ANTIPOEMA
© DE João Batista do Lago
Queria escrever um poema
Mas não há lírica no estupro
Nem estética na criança estuprada
Nem forma na excomunhão
A insensatez está exumada
No espírito patológico do ser
O verso
Não comporta
O mar
De corrupção
"O poeta João Batista do Lago, cidadão consciente e culto, nesta sua obra, expressa e reflete sobre variados temas. Com isto demonstra aptidão e conhecimento em várias áreas do conhecer humano: Filosofia, Arte, Antropologia, Sociologia, Mitologia, Literatura, Política, História, Ecologia e outras mais" (Johannes de Silentio).
ANTIPOEMA
© DE João Batista do Lago
Queria escrever um poema
Mas não há lírica no estupro
Nem estética na criança estuprada
Nem forma na excomunhão
A insensatez está exumada
No espírito patológico do ser
O verso
Não comporta
O mar
De corrupção
SHABBATH
© DE João Batista do Lago
Porque hoje é sábado
Resolvi fazer uma limpeza e
Promover a ordem no
Caos do meu quarto
– minha concha! –
É lá o meu templo sagrado
A sacristia das minhas angústias
Residência dos meus devaneios
É lá o meu canto de intimidades
Onde moram meus armários
Cofres das minhas veleidades
E assim procedi
Pouco a pouco fui fazendo a faxina
E lentamente o quarto foi-me de novo sorrindo
Deixei que o Sol entrasse pela janela
Que banhasse com raios de luz
Toda imensidão da concha que me habita
Que me segreda como pérola
Mas que me oferta ao mundo
Como hóstia
Como oblação
Aos deuses que me crucificam
Após o Evangelho das
Sagradas escrituras dos mercados
Pouco a pouco o quarto foi se transformando
Pendurando em cada cruz minhas identidades
Então reféns das liberdades do movimento dos meus pensamentos
Antes libertinos e soltos e puros...
Foi então que ela apareceu
Estava ali parada à porta...
Inerte como o Juízo Final
Olhava-me com fixação nitrogenada
Fazendo-me crer que eu era sua obra prima
Na intuição do instante da sua criação mais-que-perfeita
Fazendo com que meu corpo assimilasse sua angústia
Ali estava ela parada... Estagnada mesmo
Sem uma palavra
Apenas com o olhar fixo duma pedinte
Que de tanta fome
De tanta sede
De tanta dor
De tanta angústia
Não mais tinha forças sequer para mendigar
Ali estava ela inerte como o Juízo Final
Resolvi então dela aproximar-me
Foi aí que percebi que ela estava perneta
E como quem sente vergonha de não ser completo
Baixou a cabeça e chorou...
Chorou o choro mais profundo que me correu entre as veias
Chorou o choro do prenúncio da morte
Chorou o cântico das súplicas
Duma súplica pela vida
Como quem sabia que sua etapa ainda não podia findar
Ajoelhei-me diante de tanta resignação
Diante de tanta e quanta submissão paciente aos sofrimentos da vida...
Foi aí que ela me falou sem dizer uma palavra:
“toma-me em tuas mãos e me levas ao alpendre da tua morada;
lá serei salva pelas flores e rosas e plantas;
lá serei parte da natureza;
e mesmo que morra e mesmo que desapareça
serei entre flores e rosas e plantas
a conjunção perfeita de toda sabedoria”
Tomei-a às mãos e a conduzi até o alpendre
Ela está salva
Ela está viva
Hoje posso dizer:
Do caos do meu quarto dei vida a uma Esperança
EU SIMBÓLICO
© DE João Batista do Lago
Resta-me da ossatura a
Carne de todos os símbolos
Perambulando entre os
Apriscos da floresta
Pictórica de muitas moradas
São meus alimentos os
Instintos selvagens dos
Instantes angustiados...
