sábado, 20 de setembro de 2008

TUA NUDEZ


TUA NUDEZ

© DE João Batista do Lago

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim expectador de toda beleza.

Teus pés pisam o chão com tanta ternura,
Que chego a sentir ciúme dele!
Passo em passo, pela casa, nas pontas dos dedos,
Revelas o salto alto de um sapato imaginário
Que desfila para a procissão dos meus olhos
Tua sântica imagem corporal.
Quando passas por mim, bela e sensual,
Sinto-me cada vez mais teu devoto
Oblata da liturgia do teu corpo
Fiel adorador da tua beleza
Capaz de pagar todos os dízimos
Ficar a esmo como qualquer mendigo
Só não quero ficar sem o pão da tua sacristia:
Teu corpo, vinho e hóstia, meu alimento.

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim expectador de toda pureza.

Teus tornozelos carnudos e arredondados
Que pouco a pouco vão sendo revelados
São como prenúncios de desvelos segredados
Véus, como nuvens, descortinam tuas curvas:
Pernas torneadas; serpenteadas de volúpias,
Dobram-me em oração quando me enlaçam!
Dão-me nós inquebrantáveis quando me abraçam
Deixando meu corpo submisso ao suplício
Ternura agônica sem qualquer sacrifício
Vou-me rendendo, aos pouquinhos, como Tântalo
Quando já quase louco quer a bebida e fruto do teu corpo
Insuperável alimento que produz o teu horto
Jardim das Oliveiras de todos os meus gozos
Terra da minha condenação! Sou teu cristo: aceito a crucificação.

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim um expectador de toda singeleza.

Tuas coxas! Sinfonia do equilíbrio do universo!
Sustentam o sacrário de toda procriação
Guardam e segredam a mais pura flor de lótus
Donde toda espiritualidade nasce em profusão
Tuas coxas! Colunas que sustentam eternidade
Igreja de Lakshmi – a deusa da prosperidade –
Caminho que me conduz ao princípio do ser
Oráculo de raiares de sóis a cada amanhecer.
Venero-te quando me prendes ao teu eixo
Quando me ofereces à flor no mais puro beijo
Quando me pedes, qual zangão, para ungir o teu mel
Quando nos tornamos um no alvéolo sagrado do amor
Quando me tiras do corpo todo amargo do fel
Quando tatuas em mim, do teu gozo, todo odor.

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim um expectador de toda clareza.

Teus seios! Cristais que emolduram teu busto!
Vênus, por certo, de ti sentiria ciúme
A Zeus trataria de fazer queixume
Ao ver tanta perfeição no teu peito robusto
Teus seios são mais que protuberâncias
Também são fontes de enlaçaduras
Ondas que levam meu sexo às loucuras
Quando nos amamos sem quaisquer discrepâncias
Teus seios subjugam minha boca
Seduzem minha língua à presteza de todo carinho
Arrancando de ti frêmitos e loucos gemidos
Teus seios quando tocam em meu corpo
Dá-me uma vontade louca de nos querermos mortos
Para nos perdermos na eternidade sem sentidos

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim um expectador de toda grandeza.

Tua boca! Ah, como é quente tua boca!
Ela não precisa de palavras para falar de sentimento
Di-lo, com a força de um beijo, sem qualquer ressentimento
Todo amor mais profundo que, porventura, sufoca
Tua boca me lambe... Me beija... Me come
Me vira do avesso... Me faz ver estrelas... Me instala no céu
Transforma meu corpo num verdadeiro fogaréu
Tua boca me cala... Me fala... Me grita... Me consome...
Ah! Tua boca diz ao meu corpo o instante do gozo
Mas, teimosa insiste e palpita dentro de mim
Regaça minha razão... Floresce minha paixão...
Tua boca grita: “Não! Não paremos agora...
A sinfonia ainda não acabou! Dancemos...
Há tempo, muito tempo ainda para o amor.”



sexta-feira, 19 de setembro de 2008

TÂNTALO


João da Mata de Oliveira Roma , poeta, teatrólogo, jornalista, jurista, professor universitário, nasceu em Chapadinha, Maranhão, Brasil. Adepto do Simbolismo

TÂNTALO

Conta uma lenda antiga, cuja fama
Pelos tempos modernos inda voa,
Que lá no inferno, condenado à toa,
De fome e sede Tântalo rebrama.

