sábado, 13 de setembro de 2008

Quadras ao Gosto dos Devaneios dos Finais das Tardes

Quadras ao Gosto dos Devaneios dos Finais das Tardes

© DE João Batista do Lago

*****

Entre juras de eterno amor
Enamorados tudo prometem
Tempos depois ao ver a dor
Cansados em si – revertem

*****

A flor mais rosa virou Sinhá
hoje vejo a flor mais roxa
num largo sorriso ao luar
me rouba... e prende na colcha

*****

São João... meu são joaozinho
atende depressa minha prece
- não me deixe ficar sozinho
sem ela tudo em mim aborrece

*****

Triste, o canto do sabiá!
Também pudera: está preso.
Nem mesmo Deus sabia:
o homem não sabe cantar


*****

Vô, Papai do Céu de ama
- disse meu neto um dia.
Sua voz em mim reclama:
Será verdade? Será alegoria?


*****

Quanta saudade
mora no meu peito
pensando na idade
fico todo sem jeito


*****

Faz tempo não te vejo
e todo dia te sonho
nesse devaneio tamanho
ser-te minha um dia almejo


*****

Menino de grande pança
lá vai ele correndo pro rio
foi-se aquele tempo de criança
ficou homem no seu desvario


*****

Senhora dona da casa
acolhei este mendigo
não me deixe ave sem asa
quero teu amor como abrigo


*****

Meu irmãozinho Nonato
bem sei estás lá no céu
mas sinto saudade de fato
das crianças brincando ao léu

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O SUMO [DE João Batista do Lago]

O SUMO

© DE João Batista do Lago

O vazo que se me resta de asco
Já não mais agride o objeto do ser
Pereniza-se num semblante...
A dicotomia do asco e do ser
Juntam-se para um último trago dialético
E assim bebem o vinho do escarro
Sou-me de mim a uva pisada
De entrededos escorregam sucos
Ficam unhas impregnadas de sementes

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

TRADIÇÃO E RUPTURA: A Lírica Moderna de Nauro Machado

TRADIÇÃO E RUPTURA: A Lírica Moderna de Nauro Machado

 

© DE João Batista do Lago

 

Desde que ganhei um exemplar deste livro – TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado –, que me foi ofertado pelo protagonista do mesmo, o poeta maranhense Nauro Machado, esta é a quinta leitura que acabo de realizar. Leitura e releituras que me renderam significativas notas! Há tempo queria sobre isto falar alguma coisa, mas sempre relegava para o futuro sem me dar conta de que, escrever sobre este livro é uma exigência; mas, ao mesmo tempo, uma operação difícil de executar, pois, o seu autor, Ricardo Leão, se não esgotara o assunto deixara muito pouco por ser dito. A pesquisa feita por Ricardo Leão é de uma profundidade epistemológica insuperável, além do que, a metodologia da sua analítica me soa bem ao espírito e a alma: a fenomenologia, que reduz ao máximo os enfoques psicologistas.

 

Tenho em conta ser o ludovicense Nauro Machado o maior poeta da língua portuguesa brasileira. Maior que seus conterrâneos Sousândrade, Gonçalves Dias ou Ferreira Gullar, por exemplo; maior que seus compatriotas Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira ou Affonso Romano de Sant’Anna, por exemplo. Isto não significa dizer que estes não tenham valor literário. Ao contrário: têm-no até demasiadamente. Contudo significa destacar e enfatizar que a poética de Nauro Machado supera quaisquer dos citados. E o livro de Ricardo Leão [aos meus olhos] vem provar exatamente isto.

 

Para além do resgate que faz da obra poética de Nauro Machado, Ricardo Leão restabelece “uma” verdade que, ainda hoje, está escondida sob o domínio de uma aculturação imperativa e imperialista do eixo Rio-São Paulo. Aculturação que produz e reproduz o conceito do colonizador sobre o colonizado, do ponto de vista da literatura brasileira. “Esse trabalho de Ricardo Leão é de significativa importância não só porque representa, para a cena crítica acadêmica e para o leitor da boa poesia, um poeta de larga produção qualificada, como Nauro Machado, mas também porque recoloca a reflexão, um tanto adiada, do fazer poético da contemporaneidade” [grifo meu] – (Valdelino Soares de Oliveira, professor de Teoria Literária da Universidade Estadual Paulista).

 

Ricardo Leão não mediu a extensão do fôlego. Não teve medo. Fez imersão na obra nauriana de tal profundidade que desconheço trabalho idêntico. E digo sem medo de, aqui e agora, fazer qualquer exageração que TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado é um livro indispensável para quem quer, honestamente, estudar a literatura brasileira sem apelos de regionalismos ou submisso a uma indústria cultural bajulatória e concentradora de mesmisses que conspurcam a inteligência, o pensamento e as artes literárias daquilo que “eles” chamam de “o interior do Brasil”. Afirmo que qualquer estudo que se realizar no campo da literatura nacional e não se fizer menção a este livro, nada está (ou se considerará) completo, posto que, faltará sempre esta verdade sobre a poética de Nauro Machado.