Sou fera rara! Tão rara
Quanto temporais de sonhos
A vida – minha catacumba! –
Encorpa minha alma de espíritos
Hora puros... Outras impuras
Sob o açoite de vergastas
Que me movem em direção aos nadas
Selo com meus símbolos a
Diáspora de todos os povos
Encarcerados nos andaimes dos
Caminhos para Babel:
No final da jornada não há céus
Todos os demônios unem-se
Numa desesperada oração onírica
E entoam hinos sufragantes
E choram choros lamuriantes
– gritos das minhas alcatéias! –
Oh! Sensações de ondas em espirais
Que me fazem vibrar no umbral de
Loucuras santas – tantas e quantas! –
Perdoa o corpo que te abriga as dores
Salva-o dos chicotes das representações
E me revelas o sonho real
Gerado nas profundezas da carne imaterial
É lá onde desejo ser toda Possibilidade dos
Sonhos mais sublimes e perfeitos e
Matizar minhas cores na ossatura do eterno
CAMINHARES
(dedico este poema,
in memoria,
ao poeta
José Nascimento de Moraes Filho,
que faleceu no último dia 21/02/2009)
© de João Batista do Lago
Não me queiras tu indicar-me caminhos,
Todos os traçaste com pés de porcos.
Não. Não queiras tu impor-me teus santos;
Teus cânones – pérolas que brotam das lamas –,
E se instalaram no sacrário na sacristia
Onde se rezam orações profanas ao
Deus dos mercados que te encanta...
“Não, eu não vou por aí”.
– já dissera um poeta Régio –,
Mas tu insistes com ar de vitória
Conquistada com o vintém dos bajuladores
Que tomam tua obra como hóstia sagrada
Para em seguida cagá-la no colo ilustre
Da tua bem-aventurada sapiência burocrática.
Afasta de mim o cálice das canonizações fáceis,
Não me pretendo entre mortos das velhas escolas
De sabedorias guardadas nos armários das velhacarias,
Donde soam vozes e signos dos vampiros
Que sugam a alma do povo trabalhador,
Vilmente esquecido pela tua ânsia de atingir estrelas
Com versos de galanteador.
Não. Não me convides para seguir este teu caminho...
Meus pés não suportariam os mármores da tua igreja!
Por certo me aleijariam... E sangrariam até a morte...
Prefiro o calvário da dor... E da fome... E da miséria,
Que o banquete da pajelança dos curadores e dos ímpios
Versejadores que desfilam na corte da ignomínia;
Que vendem sua alma ao diabo como anjos de sabedoria.
De que me adianta seguir o teu caminho,
Se nele apenas se compraz a reprodução do visível?
Não. Não pretendo seguir o teu caminho.
Prefiro dar visibilidade ao não visível,
Àquilo que se esconde por detrás do teu versejar,
Mesmo que me acuses de incompreensível
Meu desejo é rasgar o verbo até ele sangrar.
Este, sim! Este é o meu caminho.
E nada me fará mudar este destino
– de escrever no pergaminho da vida
a sólida robustez da miséria e da fome,
da insensatez do homem,
do deus perdido no aquário do ser,
do sujeito obra da natureza entre Deus e diabo.
Acabo de receber este e-mail dando-me conta do falecimento de uma das pessoas que me foram mais caras na vida, o Professor José Nacimento de Moraes Filho...
Estou pasmo!
Confesso que nem ser o dizer neste instante.
O professor Nascimento de Moraesfoi um ícone para mim. Se hoje sou poeta... O sou pelo muito que recebi dele, sobretudo o incentivo que nunca me faltou. Ele gostava da minha poesia, muito embora a "remendasse" (como dizia ele), com carinho e afeto didáticos e literários, para torná-la mais crítica e mais audaciosa.
Tenho em conta que, do muito que sei, veio-me por intermédio de José Nascimento de Moraes Filho.
Aceite meus pêsames pela morte dele.
Fraternalmente.