Junto, corre uma fonte clara e boa.
Perto, um galho de frutas se recama.
Mas, se ele quer comer, se afasta a rama,
E, se tenta beber, a água se escoa.

Tem minha vida e a lenda o mesmo traço,
Flagela-me também um vão desejo,
Fome e sede incontidas também passo.

Punido como Tântalo me vejo:
Tão perto desse corpo, e não te abraço!
Tão junto dessa boca, e não te beijo!”

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LEIA MAIS POESIA DESTE AUTOR AQUI:

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

PRELÚDIO [© DE João Batista do Lago]


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PRELÚDIO

 

© DE João Batista do Lago

 

Sei-te senhor da sabedoria

Sei-te ordenador das luzes

Sei-te fonte de toda caloria

 

Sabes tão pouco do meu ódio

Sabes tão pouco da praga que te jogo

Quando surges, a leste, no teu exórdio:

Ladras manhãs que me roubam.

 

Prefiro teu epílogo quando queda no oeste!

 

Neste instante todas luzes brilham

Todas as estrelas cintilam e bailam sob os telhados

Todos os astros se acomodam

 

É quando surge minha aurora:

Desnuda!

Voa em minha direção e me abre os braços

- e as pernas! –

E num só enlaço me leva ao mais profundo dos mundos

Sol de todas as fontes de felicidades...

 

Mesmo que na manhã seguinte renoves teu discurso

- ainda assim –

Aguardarei o poente da tua sabedoria

Donde surgirá em beleza esplêndida

Nua

Carnuda

Desnuda

Trazendo-me todos os louvores e augures

A mais bela amante da minha alegoria...

 

(E cantamos a inteira noite o prelúdio das cigarras!)

 

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

MENSAGEM DO TINHOSO

MENSAGEM  DO  TINHOSO

O ônibus saiu da Rodoviária às oito horas em ponto. Durante vinte e dois minutos ficou a olhar a paisagem, como num filme de Godard, onde tudo se vê e em nada se fixa. O dia caminhava feio. Tudo cinza abaixo e acima da garoa fina e da névoa intensa que ora mostrava o topo da morraria próxima, ora descortinava os montes mais altos no horizonte. Dia feio e frio. Dia em que perro não sai de cima do jornal na soleira da porta, gato não desenrola do rabo e do canto do sofá, pernilongo não voa, besouro não zumbe. Dia pra beber chimarrão e chupar muita xícara com café fumegante.

Cansado da leitura da paisagem e das viagens mentais abriu a mochila, sacou o livro, retomando a leitura da noite anterior. Grande Sertão e Veredas. Estava ele ainda pela página 45, apesar de 13 dias de leitura, quando o telefone disparou. Disparou e parou antes que pudesse atendê-lo. Voltou à leitura e mais uma vez o telefone esganiçou no seu bolso. Tentou ler a mensagem, mas nada havia. Quem ligou não concluiu a primeira frase – "E ai mano...". Com o olho novamente na paisagem ficou mirando o rendilhado das lavouras de arroz alagadas e algumas que ensaiavam brotar as plantas para fora da água, mas que se mantinham cinzas pela ausência de luz. Estava assim, viajando na viagem, quando o telefone apitou com grunhido doido, insistente. Acelerou o gesto para tentar interromper o barulho incômodo para ele e para os outros passageiros.

Desta vez a mensagem chegou inteira:

_ E ai mano desejo boa sorte pro wil que vá pra ganhar eu estou em uma reunião por isso não estou ai pastor Gelson

Intrigado e chateado com aquela interrupção da sua leitura e da viagem do olhar no interior da paisagem resolveu respondê-la, mesmo não sabendo quem, onde, ganhar o quê, Wil, Gelson, sorte, ganhar, perder, pastor...

Passou os próximos trinta minutos construindo no celular a mensagem-resposta para aquelas palavras vindas do hiperespaço celulante da telefonia mundial. Por estar lendo Guimarães foi influenciado na construção do texto. Foi difícil apertar com precisão aquelas teclas tão pequenas com seu dedo gordo. Mas foi em frente...

