quinta-feira, 16 de outubro de 2008

CHUVA TOMBADA [Soneto]

CHUVA TOMBADA

 

© DE João Batista do Lago

 

Cai mansamente a chuva na noite terna.

Pingo em pingo encharca meu coração

Tombado de lágrimas da espera eterna;

Carente do adubo para secar a solidão.

 

Calmamente a chuva de mim se encanta!

Transforma meu ser num túmulo de desejos.

Salivo, então, teu corpo que em mim decanta

Todos os suores; tua boca, volúpia de beijos.

 

Agora, não mais são os pingos da chuva

Encharcando meu coração vão e solitário.

Neste instante é o teu corpo todo o relicário,

 

Guardião do meu corpo – teu sacrário! –,

Tumba eterna do teu corpo – meu relicário! –,

Terço duma oração eterna deste ser solitário.

 

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

CRONEMA

A CASA DAS ANGÚSTIAS

 

© DE João Batista do Lago

 

Sentei-me numa cafeteria da Rua XV, no centro de Curitiba, para tentar esquentar o corpo e a alma do frio de 9ºC. O vento que soprava de Sul a Norte, deixava a sensação que a temperatura estava, pelo menos, quatro graus abaixo. Foi exatamente o conjunto dessa atmosfera que me levou a pensar num café com licor de chocolate acompanhado por um bom e delicioso conhaque, evidentemente enuviado pela fumaça e pela fragrância dum cubano a lá brasileño, comprado no Mercado Municipal, horas antes. E assim procedi.

Depois de servido pela garçonette com rosto de lua e de olhares orientais, lábios finos e de palavras fractais, ocorreu-me investigar o local: um corredor labiríntico com as mesas pregadas à parede. Todas estavam literalmente ocupadas. Eram mesas paralélicas que forçavam, naturalmente, os seus ocupantes a se olharem – mesmo que não pretendessem fazê-lo! – ininterruptamente. Entre as mesas e o balcão de serviços o espaço para os transeuntes não ultrapassava mais ou menos 75cm de largura. Era, pois, impossível, assim, não haver leves esbarrões entre aqueles e aquelas que entravam ou saiam do ambiente. Apesar do furdunço e do vozerio (que em geral me irritam) tinha-se sempre a sensação de estar num local agradável. Toda aquela bagunça... aquele caos (pasmem!) era de uma ordenação e de uma ordenidade inimaginável. Impressionante mesmo! Na desordem dos pensamentos, das palavras, dos gestos, dos grunhidos, dos afagos, dos carinhos, dos beijos, dos olhares, do tilintar de copos e xícaras, de baforadas de cigarros e afins, de tosses, cusparadas e escarros, enfim, dos corpos, havia uma organicidade que me levaram a raciocinar sobre o ponderável e o imponderável de tudo aquilo.

Por alguma razão que, possivelmente saiba, mas não a queira declinar, ocorreu-me imaginar aquele ambiente como sendo a Casa das Angústias. Isso mesmo! Ali estávamos todos – todos mesmo –, inflexivelmente, desfilando angústias de existencialidades não compreendidas, não entendidas, não apreendidas, não assimiladas... E mais que isso: imprecavidamente jamais aceitas como campo do conhecimento humano. Senti naquele instante um desejo imenso de querer ser tudo e todos. Desejei absurdamente tê-las como minhas todas aquelas angústias. Queria-as para torná-las meu conhecimento, de tal forma, que percebi que já não mais me era em toda aquela intuição. Era-me cada um e cada qual. Era-me desde a sobriedade mais retocada da curitibana dissimulada ao imprudente bebum solitário, contudo rico proprietário de vários prédios espalhados naquela rua e em outros lugares da cidade. Era-me desde a moça bonita de olhos azuis da cor do mar que ali se prostrava para ganhar o pão de cada dia para sustentar seu filho e a família ao mais ilustre advogado, o bom ladrão das defesas indefensáveis, entretanto causas ganháveis nos porões e nos labirintos dos corredores da Justiça. Era-me o pastor e o padre que se embriagavam com os dízimos dos fiéis condenados ao fogo do inferno se, porventura, renegassem a santa esmola. Era-me o poeta que deambulava seus devaneios procurando a palavra mais completa ou o verso mais límpido para assim produzir a estética da poesia mais bela. Era-me a criança rica que se empanturrava de hambúrgueres ao menino de pé no chão que pedia uma esmola “pelo amor de Deus” e levava como resposta o “xô... xô... xô...” tocado pelo vigia da casa. Era-me o político e o economista; o professor e o esportista; o jornalista e o palhaço; o patrão e o mercado...