João Batista do Lago
Eis o teor do e-mail:
[© 2007 Joao Poeta do Brasil] Comentário: "Artigos"
De: José. N. M. Neto (donotreply@wordpress.com)
Enviada: sábado, 21 de fevereiro de 2009 23:22:46
Para: joaobatistalago@hotmail.com
Novo comentário sobre o seu post #221 "Artigos"Autor: José. N. M. Neto (IP: 189.81.18.9 , 18981018009.user.veloxzone.com.br)Email: lenamo@globomail.comURL : Whois : http://ws.arin.net/cgi-bin/whois.pl?queryinput=189.81.18.9Comentário:O poeta José N. Moraes Filho (15/07/1922 -21/02/2009) faleceu hoje na cidade de São Luís - Ma aos 86 anos, após uma rápida parada cárdio respiratória às 07:45 no Hospital UDI, S. Luís – centro. O poeta era cardiopata, mas mantinha-se com saúde estável. Hoje em sua residência às 07h00min da manhã ao acordar, sentiu um leve mal estar, sendo encaminhado ao hospital por familiares, faleceu no transcurso. Ao chegar ao hospital, submeteu-se aos procedimentos de rotina...sem retorno...! O velório acontece na sede da Pax União – centro. O enterro ocorrerá dia 22(domingo) às 10h00min da manhã no Cemitério do Gavião (centro). Em conversas familiares (referido por uma das filhas) ele queria morrer sem sofrimentos prolongados, em dia claro, ensolarado e festivo...Transcendental, católico, em sua linguagem quântica escreve em seus poemas como concebia vida e morte: "a luz projetou-me no infinitoe cosmovisionou-me até a origem das origens!e me vi gerar!... e me vi nascer!..- antes dos universos!Livre!...Livre!..." “... eu não nasci para mim!- nasci para a humanidade!...eu não nasci para aqui:- nasci para o universo!" Descanse em Paz poeta!Só o fato de ressuscitar a primeira romancista negra do Brasil, foi uma de suas maiores missões neste plano!Obrigado J. Batista pela homenagem em vida que prestastes ao poeta com a belíssima "METONÍMIA"!Atenciosamente,J. N. M. Neto. Você pode ver todos os comentários sobre esse post aqui:http://joaopoetadobrasil.wordpress.com/artigos/#comments Excluir: http://joaopoetadobrasil.wordpress.com/wp-admin/comment.php?action=cdc&c=242Marcar como spam: http://joaopoetadobrasil.wordpress.com/wp-admin/comment.php?action=cdc&dt=spam&c=242
__________
Este foi o poema que dediquei ao mestre Nascimento de Moraes (ainda em vida):
Metonímia
(Ao mestre José Nascimento de Moraes Filho,
poeta maranhense, espírito libertário do meu tempo,
que não cansa sua utopia de libertação.)
© DE João Batista do Lago
Uma voz metálica
sob a contemplação de João Lisboa
corta a barreira do vento para atingir
na outra margem da Ágora
os surdos ouvidos que
não desejam o verdejar da Ilha
que chora nas suas entranhas
a transfusão da lama vermelha.
O velho libertário
ainda que libelo solitário
quer vaticinar sua dor
num grito quase que terminal
como uma ferradura
entre os desilhados franco-luso-brasileiros
já quase derrotados em sua rebeldia
antes orgulhosa e cheia de galhardia.
A marca do tempo.
O tempo da marca.
Marca que ferroa o chão
de dor e de horror
Marca que impede ecoar
o grito parado na garganta:
alcooooooooooaaaaaaaaaa...
da alcova dos poderosos
não há de vingar nenhum descendente
apesar do tolo condescendente que te ama.
A metálica voz singra
e se faz ouvinte discurso...