 

E para finalisar resgato uma questão levantada pelo autor de  TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado: “que fato de natureza literária ou não, explica a ausência de consagração absoluta em torno da obras de Nauro?” (p. 224). Ricardo Leão enumera e discorre sobre algumas nuanças para responder a esta pergunta. Todas factíveis. Todas prenhes de respostas ainda não dadas. Pessoalmente tenho outras tantas nuanças que poderiam ou podem ser enumeradas (o que não é o caso presente), mas a principal delas [aos meus olhos], não tenho qualquer dúvida, reside no seguinte fato: Nauro Machado jamais baixou a cueca para o eixo Rio-São Paulo, construtor de mitos de barro... de igrejinhas... de curriolas... Enfim, Nauro Machado, jamais quis sair do seu torrão, da sua São Luis,  da sua Atenas, para integrar os círculos de comensais circulatórios e circundantários de uma indústria cultural voltada para si mesma.

 

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FICHA TÉCNICA


Martins, Ricardo André Ferreia (Ricardo Leão)

Tradição e Ruptura: a lírica moderna de Nauro Machado / Ricardo André Ferreira Martins (Ricardo Leão. São Luis: Fundação Cultural do Maranhão, 2002. 

388 pp. 

Livro impresso pela Indústria Gráfica e Editora LITHOGRAF. End.:  Av. Ferreira Gullar, 40 – São Luis – Maranhão.

Fone: (0xx98) 3235-2082

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Mys Moradas

© De João Batista do Lago




El fondo

véese despues

de las orillas

my corriente de

moradas:




el puente

– ligero y fuerte –




la lluvia

– en olas furiosas –




el cielo e la tierra –

coligación de los divinos

e los mortales




Soy un puente

Soy un lugar

Soy my espacio:

tierra e cielo;

los divinos

e los mortales

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A CARNE

Há monstros!
Monstrengos há!

Seus caninos afiados
feitos presas de javalis
vislumbram o ataque fatal...

Mas, depois de devorada a tartaruga
percebem o grande mal que a si fizeram:
suas carnes estão sendo comidas
pouco-a-pouco são corroídas
nos palácios dos seus ancestrais...

Paradoxo do mal
Gabali não mais lhes dará abrigos!

O ventre que se lhes gerara recusa a imolação
Será o javali santo ou assassino?

Na pedra da imolação
Terá que comer seu própiro ventre
Pensou engravidar-se da tartaruga
Mas, fez-ze apenas oblação

Será o javali santo ou assassino?

O Sujeito-Áporo

O SUJEITO-ÁPORO


© DE João Batista do Lago



Cava dentro em mim

O inseto amargurado

Solitário em sua dor

Cava… cava… e cava

Cava silenciosamente

Desesperadamente só

Cava sem lamento (e)

Tudo que encontra: pó


Só ele vê as crateras

Onde reside o pus (do)

Ser: verme em vulcão

Humano: danado cão

Pois mesmo escavado

Não se dá por vencido

E assim convencido

Gera-se deus-inseto


Metamorfoseia-se!

Orquídico em Fénix

Surgente das cinzas

Vê-se sujeito presente

- Inseto agora ausente –

Voltado das cavernas

Pretende ser gente (e)

Plantar orquídea essentia

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Abdução

Abdução


© DE João Batista do Lago


Os olhos do meu quarto
Espreitam o monstro esférico
– Nele há um mistério de deus e diabo –
A begônia trepadeira me sorri
E me pergunto:
- O que será que ela quer?
- Quererá me ornar?
- Quererá me curar?


[...]


Os olhos esféricos me observam!
A begônia é uma matilha de lobas famintas
Seja jarro; seja carne
Ela me espera com olhares de paixão
Não resisto
Corro em sua direção...


