e novas lembranças, (que)
roubam a consciência da presente esperança.

Sabes! Hoje tenho nítida sensação de me haver
internado numa masmorra. Sinto-me preso.
Estou isolado num infinito labirinto.
Não sei quando entrei... e nem por onde.
Não encontro portas de saída. Estou só.
Vago noites e dias entre as paredes frias da
minha masmorra sem portas. Ouço o
lamento do vazio num eterno calafrio de
vozes que me vêm do além mais próximo de mim:
ecos de dores... de horrores. São
quermesses do nada exaltando o meu fim.

Vês, meu caro, o quanto sinto tua falta?
Preciso-te. Necessito alentar minha dor, pois
somente a palavra do poeta – palavra de sofredor! -
não resolve a carência maior de minha paixão em flor.
Sim! Preciso-te, caro amigo, para
novamente corrermos entre quartos, paredes e corredores
conversarmos com o vento e a infância, sem
precisar ficar espantado com a adulta ignorância.
Sim! Preciso-te. Urgentemente preciso-te.
Preciso-te para viver minha eternidade de criança.
Preciso-te para sair desta masmorra. Deste labirinto.

Abraço-te, meu caro.
Eu.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

EUNOMIA

EUNOMIA

© by João Batista do Lago

Não sou filho,
Apenas - e só –,
da Idiotia.
Mas sou filho,
Apenas – tão só –,
da Política:
na transcendência
sou imanência;
do divino, sou o profano;
da exterioridade sou a subjetividade;
da phisys sou o espírito;
no sensível sou res extensa
no inteligível sou res cogitans

[…]

Sim, sou filho
Apenas – e só –
da Metafísica,
da Matemática,
da Ilusão e
assim sou Razão.

[…]

Sou Zeus.
Sou Mito.
Sou Deus.

[…]

Sou tríade:
Idéia Absoluta.
Uno.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

ETERNA PAIXÃO

Apoya a la publicación independiente: compra este book en Lulu.

ETERNA PAIXÃO

by João Batista do Lago

Como jardineiro solitário
Reguei cada flor dos (nossos)
Desencontros nunca marcados (e)
Em cada rosa
Plantei uma pétala de versos
Pensando um dia ela fosse colhida
Pelas mãos da Justiça
Oh! Themis
Hoje trago espinhos nas mãos (e)
A mesma esperança d’um dia
Ser-te espada e balança (e)
Com a doçura do nosso amor-criança
Ver nascer do jardim-infância
Aquele amor-paixão (quase)
Esquecido no jardim da ilusão

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

SONHO ESTRANHO


SONHO ESTRANHO


© by João Batista do Lago

Ontem a noite tive um sonho…
Lá pelas tantas da madrugada.
Um sonho no mínimo estranho.
Desses difíceis de revelar.
Sonhei que tinha morrido num
domingo de primavera.
E tão bela a morte me viera
trazendo consigo a bela Quimera!
Oh! Quão bela donzela:
Metade mulher; metade serpente
Ah, essa Quimera ardente
transfromou a pedra fria em
leito quente e me amou
despudoradamente… apaixonadamente…
Ah! essa Quimera envolvente não
tinha cabeça de leão, nem
tinha o dorso da cabra, tampouco o
a parte posterior do dragão.
Ah, essa quimera só tinha paixão
e me amava, a mim, Belerofonte, em desrazão
sobre o dorso de Pégaso a caminho do Olimpo
onde somente os deuses amam com total razão.
- - - - - - - - - -
Crédito da Ilustração: http://www.casadacultura.org/arte/arte_digital/bruno_santos/quimera_grd.jpg

Compre livros aqui:


Apoya a la publicación independiente: compra este book en Lulu.

ÓPERA DO HUMANO

ÓPERA DO HUMANO

© by João Batista do Lago



Proliferam deuses… Senhores donos do mundo!
Surgem da escuridão e das noites dos tempos
Eterno movimento de sanguessugas modernos
Encenam no teatro da vida a tragédia dos infernos

Desventura da miserável ópera humana
O homem protagoniza o enredo da sorte
Entoa em salmos sua oração mais profana:
Vencer o irmão e subjugá-lo até a morte

Oh! Atores das desgraças abissais
Homens desgraçados por séculos serão
Tua triste sina não se findará jamais

E quando tudo restara sem esperança
No encanto da criação só restará do
Humano o homem feito danado cão

sábado, 20 de outubro de 2007

ODE A SÃO LUIS



ODE A SÃO LUIS©

by João Batista do Lago

Ó tu, leito-mãe dos Tupinambás
Reina dos mares do Sul, sois vós
Vitoriosa, oh! amada Upaon-açu
Carregas nome e cetro de realeza
N’alma saber e virtude de Atenas
No peito o brasão de viva Natureza

Ó tu, São Luís – Ilha dos Amores!
Amada de francos, lusos e neerlandeses
Sois vós o encanto de Arúspice
Profeta da vossa eterna glória e pureza:
- Vosso destino é conservar em si toda beleza
serás deste teu Orfeu a eterna Eurídice

Ó tu, São Luís – Jamaica brasileira
Sou-vos grato pela vida inteira pois
Sabei-vos de muitos ser uma só pessoa
Jamais vos deixaste vencer. Sois guerreira!
Ainda que vos queira estuprar o monstro da modernice
Haverá sempre um filho teu que não fugirá a luta

Ó tu, São Luís – Cidade dos Azulejos
Perdoai o jugo da desgraçada sorte (e)
Tomai por exemplo o Cristo da hora da morte
Perdoai os filhos que vos sangra em realejos
Todos serão defenestrados, enfim, para que
Possamos amar-vos entre ruas e curvas de azulejos

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

FIÉIS




FIÉIS

by João Batista do Lago


Vês

Quanta gente-nada

Assiste ao sermão da

Mumificação do ser?

Essa gente desesperada na

Eterna busca do não-sei-o-quê

Alimenta a dominação

Enriquecendo a igreja da alienação.


Vês

Quanta alma é contrita na

Infinita diasporia da

Crucificação do não-ser?

Essa alma regalada

Revelada em pecado

Cai de joelhos aos bocados e

Morre dia-a-dia na igreja que não crer.


Quanta gente se acredita

Desgraçada eterna ser

Busca em cada esquina… Em cada igreja

Um deus-qualquer para vencer

Presas fáceis são do falso saber

Cristos de toda alienação

Reféns fiéis da dominação

Proscritos e miseráveis continuarão.

= = = = = = = = = =

Crédito da Ilustração (foto): http://cidadesdobrasil.com.br/img_cn/IMG14-522-820.jpg

= = = = = = = = = =

O QUARTO




O QUARTO


(Para Marconi Caldas e Mário Lincoln)

by João Batista do Lago

No quarto resido com minha intimidade
Segredados na clausura da não-presença
Ouvimos as vozes da casa-fantasma (que)
Fala da vida enterrada em seu sepulcro
Há choro em cada gargalhada desesperada
Onde subjaz o Ser defenestrado do si

O quarto é o único lugar onde não desespero
Espaço sagrado onde converso com mortos-vivos
É de lá que muitas vezes atravesso a porta
Sabendo que não terei companhia da vida vazia
- alma que perambula pela casa –
Prenhe da solidão sarcófica da razão posta

É o quarto assim: a minha casa de paz e saúde
Local onde exerço minhas operações…
Onde cozinho os pratos mais perfeitos
Onde minh’alma e eu – e minha intimidade
Nos deitamos para o gozo mais supremo
Onde nas madrugadas chegamos ao extremo

Na sala do meu quarto recebo os ilustres
Conversamos por horas sem a linha do tempo
Tempo que enfeixa… que amarra as almas
No meu quarto o tempo não crucifica… não prende
Nem mesmo tem tempo de ter calma… nem pressa
Do meu quarto depois da travessia não se regressa
= = = = = = = = = =
Crédito da Ilustração(foto): http://users.design.ucla.edu/~badgerow/Db-room.jpg
= = = = = = = = = =

VAZIO



VAZIO

by João Batista do Lago

A casa está vazia
Há vazio em toda casa
As pessoas da casa: vazias!
Há vazio em toda casa
Que se esvazia de transeuntes
De olhares vazios
De palavras vazias
De pensares vazios

[…]

Na casa vazia apenas um sujeito: TV
O sujeito vê a casa vazia
As pessoas vazias
Olhares vazios
Pessoas vazias
Pensares vazios
= = = = = = = = = =
Crédito da Ilustração (foto em p&b): http://mentehumana.weblogger.terra.com.br/img/vazio.jpg
= = = = = = = = = =

domingo, 7 de outubro de 2007

PRIMAVERIS


PRIMAVERIS

Tuas coxas de primavera

Primaveris

Secretos segredos guardam

Da flor do sexo

Sequioso de

Embeber-te da

Mais pura e límpida água que

Brota como sumos da terra (da)

Mais pura terra que de mim há

Carregas em ti o

Centro da vida da primavera

Primaveris

Almas que se segredam em

Secretos exalares da

Flor mais pura de cheiro mais túmido

Essência que se me preparas na

Alcova do teu corpo

Sacrário exótico da (minha) eterna paixão

= = = = = = = = = =

Crédito da Ilustração (foto): http://www.agriturismovetriceto.it/images/immagini%20stagioni%20primavera.jpg

= = = = = = = = = =

segunda-feira, 28 de maio de 2007

PASSAGEIRO DO EU

PASSAGEIRO DO EU

Por João Batista do Lago

Sou-me – de mim -,
apenas eu – e eu mesmo -,
passageiro da própria passagem.