No outro lado da praça
onde ouvidos moucos
- que desgraça!
antes filhos da rebeldia
hoje Narcisos “aluminados”
que iluminam o desencanto
da ilha que chora
o (quase!) derradeiro ato
ouvem
ainda que rouca pelo tempo
a voz metálica do velho libertário:
“Estarei sempre atento às tuas investidas
mesmo que isso me cause a morte
mas não te deixarei por sorte
a vantagem insana de me esculpires
na alma – com a tua lama –
a tua marca miserável de dor e fome”
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A CONCHA E SUA IMENSIDÃO
© DE João Batista do Lago
Da imensidão da concha
Recrio-me da pequenez
Invado minha floresta
À cata do rio mais limpo
Para garimpar a perolo negra
A mais sublime pedra
Gerada pela concha
Que só revela seus segredos
À sua imensa floresta
No interior da floresta
Guardada pelas águas dum rio livre
A concha jamais aborta suas pérolas
Ela recria-se com tanta imensidão
Deixa de ser pequena habitação
Para se tornar palácio de todas as pérolas
E ser o ventre de toda natureza
No movimento mais sublime da criação
Do molusco perfeito que se arrasta pelo chão
Assim é a imensidão da minha concha
Quando se lha tem guardada pela floresta e pelo rio
Não há nada mais sublime; e nem divino
Nada maior existe que sua própria dimensão
Pérola e molusco vagam a mesma floresta
E navegam no mesmo rio de águas livres
Rompendo rochedos; furando pedras
Abrindo caminhos com a força do furacão
Rasgando a imensidão da terra para nova habitação
O CARNAVAL COMO CRIADOR E CRIATURA DE MITOS PESSOAIS E COLETIVOS
© DE João Batista do Lago
Oficialmente começa hoje[1], com o desfile das escolas de samba de São Paulo, o carnaval brasileiro, que, teoricamente, acabaria na segunda-feira, com o desfile do segundo dia das escolas de samba do Rio de Janeiro, ou oficialmente, na terça-feira de carnaval. Contudo, oficiosamente, o carnaval tem início uma semana antes e finda uma semana depois, em várias cidades brasileiras[2].
Em geral – seja no período carnavalesco, ou não –, nunca paramos para pensar sobre o “como?” e o “por quê?” essa manifestação folclórica se dá no Brasil com tanta e quanta intensidade. O carnaval não acontece só aqui. Mas, em nenhum outro lugar do mundo é tão festejado quanto no Brasil.
Muitas são as teorias e teses sobre a origem do carnaval. Evidentemente todas têm seu “cadinho” de verdade. De fato, tudo que os historiadores – sejam da corrente antropológica ou da corrente sociológica – descreveram e relataram, até aqui, são fatos históricos que não se podem duvidar, pois, nesse campo, paradoxalmente, as pesquisas são intensas e críveis.
Mas, aos meus olhos, ainda há uma linha de pesquisa, nesse campo, que mereceria ser mais pesquisada, estudada e analisada cientifico-fenomenologicamente, afora as pesquisas e estudos que são realizados pelos carnavalescos, que merecem o mais pleno respeito de todos nós, pois, aos trancos e barrancos, são pessoas que contam a “história do mundo” a partir de suas visões mitográficas. Como podem ver refiro-me ao campo mitológico; ao fenômeno do Mito, que se há introjetado no carnaval como Corpo, Alma e Espírito, isto é, que é imanente ao Homem (homem/mulher).
Se partirmos da idéia que o Homem é um “Sujeito” mitográfico, ou seja, que é refém da sua exposição ou descrição das fábulas ou mitos, aí então, compreender-se-á, por definitivo, o valor cultural do Carnaval. E quando infiro sobre o “valor cultural” quero dizer que “é” parte da natureza do Homem. E quando assumo essa inferição como verdade quero fazer crer que não estão certos os que veem no carnaval apenas e tão somente o malogro que muitas vezes se perjura contra ele (o carnaval).
Em “O Mundo como Vontade e Representação”, Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), descortina que “o mundo é a minha representação: eis uma verdade que vale para cada ser vivente e cognoscitivo, mesmo se somente o homem é capaz de acolhê-la na sua consciência reflexa e abstrata (...) Torna-se claro e certo para ele que não conhece nem o Sol nem a terra, mas possui um olho que vê o Sol, a mão que sente a terra; que o mundo que o circunda não existe senão como representação – vale dizer – sempre e somente em relação a um outro, àquele que o representa, que é ele mesmo”.
