sexta-feira, 20 de março de 2009
CÂNTICOS VISCERAIS [livro depoesia de João Batista do Lago]
quarta-feira, 18 de março de 2009
OUTONO DE PRIMAVERAS
Precipita-se-me a transição
Meu corpo – casas de alma e espírito –
Acomoda-se no vazio do espaço
Para receber todo ouro
Que reluz das tuas cores
És uma outra primavera
Carregada de outonais folhas
Que se transformam em flores!
É deste movimento eterno
Que me seduz desde o céu até o inferno
Que aprendo que a morte é o nascimento
Que a vida é como nuven de outono
Dura o tempo da dança dum balé magistral
É como o brilhar do relâmpago no éter
Rasgando trevas infinitais de angústias
Desfolhando no espelho das águas
Luas que refletem nas relvas
Todas as faces do novo ente...
Sucedes meu calor de dores infernais
Antecedes meus céus de neves...
Vês!
És assim a transição de mim
Dum morrer-se para um nascer-se
Num movimento fugaz dum tempo eterno
Que não se concluirá num qualquer céu
Ou num qualquer inferno...
A existência é muito mais que a morte
Muito mais que vida ela é
E desde o céu até o inferno
Migra de estação para estação
Plantando flores de ouro
Florindo de pétalas amarelas todos os caminhos
Fazendo renascer de cada lavoura
Todos os outonos de primaveras
__________
Poema dedicado a Vera Lúcia Carmona (Portugal)
terça-feira, 17 de março de 2009
POEMA PARA RUANDA (ou Holocausto Posmoderno)
POEMA PARA RUANDA*
(ou Holocausto Posmoderno)
© DE João Batista do Lago
“Nós nos veremos novamente no céu”
Zunia nos ouvidos incrédulos da colina
A voz troante dum coro vibrante
Cantando vitimas dum genocídio
Esquecido pelos senhores donos do mundo
Diante dum memorial de vítimas
Do alto da colina homens e mulheres de pés descalços
– indiferentes à dor e ao sofrimento e atônitos –
Assistem ao desfilar de máquinas reluzentes
Parindo deuses negros como ébanos
Todos filhos da África-mãe dolente
Agora quase sem forças para salvar os filhos seus
- Não compreendestes, ó filhos meus,
filhos das minhas savanas sagradas:
miserável e condenada será por toda eternidade
a maldita nação que desgraça e mata
sem dó nem piedade todos os irmãos seus
pensando fazer justiça aos olhos de Deus
A chama que arde sobre o memorial dos mortos
Clama pela Paz diante de tutsis e hutus de pés descalços;
Chora pelo afeto e pelo carinho e pela solidariedade nunca alcançados
Grita pela liberdade capaz ungir almas e espíritos e corpos
Ora pelo raiar dum sol de esperança mútua
Canta e dança pela juventude duma esperança vírtua
Amendrontados os olhares do alto da colina
Todos de pés descalços – tutsis e hutus –
Pensam numa só ladainha de esperança:
“O genocídio foi algo brutal... criminoso e nojento!
100 dias foram o bastante nessa luta fatal
para matar 800 mil diante da passividade internacional”
Não!
Nós NÃO nos veremos novamente no céu!
- suplicam os corações do alto da colina –
Nossa sina é a dignidade e a virtude entre irmãos
Que restará preservada nesse memorial da imolação
sábado, 14 de março de 2009
SONETO DA ESTAÇÃO
SONETO DA ESTAÇÃO
© DE João Batista do Lago
O verão está-se esfumando
Chegando ao fim... Ao ocaso
Regra da Natureza-mãe – não por acaso!
Implacável vai determinando
O fim de mais um ciclo vital
Mostrando a toda gente a recriação
Insistindo no cântico da renovação
Revelando a Natureza como animal
A morte é um fenômeno natural
Dela nada escapa; por isso é genial
Seu encanto fatal é a única certeza
Nada há que resista a tanta beleza
A morte mata a vida da natureza...