Espelhado em águas de mares
reclusos, como nau perdida em alto mar,
tornaram-me (re) excluso de portos seguros.

E assim, de posse da minha lepra e da minha loucura,
erguido como representação de anti-poder,
jamais fui construído sujeito mensurável para ser calculado.

Fizeram de mim um vivo morto – ou morto vivo! -
quando me beijou a face, o patrão, no horto das oliveiras,
quando me excluíram e me internaram no palácio dos leprosos.

Venturosos da nau dos loucos, de poderes moucos,
estabeleceram no campo das açucenas
quermesses de dominações sem quaisquer penas.

E lá recluso, e excluso, de mim e do mundo,
açoitado pelo poder como qualquer vagabundo
continuo louco, recluso e excluso, passageiro da própria passagem.

A nau – este mundo -, leprosário da minh’alma
reflete em águas profundas o impuro narciso do poder
num vai-e-vem de ondas mortais de loucos e leprosos.

E agora, já definitivamente condenados, todos – e eu -,
passageiro da própria passagem já não encontro portas de saída
para enfrentar o meu fetiche... Para deitar minha lepra e minha loucura!

quarta-feira, 23 de maio de 2007

DIÁLOGO DE ATHENAS

DIÁLOGO DE ATHENAS
(Réquiem a São Luis)

Por João Batista do Lago

- Olá, poeta.
Há quanto tempo não nos víamos!

- Que olhares,
Que visões têm da ilha?

- Carrego ainda olhares de Athenas,
Visões de um tempo de querências.

- Ainda bem que podes tê-las,
Pois cá não mais a temos... Tudo é demência!

- Da arte que conhecestes pouca coisa restou.
Hoje há muita miséria, violência e dor,

os jardins da cidade não têm mais flores,
as rosas sumiram, os jasmins secaram.

Sobraram as dores dos desamores
e a cidade poeta virou bandida.

Hoje as almas são dormentes ambulantes
De um bonde carregado de miseráveis,

de miseráveis criaturas sem espaço,
sem rosto, sem fé, vermes sem sacristia,

carentes e tolos viventes de vida sem vida,
sem qualquer guarida de telhados e azulejos,

sem histórias, sem eira nem beira,
sem mar e sem praias, sem sal e sem terra.

Ó, poeta,
as gentes dessa cidade já não têm sol

e nem mesmo a lua flutua em suas almas
para lhes sincronizar a sinfonia de Dionísio,

pois elas perderam o riso da harmonia
e se tornaram almas mortas de agonias.

A cidade, poeta, hoje é “apenas”
alma que pena suas dores e seus horrores,

dissimulada de Athenas sem cantores,
sem poetas, sem poesia,

ilhada no besteirol da vaidade comum
pensada, apenas, na vermelha lama do consumo.

É assim, hoje, a tua ilha: cercada de grilhões
que aprisionam Prometeus nas rochas da ignomínia,

que favorecem os tufões da incompetência
que se sentam à mesa dos poderosos

e diante de um lauto manjar
exigem dos poetas a continência,

exigem toda reverência
para lhes legitimar toda incompetência.

Poeta... Perdemos os telhados.
Todos os telhados perdemos.

Perdemos as sacadas.
Todas as sacadas perdemos.

Perdemos nossas ruas.
Todas as ruas perdemos.

Perdemos nossas fontes.
Todas as fontes perdemos.

Não temos telhados,
nem as sacadas temos.

Não temos ruas,
nem as fontes temos.

Estamos sós... Ilhados estamos.
Perdidos – todos – somos, poeta.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

ESTA MULHER - (DIA DAS MÃES)

Esta Mulher

João Batista do Lago

Vejo hoje esta mulher
(ou seria apenas uma semimulher?)
de tantas lutas, de tanta força
consumida e consumindo-se nos dias do dia-a-dia

vê-se nela
a ausência
da carente
alegria
não-presente!

O tempo maldito no espaço da vida
- há tempo – que lha toma o tempo sem pena de morrê-la...

Cadê os brilhos dos seus olhos?
Para onde foi sua juventude?
E aquela garra que só ela dispunha?
E a palavra forte
(mas justa)
da hora do castigo?
Onde está o beijo da noite que me acomodava na rede em balanço?:

Boi... boi... boi...
boi da cara preta
pega esta criança
que tem medo
de careta.

Lembro daquela mulher ainda orgulhosa
dos seus feitos diários:
ao amanhecer o serviço do café
durante a manhã a tarefa leva à casa limpa,
ao fogão e ao almoço das 13 horas
quando a presença do marido já se fazia presente.

A sesta era curta
e logo ela tornava ao trabalho ainda hoje
não remunerado... não reconhecido;
muitas vezes criticado
(e quantas e tantas vezes criticado!)
mais fogão, tanque de lavar, ferro de passar e o “banho das crianças”...

Assim era aquela mulher que hoje vejo
semiprostrada
sentada à cama
mendigando uma mão
para levantar-se
já sem forças
e combalida
esperando a morte chegar
como sina desta triste vida
que não lha deu oportunidade
que não fora a da procriação

Esta mulher hoje chama atenção pela sua contrição não devida
mas, e ainda assim, por vezes, tomo-a pedindo perdão com um terço à mão:
“onde foi que eu errei?”...
reza por mim e por meus irmãos
pelo Pedro não-presente
(quanta e tanta falta deste ausente!)
percebo no seu balbuciar silente
nas noites que se findam em cada si morrer
a necessidade do amor carente
que se eternizou
virou mito e
transmutou-se em fetiche
sem a consciência do amuleto

E nada posso fazer nesta minha impotência!

Sinto que cada dia do dia-a-dia de d. Júlia
é o pouco do muito que me resta
e por mais paradoxal que pareça
tenho que fazer disto uma festa
um estudo de caso
um laboratório
um consultório para minha loucura
um hospício para a minha cura
no fazer da brochura
apenas um poema de saudades antecipadas.

quinta-feira, 22 de março de 2007

POLUIÇÃO

Por João Batista do Lago

As ventas de Deus
de tanto entupidas
já não respiram vidas...
E de tanta fumaça
já não mais tem graça
do paraíso
que perdeu o sorriso
das flores e das rosas
e que aos poucos
cauteriza o ventre da terra...
.............................................
Estão entupidas
as ventas de Deus
pelo vírus do consumo humano

quarta-feira, 21 de março de 2007

PORQUE HOJE É O "DIA DA POESIA"


A POESIA É...

João Batista do Lago

A poesia lapida o diamante bruto.
A poesia amolece o coração xucro.
A poesia vê a beleza onde os olhos
enxergam apenas mísera tristeza.
A poesia desvela e revela
a alma do povo em cada nova palavra
como novo alvorecer.
A poesia transforma o ser.
A poesia briga.
A poesia deblatera.
A poesia chora.
A poesia ri.
A poesia ama e odeia e grita.
A poesia anoitece no amanhecer,
como amanhece no anoitecer.
A poesia acontece em qualquer ser.
A poesia é filosofia e
também sociologia.
A poesia é deus e o diabo.
A poesia é Horácio, é Hesíodo.
A poesia é Aristóteles e Platão.
A poesia é Jesus e João,
Herodes e Salomé.
A poesia é feita de Hércules e de Náusicaas.
A poesia é vida e morte.
A poesia é azar e sorte.
A poesia é língua, fala e linguagem.
A poesia é Paidéia.
A poesia é Arete.
A poesia é.

terça-feira, 6 de março de 2007

Os Ricos, os Pobres e a Globalização

Por João Batista do Lago[1]

Questionar a globalização e suas conseqüências dá-nos a impressão de malhar em ferro frio. Mas será isso mesmo? Devemos nos acomodar e aceitá-la sem quaisquer questionamentos? Devemos admitir, por definitivo, que o Mercado é o nosso “deus”? Devemos introjetar no nosso existir a submissão absoluta às rezas da igreja global? Devemos aceitar a demonização dos que insistem em discordar dos métodos e das metodologias dessa igreja? Essas são questões reflexivas...
Dizem os apologistas da globalização, ainda hoje, que ela é a medida exata para diminuir as distâncias entre pobres e ricos; que cabe aos mercados ditar as regras; que compete aos mercados propor e gerir as diferenças entre ricos, novos ricos, pobres e miseráveis. Será isto uma verdade insofismável? Será isso o que vem ocorrendo? Ou será que as nações pobres estão ficando miseráveis e as nações ricas mais trilhardárias, aprofundando assim ainda mais as diferenças? Essas são questões reflexivas...
Aos meus olhos, a globalização, é um engodo. É a forma mais sutil, porém a mais vil, a mais estúpida e a mais selvagem fonte de dominação de povos e nações pobres e miseráveis por parte das nações ricas. A queda das tais barreiras comerciais não passa de pura desterritorialização dos Estados-Nação que, assim, ficam vulneráveis e unicamente dependentes de um tipo de capital virtual que, num clique pode varrer do mapa nações e povos do terceiro, quarto ou quinto mundos.
Mas assim como para toda e qualquer ação temos uma contra-ação natural e original, assim está ocorrendo com a globalização (e não é de hoje!) que teimava em não mostrar, em segregar, em esconder, em reprimir a miséria e a pobreza existentes no mundo, sob o discurso de que o mercado iria resolver tais questões. Ledo engano. Os formuladores da globalização jamais imaginariam que a miséria e a pobreza, com a queda das tais barreiras comerciais, também se introduziriam como mercadoria ou moeda de exportação.
E agora o que fazer com esse paradigma?
Pois é. Esqueceram-se os ideólogos da globalização que a pobreza e a miséria poderiam constituir-se em causa-efeito desse mesmo paradigma universal: a globalização. Paradoxalmente essa mesmíssima globalização que serve para engordar a “burrinha” dos ricos, não dimensionaria uma vertente: a migração da pobreza e da miséria que se estão espalhando pelos seus quintais, noutras palavras, que se estão globalizando entre as nações ricas.
Em Londres (Inglaterra), por exemplo, jamais se vira, antes do advento da globalização, vendedores de hot-dog em frente ao palácio da rainha-mãe, que chegou inclusive a ficar incomodada (e reclamar) com o odor que exalava do apetitoso “cachorro quente”, bem conhecido entre nós, brasileiros. Esse é apenas um exemplo emblemático e com todas as tintas para a pintura de quadro surracionalista.
Quanta ironia!
[1] João Batista do Lago é poeta, escritor, teatrólogo e jornalista.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

POR QUE AS ELITES E A NEOBURGUESIA BRASILEIRASSE OURIÇAM QUANDO SE FALA EM GUERRA VIVIL?