S., evidentemente, não conhecera o carnaval do Brasil, contudo dá-me a nítida impressão (eis aqui a representação empírica da minha mente pessoal) que sua linguagem fora produzida para dialogar com a linguagem do carnavalesco brasileiro. Toda consciência que sabemos do mundo, mesmo como consciência epistemológica, é que tudo não passa de fenômeno. Assim sendo, tudo é aparência, ilusão ou fantasia. Ao final, não é exatamente isso que assistimos no carnaval? Pois sim! O carnaval, assim, é a representação da nossa mente coletivo-pessoal, ou seja, pelos olhos dos carnavalescos representamos – e nos representamos, paradoxalmente! – em cada aparência, em cada ilusão, em cada fantasia, que se nos permite desenhar no mapa da nossa mente pessoal, e coletiva, uma realidade que não é real.
O carnaval é, no mesmo instante em que o vivenciamos – seja presencialmente; seja pelos meios de comunicação –, espaço e tempo de nossas configurações de extensionalidade, ou seja, é o espaço onde nos permitimos sair da concha para nos extrapolar, isto é, para nos multiplicar “n” vezes em nós mesmos – seja no plano pessoal; seja no plano social. E isto tem a ver com o nosso campo mitográfico, na medida em que somos o criador e a criatura dos nossos mitos mais profundos e individualizados, pessoal e coletivamente.
Gaston Bachelard (1884 – 1962) nos ensina que “(...) embora pareça paradoxal, muitas vezes é essa imensidão interior que dá seu verdadeiro significado a certas expressões referentes ao mundo que vive (...)”. Exemplificando ele toma a imensidão da Floresta para nos dizer que “(...) essa ‘imensidão’ nasce de um corpo de impressões que não derivam realmente de ensinamentos (...); não é preciso permanecer muito tempo nos bosques para conhecer a impressão sempre um pouco ansiosa de que ‘mergulhamos’ num mundo sem limites (...)”.
Porventura não é exatamente o que ocorre com o carnaval brasileiro? Pois sim! Mergulhamos profundamente em nossas florestas pessoal-coletivas, revisitando nossas aparências, nossos sonhos e nossas fantasias. E é exatamente nesse espaço, nessa floresta de-si, num tempo marcado pelo real, que vamos à busca de nossas realidades imaginadas, como criadores e criaturas de nossos mitos. E, paradoxalmente, renascemos como a Fênix (mito) para o enfrentamento do real, feito do concreto real, que se nos apresentará no momento seguinte em cada infraestrutura da nossa geografia de vida.
Bom carnaval a todos.
INAUDITA
© DE João Batista do Lago
Triste o engano da minha palavra!
Ela pensa que fala, mas não diz nada;
Coloca-se no altar como sagrada (e)
Submete ao fiel idólatra sedento de sentido
Toda miséria enclausurada no ser...
Se a palavra soubesse ficaria calada (e)
Deixaria nela a esperança renascer
Plena de sentido na imagem que fala
Como linguagem que não se cala;
Como água pura que jorra do meu poço fundo.
Porém, insiste a palavra, eterna incauta,
Ser do pensamento a razão pura;
Tola criança! Tropega seus primeiros passos...
E diante do templo do ser fica sem espaço
Não sabe de si qualquer imagem; é pura miragem!
Jamais chegará à essência como linguagem.
__________
SONHO
© DE João Batista do Lago
Ontem sonhei com a minha morte!
Jamais vivi tamanha sensação
Deste lado de cá.
Pena foi só um sonho:
Tristonho, agora me encontro.
Embalsamado pela vida
Que, vai minhas feridas
Ferindo pela eternidade.
Lá, depois de morto,
Toda paz fazia do meu corpo
A aura que me guiava
Por entre arvoredos de felicidades.
Agora,
Choro a infelicidade de
Todas as dores...
Do lado de cá não há arvoredos,
Só os degredos
Guiam minha carruagem
Que não encontra
A porta da passagem
Para a eternidade...