Infernos! Céus! Purgatórios!

- Não os tenho. Infelizmente não os tenho para aplacar o desejo incontido do meu corpo que necessita dessas angústias carregadas de liminaridades angustiadas e sedentas de vivencidades, de angusticidades necessárias e indispensáveis para a compreendidade da infinita sabedoria de ser. Quão pequeno eu sou!

Tomo o último gole do café. Inspiro a última tragada do brasileño. Impregno-me de toda fragrância. E me vou pra casa como humano... Nada mais que humano!

POTÊNCIA

POTÊNCIA

 

© DE João Batista do Lago

 

Por quê não estou aqui?

Vivo toda potência da vida

Quero morrer toda potência da morte...

Quanto prazer e alegria

Sobressaem da vida e da morte:

Encontro do divinal paradoxo

Se entendessem o enigma

A tola religião e a inútil filosofia

Não plantariam medos e dúvidas

Reconheceriam por certo

Sem as necessárias representações

A suprema potência de Viver... E de morrer

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

DESPERTAR

DESPERTAR

 

© DE João Batista do Lago

 

Neste instante não me ocorrem instintos.

Devaneio imagens que não são comuns,

Vago na carruagem levada por alazões,

Acompanham-me na viagem as filhas do sol.

Cada virgem traz em suas mãos uma tocha,

Cada tocha revela-se na chave da porta;

Porta dura como a pedra duma rocha.

 

Tomam minha mão as virgens filhas do sol;

Insistem que as chaves abrirão os portais,

Dizem que só a travessia salvará os mortais.

“- Vai! Há luz dentro da rocha” – diz o séquito.

Pensamentos me vestem do carma umbrático:

- Haverá fogo dentro da rocha depois da travessia?

Não sei! Não sei! Sinto medo da pedra apenas sombra.

 

Insistem as virgens filhas do sol:

“- Vai. Não te mais resta outro caminho!

Verás que depois da passagem serás uno;

Perceberás a necessária imanência do ser;

Sentirás as dores do parto, mas parirás!

Aí, compreenderás a atomicidade única

E, então, saberás do calor do sol e da frieza da rocha!”

sábado, 4 de outubro de 2008

O CORPO


O CORPO

 

© DE João Batista do Lago

 

Que sei de mim?

– Que sei de Deus, então? –

Corpo = pai.

Corpore = filho.

Corpus = espírito.

 

Surpreende-me o Corpo!

Meu corpo:

Deus sive Natura.

Modelo do meu espelho

Reflete o inconsciente pensamento

Desconhecido do Corpo.

 

No Corpo

Toda potência;

Toda vontade do Desejo:

Tristeza e Alegria.

 

No Corpo:

Deus e Natureza!

 

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Ilustração: semadocante.blogs.sapo.pt/4490.html?view=1674

 

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

CLAMOR

CLAMOR

 

© DE João Batista do Lago

 

Clamo!

Um clamor profundo da minha verbatura,

Solitária e incontida no Verbo que de mim se faz carne;

Sarcófago do corpus indomado,

(in)criado dos espaços dos tempos;

Sacrário que segreda a hóstia trínica:

Eu-não-Ser-Sou!

Clamo!

Do ventre estéril mais fecundo

Todo fogo varão:

Diáspora do incenso do mundo

Jogado pela janela das civilizações.