Por João Batista do Lago[1]
Esta questão ocorreu-me após uma entrevista que dei ao jornalista Mhário Lincoln, editor do portal MHARIO LINCOLN DO BRASIL[2], no domingo de carnaval, mas veiculada somente na quarta-feira de cinzas, onde, muito ligeiramente falei sobre essa questão. Para meu espanto, minhas palavras imediatamente à veiculação causaram uma tipologia de “ouriçamento” na audiência do site: 1) visível, e 2) invisível. E isso, para mim, foi uma excelente descoberta (e creio, a será para o jornalista Mhário Lincoln), ou seja, a home tem uma audiência que mostra a cara, que não tem medo de interagir, que não se esconde; e outra: que não se expõe, que se esconde, que é covarde, e que ainda por cima, quando seu nome é exposto na penumbra pede para não ser identificada. Deste fato ocorre-me a seguinte conclusão: a) a existência de uma elite e uma burguesia saudável e b) a existência de uma elite e uma burguesia arrogante, prepotente, discriminatória e preponderantemente ditatorial, e o pior de tudo, insensível às questões nacionais, isto é, preocupadas pura e tão-somente com o enchimento de suas burrinhas e o “brutal” enriquecimento, em contraste com 90% de um povo-nação de miseráveis e pobres. Com aquela (a) pode-se concatenar conversação, debate, discussão, e até justapor ou contrapor idéias no sentido de uma saída para nossas agruras como violência, crime, miséria, pobreza, educação, saúde, favelização... Com esta (b) é impossível quaisquer concatenações, pois, seu método é o já conhecido anonimato e suas práticas ameaçadoras. A esta (b) este meu aviso em forma de poesia, minha arma letal, que jamais se apagará, “apesar de você”:

Negação

Não aceitarei jamais
A decisão faceira
De me enquadrares
Dentro do quadrado
Mágico da ordem
Bem-estabelecida.
Essa tua guarida
É pura morte
Morte da palavra
Que se calada
Fica de toda ferida
Nos currais da ordem.
Tirai o tapete estendido
Dele não me utilizarei
Minha passagem será livre
Será escarlate – bem sei
Portanto não te ofereças tanto
A quem amor não te tem.
Quanto ao teu corrupto vintém
Assegura-o em tua desgraça
Ele não se fará mordaça
Da livre palavra que graça
Em toda praça com raça
Deste povo que não é chalaça.

=*=
(In EU, PESCADOR DE ILUSÕES, LAGO, João Batista do - Ed. Mhario Lincoln do Brasil, 2006 – 1ª Edição – E - Book Grátis)[3]

Feitas estas considerações vamos ao que interessa, ou seja, tentar responder a questão que intitula este artigo: Por que as elites e a neoburguesia brasileiras se ouriçam quando se fala em Guerra Civil?
Antes de tudo, porém, vale dizer que minhas palavras (como bem foi observado por alguns dos interragentes da entrevista) não contêm em si nada de novo. Isto é fato. Antes de dizê-las muitos já manifestaram o mesmo pensamento. Portanto, nada há de novo naquilo que disse ao jornalista Mhário Lincoln. E reflete pura e tão-somente uma manifestação pessoal, melhor dizendo, uma representação da minha mente que teima em não ficar adormecida pelo ópio do Poder, da Dominação, da Burguesia e das Elites que não têm o Brasil como referência, mas seus intestinos. E que, por isso mesmo, pouco se lhes dá em discutir o Brasil real, posto que, o que se lhes interessa é o brasil (com “b” minúsculo) do carnaval, da mulata, do samba, do futebol – manifestações culturais que já nem mais são do povo-massa ou do povo-nação – como “sujeitos operadores” de uma país de alienados. Eis, aqui, a metáfora implícita na “guerra civil” por mim ditada. E neste sentido não tiro uma palavra, uma vírgula sequer, do que declarei. E repito: este país precisa da sua guerra civil para constituir-se como nação, para criar sua identidade e sua cultura próprias. E isto significa dizer, noutras palavras: as elites brasileiras, com o beneplácito das burguesias nacionais, sobretudo essa elite que não mostra a cara, que está escondida nos porões do capitalismo nacional, nos palácios, nos governos, nas instituições, falharam. E falharam feio.
Tome-se como exemplo as palavras de um dos maiores intelectuais que esta nação já produziu, o antropólogo Darcy Ribeiro; brasileiro consciente como poucos ou como nenhum outro: “O povo brasileiro pagou, historicamente, um preço terrivelmente alto em lutas das mais cruentas de que se tem registro na história, sem conseguir sair através delas, da situação de dependência e opressão em que vive e peleja. Nessas lutas índios foram dizimados e negros foram chacinados aos milhões, sempre vencidos e integrados nos plantéis de escravos. O povo inteiro, de vastas regiões, às centenas de milhares, foi também sangrado em contra-revoluções sem conseguir jamais, senão episodicamente, conquistar o comando de seu destino para reorientar o curso da história”.
E diz mais adiante o professor Darcy Ribeiro: “Ao contrário do que alega a historiografia oficial, nunca faltou aqui, até excedeu, o apelo à violência pela classe dominante como arma fundamental da história. O que faltou, sempre, foi espaço para movimentos sociais capazes de promover sua reversão. Faltou sempre, e falta ainda, clamorosamente, uma clara compreensão da história vivida, como necessária nas circunstâncias em que ocorreu, e um claro projeto alternativo de ordenação social, lucidamente formulado, que seja apoiado e adotado como seu pelas grandes maiorias”.
E enfatiza o professor Darcy Ribeiro: “Não é impensável que a reordenação social se faça sem convulsão social, por via de um reformismo democrático. Mas ela é muitíssimo improvável neste país em que uns poucos milhares de grandes proprietários podem açambarcar a maior parte de seu território, compelindo milhões de trabalhadores a se urbanizarem para viver a vida famélica das favelas, por força da manutenção de umas velhas leis. Cada vez que um político nacionalista ou populista se encaminha para a revisão da institucionalidade, as classes dominantes apelam para a repressão e a força”.
Tão claras são as palavras do professor Darcy Ribeiro que dispensam comentários, mas servem para serem introjetadas e pensadas por todos que não se encontram adormecidos pelas benesses dessa “classe dominante”, mas que prefiro continuar chamando de elites brasileiras.
Por outro lado, e por fim, quero encerrar este artigo dizendo o seguinte: minha gênese é o barro do debate, da discussão, e em razão disso aceito, muito embora não concorde ou discorde veementemente dos seus enunciados ou conteúdos discursivos ou ideologias, que sejam postas à mesa, mas ao mesmo tempo sou radicalmente contrário às manifestações academistas ou academicistas, com ar de uma tipologia de professorado, como aquelas que desejam esconder a verdade mais-que-real dentro do campo de um pretenso saber conceitualístico, oriundo de reservas compilatórias de bibliotecas virtuais; assim como não aceito, sob hipótese quaisquer, o encavernamento - por intermédio de um escapismo barato - do núcleo do debate, como aquele que se diz simplesmente que tudo não passa de mero sensacionalismo. Aos defensores desta arte retórica resta-me assinalar o seu grau de aculturação sócio-político, e bem dizê-los promissores defensores da “classe dominante”.
[1] João Batista do Lago, 56, é jornalista, poeta, teatrólogo e escritor.
[2] http://mhariolincoln.jor.br/
[3] Solicitar livro: mhario@globo.com

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

NUMA NOITE DE FINAL DE VERÃO

Por João Batista do Lago

O mais leve toque de minhas mãos no teu corpo
dá-me a impressão do puro desvirginamento
de toda doçura que reside com tamanha candura
nas tuas curvas agora cobertas pelo lençol
mas que ainda há pouco sugava meu suor
em frêmitos gemidos de prazerosa sede carnal.
Não me contenho diante de tanta beleza
e vagarosamente, sutilmente descortino tua pureza
para gravá-la no mais fundo dos meus olhos
e tatuá-la no mais recôndito da minha consciência
para jamais esquecer toda ternura das tuas curvas
que me fazem enlouquecer de louca paixão.
E como se tivesse tocando na mais nobre rosa
vou-me imbricando entre as pétalas da tua alma
nascente do mais puro perfume que jorra amor
e aos pouquinhos vou-me perdendo no teu mar
vou-me afogando e vou-me afundando na paz
do mais puro gozo que reluz de ti.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

MELHOR MESMO É A ORIGINALIDADE.