Ah!
Como seria bom
Se a morte me abrandasse
Todas as noites,
Que me morresse num
Abraço de eterna felicidade!
.......................................
Hoje à noite estarei pronto para a morte.
__________
INTUIÇÕES DO INSTANTE
© DE João Batista do Lago
Canto minha doçura
Serena e leve
Como a brisa
Do mar que me habita
Na insensatez da vida
Querida
Por ser miséria
Que aniquila minha vida
De torpeza alegre[no vazio do q
Não sei dizer
Nem de mim[nem de ti
Amo
Desamo
Bebo
Desbebo
Como
Descomo
...
e assim me vou
como o frete
mal pago
do dízimo
que nunca me alcançou
cobrado
nas latrinas
das igrejas
onde eu-cristo
sou
diária [mente] crucificado
A Balança
© DE João Batista do Lago
Do palácio das Liberdades
Nascem carnes podres
Podres de direitos
Podres de justiças...
E então os direitos
Acasalados com as justiças
Geram frigoríficos
Onde suas carnes são depuradas
Para serem vendidas aos homens
____________________________________________________________
No meio das trevas me vi
quando a tempestade
resolveu cair
pensei que ali ficaria
morrendo aos poucos no frio
sem nada para existir
de repente
lembrei-me do sol
que atrás das nuvens
continua a existir
e assim bem de mansinho
ele brilhou de novo em mim
explodo agora em vida
que vou lutar até o fim
pois nada neste mundo
tirará você de mim
© vilma machado
EU, MITO!
© DE João Batista do Lago
Os meus mitos
Estão insatisfeitos.
Não lhes tenho gerado,
Da lavoura do meu ser,
O alimento capaz
De os fazerem divinais
No Olimpo do meu caos.
Há muita desordem
No céu dos meus deuses;
Há muita digladiação.
No átrio da minha fortaleza
Mantenho a espada em riste:
Tentativa abstrata duma
Defesa de nadas!
Meus mitos não querem acreditar
Que os estou renegando!
Mal sabem eles da
Desgraçada sorte...
Ainda não descobriram
Que os condenei à morte:
- em mim estão encarcerados.
Roubei-lhes todo o poder.
Agora, antropofágico
– como um ciclope –,
vejo-os com o olhar uníssono
do supremo humano-deus-ser,
apenas sementes dialogais,
que vou plantando pelos campos seminais.
Assim estão todos os meus mitos:
Condenados aos meus suplícios;
Que lhes imponho sem perdão qualquer
Para que saibam que de mim não zombarão,
Pois deles apreendi o segredo (e)
Tomei por mulher minha mãe – Pandora! –
Que me gesta no ventre do caos agora.
para a mulher amada/
e tantas mulheres como você
Você,
rosa vermelha
e um punhal brilhante sobre a mesa
do corredor até a mim vem
uma canção desesperada
Você,
um lírio branco
e vinte lírios brancos sobre a mesa
que nada rivalizam ou contêm
dos acordes da canção desesperada
Você,
meu amor perfeito
a caneta e a carta sobre a mesa
tudo a escrever ao meu bem
dentro da canção desesperada
Você,
minha violeta quase preta
há na tarde reflexos sobre a mesa
tudo que o sol vai levar para além
da tarde, junto à canção desesperada
Você,
cacho de acácia
desfolhando-se sobre a mesa
meus dedos tristes, sem
dedilhar pianos na canção desesperada
Você,
um ipê amarelo
pintando o papel sobre a mesa
mesmo vindo a noite qual um trem
embarque-me na canção desesperada
Você,
rosa branca
derramada sobre a mesa
derrame fragrâncias em mim, mais de cem
para perdurar-me nesta canção desesperada
Você,
manacá da serra
decorando meu sangue sobre a mesa
anhagatirão é teu nome também
o branco e a violeta juntos na canção desesperada
Tonicato Miranda
Curitiba, 29/12/2008.