Mas quando si morre renasce a beleza
terça-feira, 10 de março de 2009
AUTOIMOLAÇÃO
AUTOIMOLAÇÃO
© DE João Batista do Lago
No Cais da Sagração
Ajoelho-me diante dos peixes...
Minha saudade
Dou-a como isca.
Não para ser pescado
Mas para me afogar
Nas águas dum rio anil
De eternos encontros
Feitos de desencontros vadios
Nadificados nas ondas
De mares incolores
O cheiro do mangue reside
Na minha toca de caranguejo
Cansado da carapaça que
Recobre o crustáceo
Num balé solitário que
Passa-não-passa... passa-não-passa...
Entre corações-detrito de animais humanos
Se me há a cruz por sacrifício
Que me crucifiquem
Diante dos peixes
Do Cais da Sagração
Lá minha imolação
Não se dará perdida
Lá me darei como peixe a toda nova vida
PROFANO
PROFANO
© DE João Batista do Lago
Dobram os sinos das seis
É mais um dia que do tempo morre
Enterrando a insensatez:
O cemitério humano
Prenhe de vermes
Ressuscitará no amanhã – talvez ! –
A angústia primeira de
Crer-se sagrado na
Profana carne do
Miserável ser de incertezas vãs
sábado, 7 de março de 2009
ANTIPOEMA
ANTIPOEMA
© DE João Batista do Lago
Queria escrever um poema
Mas não há lírica no estupro
Nem estética na criança estuprada
Nem forma na excomunhão
A insensatez está exumada
No espírito patológico do ser
O verso
Não comporta
O mar
De corrupção
sábado, 28 de fevereiro de 2009
SABBATH
SHABBATH
© DE João Batista do Lago
Porque hoje é sábado
Resolvi fazer uma limpeza e
Promover a ordem no
Caos do meu quarto
– minha concha! –
É lá o meu templo sagrado
A sacristia das minhas angústias
Residência dos meus devaneios
É lá o meu canto de intimidades
Onde moram meus armários
Cofres das minhas veleidades
E assim procedi
Pouco a pouco fui fazendo a faxina
E lentamente o quarto foi-me de novo sorrindo
Deixei que o Sol entrasse pela janela
Que banhasse com raios de luz
Toda imensidão da concha que me habita
Que me segreda como pérola
Mas que me oferta ao mundo
Como hóstia
Como oblação
Aos deuses que me crucificam
Após o Evangelho das
Sagradas escrituras dos mercados
Pouco a pouco o quarto foi se transformando
Pendurando em cada cruz minhas identidades
Então reféns das liberdades do movimento dos meus pensamentos
Antes libertinos e soltos e puros...
Foi então que ela apareceu
Estava ali parada à porta...
Inerte como o Juízo Final
Olhava-me com fixação nitrogenada
Fazendo-me crer que eu era sua obra prima
Na intuição do instante da sua criação mais-que-perfeita
Fazendo com que meu corpo assimilasse sua angústia
Ali estava ela parada... Estagnada mesmo
Sem uma palavra
Apenas com o olhar fixo duma pedinte
Que de tanta fome
De tanta sede
De tanta dor
De tanta angústia
Não mais tinha forças sequer para mendigar
Ali estava ela inerte como o Juízo Final
Resolvi então dela aproximar-me
Foi aí que percebi que ela estava perneta
E como quem sente vergonha de não ser completo
Baixou a cabeça e chorou...
Chorou o choro mais profundo que me correu entre as veias
Chorou o choro do prenúncio da morte
Chorou o cântico das súplicas
Duma súplica pela vida
Como quem sabia que sua etapa ainda não podia findar
Ajoelhei-me diante de tanta resignação
Diante de tanta e quanta submissão paciente aos sofrimentos da vida...