(Alma e espírito foram abduzidos!)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Angústia

Angústia


© DE João Batista do Lago


calaram-se:

o criador e a criatura!

o verbo não se lhes fora suficiente

para a tripudiagem

que se lhes emana de almas vagabundas


calaram-se:

o criador e a criatura!

agora tristes e insuficientes

perderam o tino a coragem e a vergonha

- não tenham medo de perder a opinião! -


os deuses são assim: feitos de ilusão absoluta

não tenham medo de perder santos e anjos

aqui no inferno vos dareis abrigos

aqui podereis espiar vossas miseráveis felicidades

e podereis ter a justa angústia de si

e a certeza da remissão de pecados


vinde, pois, criador e criatura

aqui vivereis com seus humanos

aqui sabereis da virtude dos demônios

seres encantados, mas reais profanos

adoradores das imagens sagradas

dos infernos mais profundos do ser


vinde, ó criador... ó criatura...

o vinho da poesia nos confortará

nele dissaparemos todas as dores

dele sairemos embriagados

e depois de torturados pelas ressacas da incompetência

haveremos de bebê-lo

e de novo dele renasser plenos de consciência

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Carta ao poeta Tonicato Miranda


Curitiba (PR), sexta-feira, 22 de agosto de 2008





Prezado Tonicato Miranda

Bem sejas.





Caríssimo poeta.



O “devaneio” diurno – aos meus olhos – tem maior significado que os “sonhos” noturnos. Mas, antes de tudo, infiro que este “campo” de devaneio ou do sonho pode ocorrer na sua metástase inversa. E ninguém melhor que os poetas para “si” nos dizerem destes fenômenos. E como sabem, muito bem, diferenciá-los os poetas sem que, para isso, façam qualquer tratado (ou mesmo teoria) psicológico ou psicanalítico!


Tenho em conta que, por isto mesmo, os poetas, transcendem os filósofos e os psicólogos. O poeta toma a natureza bruta do fenômeno e constrói, num verso ou numa poesia, toda a história do humano.


E é esta práxis que transforma o poeta num fenomenólogo, pois sabe o poeta, pela “intuição do instante – (G. Bachelard)”, que é preciso lutar contra a predisposição que leva a considerar os resultados dos processos perceptivos como descrições objetivas do mundo e os conteúdos ordinários da mente como verdades obvias.


Ao contrário – ensina-nos Edmund Husserl – é preciso assumir atitude fenomenológica, desinibida, desinteressada e crítica em relação aos hábitos mentais do próprio sujeito.


O texto escrito acima, caro poeta, decorre de posterior “leitura” de “uma” sua poesia publicada em PALAVRAS, TODAS PALAVRAS1.


E que bela poesia!


E que intuição do instante brutalmente fenomênica!


Cresci aprendendo e apreendendo que nos menores frascos encontram-se os melhores perfumes. E, permita-me a analogia, pois, em LUZES DA TARDE2 encontramos um frasco de perfume poético capaz de tornar o mundo mais cheiroso. Um frasco de perfume poético que estava (e é) guardado no “cofre” que “reside” no solar da casa-corpo! Perfume poético, que de tão estonteante fez abrir o guarda-roupa, não para perfumar uma roupa qualquer, não para perfumar uma roupa que “veste o ego”, mas para de lá arrancar num final de tarde deste agosto um corpo - “o corpo-casa” - que lá estava guardado e estendido num cabide, como se fora um corpo-smoking velho e surrado e apertado simetricamente verticalizado entre tantos outros black-tie (já) quase sufocados pela falta de oxigenação.


E quanta e tanta dialética da estética num dia de agosto, há “antes que a tarde acabe”!


O “sujeito” que fala em LUZES DA TARDE briga autocriticamente ou ao autocriticar-se com o real e a realidade implícita em si: “dúvida que de mim duvida/mais um desenho a fazer/ou num poema me fazer”.


Permita-me, poeta amigo, extrair destes versos, imagens (ou desenhos) agora puramente minhas. E começo a construção dessas imagens por uma pergunta que se me ocorre nesta minha intuição do instante: o que há ou melhor, noutras palavras, o que houve, o que de fato ocorrera “antes que a tarde acabe”?


Ocorre-me a seguinte ilação: eis aqui a questão central; eis aqui a chave do corpo-casa (armário de sentidos). Eis a chave que abre e que revela “o espírito obrando sua casa”; eis a chave que revela o corpo-casa fazendo uma tipologia fenomênica de metempsicose: “olho à janela e vejo a luz”.


Ao se colocar na primeira pessoa do verbo, o “sujeito” que fala na poesia transmuda-se; já não é mais o espírito do corpo-casa, mas a casa-humana, a casa-em-si, a casa-mesma, o ente, o ser, o poeta, o “sujeito” que faz e dá sentido à sua mundanidade!


E é assim, e somente assim, que, aqui e agora, o “sujeito” (já) posto em toda sua mundanidade, consegue “dialetizar” o fenômeno de “sentir” e de ter a “sensação” do “ar parado/o calor manso desta tarde”.


Quanta “intimidade” há no desvelo deste armário-casa!


E, se me permita, ainda, caro poeta, mais esta ilação imagética: se tomarmos a palavra armário como “um” centro de intimidade da casa-corpo ocorre-nos imaginar o devaneio (imagem) que esta palavra se nos provoca!