Este é um poema inédito de Heloisa BP. E como bem o diz meu caríssimo professor Henrique, a poesia de Heloisa não é só poema é "um prosema". E os prosemas como ela os faz, como ela os constroi são singularíssimos, por isso mesmo, devem ser publicados em toda a sua originalidade. Originalidade que não encontro em outro lugar, nem em outro poeta, tampouco noutra poetisa. Tocá-lo, mesmo que a intenção seja a melhor das melhores, soa como um verdadeiro estupro literário. Portanto, aqui, e alhures, se publica o poema na sua inteira virgindade, tal qual como se lhe surgiu na mente maravilhosa dessa poetisa que cada dia mais nos encanta.


==========


"Prosema"
----------------

***HOJE LEMBREI-ME DE MIM***
---------------------------------------------

Hoje, lembrei-me de mim!
Hoje, lembrei-me de mim
Me encontrei ali
Ao dobrar daquela
Esquina
Na Avenida calcada
De Noites...
E, vendo namorar a Lua
Me senti com inveja Tua!...


De Quem??
De mim, quando me encontrei,
Ou da Lua
E das Noites
Na Avenida, cuja esquina,
Ora, dobrei??...

Hoje, lembrei-me de mim!
Hoje, de mim lembrei
E me deslumbrei
Com saudades minhas!
Contente, de me ter encontrado
E, apenas, com um "ciumezinho",
Assim, ligeiro... DELA!

_A LUA, LA', ALTANEIRA,
FEITICEIRA_...

E, falando-Lhe,
Logo ali, Lhe perguntei,
Sem nenhuma cerimonia,
Querendo, Dela saber:
Quem Namora,
ELA, agora!???...
...
?SE, e' ainda o SOL
(esse danado)?...
Que passa o Tempo
TODO,
La', empoleirado,
E, nao vem correndo,
Procura'-LA
Enlaca'-LA
E... mais de perto
Namora'-LA!(??)...

Se, e' ,ainda, esse SER
PLATONICO
Semi-atonito,
Andando para Ca' ,
E, para La',
Do Horizonte,
E, ficando ali parado
Mesmo defronte
de Tua Janela
A Diamantes Ornada
E,A Bicos de Estrelas
Debruada!...
...

ELA, Enigmatica,
Semi-Palida,
Semi-Fria,
Semi-Lucida,
Semi-Translucida;
Logo me responde
Em sua poderosa VOZ,
Banhada de Lonjura:
_"E', SIM, CRIATURA IMPERTINENTE"_!

_"Criatura, que me interrogas,
Como se nao fosses Gente,
Mas, de Mim, SER IGUAL
Te arvorasses!
De Mim,
Como se fosses TU
Deusa Encantada
E, neste Dossel
Debrucada,
Qual Carroussel
PLANETARIO
Que Orbita
E Gravita
Na espiral de Meu
Calvario!...

_CALVARIO,
Que e',
Esta "Equi-Distancia"
_DISTANTE_,
*DELE*
_LA'_,
ETERNAMENTE,
E,PLATONICAMENTE,
DE MIM ENAMORADO!...

_Porque Me questionas
TU, O' MUlher
SER-GENTE,
Se, estas de Tua Vida
Descontente!?...
Nao imaginaras, por certo,
Meu lugar
Tomar,
AQUI!?...

_DEMENTE_!

...

Hoje, lembrei-me de MIM:
Respondi, eu, logo ali, a Lua
Muito rapidamente;
Porque, Deusas,
Queremos, de Nos Contente!...

...

_Lembrei-me, hoje, de Mim
E, olhei para Ti,
AI', palida, translucida,
Eternamente Enamaroda
De Um REI
Cujo TRONO
Vale NADA!

UM REI,
DE COROA DOURADA
DE RAIOS CHISPANTES,
E BRILHANTES
ADORNADA,
Mas, que PODER
NAO TEM!

_PODER NAO TEM,
Para transpor em TREM
Que nao "Descarrila"
Nao oscila
Nem vacila
Na LINHA DE FERRO
DO UNIVERSO!
...
E... continuando correndo,
Galopando na garupa
Desse descomunal
CAVALO DE FERRO
_FERRO EM BRASA_
Patinado a "OURO VELHO"
Qual rara VELHARIA
Da FEIRA DAS VAIDADES
NO ANTIQUARIO DAS VERDADES!...
...
E...
Que Estranho E' O REI,
Que TE nao ARREBATA
Via Lactea Alem...
Para o outro Lado,
_DO TREM_,
Que corre apressado
Nos Carris Enferrujados
DO TEMPO!...
.....................

HOJE LEMBREI_ME DE MIM!

Hoje, de Mim lembrei!
E, quando me encontrei
No dobrar da Esquina
Da Tal AVENIDA
CALCADA DE NOITES...
ONDE UMA OUTRA E ,MAIS OUTRA, VEZ TE VI,NAMORAR O SOL;ASSIM,
PLACIDAMENTE,
EMPALIDECIDADE MORTE,VESTIDA DE VIDA!...
...

E... pensando, eu,
Sentir, como que,
Um "Ciumezinho de TI*,
Porque, Enamorada
AMADA!
_OU MAL AMADA_!???...

Mas, qual ciume, qual nada!...
Logo ali , em MIM,
TE RECONHECI!!!!!
E, de TI,
Irma,
Entao me compadeci!
Porque, como Irma e Deusa,
Nao precisas
"Posar" em Superiodidade...
Porque, entre NOS,
Existe, por Abismo,
Uma Paradoxal
IGUALDADE!
_*TU*,
PLANTADA AI',
SEMI-PALIDA,
SEMI-TRANSLUCIDA
SEMI-GELIDA
SEMI-AMADA
SEMI-DESTRONADA
SEMI-TUDO E SEMI-NADA...

E, EU,
AQUI,
DESTE LADO DO ESPACO,
DE IGUAL MODO,
PLANTADA,
NO MEIO DO NADA,
NUM PLATONISMOCONFRANGEDORHUMILHANTEDEMOLIDORDESOLADORE...EM TUDO
IGUAL A TUA DOR!...
...

DEUSA E IRMA,
Palida e Fria
De Feiticeiro Cio
ENLUARADA...
*TU, COMO EU*,
NAO ES DEUSA
NAO ES GENTE
NAO ES NADA!!!!!

ES, APENAS PO' DE COSMOS
EM ESFERICA FORMA
PETRIFICADA!
Eu, EM JEITO DE GENTE,
DE ESFERICA ALMA,
POR SETA FERIDA
POR *EROS* LANCADA
_EROS E CUPIDO QUE OS NOMES SAO DOIS OU TRES_
O SER E' UNO!
E' SINGULAR!
MAS, A SETA DOURADA
DE AMOR ENVENENADA,
PENETRA MINHA CARNE
PERFURA A ESFERICAE, OU, INFORME ALMA
E DEIXA CHAGA ABERTA,
EM SANGUE ,SER LAVADA!

E...

AQUELA "COISA"
EM DOR DOBRADA
EM VERMELHO DERRAMADA
SEI LA', SE E' ALMA
OU SE E' CORPO:
_SEMI-VIVO!
_SEMI-PALIDO!
_SEMI-TRANSLUCIDO!
_SEMI-DEMENTE!
_SEMI-MORTO!
_SEMI-GENTE...
PENANDO,
P'la accao da mesma
"Equi-Distancia"
Que e' a "Distancia"
_Exacta_
IGUAL,
Desse PLATONICO
ATONITO
DIABOLICO
*REI-SOL*:
AMOR ARDENTE...
DE FERVENTES
QUE SAO
*SEUS RAIOS*,
OFUSCAM TEUS OLHOS
_ MEUS OLHOS_!...
E, INCENDEIAM
DE FLAMEJANTES CHAMAS,
*O TEU E, O MEU*,
CORACAO!!!!
.........................
........................

Hoje, lembrei-me de Mim!
Hoje, lembrei-me e senti
Como Ambas
Temos Destinos Paralelos
Destinos Similares
Lunares e pateticos
Por Profeticos!

Hoje, lembrei-me de Mim,
E, ao lembrar-me VI
Como as Similaridades
Sao tao "Equi-Distancias"
Tao Singulares,
Ou... Tao Sarcasticamente,
Peculiares!...
_TU_
AI' PLANTADAETERNAMENTE ENAMORADA!
_EU_,
AQUI PREGADA
_ESTAGNADA_
PRESA A UM PEDACO DE TERRA
ONDE, BREVE, BREVE...
MUITO EM BREVE,
NUM LAPSO DESSE PROFANO*TEMPO*,
SEREI POR DESTINO OU DESTINACAO,TAO SOMENTE,
PROFETICAMENTE,
*PO', CINZA, E, NADA*!!!!!!!
.....................................
.....................................
HOJE!
HOJE...
BEM...

HOJE, LEMBREI-ME DE MIM!

E...HOJE, ME VI E NAO ME RECONHECI!!!!!!!!

..........

HOJE, LEMBREI-ME DE *TI*!
LEMBREI-ME E TIVE *DO'*:_DO', DE TI* EM MIM*_!!!!!!!!

...
.......
.............

HOJE, LEMBREI-ME DE MIM!...
LEMBRANDO-ME, SENTI,
QUE, DE *TI*,
*DELE, OU...DE MIM*,
ME PERDI!!!
.........................