Foi aí que ela me falou sem dizer uma palavra:
“toma-me em tuas mãos e me levas ao alpendre da tua morada;
lá serei salva pelas flores e rosas e plantas;
lá serei parte da natureza;
e mesmo que morra e mesmo que desapareça
serei entre flores e rosas e plantas
a conjunção perfeita de toda sabedoria”
Tomei-a às mãos e a conduzi até o alpendre
Ela está salva
Ela está viva
Hoje posso dizer:
Do caos do meu quarto dei vida a uma Esperança
EU SIMBÓLICO
EU SIMBÓLICO
© DE João Batista do Lago
Resta-me da ossatura a
Carne de todos os símbolos
Perambulando entre os
Apriscos da floresta
Pictórica de muitas moradas
São meus alimentos os
Instintos selvagens dos
Instantes angustiados...
Sou fera rara! Tão rara
Quanto temporais de sonhos
A vida – minha catacumba! –
Encorpa minha alma de espíritos
Hora puros... Outras impuras
Sob o açoite de vergastas
Que me movem em direção aos nadas
Selo com meus símbolos a
Diáspora de todos os povos
Encarcerados nos andaimes dos
Caminhos para Babel:
No final da jornada não há céus
Todos os demônios unem-se
Numa desesperada oração onírica
E entoam hinos sufragantes
E choram choros lamuriantes
– gritos das minhas alcatéias! –
Oh! Sensações de ondas em espirais
Que me fazem vibrar no umbral de
Loucuras santas – tantas e quantas! –
Perdoa o corpo que te abriga as dores
Salva-o dos chicotes das representações
E me revelas o sonho real
Gerado nas profundezas da carne imaterial
É lá onde desejo ser toda Possibilidade dos
Sonhos mais sublimes e perfeitos e
Matizar minhas cores na ossatura do eterno
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
CAMINHARES
CAMINHARES
(dedico este poema,
in memoria,
ao poeta
José Nascimento de Moraes Filho,
que faleceu no último dia 21/02/2009)
© de João Batista do Lago
Não me queiras tu indicar-me caminhos,
Todos os traçaste com pés de porcos.
Não. Não queiras tu impor-me teus santos;
Teus cânones – pérolas que brotam das lamas –,
E se instalaram no sacrário na sacristia
Onde se rezam orações profanas ao
Deus dos mercados que te encanta...
“Não, eu não vou por aí”.
– já dissera um poeta Régio –,
Mas tu insistes com ar de vitória
Conquistada com o vintém dos bajuladores
Que tomam tua obra como hóstia sagrada
Para em seguida cagá-la no colo ilustre
Da tua bem-aventurada sapiência burocrática.
Afasta de mim o cálice das canonizações fáceis,
Não me pretendo entre mortos das velhas escolas
De sabedorias guardadas nos armários das velhacarias,
Donde soam vozes e signos dos vampiros
Que sugam a alma do povo trabalhador,
Vilmente esquecido pela tua ânsia de atingir estrelas
Com versos de galanteador.
Não. Não me convides para seguir este teu caminho...
Meus pés não suportariam os mármores da tua igreja!
Por certo me aleijariam... E sangrariam até a morte...
Prefiro o calvário da dor... E da fome... E da miséria,
Que o banquete da pajelança dos curadores e dos ímpios
Versejadores que desfilam na corte da ignomínia;
Que vendem sua alma ao diabo como anjos de sabedoria.
De que me adianta seguir o teu caminho,
Se nele apenas se compraz a reprodução do visível?
Não. Não pretendo seguir o teu caminho.
Prefiro dar visibilidade ao não visível,
Àquilo que se esconde por detrás do teu versejar,
Mesmo que me acuses de incompreensível
Meu desejo é rasgar o verbo até ele sangrar.
Este, sim! Este é o meu caminho.
E nada me fará mudar este destino
– de escrever no pergaminho da vida
a sólida robustez da miséria e da fome,
da insensatez do homem,
do deus perdido no aquário do ser,
do sujeito obra da natureza entre Deus e diabo.
sábado, 21 de fevereiro de 2009
JOSÉ NASCIMENTO DE MORAES FILHO, MEU MESTRE E ÍCONE
Acabo de receber este e-mail dando-me conta do falecimento de uma das pessoas que me foram mais caras na vida, o Professor José Nacimento de Moraes Filho...