A primeira sílaba desta palavra - “ar” - desvela o caráter do ar que sufocava o “corpo-smoking velho e surrado e apertado simetricamente verticalizado entre tantos outros black-tie (já) quase sufocados pela falta de oxigenação”, que mencionei lá atrás.


E na mesma dimensão da imensidão desse espaço de intimidade, a última sílaba - “rio” - finda a palavra num outro fenômeno: o rio.


Porventura não é um rio, isto é, suas águas, um estádio perene de movimentos constantes e inacabáveis?


É claro que sim!


Então o que isso quer-nos dizer?


Aos meus olhos, esta imagem agora revelada significa que o “ar parado/no calor manso desta tarde” é o ponto de libertação da “dúvida que de mim duvida”, ou seja, é melhor que o ar fechado, preso, inerte e sufocante da casa-corpo (armário).


Mas a imagem desse movimento vai mais além! E se completa totalmente quando o “sujeito” que fala na poesia infere que, neste final de tarde de um dia de agosto há “borboletas belas na tarde”.


Que imagem fantasticamente fenomenal!


As borboletas são as rainhas do movimento! São incansáveis nas suas formas de movimento! São insuperáveis nos jogos dialéticos do movimento!


Não é, pois, à toa que o “sujeito” que fala na poesia, depois de extasiar-se com a intuição deste seu instante fenomenal, resolveu, enfim, declarar-se definitivamente separado do seu paradigma de racionalismo idealista para assumir, por definitivo, sua condição de “sujeito” mundano-existencialista, e nesse sobrevôo vestir a roupa mais simples, porém, a mais perfumada; perfumada com o perfume de um existencialismo concreto, onde dúvidas, egos, vontades, desejos, hábitos, crenças, fé, religião, pré-juízos, juízos, pré-conceitos, conceitos... fiquem todos entre parênteses: “a vontade de desenhar [geometria do racional] perdeu/para a vontade do poema [geometria do devaneio]”.


E de posse dessa “epoché fenomenológica – (E. Husserl)” renascer do “rio” de uma armário velho, para navegar na correnteza do “rio” prenhe de movimentos em direção ao “mar” (que também reside na palavra armário) de conhecimentos plenos: “foi bom não perder a tarde/farei desenhos mais tarde”.


Foi assim, meu caro poeta, que sua poesia veio residir em mim.


Evidentemente não sou nenhum psicólogo, não sou nenhum psicanalista, não sou nenhum crítico literário. Possivelmente nenhum destes concordem com as minhas palavras (e provavelmente não concordarão!) sobre a sua poesia, que até poderá ser vista por eles como meras palavras ou como uma poesia banal, de palavras banais; ou mesmo como um grande texto, uma poesia excepcional, de significados e significantes meta-existenciais, corolário de patologias sexuais ou de estados de mentes esquizofrênicas, donde – eles – possam extrair um não “sei quê!” de excentricidade para justificar suas rabugices ou suas regurgitações acadêmicas.


Quanto a mim, caro poeta, é preciso que o diga, elas vêem consolidar imagens mentais que povoam a consciência dum poeta que crê na fenomenologia do instante, no brutal instante em que surge: avassalador, incorrigível, irracional, animal, feroz, deblaterador... enfim, visceralista, donde sua única forma é a forma que chega no seu formato fenomenológico... gestáltico... ou mesmo louco... ou mesmo patológico...


Peço-te, meu caro poeta, mil perdões pela subversão que pratiquei no teu texto.


Ao encerrar esta missiva, peço-te mais perdão pela indiscrição de dar publicidade em alguns espaços que mantenho na globosfera.


Atenciosamente


João Batista do Lago

http://joaopoetadobrasil.wordpress.com

http://joaobatistalago.multiply.com

http://batistadolago.blogspot.com


2LUZES DA TARDE poema de tonicato miranda

Agosto 21, 2008 14:40 pm de Equipe Palavreiros da Hora

                                                                                                                              para os palavreiros

 

antes que a tarde acabe

dúvida que de mim duvida

mais um desenho a fazer

ou num poema me fazer

não falo de fazer como quem

veste o ego ou uma roupa

mas de fazer o corpo-casa

o espírito obrando sua casa

olho à janela e vejo a luz

apraz-me este ar parado

o calor manso desta tarde

borboletas belas na tarde

a vontade de desenhar perdeu

para a vontade do poema

foi bom não perder a tarde

farei desenhos mais tarde


domingo, 17 de agosto de 2008

Minha Casa Era Um Rio [© DE João Batista do Lago]

Minha Casa Era Um Rio
(Dedicado a Eliane Marques)