_ Pastor Gelson, acho que nos desigualamos. Não sou seu mano. No momento estou no sertão de Santa Catarina, que apesar de santa, se hoje viesse pousar aqui, tinha de vir armada, com bala nos dentes, porque a gente daqui é tanto ruim, como um outro ruim dia um. Mas venha. Venha com sua carantonha. Se não prestar, outra cara a ela nois empresta. Causo ela fique muito furada, disminuimos as balas. Não tenha receio, o medo da morte só bate no bobo do corpo, não no interno das coragens. Pois venha.

Enviou a mensagem e, satisfeito com a missão cumprida, retornou ao livro se misturando com Riobaldo, Diadorim, a jagunçada, o tinhoso, a piriquitada e as veredas mineiras de histórias, estórias além de muitas sabedorias "Olhe: Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato..."

Tonicato Miranda

Curitiba, 15/Setembro/2008.

UM POEMA DEDICADO A MINHA AMIGA MITUCHA

BUSCA

(Dedicado a Maria Tereza [mitucha], com todo meu afeto)

 

© DE João Batista do Lago

 

As vozes da minha natureza

Ressoam as melodias dos hinos sânscritos

Que se avolumaram pelos tempos

Agora ressurgem em todos cânticos de meus deuses

Que me moram e de mim fazem igrejas

– ora sagradas, ora malditas! –

Onde procissões de mim(s)

Constroem na profundeza dos meus infernos

A mais rubra torre de pedras que me levam aos céus

Que vergastam minha mente

No silencio do meu mais profundo

Dharma sem deus

Da minha maior profundeza

De me saber-me nada

terça-feira, 16 de setembro de 2008

FRAÇÕES [© DE João Batista do Lago]

FRAÇÕES

 

 

© DE João Batista do Lago

 

 

A noite está fria

Meus pés estão frios

Meu corpo está frio

Meu cérebro está frio

Meus pensamentos... Congelados!

 

 

Sou um móvel.

Tantas são as gavetas!

Penso abri-las:

Tenho medo.

Há muita desordem...

Não quero limpar nada agora.

Prefiro este caos...

 

 

Sinto medo dos sujeitos que as gavetas guardam!

Não sei se eles são melhores ou piores,

Assim como não sei se sou melhor ou pior.

Acredito mesmo que todos são iguais.

Até mesmo a cor ocre do móvel

Equivale à cor ocre do meu espírito

 

 

Cada gaveta, um sujeito.

Cada sujeito, um segredo.

Cada segredo, um medo.

Cada medo, um eu.

 

 

Não! Hoje não!

Abrirei a gaveta...

Sim! Abrirei...

Mas, somente quando eu voltar.

sábado, 13 de setembro de 2008

Quadras ao Gosto dos Devaneios dos Finais das Tardes

Quadras ao Gosto dos Devaneios dos Finais das Tardes

© DE João Batista do Lago

*****

Entre juras de eterno amor
Enamorados tudo prometem
Tempos depois ao ver a dor
Cansados em si – revertem

*****

A flor mais rosa virou Sinhá
hoje vejo a flor mais roxa
num largo sorriso ao luar
me rouba... e prende na colcha

*****

São João... meu são joaozinho
atende depressa minha prece
- não me deixe ficar sozinho
sem ela tudo em mim aborrece

*****

Triste, o canto do sabiá!
Também pudera: está preso.
Nem mesmo Deus sabia:
o homem não sabe cantar


*****

Vô, Papai do Céu de ama
- disse meu neto um dia.
Sua voz em mim reclama:
Será verdade? Será alegoria?


*****

Quanta saudade
mora no meu peito
pensando na idade
fico todo sem jeito


*****

Faz tempo não te vejo
e todo dia te sonho
nesse devaneio tamanho
ser-te minha um dia almejo


*****

Menino de grande pança
lá vai ele correndo pro rio
foi-se aquele tempo de criança
ficou homem no seu desvario


*****

Senhora dona da casa
acolhei este mendigo
não me deixe ave sem asa
quero teu amor como abrigo


*****

Meu irmãozinho Nonato
bem sei estás lá no céu
mas sinto saudade de fato
das crianças brincando ao léu

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O SUMO [DE João Batista do Lago]