Estou pasmo!
Confesso que nem ser o dizer neste instante.
O professor Nascimento de Moraesfoi um ícone para mim. Se hoje sou poeta... O sou pelo muito que recebi dele, sobretudo o incentivo que nunca me faltou. Ele gostava da minha poesia, muito embora a "remendasse" (como dizia ele), com carinho e afeto didáticos e literários, para torná-la mais crítica e mais audaciosa.
Tenho em conta que, do muito que sei, veio-me por intermédio de José Nascimento de Moraes Filho.
Aceite meus pêsames pela morte dele.
Fraternalmente.
João Batista do Lago
Eis o teor do e-mail:
[© 2007 Joao Poeta do Brasil] Comentário: "Artigos"
De: José. N. M. Neto (donotreply@wordpress.com)
Enviada: sábado, 21 de fevereiro de 2009 23:22:46
Para: joaobatistalago@hotmail.com
Novo comentário sobre o seu post #221 "Artigos"Autor: José. N. M. Neto (IP: 189.81.18.9 , 18981018009.user.veloxzone.com.br)Email: lenamo@globomail.comURL : Whois : http://ws.arin.net/cgi-bin/whois.pl?queryinput=189.81.18.9Comentário:O poeta José N. Moraes Filho (15/07/1922 -21/02/2009) faleceu hoje na cidade de São Luís - Ma aos 86 anos, após uma rápida parada cárdio respiratória às 07:45 no Hospital UDI, S. Luís – centro. O poeta era cardiopata, mas mantinha-se com saúde estável. Hoje em sua residência às 07h00min da manhã ao acordar, sentiu um leve mal estar, sendo encaminhado ao hospital por familiares, faleceu no transcurso. Ao chegar ao hospital, submeteu-se aos procedimentos de rotina...sem retorno...! O velório acontece na sede da Pax União – centro. O enterro ocorrerá dia 22(domingo) às 10h00min da manhã no Cemitério do Gavião (centro). Em conversas familiares (referido por uma das filhas) ele queria morrer sem sofrimentos prolongados, em dia claro, ensolarado e festivo...Transcendental, católico, em sua linguagem quântica escreve em seus poemas como concebia vida e morte: "a luz projetou-me no infinitoe cosmovisionou-me até a origem das origens!e me vi gerar!... e me vi nascer!..- antes dos universos!Livre!...Livre!..." “... eu não nasci para mim!- nasci para a humanidade!...eu não nasci para aqui:- nasci para o universo!" Descanse em Paz poeta!Só o fato de ressuscitar a primeira romancista negra do Brasil, foi uma de suas maiores missões neste plano!Obrigado J. Batista pela homenagem em vida que prestastes ao poeta com a belíssima "METONÍMIA"!Atenciosamente,J. N. M. Neto. Você pode ver todos os comentários sobre esse post aqui:http://joaopoetadobrasil.wordpress.com/artigos/#comments Excluir: http://joaopoetadobrasil.wordpress.com/wp-admin/comment.php?action=cdc&c=242Marcar como spam: http://joaopoetadobrasil.wordpress.com/wp-admin/comment.php?action=cdc&dt=spam&c=242
__________
Este foi o poema que dediquei ao mestre Nascimento de Moraes (ainda em vida):
Metonímia
(Ao mestre José Nascimento de Moraes Filho,
poeta maranhense, espírito libertário do meu tempo,
que não cansa sua utopia de libertação.)
© DE João Batista do Lago
Uma voz metálica
sob a contemplação de João Lisboa
corta a barreira do vento para atingir
na outra margem da Ágora
os surdos ouvidos que
não desejam o verdejar da Ilha
que chora nas suas entranhas
a transfusão da lama vermelha.