© DE João Batista do Lago

 A minha casa era um rio de imensidão
Tão grande... tão grande... tão imenso 
Que todos os rios do mundo
Passavam pelo rio da minha casa

O rio da minha casa tinha algo de humano
Todas as noites ele vinha conversar comigo
Contava-me estórias mágicas... fantásticas
Dessas que a gente nunca mais esquece

Eram tantas as lendas que ele contava
E embalado pelas maravilhas eu navegava em suas águas
E nadava todo o percurso do rio que passava em minha casa
E navegava todos os rios que passam pelo rio da minha casa

A minha casa tinha um rio de águas profundas
Mansas, calmas, perenes e cristalinas
Águas que me abraçavam, que me acariciavam
Que me beijavam e que me amavam afetuosamente

O rio da minha casa quando me via triste
Chamava todos os rios do mundo
E dançavam ciranda ao meu redor
Até que vissem de novo um sorriso no meu rosto

Se por ventura chorasse de fome
O rio da minha casa e todos que passavam por ela
Pescavam o peixe mais belo
E me alimentavam até cessar a fome

Quando em noites escuras e sem luares
Noites que nos infestam de fantasmas
O rio da minha casa murmurava uma canção
E trazia com ela as mais belas princesas

Ah! O rio da minha casa não me deixava em solidão
Brigava com papai... ralhava com mamãe
E enchia suas almas de todos os cuidados
E os transformava em verdadeiros espíritos de proteção

Assim era o rio daquela minha casa
Hoje vivo ao léu na minha caverna
A minha casa que era um rio de felicidade
Agora na mais é que pântano. É cidade

Quantas saudades tenho daquele rio
De um rio que juntava todos os rios imensos do mundo
Do rio que passava na minha casa
Da minha casa que era o barco da felicidade

Olhar Cinzento [© DE João Batista do Lago]

Olhar Cinzento

© DE João Batista do Lago

e depois de tanta confusão
deram-me descansos os mestre
aí então pude olhar a janela do meu quarto
deu-me a impressão da porta de um cofre
cá dentro eu-segredo me guardo
e do outro lado da janela
até onde meus olhares se vão
não há revelações
lá fora está minha imagem vendo os quintais
e neles as leiras das dores
e os montes de misérias quantas
e tantas... e tantas e quantas
jorrando o pus
dos desesperados
vistos pelos meus olhos de olhares cinzentos
de um dia claro e ensolarado
melhor mesmo é ficar aqui dentro guardado
fechado no meu cofre
comendo palavras
amargas com doce de marmelada
o resto?
É só uma cagada

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O BEBÊ QUER CHUPETA... DÁDÁÁ!!! [© DE João Batista do Lago]

O BEBÊ QUER CHUPETA... DÁDÁÁ!!!


© DE João Batista do Lago(*)


De tudo o que está dito neste artigo, apenas e tão-somente, um parágrafo deve, de fato, ser destacado: “(...) A Arte está MORTA sim. E faz anos que fazemos teatrinho de representação infantil em torno de seu enterro pra não perdermos emprego. Não passamos é de canastrões de última categoria, com a azeitona na ponta do esôfago, segura ali por algum Nexium, Plexium, Sexium ou Mylanta, Maalox, ou anti-ácido (...)”.


Digo isso pela semelhança que o parágrafo tem com a constatação nietzschiana de que “deus está morto!” ou, com a constatação foucaultiana de que quem esta morto é o homem! Tanto num quanto noutro caso devemos entender as “constatações” como “um campo” de desconstrução das “verdades absolutas” geralmente se nos imposta pela cultura burguesa, que jamais pretendera, como não pretende, ver estabelecido o campo da dialética do saber.


 


Junte-se, aqui e agora, a inferição do A. do artigo de que a “arte está morta”.  Temos, então, a formação do corpo trínico: deus + homem + arte. Não há como descartar o campo dialético “inato” (e somente neste caso pode-se pressupor uma tipologia de inatismo, pois, tudo o mais é apreendido) em cada parte dessa trindade. Todos são feitos de matérias contrastantes, sobretudo quando se colocam diante de suas verdades particulares a respeito do saber. É exatamente aqui que ocorre o campo dialético, ou seja, sobressai os contrários das verdades implícitas em cada membro desse corpo trínico.


 


Seja Nietzsche, seja Foucault, seja Thomas – resguardadas as dimensões de tempo e espaço, e de “paidéia” – trabalham o conceito de morte partindo, precisamente, da dialética da “negação” específica de cada parte do corpo trínico, como se cada uma dessas partes fosse o todo. Negam essa verdade “absoluta” que o saber burguês sempre pretendera estabelecer. E por uma razão muito simples: deus não há sem o homem e sem sua arte de criador; o homem não há sem seu deus e sua arte de criação; a arte não há sem seus criadores e criaturas. Todas essas partes são, por natureza, subversivas. E são as suas subversões que são responsáveis pela dialética da vida.