O SUMO

© DE João Batista do Lago

O vazo que se me resta de asco
Já não mais agride o objeto do ser
Pereniza-se num semblante...
A dicotomia do asco e do ser
Juntam-se para um último trago dialético
E assim bebem o vinho do escarro
Sou-me de mim a uva pisada
De entrededos escorregam sucos
Ficam unhas impregnadas de sementes

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

TRADIÇÃO E RUPTURA: A Lírica Moderna de Nauro Machado

TRADIÇÃO E RUPTURA: A Lírica Moderna de Nauro Machado

 

© DE João Batista do Lago

 

Desde que ganhei um exemplar deste livro – TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado –, que me foi ofertado pelo protagonista do mesmo, o poeta maranhense Nauro Machado, esta é a quinta leitura que acabo de realizar. Leitura e releituras que me renderam significativas notas! Há tempo queria sobre isto falar alguma coisa, mas sempre relegava para o futuro sem me dar conta de que, escrever sobre este livro é uma exigência; mas, ao mesmo tempo, uma operação difícil de executar, pois, o seu autor, Ricardo Leão, se não esgotara o assunto deixara muito pouco por ser dito. A pesquisa feita por Ricardo Leão é de uma profundidade epistemológica insuperável, além do que, a metodologia da sua analítica me soa bem ao espírito e a alma: a fenomenologia, que reduz ao máximo os enfoques psicologistas.

 

Tenho em conta ser o ludovicense Nauro Machado o maior poeta da língua portuguesa brasileira. Maior que seus conterrâneos Sousândrade, Gonçalves Dias ou Ferreira Gullar, por exemplo; maior que seus compatriotas Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira ou Affonso Romano de Sant’Anna, por exemplo. Isto não significa dizer que estes não tenham valor literário. Ao contrário: têm-no até demasiadamente. Contudo significa destacar e enfatizar que a poética de Nauro Machado supera quaisquer dos citados. E o livro de Ricardo Leão [aos meus olhos] vem provar exatamente isto.

 

Para além do resgate que faz da obra poética de Nauro Machado, Ricardo Leão restabelece “uma” verdade que, ainda hoje, está escondida sob o domínio de uma aculturação imperativa e imperialista do eixo Rio-São Paulo. Aculturação que produz e reproduz o conceito do colonizador sobre o colonizado, do ponto de vista da literatura brasileira. “Esse trabalho de Ricardo Leão é de significativa importância não só porque representa, para a cena crítica acadêmica e para o leitor da boa poesia, um poeta de larga produção qualificada, como Nauro Machado, mas também porque recoloca a reflexão, um tanto adiada, do fazer poético da contemporaneidade” [grifo meu] – (Valdelino Soares de Oliveira, professor de Teoria Literária da Universidade Estadual Paulista).

 

Ricardo Leão não mediu a extensão do fôlego. Não teve medo. Fez imersão na obra nauriana de tal profundidade que desconheço trabalho idêntico. E digo sem medo de, aqui e agora, fazer qualquer exageração que TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado é um livro indispensável para quem quer, honestamente, estudar a literatura brasileira sem apelos de regionalismos ou submisso a uma indústria cultural bajulatória e concentradora de mesmisses que conspurcam a inteligência, o pensamento e as artes literárias daquilo que “eles” chamam de “o interior do Brasil”. Afirmo que qualquer estudo que se realizar no campo da literatura nacional e não se fizer menção a este livro, nada está (ou se considerará) completo, posto que, faltará sempre esta verdade sobre a poética de Nauro Machado.

 

E para finalisar resgato uma questão levantada pelo autor de  TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado: “que fato de natureza literária ou não, explica a ausência de consagração absoluta em torno da obras de Nauro?” (p. 224). Ricardo Leão enumera e discorre sobre algumas nuanças para responder a esta pergunta. Todas factíveis. Todas prenhes de respostas ainda não dadas. Pessoalmente tenho outras tantas nuanças que poderiam ou podem ser enumeradas (o que não é o caso presente), mas a principal delas [aos meus olhos], não tenho qualquer dúvida, reside no seguinte fato: Nauro Machado jamais baixou a cueca para o eixo Rio-São Paulo, construtor de mitos de barro... de igrejinhas... de curriolas... Enfim, Nauro Machado, jamais quis sair do seu torrão, da sua São Luis,  da sua Atenas, para integrar os círculos de comensais circulatórios e circundantários de uma indústria cultural voltada para si mesma.