ENTAO,
AO DOBRAR DAQUELA ESQUINA,
DA AVENIDA, CALCADA DE NOITES,
VENDO NAMORAR A *LUA*...
EU, JA' NAO SENTI INVEJA :*TUA*_O' LUA_!
...

O, que eu, senti, SIM,
Foi INVEJA DE MIM!
E, DAQUELE DOBRAR DE ESQUINA
EM NOITES BANHADAS DE LUAR
NAQUELA AVENIDADE FRONDOSAS ARVORESVESTIDA;POR ELAS, BELAS E ALTANEIRAS,LADEADAONDE *EROS* SE ESCONDIAE AMOR SE MOSTRAVAE, COM *PSIQUE*,
EM JOGOS DE PRINCESAS ADORMECIDAS
EM LAZERES SE ENCANTAVA!...
E... ONDE O VERBO *AMAR*,EM TODOS OS MODOS, SEM TEMPOS
[DEFINIDOS]SE CONJUGAVA!
...
E... AS SETAS DE CUPIDO
ERAM DE OURO E CALIBRE ESPECIALQUE, SENDO FATAL,TRESPASSAVAMMARCAVAMMAS SEM DOR! E,SEM CHAGA ABRIR!...
...
E... AS MANHAS ACONTECIAM
EM AURORAS DE *ABRIL*!

E... AS *ROSAS*_EM MAIO_SE DESFOLHAVAMEM PETALAS MIL!...

CHOVIAM DO CEU
AS PETALAS,COM TONS E OLORES TAIS...QUE ATE' A PALIDAE PLACIDA *LUA*FAZIAM *SORRIR*
MESMO, ANTES,DO *SOL*TER DE SE DESPEDIRPARA SE RECOLHERE REPOUSANTE SONO DORMIR!!!
.........

DORMIA O SOL!
DORMIA EU!
VELAVA A *LUA*
*O SONO MEU E... O SONO TEU*!!!
...
........

HOJE...
HOJE, LEMBREI-ME DE MIM!!...

HOJE...
HOJE, LEMBREI-ME DE *TI*!!!

E...
HOJE,
ME INTERROGO;
A MIM,
AO SOL,
A LUA:
_"SERA', QUE EM ALGUM DIA,
EU TE CONHECI?...
OU...TE VI,
MAS, NAO TE RECONHECI???...

........
...........
......................

HOJE, ACORDEI, PENSEI EM TI
E, ESQUECI-ME DE MIM!

.................................FIM.......
Escrito em 1 de FEVEREIRO de 2007*
EM BATH (Manha sob o Ceu de BATH!)
***************************************************Heloisa B.P.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

ASAS DE PÁSSARO (*)


Por João Batista do Lago

Preciso das asas de pássaro
Para viajar minha eternidade
Ser companheiro do tempo
Vagar como a luz
Até encontrar os mundos
- diaspóricos mundos –
Mas que me talham em cada dia
Nascido de cada noite

Preciso das asas de pássaro
Para encontrar o amor sem tortura
Amá-lo como se ama a liberdade
Do ar que sustenta os corpos
Num equilíbrio de vadias perenidades
- anárquicas vadias perenidades –
Mas que me talham na alma
A consciência superior de querer-te

Preciso das asas de pássaro
Para ser o sujeito do ser
Assegurar as doidivanas virtudes
Desde o primeiro tempo... Desde a primeira luz...
Até encontrá-las loucamente amantes
- eternamente amantes –
Mas que me talham de toda Justiça
E de mim possam transcender-se

Preciso das asas de pássaro
Para seguir meu caminho errante
Ser eterno companheiro da vida
Com olhos e amor (de eterno amante)
Que se entregam às virgens do saber
- mistéricas virgens do saber –
Mas que me talham na alma a
Gênese da consciência e da justiça... E do amor

(*) Poema para Heloisa BP e Henrique Sousa.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

"DA FAVELICIDADE BRASILEIRA"

Fonte: http://www.upf.edu/materials/fhuma/portal_geos/intgeo/g2/t7/img/favelas.jpg

A Favela-arte e o alegre
lirismo da Arte-favela

(Março/2006)