 


Assim sendo, quando se diz que o “deus”, o “homem” ou a “arte” estão mortos, quer-se dizer, de fato: é chegado o momento de subverter o caos; de ter a devida coragem de enfrentar a realidade mais que real das super-estruturas partindo do campo das infra-estruturas; é preciso quebrar as correntes que prendem as mentes; é preciso repensar o saber; é preciso rever e reinventar a episteme... Enfim, é preciso dizer que a única fala e linguagem que “deus” e o “homem” têm são as suas “artes”, e conseqüentemente, que a única fala que a “arte” tem são seu “deus” e seu “homem”. Afora isso tudo será decadência, ou seja: o deus “é” decadente, o homem “é” decadente, a arte “é” decadente, isto é: o deus “é” morto, o homem “é” morto, a arte “é” morta.


 


* * * * *


 


Mas há, ainda, uma “coisa” que gostaria de destacar e que não se encontra explicitada no artigo, isto é, “os verdadeiros dadás estão contra DADA”. Esta enunciação foi dita pelo principal “produtor” do Dadaísmo (movimento de artistas plásticos e poetas, surgido em Zurique, em fevereiro de 1916), Tristan Tzara, que inferiu, também, que “Dada não significa nada”, numa reação contra tudo e todos, posto que, o dadaísmo, pretendia-se exterminador, propunha-se desmantelar todos os valores consagrados – fossem quais fossem -, não para construir algo em seu lugar, algo julgado melhor ou utopicamente desejável, mas pelo simples gosto de por abaixo as instituições estabelecidas, as correntes estéticas em moda, a Burguesia, a Psicanálise, a Filosofia, etc.


Em verdade, o dadaísmo, jamais passara de uma tipologia do Romantismo idealista; de um modo de agir anarquista; de um Iluminismo tardio. Isto não quer dizer, sob hipóteses quaisquer, que o movimento não produzira resultados convincentes; e um desses resultados fora, exatamente, Marcel Duchamp. Ao mesmo tempo é preciso inferir que o niilismo implícito no dadaísmo foi o mesmo que o levara à derrocada, dando lugar ao Surrealismo entre outros movimentos mais modernos.


Assim sendo, aos meus olhos, o presente artigo dá-nos (também) a impressão de querer resgatar o dadaísmo como se fora A ÚNICA EXPRESSÃO DE ARTE verdadeira ou que, NADA, depois dele, tivera, teve ou tem a mínima importância. Este é o ponto burro do artigo! Contudo quero acreditar que seja, em verdade, mais uma “chamada” do autor para o campo de debate, pois, é Gerald Thomas, aos meus olhos, um dos melhores diretores de teatro do Brasil, e quiçá, do mundo. E sabe-o que pode fazer esta “provocação”.


 


Ora, dizer que depois do dadaísmo tudo é lixo, não seria isso querer (re)estabelecer uma “religião” ou uma “verdade absoluta?” Não seria isso um contra-senso ao próprio dadaísmo? Porventura não seria essa “eternização” de Duchamp ou de Freud, etc..., como “heróis”, uma tipologia de mitologização ou fetichismo-academicista da arte? Não seria isso um retorno à arte burocrática da burguesia dominante?


Aos meus olhos, esse desejo incubado do “sujeito” que fala no artigo – “sujeito” que não é o autor, segundo minha percepção, e possivelmente seja esta a provocação – como inferiria o próprio Freud -, poderia ser registrado nos anais da literatura psicanalista como um tipo de manifestação de condicionamento reflexo de uma mente que ainda não se despregou da sua infância latente. Quem sabe(?), para ilustrar essa inferição, Freud diria: “- Não é à-toa que esse “sujeito” vive a repetir dádádá... dádááá... dádádá...”.


 


Em seguida ele (Freud, o herói!) explicaria sua tese mais ou menos com essas palavras de psicanalista:


“- A onomatopéia (da.http://queremosportugues.multiply.com/da...) infantil implícita na palavra dadaísmo (dada + ismo) revela o campo lúdico-patológico ou a morbidez de saudades recalcadas. Esse “sujeito” (ainda) vive a sentir falta de um elemento de prazer – a chupeta – sem perceber que ela representa a falseabilidade do real ou a falta de experienciação pessoal da realidade amarga da infra-estrutura do presente; esse “sujeito”, possivelmente está com preguiça mórbida ou talvez queira contestar, por contestar, as formas e os valores dominantes da arte atual”. Seria, assim, “uma explicação” de Freud.