TEXTO EXTRAÍDO DE “DISCURSO SOBRE A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA”, DE ETIENNE DE LA BOÉTIE
“(...)
Esse que tanto vos humilha tem só dois olhos e duas mãos, tem um só corpo e nada possui que o mais ínfimo entre os ínfimos habitantes das vossas cidades não possua também; uma só coisa ele tem mais do que vós e é o poder de vos destruir, poder que vós lhe concedestes.
Onde iria ele buscar os olhos com que vos espia se vós não lhos désseis?
Onde teria ele mãos para vos bater se não tivesse as vossas?
Os pés com que ele esmaga as vossas cidades de quem são senão vossos?
Que poder tem ele sobre vós que de vós não venha?
Como ousaria ele perseguir-vos sem a vossa própria conivência?
Que poderia ele fazer se vós não fôsseis encobridores daquele que vos rouba, cúmplices do assassino que vos mata e traidores de vós mesmos?
Semeais os vossos frutos para ele pouco depois calcar aos pés.
Recheais e mobiliais as vossas casas para ele vir saqueá-las, criais as vossas filhas para que ele tenha em quem cevar sua luxúria.
Criais filhos a fim de que ele, quando lhe apetecer, venha recrutá-los para a guerra e conduzí-los ao matadouro, fazer deles acólitos da sua cupidez e executores das suas vinganças.
Matai-vos a trabalhar para que ele possa regalar-se e refestelar-se em prazeres vis e imundos.
Enquanto vós definhais, ele vai ficando mais forte, para mais facilmente poder refrearvos.
E de todas as ditas indignidades que os próprios brutos, se as sentissem, não suportariam, de todas podeis libertar-vos, se tentardes não digo libertar-vos, mas apenas querer fazê-lo.
Tomai a resolução de não mais servirdes e sereis livres.
Não vos peço que o empurreis ou o derrubeis, mas somente que o não apoieis: não tardareis a ver como, qual Colosso descomunal, a que se tire a base, cairá por terra e se quebrará.
(...)”
HABEMOS OBAMA! – É Possível A Esperança
© DE João Batista do Lago
Penso que nenhum analista, até o presente momento, tenha escrito algo a respeito do tema que me vou utilizar neste artigo. Mas se houve alguém que o fez, desde logo, ficam aqui minhas escusas, pois, não tive a oportunidade e o prazer de ler o texto. Refiro-me, especificamente, ao discurso da necessidade possível.
Se estudarmos toda a trajetória discursiva do Presidente Barack H. Obama, em todos e quaisquer eventos, desde o instante em que ele se lançou como candidato à Presidência dos Estados Unidos até o discurso da sua posse, ontem, 20, às 15:06h, verifica-se, no núcleo dos seus pronunciamentos, a elaboração, construção e formação, ou seja, a teorização de um novo sujeito – seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista de uma sociologia das práticas sociais: a Possibilidade possível e necessária.
Entenda-se, para este caso, que o “Sujeito” não é pura e simplesmente o indivíduo, mas “o ator social coletivo pelo qual indivíduo atinge o significado holístico em sua experiência, (...) talvez com base em uma identidade oprimida, porém expandindo-se no sentido da transformação da sociedade (...) de uma perspectiva bastante distinta, a reconciliação de todos os seres humanos como fiéis, irmãos e irmãs, de acordo com as leis de Deus, seja Alá ou Jesus, como consequência da conversação das sociedades infiéis, materialistas e contrárias aos valores da família, antes incapazes de satisfazer as necessidades humanas e os desígnios de Deus” (Munuel Castells).
Possivelmente este sujeito – Possibilidade – seja, de fato e de direito, o principal responsável pela campanha vitoriosa do Presidente Barack H. Obama. Sem ele, acredito, o senador não obteria o sucesso. Foi por intermédio dele que o presidente eleito atingiu a massa dos eleitores norte-americanos, pois estes se viram construídos, como “carnes” no corpus daquele sujeito. Ou seja, o eleitorado assumiu por definitivo que a possibilidade, da qual se referiam o candidato e o agora o Presidente, era e é uma realidade possível, isto é, uma necessidade de se transformar em real.