Como categorizar ou classificar o documentário “Falcão...” exibido na noite do último domingo[1], pelo programa “Fantástico, o show da vida”, da Rede Globo de Televisão, do Brasil, sobre as reais condições de vida dos viventes em favelas, no Rio de Janeiro – Cidade Maravilhosa? O que dizer do impacto que causou (o que não deveria, pois, essa é uma realidade comum a todos nós) ao outro lado, - à burguesia deificada pela pós-modernice imanente no imaginário da identidade brasileira -, ao ver-se refletida no espelho surrealista da grotesca sociedade nacional? Que caminhos tomar, a partir deste evento “espetacular e mitológico”, dessa fantasmagoria, desse babelismo favélico[2], que nos faz alegres e nos remetem a pensamentos tais quais: “ainda bem que não sou eu...”, “o que eu tenho a ver com isso se não moro no Rio de Janeiro...”, “isso é problema dos governos...”, “eu faço a minha parte...”, “venha para o meio...”?
Permito-me dizer que o relatório concreto[3] final (ou quase final!) da pesquisa feita em diversos morros favelados da suburbana “Princesinha do Mar”, que resultou neste documentário telemático, é uma obra de arte... Arte do submundo fantástico! Arte da degradação do ser! Arte da história do homem! Arte da história da consciência humana! Arte da teoria da sociedade! Arte da crítica e da razão! Arte do Aufklärung! Mas, também, é preciso dizer: é arte da auto-afirmação da burguesa pós-modernice que canta em verso e prosa toda a alegria da favela-arte que é mercadejada no imaginário coletivo do mercado animista[4]. É, sobretudo, a afirmação de uma arte inclusiva da exclusão... arte da reclusão... arte da guetização... arte da segregação... É, assim, todo o lirismo da arte contido em si.
O documentário desvela, ao mesmo tempo, uma tipologia dialética do Eu louco foucaultiano numa direção rastreadora do mimetismo e da metamorfose kafkiana. Gostaria mesmo de não ter essa representação imagética desse sanatório geral, mas só ela me é possível após as imagens do aqui e agora, do real e do realismo puros, apresentadas em rede nacional de televisão. Pena que três quartos (ou mais até!) dos expectadores foram dormir sem quaisquer ânsias de vomição, pois, senso comum: a pobreza, a fome, a miséria, a desigualdade, a falta de trabalho... tão essenciais para o desenvolvimento e o progresso da burguesa sociedade que dorme em berço esplêndido - e tudo o mais! – regem, como mitos sacralizados, a vida dessas almas seculares que não mais são tocadas pelos dedos dos deuses capazes de lhes proporcionar a felicidade na terra. Mesmo que momentaneamente amarguradas serão embaladas nesta noite pelos sonhos opiáticos da burguesa solidariedade (ou pena!?) cristã. Que pena!
A cavernosidade do documentário é tanta que provoca letargia imanente não deixando eliminar o monstro e toda sua monstruosidade latente imbricada numa filosofia niilista que veda os olhos da esperança por mais otimistas que queiramos ou desejamos ser. E ainda que o fato se dê no aqui e agora, ele revela a pré-história do ser humano incapaz de resolver seus antagonismos, mesmo que à cada dia mais se eleve ao nível das tecnologias esperançosas (nada mais que falsas verdades!) de uma alteridade capaz de resgatá-lo num progresso sei-lá-do-quê.
Não há como não desesperançar quando nos interiorizamos ou retornamos a essa caverna do humano onde somos assassinados após ver toda a beleza da luz, do sol, da lua, do dia, da noite, dos rios, dos pássaros, das árvores, das rosas, das flores!... Não há como não desesperançar quando nos vemos apenas um mercado onde o modo de produção é a miséria... a fome... a desigualdade... a injustiça...
O que esperar, então, desta obra de arte que retrata e reflete o eu-nós-eu-em-si nessa droga de favela-arte da droga da arte-favela em todo o seu lirismo dogmático?
- O burguês prêmio por mostrar a dialética da negação estética da favela-arte que é comercializada no mercado negro da ética acrítica e amoral – “uma pré-história do idealismo, da imanência, do espírito exaltando-se a si mesmo, da subjetividade dominadora, em que é preciso enfatizar as configurações do mito e da pós-modernidade, da natureza e da história, do antigo e do novo, do sempre idêntico e do outro, da decadência e da salvação”.[5]
Mas, “Falcão...” também nos remete para uma verificação da dialética da cultura da miséria imanente no humano que, em si, é o Eros lírico da arte fetichizada. De certa maneira nos mostra a forma e o conteúdo dessa mísera democracia libidinosa presente no aqui e agora que pensamos está além de nós, quando, em verdade, ocorre dentro da infra-estrutura política, social e econômica, no interior de cada elemento individual do sócio-histórico, isto é, da sociedade, numa pulsão prazerosa da catástrofe e do caos.
Por acaso não é a miséria a estética subjetivista de uma sociedade que contém em si diversidade de emoções e sentimentos que a suscita? Que a torna bela? Que a faz atraente? Que a deseja? Que a erotiza? Que a transforma em mito? Que a consome? Que a subjuga? Que a exclui? Que a faveliza? Que a discrimina? Que a domina? Que a naturaliza, enfim, e a desclassifica?
“Com o recuo da luta de classes em pleno dia, a contradição mudou de forma: ela tem agora a aparência de uma despolitização das massas numa cidade que era, ela própria, cada vez mais politizada. À medida que a separação entre Estado e sociedade desaparece, e o poder social se torna político sem mediação, vê-se aumentar objetivamente o antigo desequilíbrio entre a igualdade inserida no direito e a desigualdade efetivada na repartição das oportunidades de agir politicamente. Esse mesmo processo, aliás, tem também por efeito o fato de ele mesmo perder seu caráter permanente e sua acuidade na cabeça dos homens. A sociedade que, embora seja política por natureza, não está mais separada do Estado, continua a ser concebida como uma entidade separada do Estado nas formas do Estado liberal de direito – essa sociedade funcionaliza cada vez mais seus cidadãos para fins oficiais mutantes, mas, para isso, os privatiza em sua consciência”[6]
É, pois, preciso pensar, entender e compreender - de uma vez por todas - que o morro e toda a sua história de miséria imanente e miseráveis imanentes, e não menos mitológicos e fetichizados, não estão além ou aquém do humano, não estão além ou aquém do sagrado, não estão além ou aquém da metafísica, não estão além ou aquém da racionalidade, não estão além ou aquém da sociedade, não estão além ou aquém do capital e do capitalismo, não estão além ou aquém do Estado. Estão em si. Encontram-se tatuados nas suas essências espirituais e delas jamais podem afastar-se ou desgarrar-se ou desintegrar-se.
Seria, então, a lírica arte de M. V. Bill, a pré-configuração latente de um tipo de profecia que se cumpre por si mesma sobre a forma e conteúdo dos moradores em favelas? Ou, seria, ao contrário, a materialidade real da catástrofe e do caos, que sempre estamos jogando para baixo do tapete das subjetividades latentes, como evitação do reconhecimento, compreensão e entendimento da verdade objetiva?
[1] 19 de março de 2006.
[2] 1 Ora, toda a terra tinha uma só língua e um só idioma.
2 E deslocando-se os homens para o oriente, acharam um vale na terra de Sinar; e ali habitaram.
3 Disseram uns aos outros: Eia pois, façamos tijolos, e queimemo-los bem. Os tijolos lhes serviram de pedras e o betume de argamassa. 4 Disseram mais: Eia, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo cume toque no céu, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.
5 Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam;
6 e disse: Eis que o povo é um e todos têm uma só língua; e isto é o que começam a fazer; agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.
7 Eia, desçamos, e confundamos ali a sua linguagem, para que não entenda um a língua do outro.
8 Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade.
9 Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra, e dali o Senhor os espalhou sobre a face de toda a terra. (Gênesis. 11, 1-9.)
[3] Por estudo concreto, entende-se: um relato da sociedade como, totalidade. Porque somente neste relato é que a consciência, que os homens podem ter em cada momento de sua existência, aparece em suas relações essenciais. Por um lado, aparece como algo que, subjetivamente, se justifica, se compreende e se deve compreender a partir da situação social e histórica, como alguma coisa de "justo"; e, ao mesmo tempo, aparece como alguma coisa que, objetivamente, é passageira com relação à essência do desenvolvimento social, que não se conhece nem se expressa adequadamente, e pois como "falsa consciência". Por outro lado, essa mesma consciência aparece sob essa mesma relação como carente subjetivamente dos alvos que a si mesma assinalou, ao mesmo tempo em que aparece visando e atingindo os alvos objetivos do desenvolvimento social, desconhecidos dela e que ela não desejou. Essa determinação, duplamente dialética, da "falsa consciência" não mais permite tratá-la restringindo-se a descrever o que os homens pensaram, sentiram ou desejaram efetivamente sob determinadas condições históricas, nas determinadas situações de classe etc. O que ai está é apenas o material, e, para dizer a verdade, muito importante, dos estudos históricos propriamente ditos. Estabelecendo-se a relação com a totalidade concreta, donde saem as determinações dialéticas, supera-se a mera descrição e alcança-se a categoria da possibilidade objetiva. E relacionando-se a consciência à totalidade da sociedade, descobrem-se os pensamentos e os sentimentos que os homens teriam tido, em uma situação vital determinada, se tivessem sido capazes de perceber perfeitamente essa situação e os interesses que daí decorrem tanto no que se refere à ação imediata como à estrutura, conforme a esses interesses, de toda a sociedade. Descobrem-se, pois, os pensamentos, etc., que são conformes à sua situação objetiva. Em nenhuma sociedade o número de tais situações é ilimitado. Mesmo se a sua tipologia está elaborada graças às pesquisas minuciosamente aprofundadas, tem-se por resultado alguns tipos fundamentais claramente distintos uns dos outros e cujo caráter essencial está determinado pela tipologia da posição dos homens no processo da produção. Pois a consciência de classe é a reação racional adequada que deve, dessa maneira, ser adjudicada a uma determinada situação típica no processo de produção. Essa consciência não é nem a soma nem a média do que os indivíduos que formam a classe, tomados separadamente, pensam, sentem, etc. Entretanto, a ação historicamente decisiva da classe como totalidade está determinada, em última instância, por essa consciência e não pelo pensamento etc., do indivíduo. E essa ação não pode ser conhecida a não ser a partir dessa consciência. (Consciência de Classe - György Lukács. 1920)
[4] Um bom exemplo disto é o filme Cidade de Deus (Fernando Meirelles), e mais remotamente Pixote (Hector Babenco), que, tal qual o documentário, fala sobre a vida e o comportamento das pessoas que moram nos morros e favelas do Rio de Janeiro, a partir de uma abordagem criminológica. Em Pixote a linguagem utilizada foi a do autor do filme. Cidade de Deus aborda o tema a partir de uma linguagem do sujeito interno, mas contada na terceira pessoa. A “fita” recebeu da burguesia pós-moderna – nacional e internacional - comentários apologéticos muito além do seu real valor estético. Aliás, este, sequer foi analisado do ponto de vista artístico-social. Mataforicamente pode-se afirmar que, neste caso, tem-se produzido um verdadeiro “Salmos” (o que prevejo para este documentário) sobre esta obra que, diga-se de passagem, não foi a primeira e tampouco será a última. O importante é notar que tanto nos filmes anteriores quanto neste caso (do documentário) percebe-se a clarividente profecia que se cumpre por si mesma que é “uma definição falsa da situação que provoca uma nova conduta a qual, por sua vez, converte em verdadeiro o conceito originalmente falso. A validade especiosa da profecia que se cumpre por si mesma perpetua o reinado do erro, pois o ‘profeta’ mencionará o curso real dos acontecimentos como prova de que tinha razão desde o princípio” (Robert K. Merton) mas, que não é sequer pautada para um debate esclarecedor no seio da sociedade (intra e extra) que, mais uma vez, surge no cenário como massa de manobra para as dominações latentes dos tais incluídos ou como mais recentemente apregoa a propagandística católico-cristã: os do meio.
[5] Resumo micrológico dos pensamentos (aleatórios) dos frankfurtianos Max Horkheimer, Theodor Adorno e Walter Benjamim.
[6] A Escola de Frankfurt – Wiggershaus, Rolf, 2002, p. 584.


= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =


POEMA PARA JOÃO*

Por João Batista do Lago

Para ele a vida era apenas um começo!
Tudo era descoberta. Tudo.
Mas a algoz violência calou João.
João está mudo!
Antes mesmo do deserto da vida calaram João.
Mataram João.
Agora João, a esperança, está mudo.
Agora tudo está mudo.

O calvário de João
Tomado de assalto pelo ladrão, que
Sem qualquer perdão
Arrastou o corpo de João pela
Cidade Maravilhosa,
Começou no semáforo,
Anticorpo das artérias da cidade...
Da cidade de João.

Chicoteado pelo asfalto,
Arrastado pelo sonho do consumo,
João desfilava sua dor
Entre os gritos das gentes:
- Párem... párem... párem,
Pelo amor de Deus, párem!
Mas Deus não estava ali
Para salvar o pequeno João.

Golias venceu Davi!
Agora João está mudo, e
Não está mais aqui, e
Não terá mais o Rio para
Batizar a Vida, e
Não terá mais o mundo – este deserto -,
Para deblaterar contra
A insensatez da miséria.

Quanta pilhéria nos
Revela o calvário do pequeno João!
João está mudo,
Mas se instala em cada coração
Para dizer a toda gente:
- prestem atenção senhores dono do mundo,
Eles não têm razão, e vós, que razões querem ter?
Escutai, escutai com coragem a voz do Ser.

Ah, João não está mudo!
João agora é cada um... é cada ser.
E cada João não quer esquecer
Que em cada ser há um “bom” ladrão...
Ladrões de joões e josés, de marias e madalenas
Que revelam em suas cantilenas
O sofrimento da hora, da agonia de agora,
Mas logo em seguida esquecem a Maria que chora.

João não está mudo!
Está plantado no alto do morro,
De braços abertos, está
Gritando ao mundo, está
Pedindo socorro, está
A toda gente, a todo crente,
E aos donos do mundo, está
Dizendo: menos riqueza... dai conta da miséria e da pobreza.

* João Hélio Fernandes, de seis anos, foi arrastado por um carro, durante um assalto.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

UMA LETRA À PROCURA DE UM MÚSICO


RAIO DE LUZ

(Em homenagem a atriz Cláudia Raia, aos meus olhos, uma das maiores atrizes brasileiras da atualidade).