 


A arte, assim como a vida, não precisa de heróis ou deuses. Neste ponto concordo com as constatações: “deus está morto” ou “o homem está morto” ou “a arte está morta”. Mas quando consideramos a questão “quem matou deus e/ou o homem e/ou a arte?”, verifica-se que, antes de matá-las, já a tínhamos como mito ou fetiche. Assim sendo deus, homem e arte jamais serão mortos. Mas, se mortos, só o serão por meio da decadência do “homem” como assinalaria o “velho” Nietzsche.


 


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(*) João Batista do Lago, 58, maranhense de Itapecurumirim, poeta, escritor, teatrólogo, jornalista e pesquisador – E-mail: joaobatistalagoster@gmail.com


 


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EIS O ARTIGO DE GERALD THOMAS:




GERALD THOMAS: Óbvio que a ARTE está morta: não PASSAMOS de IMPOSTORES de Renda, cabideiros de emprego: Marcel DUCHAMP, o URINOL que deixava o artesanato de pé em seu próprio MIJO!

Agosto 10, 2008 17:54 pm de Equipe Palavreiros da Hora



“DUCHAMP: O AUTORTURADO DaDaISTA”


 



Está em cartaz no MAM, aqui em São Paulo, uma retrospectiva de Marcel Duchamp. A simples idéia de uma retrospectiva pra Duchamp teria sido, no mínimo, algo impensável, ridículo ou risível, quando ele rompeu com tudo, com a caretice de tudo, com o Samaritanismo da arte, o chamado “bonitismo” da arte no início do século XX. Foi aí que começou o nosso “desastre”. Duchamp, Freud, e alguns outros são os culpados pelos nossos fracassos. Mas explico. São os nossos grandes HERÓIS. Meus grandes, grandes, imensos heróis.


Quem destrói pra construir é aquele que consegue transformar o mundo num abrir e fechar de olhos, e deixar todo mundo de pé, plantado em seu próprio mijo, sem ter o que dizer: claro, e não é à toa que o URINOL de Duchamp foi um dos primeiros READY MADES (achados prontos) – um combate contra a arte artesanal, pintura, escultura tradicional, etc. Sim, deixar o espectador pasmo em pé, em seu próprio mijo de espanto! Retrospectiva de Duchamp é muitíssimo estranho. Quando eu era aluno de Ivan Serpa e Helio Oiticica, eles só me falavam em Duchamp. Haroldo de Campos foi mais longe, já que era Dos Campos, um Duchamp também, Du Champos! A Arte de vanguarda fala em uníssono sempre a mesma coisa, berra sempre a mesma coisa. Mas uma retrospectiva dela nos traz uma lágrima de crystal japonês. E porque?Porque quando Duchamp cancelou sua parceria com Tristan (sem Isolda) Tzara, e deixou Paris, e virou um NovaYorkino, o movimento em si, de deixar o velho pelo novo, já tinha um significado. Falo de 1911 ou algo assim. O Armoury Show.“Achar” objetos prontos na rua e juntá-los, “casá-los” como se fosse um destino “by arrangement” no sentido oriental, é um humor que os americanos não tinham. Só vieram a ter na década de 60 com Wharol, Andy Wharol.Então, certo dia, Duchamp cancelou sua expo na Pace Gallery na rua 57 em Manhattan. Falou “retirem todos os quadros, apareço aí mais tarde com objetos novos”. E, pra juntar-se ao já famoso “NU DESCENDO a ESCADA“ (um dos mais escandalosamente LINDOS tributos à arte desconstrutivista, Duchamp pintou uma mulher descendo uma escada, nua, EM MOVIMENTO, pode-se dizer que remota e cremosamente cubista. E…..ao lado do MOEDOR de CHOCOLATE e ao LARGE GLASS (também chamado de THE BRIDE STRIPPED BARE BY THE BACHELORS EVEN - algo como: “ a noiva desnudada pelos solteiros ATÉ!, nessa ordem, escrito nessa cadência concreta das palavras) somou-se ao seu maior e mais conhecido piece ou seja, peça, ou seja, marca, ou seja QUADRO-NÃO-QUADRO, ou seja: o pai e mãe disso que chamamos hoje de INSTALAÇÃO/manifesto.A RODA DE BICICLETAEssa roda (objeto de obsessão meu) (o que posso fazer? nasci torto!), foi assim: nesse mesmo dia em que Duchamp cancelava sua Expo na Pace, andava pelo Bowery (equivalente a 3ª Avenida, na lower Manhattan) perto da Houston Street, de um lado da rua tinha uma roda de bicicleta jogada fora. Do outro lado um desses bancos de mandeira de bar! Ele GRAMPEOU, tacou a roda em cima do banco e levou o treco pra Pace!