 

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FICHA TÉCNICA


Martins, Ricardo André Ferreia (Ricardo Leão)

Tradição e Ruptura: a lírica moderna de Nauro Machado / Ricardo André Ferreira Martins (Ricardo Leão. São Luis: Fundação Cultural do Maranhão, 2002. 

388 pp. 

Livro impresso pela Indústria Gráfica e Editora LITHOGRAF. End.:  Av. Ferreira Gullar, 40 – São Luis – Maranhão.

Fone: (0xx98) 3235-2082

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Mys Moradas

© De João Batista do Lago




El fondo

véese despues

de las orillas

my corriente de

moradas:




el puente

– ligero y fuerte –




la lluvia

– en olas furiosas –




el cielo e la tierra –

coligación de los divinos

e los mortales




Soy un puente

Soy un lugar

Soy my espacio:

tierra e cielo;

los divinos

e los mortales

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A CARNE

Há monstros!
Monstrengos há!

Seus caninos afiados
feitos presas de javalis
vislumbram o ataque fatal...

Mas, depois de devorada a tartaruga
percebem o grande mal que a si fizeram:
suas carnes estão sendo comidas
pouco-a-pouco são corroídas
nos palácios dos seus ancestrais...

Paradoxo do mal
Gabali não mais lhes dará abrigos!

O ventre que se lhes gerara recusa a imolação
Será o javali santo ou assassino?

Na pedra da imolação
Terá que comer seu própiro ventre
Pensou engravidar-se da tartaruga
Mas, fez-ze apenas oblação

Será o javali santo ou assassino?

O Sujeito-Áporo

O SUJEITO-ÁPORO


© DE João Batista do Lago



Cava dentro em mim

O inseto amargurado

Solitário em sua dor

Cava… cava… e cava

Cava silenciosamente

Desesperadamente só

Cava sem lamento (e)

Tudo que encontra: pó


Só ele vê as crateras

Onde reside o pus (do)

Ser: verme em vulcão

Humano: danado cão

Pois mesmo escavado

Não se dá por vencido

E assim convencido

Gera-se deus-inseto


Metamorfoseia-se!

Orquídico em Fénix

Surgente das cinzas

Vê-se sujeito presente

- Inseto agora ausente –

Voltado das cavernas

Pretende ser gente (e)

Plantar orquídea essentia

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Abdução

Abdução


© DE João Batista do Lago


Os olhos do meu quarto
Espreitam o monstro esférico
– Nele há um mistério de deus e diabo –
A begônia trepadeira me sorri
E me pergunto:
- O que será que ela quer?
- Quererá me ornar?
- Quererá me curar?


[...]


Os olhos esféricos me observam!
A begônia é uma matilha de lobas famintas
Seja jarro; seja carne
Ela me espera com olhares de paixão
Não resisto
Corro em sua direção...


(Alma e espírito foram abduzidos!)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Angústia

Angústia


© DE João Batista do Lago


calaram-se:

o criador e a criatura!

o verbo não se lhes fora suficiente

para a tripudiagem

que se lhes emana de almas vagabundas


calaram-se:

o criador e a criatura!

agora tristes e insuficientes

perderam o tino a coragem e a vergonha

- não tenham medo de perder a opinião! -


os deuses são assim: feitos de ilusão absoluta

não tenham medo de perder santos e anjos

aqui no inferno vos dareis abrigos

aqui podereis espiar vossas miseráveis felicidades

e podereis ter a justa angústia de si

e a certeza da remissão de pecados


vinde, pois, criador e criatura

aqui vivereis com seus humanos

aqui sabereis da virtude dos demônios

seres encantados, mas reais profanos

adoradores das imagens sagradas

dos infernos mais profundos do ser


vinde, ó criador... ó criatura...

o vinho da poesia nos confortará

nele dissaparemos todas as dores

dele sairemos embriagados

e depois de torturados pelas ressacas da incompetência

haveremos de bebê-lo

e de novo dele renasser plenos de consciência

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Carta ao poeta Tonicato Miranda


Curitiba (PR), sexta-feira, 22 de agosto de 2008





Prezado Tonicato Miranda

Bem sejas.