Por João Batista do Lago

Quando ela surge
Pelos palcos da vida
Um raio de luz... Reluz!
Traduz no olhar
No leve balé do seu corpo
Toda emanação da lira
Que encanta o meu sonhar
No verso e na prosa (e)
Faz-me rir. Faz-me chorar.
E assim vou vivendo
Na raia do tempo querendo
Um instante sequer no palco
Ser um pouco do talco
Que embeleza seu rosto
Ser o batom que beija cada palavra
Que lavra na alma do ouvinte
Toda felicidade que raia
Na divinal comédia da vida
Ou mesmo na tragédia dolorida
A mais doce canção verberante
Na alma deste Sansão errante.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

DAVOS


DAVOS

Por João Batista do Lago

...e assim calo o meu silêncio,
já tão calado
e tão sofrido,
diante do discurso alegre,
miseravelmente alegre,
dos senhores
donos do mundo,
agora amedrontados
com a hipótese do fim.
...e assim escorrego para dentro de mim,
o mais profundo possível,
para esconder-me das migalhas sobrantes
do banquete hegemônico da dominação,
da farra verberante de enganação
que irá flagelar povos e nações,
num novo modo de enriquecimento
transformando o presente momento
em “belos” discursos de novas flagelações.
...e assim, povos e nações
continuarão reféns do empobrecimento,
sem notar o enredo do esquecimento,
sem perceber a marcha do enriquecimento
que há por trás dos grandes discursos,
sambas-enredos dos carnavais do mundo,
onde o cidadão não passará de mero vagabundo,
modo de produção da dominação
dos senhores comensais donos do mundo.
...e assim o eco – sem eco –
das multidões, enfim,
aceito no banquete dos ricos comensais
será comido como sobremesa,
mas expelido será, como estrume
que adubará o pomar da riqueza,
que irá produzir povos e nações
- belos frutos de miséria e pobreza -
reféns de ricos senhores produtores de dominações.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

SONETOS

Homo I

O pós-moderno vigente
Continua sempre latente
Na fala desse ser ausente
Sem linguagem poente

O pós-moderno da gente
Transcende o ser imanente
Dá-lhe a fala de um crente
Toma-lhe a linguagem da mente

O pós-moderno assim somente
Desfaz a razão consciente
Dá vida ao homem carente

Das cidades cheias desses viventes
Tolos autônomos dependentes
Pobres humanos inconscientes

Homo II

Este parido de Gaia vai vivendo
Trôpego humano segue sofrendo
Antrópico espírito em si crendo
Mata a Natureza que pensa tendo

Tolo homem que vai si morrendo
A cada espécie por ele desaparecendo
A cada desesperar do mais querendo
Fazer-se dono supremo num crescendo

Aos poucos neste seu atuar horrendo
Inconsciente sua tragédia vai fazendo
Na desrazão do novo sempre nascendo

O epíteto de toda geração morrendo:
“Que se dane a gente transcorrendo
a mim interessa mais e mais rico sendo”

Homo III

E neste claro nominalismo recalcitrante
Segue só este louco homem construindo
Sua ganância que a Natureza vai destruindo
Sem permitir às novas gerações que vão surgindo

Que a paz construa nos homens o verso lindo
E em cada ser do novo ser se vá obstruindo
A louca chama de guerras que se estão evoluindo
Nos campos dos petróleos se estão consumindo

Tolos são esses senhores donos do mundo
Perdeu-se a razão feito assassino vagabundo
Perdeu toda a Ciência o bem mais profundo

De garantir ao homem deste novo mundo
A sina de não ser apenas retirante moribundo
Deste universo que de ser em mim se faz fundo

sábado, 13 de janeiro de 2007

Equus est...

Fonte: http://horabsurda.com/moodle/
Por João Batista do Lago

Ah, os cavalos! Tão belos... tão sensuais!
Símbolo de deuses... e de todas as deusas!
Representantes de todas as belezas
Troféu de vencedores sobre os vassalos
Assim são os cavalos!
Fiéis adversários de homens – e de deuses
Encantantes de todas as musas – e de mulheres
Estética da força e da potência
E das fêmeas toda vontade de querência
Assim são os cavalos!

D’outro e deste lado dos mares
As Náusicaas de Ulisses reúnem
Nos seus muitos cantares
Seus sonhos em belos vagares
E ofertam-nos aos seus cavalos
Deixando aos homens – esses vassalos –
A perfídia de não serem cavalos...
De apenas serem vulgares humanos
Por isso não são homens capazes
De serem amados como os muares

Ainda que somente em sonho fosse
Quem me dera poder ter-te sobre o torso
Ungir teu sexo na minha pele... no meu corpo
Viajar contigo sobre os mares toda volúpia
Sobrevoar para além dos ares
Até atingir o paraíso dos amores
Até nos extasiar de gozos cavalares
Ah, que bom seria ser-me Centauro!
Assim não sentiria culpa de ser vassalo
E assim seria teu amante... Teu homem-cavalo

(Esses tão-prazerosos gozos por cavalos
faz-me deles todos ter ciúmes...
Mas ciúme é representação da mente racional,
aparência tão-somente do homem animal.)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

HOMEM LOBO LOBO-HOMEM

DITIRAMBOS

Amanheço com nítida sensação
De vitória a qualquer custo
Não importa em quem o susto
Aos porcos, a carne;
Meu troféu: a pele do leão.

Que me importa o pobre,
O miserável cidadão?
Esse tipo de gente “nobre”
É “filé” de toda religião...
Danem-se, pois, no inferno cristão.

E assim aconteça em toda região
Danem-se restos humanos
Dane-se o pagão; dane-se o cristão
Que importam ambos?Da vida são apenas ditirambos.

LOBOS

Os lobos caminham em procissão
Pelas ruas da cidade vagam
Como sombras inatas
É uma multidão de nadas
São apenas lobos
Lobos de gente
Lobos sem almaLobos carentes

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

POESIAS LATINAS

Ennoblecido corazón

Joao Batista Lago

En esta tierra de Dios
En este solo amado
Pero desmigajado
Apartado y desvergonzado
Cambia el hombre por lo bajo
Dominio de la globalización
Recogido por los imperialistas
Colonialistas de los pueblos
Sur-latino-americanos.
Sin embargo los hombres
No se quedaram jamais
Adelante la invitación engañosa
De los brujos de la mercancía
De los espíritus reales.
Nuestros hermanos carnales
En nosotros es ennoblecido corazón
Que se acuerda a la revolución
Como una invitación a la fiesta
De la libertad y de la liberación
De todos los jugos asombrosos
Haciendo así del sueño
El nuevo hombre calificado
En mirar el nuevo mundo.
Mi patria es la tierra
Sur-latino-americana
Mi corazón es la tierra
¡Brasileña!

Circular a mis hermanos

Por João Batista do Lago

Hermanos del mundo
La expansión engañosa
La felicidad ilusoria
Ofrecida a nosotros
Hace mucho tiempo
Queda nuestra morada
Desandando nuestras vidas
Asesinando nuestras esperanzas

Hermanos del mundo
La muerte da Gaia
Es el fallecimiento de nosotros...
Con la muerte de Gaia
Fallecemos con ella
Quedados ante la fiesta desgraciada
De hombres carrascos
Productos del capitalismo cruel

Hermanos del mundo
Llanamente morimos...
Que hacer delante de los carrascos?
Asesinos indomables del pueblo...
Que hacer hermanos del mundo?
Esperar por Dios? Oh, no!
Dios no Es responsable
Por la miserabilidad e ganancia

Hermanos del mundo
La invitación es forzosa
Clama a detenerse la muerte da Gaia
Clama a evitarse la muerte de los hijos – nosotros
Clama a vencerse la ganancia
De los brujos capitalistas
Señores de la miserabilidad
Asesinos de la humanidad

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

PASSAGEM DE ANO

Por João Batista do Lago

O céu da cidade brilha
Fogos coloridos dançam no ar
É um balé de fogos em explosões
Manifestação de corações
Que se juntam no tim-tim de taças
Cheias de vinho e esperanças
Vazias na hora seguinte dos abraços
Revelam o novo ano das desgraças
Que se eternizarão nas massas

Adeus Ano Velho!
Feliz Ano Novo!

E assim o eterno decadente povo
Arrimo da existência perdida
Festeja nos banquetes sua diáspora
Esquece toda dor... toda miséria sofrida
E embriaga-se de novos sonhos
E adormece sua consciência
E cala sua guerra na paz conveniente
E aceita o “ora pro nobis!” convincente
Que consome toda alma e toda mente

Adeus Ano Velho!
Feliz Ano Novo!

sábado, 30 de dezembro de 2006

MEUS "AIS"

(Para Otília Martel [Portugal])







Por João Batista do Lago

Alma minha além mares
Teus desejos de felicidades
São ecos dos teus cantares
Que rompem dificuldades
Viajam mundo afora
E se despejam em todos lugares
Aceito-os. Os teus desejos
São bem-quereres
Que se fixam nos meus umbrais
Até que a eternidade
Toda prenhe de felicidade
Ouça os meus "ais"
E nos junte por toda eternidade.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

NOLONTADE

Por João Batista do Lago

Não me ofereçam
a “nolontade”
como prêmio
perene de verdade
Do mundo tenho
apenas o meu corpo
No mundo tudo mais
é representação
O amor: pura ficção
apenas vontade de viver
A felicidade: pura ficção
apenas medo de sofrer

[...]

Mas
porventura
não sou feito do insano
matéria da dor
alma da irracionalidade?

[...]