Então, esse foi o MAIOR REVOLUCIONÁRIO de todos os tempos, em qualquer contexto, em qualquer arte (porque sem ele não teríamos John Cage na música ou Merce Cunningham na dança (aliás, a Fabi estuda com o Merce Cunningham em Westbeth até hoje).


A arte está morta? Rose Selavy? Como ironizava seu próprio personagem feminino com uma estrela escupida em seu CABELO, ou os cubinhos de mármore dentro de uma gailola (: porque não espirrar Rose Selavy?  ou …


Chega de descrever Duchamp !!!


A melhor maneira e a mais triste de representar uma RETROSPECTIVA foi desenhada por Saul Steinberg. O Cartum é assim: um Coelho olhando pro Oeste está sentado em cima de uma Tartaruga que caminha lentamente para o Leste.


Duchamp foi um dos primeiros ENORMES iconoclastas. Com humor. Quebrou o vidro? Deixa lá, quebrado. O acaso é otimo!


O movimento dadaísta (não os surrealistas caretas e marqueteiros que só eles!), o iconoclástico, desconstrutivista, atonal, dodecafônico, serialista, abstrato, abstrato expressionista, minimalista, enfim, tudo isso visa uma só coisa:


- colocar a arte debaixo da lente do microscópio, autopsiá-la; ver, dissecar se as verdades e mentiras dos séculos anteriores de música e pintura e iluminismo e jacobeanismo e Renascentismo, e ismo, ismo de anos e anos de arrotismo de tantos e tantos Rembrants, Velasquez, Beethovens, Monteverdis, Wagners, Lord Humes e Hegels e Kants, e os tantos Goethes, faziam realmente sentido na era pós Freud, na era pós industrializada numa América ainda a ser desvendada pelos bachelors de toda a humanidade enclausurada em suas culturas pré-guerra, fugindo pra lá, digo pro novo mundo, fugindo das emboscadas culturais da pequenina Europa, onde à cada 16 km o teu sotaque te colocaria num campo, num Duchamp de concentração!


E no que deu? Estamos na mesma. Aliás, estamo mais CARETAS. Estamos numa era PRÉ DUCHAMP, porque hoje olhamos Duchamp como se ele estivesse no nosso passado e, toda essa porcaria pseudo inovadora (salvo alguns, óbvio, como Kiefer, Josef Beyus, Nuno Ramos, Tunga, Warhol, Damien Hirst e outros POUCOS) ainda estão naquela era de DECORAR a sala de estar da madame porque – já que voltamos aquela era do GOLD RUSH, à corrida pelo petroléo e à plantação de cana – nada mais óbvio mesmo do que declarar um ESTADO de DIREITO, e colocar um estatuto logo de uma vez:


O que vale aqui é o muralista Siqueiros, ou o medíocre Portinari, ou o idota do Henry Moore, ou a Hepworth.


E o povo, ignorante como sempre, se concentra ali na estátua dos retirantes no Ibirapuera, a metros, meio quilometro da RETRO de Duchamp, sem sequer saber o que foi tudo aquilo, ou se o ovo de Colombo ficou em pé ou não, porque, afinal de contas: não foi Pedro Alvares Cabral que descobriu as AMERiKas de Kakfa?


A Arte está MORTA sim. E faz anos que fazemos teatrinho de representação infantil em torno de seu enterro pra não perdermos emprego. Não passamos é de canastrões de última categoria, com a azeitona na ponta do esôfago, segura ali por algum Nexium, Plexium, Sexium ou Mylanta, Maalox, ou anti-ácido.


Afinal, antigamente as pessoas tomavam ácido.


HOJE: só tomam anti-ácido



 

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Princípio, Meio e Fim [© DE João Batista do Lago]

Princípio, meio e fim

© DE João Batista do Lago


disse-me el diablo:
- rezo diariamente para o deus
peço encarecidamente
contritamente
que me livre de ti
não te o quero aqui no tártaro...
vai de retro
vai
vai
vai
não me corrompas o inferno
não quero o caos administrado


...então voltei ao sagrado
disse-me ele:
- penas como quiseres
entre céus e terras (e)
procuras teu reino e trono
acima e abaixo do mar já têm donos


manifesto:
- absurdo
como não ser como eles
como não ter poderes
vou mostrar a ambos
não sou refém da minha ambição
serei maior que os dois
terra terei por redenção


agora os dois me suplicam
el diablo: - alma alguma me quer agora
acabaram-se os encantos do tártaro...
o sagrado: - deixe-me os anjos e os santos
não os roube...
ambos então se ajoelham:
- poeta, perdoai nossos pecados
vem-nos completar a trindade
nem o uno
nem o outro
sejamos três: alteridade