Caríssimo poeta.



O “devaneio” diurno – aos meus olhos – tem maior significado que os “sonhos” noturnos. Mas, antes de tudo, infiro que este “campo” de devaneio ou do sonho pode ocorrer na sua metástase inversa. E ninguém melhor que os poetas para “si” nos dizerem destes fenômenos. E como sabem, muito bem, diferenciá-los os poetas sem que, para isso, façam qualquer tratado (ou mesmo teoria) psicológico ou psicanalítico!


Tenho em conta que, por isto mesmo, os poetas, transcendem os filósofos e os psicólogos. O poeta toma a natureza bruta do fenômeno e constrói, num verso ou numa poesia, toda a história do humano.


E é esta práxis que transforma o poeta num fenomenólogo, pois sabe o poeta, pela “intuição do instante – (G. Bachelard)”, que é preciso lutar contra a predisposição que leva a considerar os resultados dos processos perceptivos como descrições objetivas do mundo e os conteúdos ordinários da mente como verdades obvias.


Ao contrário – ensina-nos Edmund Husserl – é preciso assumir atitude fenomenológica, desinibida, desinteressada e crítica em relação aos hábitos mentais do próprio sujeito.


O texto escrito acima, caro poeta, decorre de posterior “leitura” de “uma” sua poesia publicada em PALAVRAS, TODAS PALAVRAS1.


E que bela poesia!


E que intuição do instante brutalmente fenomênica!


Cresci aprendendo e apreendendo que nos menores frascos encontram-se os melhores perfumes. E, permita-me a analogia, pois, em LUZES DA TARDE2 encontramos um frasco de perfume poético capaz de tornar o mundo mais cheiroso. Um frasco de perfume poético que estava (e é) guardado no “cofre” que “reside” no solar da casa-corpo! Perfume poético, que de tão estonteante fez abrir o guarda-roupa, não para perfumar uma roupa qualquer, não para perfumar uma roupa que “veste o ego”, mas para de lá arrancar num final de tarde deste agosto um corpo - “o corpo-casa” - que lá estava guardado e estendido num cabide, como se fora um corpo-smoking velho e surrado e apertado simetricamente verticalizado entre tantos outros black-tie (já) quase sufocados pela falta de oxigenação.


E quanta e tanta dialética da estética num dia de agosto, há “antes que a tarde acabe”!


O “sujeito” que fala em LUZES DA TARDE briga autocriticamente ou ao autocriticar-se com o real e a realidade implícita em si: “dúvida que de mim duvida/mais um desenho a fazer/ou num poema me fazer”.


Permita-me, poeta amigo, extrair destes versos, imagens (ou desenhos) agora puramente minhas. E começo a construção dessas imagens por uma pergunta que se me ocorre nesta minha intuição do instante: o que há ou melhor, noutras palavras, o que houve, o que de fato ocorrera “antes que a tarde acabe”?


Ocorre-me a seguinte ilação: eis aqui a questão central; eis aqui a chave do corpo-casa (armário de sentidos). Eis a chave que abre e que revela “o espírito obrando sua casa”; eis a chave que revela o corpo-casa fazendo uma tipologia fenomênica de metempsicose: “olho à janela e vejo a luz”.


Ao se colocar na primeira pessoa do verbo, o “sujeito” que fala na poesia transmuda-se; já não é mais o espírito do corpo-casa, mas a casa-humana, a casa-em-si, a casa-mesma, o ente, o ser, o poeta, o “sujeito” que faz e dá sentido à sua mundanidade!


E é assim, e somente assim, que, aqui e agora, o “sujeito” (já) posto em toda sua mundanidade, consegue “dialetizar” o fenômeno de “sentir” e de ter a “sensação” do “ar parado/o calor manso desta tarde”.


Quanta “intimidade” há no desvelo deste armário-casa!


E, se me permita, ainda, caro poeta, mais esta ilação imagética: se tomarmos a palavra armário como “um” centro de intimidade da casa-corpo ocorre-nos imaginar o devaneio (imagem) que esta palavra se nos provoca!


A primeira sílaba desta palavra - “ar” - desvela o caráter do ar que sufocava o “corpo-smoking velho e surrado e apertado simetricamente verticalizado entre tantos outros black-tie (já) quase sufocados pela falta de oxigenação”, que mencionei lá atrás.