Desde o princípio da campanha o Presidente Barack H. Obama, insistiu na sua máxima: “Sim, nós podemos!”. Esse aforismo, ao longo da campanha deixa de ser simples enunciado para se transformar num significado de possibilidades reais. Nele está implícito, por exemplo, a conotação da possibilidade (e da necessidade) de se pensar, ou mesmo sonhar, com um possível mundo real onde se pode “forjar a paz (...) nesta nova era de responsabilidade (...) de uma nova direção baseada em interesses mútuos e respeito mútuo”.
Este pensamento elaborado do Presidente Barack H. Obama, sobre a questão do possível, outra coisa não é que “senão a repetição do argumento vitorioso de Deodoro Cronos, que reaparece toda vez que se reduz o P. a uma potencialidade, na qual devam estar presentes todas as condições de realização, estando, pois, destinada infalivelmente a realizar-se. Este é o conceito de P. encontrado em Hegel, que distinguia possibilidade real e mera possibilidade; esta seria "a vã abstração da reflexão em si", ou seja, uma simples representação subjetiva, ao passo que se tem a possibilidade real quando ocorrem todas as condições de uma coisa, de tal maneira que a coisa deve tornar-se real; e obvio que, neste caso, possibilidade real não se distingue de necessidade. A noção de possibilidade real neste sentido e frequentemente empregada pelos seguidores de Hegel, sejam eles idealistas ou marxistas. Muitas vezes esta noção foi empregada para designar a predeterminação dos eventos históricos em suas condições, portanto para fundamentar a possibilidade de previsão infalível da evolução futura da historia. Foi deste modo que G. LUKACS usou esse conceito (Geschichte und Klassenbewusstsein, 1923; trad. fr., 1960, p. 104 ss.). Com o mesmo significado de potencialidade, esse conceito esta pressuposto num livro de S. Buchanan, em que a possibilidade é definida como "a idéia reguladora da analise do todo em suas partes", sendo as partes definidas como "a potencialidade do todo" (Possibility, 1927, pp. 81 ss.).” – in Nicola Abbagnano.
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DO SUJEITO POSSÍVEL (poema dedicado ao Presidente Barack H. Obama © DE João Batista do Lago No quadro negro da Esperança surges Como a esperança possível e Tão necessitada. Não à-toa todos os olhares de todo o mundo te viram E te admiraram e te sonharam e te saudaram Como “eus” próprios construtores duma nora era. A Paz é possível! – Disseste-o. Pensamos todos, então: - A Esperança recalcada pela ganância da guerra Há-de reverter o mundo para o caminho da Paz; A ganância do dinheiro construtor das misérias Há-de contribuir para saciar a sede e a fome; A ganância dos insensatos e ímpios de toda sorte Há-de refluir para se construir um novo mundo. Sim, nós podemos! Sim, tudo é possível! Sim, a Esperança pode vencer o medo! Sim, a Paz é uma necessidade possível! Sim, a miséria pode ser vencida! Sim, o trabalho pode ser garantido! Sim, o lucro pode ser dividido! Sim, as guerras podem ser vencidas! - Eis a mão estendida para todos vós Ó povos de todo o mundo; Ó povos de todas as raças; Ó povos de todas as religiões. Eis que vos convoco para a nova era: A construção da Paz é possível. A possibilidade do novo Homem Não é a possibilidade do homem só. Temos, enfim, a possibilidade de um mundo novo Que nasce dum ano novo num novo janeiro; Dum homem novo que pare no leito-carne do mundo Sujeitos capazes de estabelecer a revolução da paz radical. Temos, assim, a possibilidade de renascer! Renascer do ventre de todas as esperanças Antes recalcadas e inférteis e estéreis. Temos, pois, o direito e o dever de um novo ente: Ser da Esperança. Somos a Possibilidade do Ser.