O velho libertário
ainda que libelo solitário
quer vaticinar sua dor
num grito quase que terminal
como uma ferradura
entre os desilhados franco-luso-brasileiros
já quase derrotados em sua rebeldia
antes orgulhosa e cheia de galhardia.
A marca do tempo.
O tempo da marca.
Marca que ferroa o chão
de dor e de horror
Marca que impede ecoar
o grito parado na garganta:
alcooooooooooaaaaaaaaaa...
da alcova dos poderosos
não há de vingar nenhum descendente
apesar do tolo condescendente que te ama.
A metálica voz singra
e se faz ouvinte discurso...
No outro lado da praça
onde ouvidos moucos
- que desgraça!
antes filhos da rebeldia
hoje Narcisos “aluminados”
que iluminam o desencanto
da ilha que chora
o (quase!) derradeiro ato
ouvem
ainda que rouca pelo tempo
a voz metálica do velho libertário:
“Estarei sempre atento às tuas investidas
mesmo que isso me cause a morte
mas não te deixarei por sorte
a vantagem insana de me esculpires
na alma – com a tua lama –
a tua marca miserável de dor e fome”
A CONCHA E SUA IMENSIDÃO
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A CONCHA E SUA IMENSIDÃO
© DE João Batista do Lago
Da imensidão da concha
Recrio-me da pequenez
Invado minha floresta
À cata do rio mais limpo
Para garimpar a perolo negra
A mais sublime pedra
Gerada pela concha
Que só revela seus segredos
À sua imensa floresta
No interior da floresta
Guardada pelas águas dum rio livre
A concha jamais aborta suas pérolas
Ela recria-se com tanta imensidão
Deixa de ser pequena habitação
Para se tornar palácio de todas as pérolas
E ser o ventre de toda natureza
No movimento mais sublime da criação
Do molusco perfeito que se arrasta pelo chão
Assim é a imensidão da minha concha
Quando se lha tem guardada pela floresta e pelo rio
Não há nada mais sublime; e nem divino
Nada maior existe que sua própria dimensão
Pérola e molusco vagam a mesma floresta
E navegam no mesmo rio de águas livres
Rompendo rochedos; furando pedras
Abrindo caminhos com a força do furacão
Rasgando a imensidão da terra para nova habitação
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
O CARNAVAL COMO CRIADOR E CRIATURA DE MITOS PESSOAIS E COLETIVOS
O CARNAVAL COMO CRIADOR E CRIATURA DE MITOS PESSOAIS E COLETIVOS
© DE João Batista do Lago
Oficialmente começa hoje[1], com o desfile das escolas de samba de São Paulo, o carnaval brasileiro, que, teoricamente, acabaria na segunda-feira, com o desfile do segundo dia das escolas de samba do Rio de Janeiro, ou oficialmente, na terça-feira de carnaval. Contudo, oficiosamente, o carnaval tem início uma semana antes e finda uma semana depois, em várias cidades brasileiras[2].
Em geral – seja no período carnavalesco, ou não –, nunca paramos para pensar sobre o “como?” e o “por quê?” essa manifestação folclórica se dá no Brasil com tanta e quanta intensidade. O carnaval não acontece só aqui. Mas, em nenhum outro lugar do mundo é tão festejado quanto no Brasil.
Muitas são as teorias e teses sobre a origem do carnaval. Evidentemente todas têm seu “cadinho” de verdade. De fato, tudo que os historiadores – sejam da corrente antropológica ou da corrente sociológica – descreveram e relataram, até aqui, são fatos históricos que não se podem duvidar, pois, nesse campo, paradoxalmente, as pesquisas são intensas e críveis.