E na mesma dimensão da imensidão desse espaço de intimidade, a última sílaba - “rio” - finda a palavra num outro fenômeno: o rio.


Porventura não é um rio, isto é, suas águas, um estádio perene de movimentos constantes e inacabáveis?


É claro que sim!


Então o que isso quer-nos dizer?


Aos meus olhos, esta imagem agora revelada significa que o “ar parado/no calor manso desta tarde” é o ponto de libertação da “dúvida que de mim duvida”, ou seja, é melhor que o ar fechado, preso, inerte e sufocante da casa-corpo (armário).


Mas a imagem desse movimento vai mais além! E se completa totalmente quando o “sujeito” que fala na poesia infere que, neste final de tarde de um dia de agosto há “borboletas belas na tarde”.


Que imagem fantasticamente fenomenal!


As borboletas são as rainhas do movimento! São incansáveis nas suas formas de movimento! São insuperáveis nos jogos dialéticos do movimento!


Não é, pois, à toa que o “sujeito” que fala na poesia, depois de extasiar-se com a intuição deste seu instante fenomenal, resolveu, enfim, declarar-se definitivamente separado do seu paradigma de racionalismo idealista para assumir, por definitivo, sua condição de “sujeito” mundano-existencialista, e nesse sobrevôo vestir a roupa mais simples, porém, a mais perfumada; perfumada com o perfume de um existencialismo concreto, onde dúvidas, egos, vontades, desejos, hábitos, crenças, fé, religião, pré-juízos, juízos, pré-conceitos, conceitos... fiquem todos entre parênteses: “a vontade de desenhar [geometria do racional] perdeu/para a vontade do poema [geometria do devaneio]”.


E de posse dessa “epoché fenomenológica – (E. Husserl)” renascer do “rio” de uma armário velho, para navegar na correnteza do “rio” prenhe de movimentos em direção ao “mar” (que também reside na palavra armário) de conhecimentos plenos: “foi bom não perder a tarde/farei desenhos mais tarde”.


Foi assim, meu caro poeta, que sua poesia veio residir em mim.


Evidentemente não sou nenhum psicólogo, não sou nenhum psicanalista, não sou nenhum crítico literário. Possivelmente nenhum destes concordem com as minhas palavras (e provavelmente não concordarão!) sobre a sua poesia, que até poderá ser vista por eles como meras palavras ou como uma poesia banal, de palavras banais; ou mesmo como um grande texto, uma poesia excepcional, de significados e significantes meta-existenciais, corolário de patologias sexuais ou de estados de mentes esquizofrênicas, donde – eles – possam extrair um não “sei quê!” de excentricidade para justificar suas rabugices ou suas regurgitações acadêmicas.


Quanto a mim, caro poeta, é preciso que o diga, elas vêem consolidar imagens mentais que povoam a consciência dum poeta que crê na fenomenologia do instante, no brutal instante em que surge: avassalador, incorrigível, irracional, animal, feroz, deblaterador... enfim, visceralista, donde sua única forma é a forma que chega no seu formato fenomenológico... gestáltico... ou mesmo louco... ou mesmo patológico...


Peço-te, meu caro poeta, mil perdões pela subversão que pratiquei no teu texto.


Ao encerrar esta missiva, peço-te mais perdão pela indiscrição de dar publicidade em alguns espaços que mantenho na globosfera.


Atenciosamente


João Batista do Lago

http://joaopoetadobrasil.wordpress.com

http://joaobatistalago.multiply.com

http://batistadolago.blogspot.com


2LUZES DA TARDE poema de tonicato miranda

Agosto 21, 2008 14:40 pm de Equipe Palavreiros da Hora

                                                                                                                              para os palavreiros

 

antes que a tarde acabe

dúvida que de mim duvida

mais um desenho a fazer

ou num poema me fazer

não falo de fazer como quem

veste o ego ou uma roupa

mas de fazer o corpo-casa

o espírito obrando sua casa

olho à janela e vejo a luz

apraz-me este ar parado

o calor manso desta tarde

borboletas belas na tarde

a vontade de desenhar perdeu

para a vontade do poema

foi bom não perder a tarde

farei desenhos mais tarde