Ah, a ausência
não tem essência
mesmo na representação
não tem consciência
é pura vida de anulação.
Afasta de mim esse cálice
de nolontade
de escravidão da verdade
Apesa de toda chatice
quero a vida vivê-la
com intensidade
sem pensar jamais morrê-la

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

VIRTUDE E PODER

João Batista do Lago

Convocado pelo editor deste portal a escrever sobre estes tempos, em princípio, tinha a intenção de recusar a deferência. O motivo da pretensa escusa era estritamente pessoal. Pensava tomar estes dias para dar-me a possibilidade de vivenciar uma experiência monacal. Era minha idéia e intenção refletir sobre a arte da Virtude e do Poder. Mas esconder-me já não seria contradizer a “Arete”? Não seria contra-senso pensá-la só e solitariamente? Foi aí que me ocorreu repensar o convite e aceitá-lo prontamente. Se minha exteriorização reflexional se fará essente em terceiros é coisa de somenos importância... Pessoalmente acredito que compartilhar com alguém – um que seja! – é a travessia para uma nova realidade... para uma nova experiência de vida... para o atingimento de um novo saber! Portanto resta-me dizer, tal qual Júlio César, ao atravessar o rio Rubicão com suas tropas, contrariando a ordem do Senado romano, em 49 a.C.: “alea jacta est” (a sorte está lançada).
Esta minha reflexão tem origem com os Sofistas. Estes pensavam (e assim agiam) que a Arete (virtude) podia ser ensinada para os jovens helênicos, aristocratas da burguesa Athenas, que se interessavam pelas questões do Estado. Aqueles jovens queriam aprender a virtude para exercerem o poder. Eis aqui o primeiro grande problema que me ocorre: pode, a Virtude e o Poder, fazerem parte de um mesmo corpo orgânico? Serem uma e a mesma coisa? Ou, a Virtude é incompatível com o Poder? Ou, a Virtude contem em si o Poder? Ou, o Poder difere da Virtude? Evidentemente que este problema sugere e pressupõe uma longa tese. Entretanto, neste artigo, não tenho a mínima intenção de assim proceder por razões óbvias: o tempo e o espaço, aqui, não permitem tal procedimento. Apesar disso, penso, o período atual favorece-me à reflexão.
Traçando um paralelo analogístico, ou seja, uma parecença, isto é, criando semelhanças de funções entre elementos dentro de suas respectivas totalidades, podemos, verificar por conclusão, que, os sofistas modernos são os nossos atuais marqueteiros políticos. E por quê traço essa analogia? Por quê aqueles (os sofistas) como estes (os marqueteiros) têm um fundamento em comum: ganhar dinheiro fácil com o seu ofício. A contestação da existência daqueles (os sofistas) não difere da contestação destes (os marqueteiros), ou seja, o método de educação não cria e nem favorece a Arete ou Virtude. Isto não significa dizer que, tanto na época da Sofística quanto na atual época dos marqueteiros políticos, o ofício, em si, não tenha algum tipo de valor. Tampouco se está dizendo aqui que o trabalho não deva ser remunerado. São conceitos que não cabem neste artigo. (Vê-se, pois, assim, que a origem do Marketing Político é mais antigo do que pressupõe a vã filosofia política da modernidade.)
O que tudo isso tem a ver com o problema criado lá atrás: pode, a Virtude e o Poder, fazerem parte de um mesmo corpo orgânico? Serem uma e a mesma coisa? Ou, a Virtude é incompatível com o Poder? Ou, a Virtude contem em si o Poder? Ou, o Poder difere da Virtude?
Antes de qualquer coisa, de qualquer resposta, contextualizo este artigo ao tempo presente. A estes dias de Festas (Natal e Ano Novo), nos quais estamos vivenciando, de alguma maneira, essa sensação, e que, por isso mesmo, somos sensíveis a essa problemática, muito embora não nos damos conta que ela é latente em nós. Pois bem, 2006 foi um ano em que a Virtude e o Poder estiveram presentes com muita clareza. Fizeram partes de nossas vidas de tal forma que, acredito com substância, que todos – todos mesmo – fomos acometidos por algum tipo de mudança – seja interiormente ou exteriormente. Mudamos. Uns mais, outros menos. Mas mudamos. O Brasil mudou. O Legislativo mudou. O Executivo mudou. O Judiciário mudou. O demos mudou. A consciência de todas essas mudanças (não importa a quantidade ou a qualidade delas) sugere-nos, a todos, ter consciência como Sabedoria da Virtude e do Poder que há em cada sujeito imanente desse mesmo corpo.
Retomo aqui a questão central deste artigo: pode, a Virtude e o Poder, fazerem parte de um mesmo corpo orgânico? Serem uma e a mesma coisa? Ou, a Virtude é incompatível com o Poder? Ou, a Virtude contem em si o Poder? Ou, o Poder difere da Virtude?
Não quero agir como um sofista, ou seja, ser apenas um retórico. Em razão disso sugiro que tomemos esta questão e a realizemos interiormente em cada um de nós. Que saibamos descobrir conscientemente qual Virtude nos compete e nos compele para um mundo futuro onde a Ética seja a essência para todo o corpo. Para a “alma” e para o “corpo”: mente sã em corpo são.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

FELIZ NATAL

Feliz natal...

Neste natal eu gostaria de
desinternar-me.

Dar-me alta.

Gostaria de ser entendido,
de ser ouvido a partir de mim mesmo,
jamais por intermédio da palavra do outro.

No verbo do outro-eu nunca sou eu falando.
Estou sempre representado na rouca voz do eu-outro: na ágora, na arena, no teatro.

Neste natal gostaria de elaborar o meu discurso, de escorregar minha palavra por todo o corpo,
extasiadamente,
até poder reencontrá-la na essencialidade do ser,
até cansar-me de jamais cansar a liberdade,
onde a prometáfase congumélica
não desintegre vidas, mas
exploda de encontros desordenados e complexos,
babélico,
simétricos e assimétricos,
mas livre da inclusão que exclui
no discurso do eu-outro-eu-nós-eu.
Feliz natal!

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

DÚVIDA

João Batista Lago

O que faço
neste espaço?

Solitário e só
planto-me
em campos
de alienação
já sem-esperança
de ser-me a mim
tão-somente em mim.

Se puro nascido
logo alienado
fui produzido
no úbere da mater,
da santa família,
da educação,
da religião.

Alienado eu sou – então –
desde o primeiro chão
no suor da labuta;
e assim - desde sempre -
em confusa luta,
tateio (vida-ermo) feito
solitário errante-enfermo.

[...]

O que faço
neste espaço?

A Terra, meu cangaço...
O Humano, meu assassino...
A Palavra, minha hipótese...
Deus, meu condomínio...
O que façoneste espaço?!

[...]

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

...Lá das Minas Gerais

"Encaminhar ao poeta João Batista:

Regina Maranhão Caldas escreveu:

Atualmente, mais para se ver e descobrir, do que para se comprar e se ler nas bancas e livrarias. Nas bibliotecas, nem pensar. Vê lá se biblioteca, seja de Universidade ou de escolas de ensino médio - é lugar para livros de poetas vivos. Desses que andam e falam pelas ruas da cidade. Que bebem cerveja e outros ingredientes mais fortes. Que perambulam pelos becos, pelas favelas, pelos corredores da universidade, atentos à crise da Argentina, à crise da política brasileira, ao movimento sucessório nacional. O certo é que os poetas nada faturam. Uma noite de glória no cada vez mais reduzidíssimo círculo de amigos e iniciados. Uma nota nos jornais mais lidos da capital. Algumas notas suplementares.Talvez. alguns e-mails . E precisa mais? O que poderia um poeta desejar além disso. Ser reconhecido pela como benfeitor da sociedade? Ser aplaudido como um atleta? Ser admirado como uma top-model? Ser famoso como um traficante? Espaço nas faculdades de Letras? Isto já é querer demais. Professores e alunos, de todos os níveis e idades, estão preocupados mesmo é com os poetas mortos – morto para eles intelectuais ingratos – devoradores de signos, dissecadores de cadáveres.Por mim, sinto-me bem onde estou. Dentro e/ou fora das antologias. Desta ou daquela. Longe dos grupos, das gretas, dos guetos, das guerras, das grutas minerais. Se estou, não reclamo. Faço tudo, desde que comecei a literaturar desaforos, por volta dos 12 e 14 anos de idade. Lida diária. Se mereço, não sou eu que devo dizer.No mínimo, o editor. É por isto que prefiro ficar quieto. Saborear poemas em silêncio de quase vertigem como quem mastiga pedras, saboreia frutas silvestres. Doce de leite ou cachaça. Prefiro adivinhar, desde de antes dos gregos, o sem sentido do mundo. Procurar. Reviver, de perto, pássaros e pessoas, antidiluvianos. Ficar onde nunca estou. Entre anônimo e anômalo, desfrutar o tempo, como queria Drummond, tal qual se oferece. Viver o desfuturo, o lado excuso do poema. Do planeta. Sua escassa solidez. De passagem. E porque não? Afinal, em país que pouco se lê - e leitura é passar os olhos sobre - e menos ainda se quer ver, a vinda à luz de um livro de poemas é realmente coisa para se festejar. Ainda que seja uma antologia, uma babel, labirinto de espelhos e espantalhos. Literatura à parte, vale mais a vida, a busca de leitores livres para a grande aventura de escalar, perder-se em letras e ruas de palavras a cidade branca, à espera da poesia, o não lugar dos poetas, as antologias.

Jornalista, poeta e coordenador do curso de jornalismo da Puc-Minasem Arcos, Minas Gerais.