Mas, aos meus olhos, ainda há uma linha de pesquisa, nesse campo, que mereceria ser mais pesquisada, estudada e analisada cientifico-fenomenologicamente, afora as pesquisas e estudos que são realizados pelos carnavalescos, que merecem o mais pleno respeito de todos nós, pois, aos trancos e barrancos, são pessoas que contam a “história do mundo” a partir de suas visões mitográficas. Como podem ver refiro-me ao campo mitológico; ao fenômeno do Mito, que se há introjetado no carnaval como Corpo, Alma e Espírito, isto é, que é imanente ao Homem (homem/mulher).
Se partirmos da idéia que o Homem é um “Sujeito” mitográfico, ou seja, que é refém da sua exposição ou descrição das fábulas ou mitos, aí então, compreender-se-á, por definitivo, o valor cultural do Carnaval. E quando infiro sobre o “valor cultural” quero dizer que “é” parte da natureza do Homem. E quando assumo essa inferição como verdade quero fazer crer que não estão certos os que veem no carnaval apenas e tão somente o malogro que muitas vezes se perjura contra ele (o carnaval).
Em “O Mundo como Vontade e Representação”, Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), descortina que “o mundo é a minha representação: eis uma verdade que vale para cada ser vivente e cognoscitivo, mesmo se somente o homem é capaz de acolhê-la na sua consciência reflexa e abstrata (...) Torna-se claro e certo para ele que não conhece nem o Sol nem a terra, mas possui um olho que vê o Sol, a mão que sente a terra; que o mundo que o circunda não existe senão como representação – vale dizer – sempre e somente em relação a um outro, àquele que o representa, que é ele mesmo”.
S., evidentemente, não conhecera o carnaval do Brasil, contudo dá-me a nítida impressão (eis aqui a representação empírica da minha mente pessoal) que sua linguagem fora produzida para dialogar com a linguagem do carnavalesco brasileiro. Toda consciência que sabemos do mundo, mesmo como consciência epistemológica, é que tudo não passa de fenômeno. Assim sendo, tudo é aparência, ilusão ou fantasia. Ao final, não é exatamente isso que assistimos no carnaval? Pois sim! O carnaval, assim, é a representação da nossa mente coletivo-pessoal, ou seja, pelos olhos dos carnavalescos representamos – e nos representamos, paradoxalmente! – em cada aparência, em cada ilusão, em cada fantasia, que se nos permite desenhar no mapa da nossa mente pessoal, e coletiva, uma realidade que não é real.
O carnaval é, no mesmo instante em que o vivenciamos – seja presencialmente; seja pelos meios de comunicação –, espaço e tempo de nossas configurações de extensionalidade, ou seja, é o espaço onde nos permitimos sair da concha para nos extrapolar, isto é, para nos multiplicar “n” vezes em nós mesmos – seja no plano pessoal; seja no plano social. E isto tem a ver com o nosso campo mitográfico, na medida em que somos o criador e a criatura dos nossos mitos mais profundos e individualizados, pessoal e coletivamente.
Gaston Bachelard (1884 – 1962) nos ensina que “(...) embora pareça paradoxal, muitas vezes é essa imensidão interior que dá seu verdadeiro significado a certas expressões referentes ao mundo que vive (...)”. Exemplificando ele toma a imensidão da Floresta para nos dizer que “(...) essa ‘imensidão’ nasce de um corpo de impressões que não derivam realmente de ensinamentos (...); não é preciso permanecer muito tempo nos bosques para conhecer a impressão sempre um pouco ansiosa de que ‘mergulhamos’ num mundo sem limites (...)”.
Porventura não é exatamente o que ocorre com o carnaval brasileiro? Pois sim! Mergulhamos profundamente em nossas florestas pessoal-coletivas, revisitando nossas aparências, nossos sonhos e nossas fantasias. E é exatamente nesse espaço, nessa floresta de-si, num tempo marcado pelo real, que vamos à busca de nossas realidades imaginadas, como criadores e criaturas de nossos mitos. E, paradoxalmente, renascemos como a Fênix (mito) para o enfrentamento do real, feito do concreto real, que se nos apresentará no momento seguinte em cada infraestrutura da nossa geografia de vida.
Bom carnaval a todos.