Linguagens mudas:

- Não! Não há Verbo, nem carne!


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Ilustração: http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://img.olhares.com/data/big/138/1384027.jpg&imgrefurl=http://olhares.aeiou.pt/clamor_silencioso/foto1384027.html&h=750&w=656&sz=222&hl=pt-BR&start=50&usg=__12bieUsSG2-WKqcxh0xhPIJEhMY=&tbnid=uRtWyRoBuXhNqM:&tbnh=141&tbnw=123&prev=/images%3Fq%3Dclamor%26start%3D40%26gbv%3D2%26ndsp%3D20%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DN

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

SOMBRAS DA INTUIÇÃO

SOMBRAS DA INTUIÇÃO[1]

 

© DE João Batista do Lago

 

Está escuro.

Estou só.

Estou com medo.

Minhas pernas não respondem.

Não ando.

Estou parado.

.................................................

Está escuro no meu quarto:

Meu consultório.

Procuro-me. Não me encontro!

Meu paciente – meu cliente – está só.

No meio da escuridão plena

Encherga sua sombra

Medonha!

Dona de todo saber médico

Toma meu corpo e minha alma

Como divinos eus de-si.

Não sei o que dizer...

Não sei como dizer...

Sei apenas do agora

Do agora de mim,

Que há aqui.



[1] Poeterapia

DEUS-ME

DEUS-ME

© De João Batista do Lago

O meu divino-deus continua embalsamado

Reclama sua eterna existência dentro de mim

Convoca-me a mostrar-me substancialista

Grita do fundo do poço quanto devo ser artista

Ó deus que dentro em mim quer despregar-se

Dizer-me abertamente que sou sujeito, porém

Demônios angélicos lhe pedem em prece:

- Não forneça o Sol da noite a quem não merece

Desgraçado então a vida assim condenado sigo

Sem ter oportunidade de deus-me ser parido

Complexo defunto: amplo encanto do eu-partido

Eu-deus carrega então a cruz dos vencidos

Pleno do pus pútrido de eterno Homem não-nascido

Calado na sua gênese como a essência do vencido

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

TEORIA DO CONHECIMENTO

TEORIA DO CONHECIMENTO[1]

 

© DE João Batista do Lago

 

Se há um indivíduo

Existe um animal;

Se há um sujeito

Existe um sentido;

Se há um sentido;

Existe um pensamento;

Se há um pensamento;

Existe uma idéia;

Se há uma idéia

Existe um discurso;

Se há um discurso

Existe o outro;

Se há o outro

Existe a comunicação;

Se existe a comunicação

Existe a linguagem;

Se existe a linguagem

Existe um signo;

Se existe um signo

Existe o significado;

Se existe o significado

Existe a interpretação;

Se existe a interpretação

Existe o ser;

Se existe o ser

Existe o complexo;

Se existe o complexo

Existe o não-idêntico;

Se existe o não-idêntico

Existe o social;

Se existe o social

Existe a Sociedade

 

[...]

 

Conhecimento!



[1] Esta poesia foi especialmente elaborada para fazer parte de um projeto que desenvolvo denominado de POETERAPIA


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Fonte da Ilustração: http://www.enciclopedia.com.pt

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

BIG BANG

BIG BANG

 

 

© DE João Batista do Lago

 

 

Deu-se em mim o big bang

Sou a origem do universo

Diverso

Disperso

Na solitária poeira da explosão

Sou-me, de mim, toda revolução

Desde o meu nada ao meu real

Sou a ordem incriada

Sou divino... Sou profano

Ufano minha loucura:

Sarcófilo viajo

– seja no tempo; seja no espaço –

Diásporo

Origino-me do não-ser

Orgasmo reprodutor de cada ser

Cosmópole que me cumpre ser um em todos


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Fonte da Ilustração: http://www.outsideinthemovie.com/images/Big-Bang.jpg

sábado, 20 de setembro de 2008

TUA NUDEZ


TUA NUDEZ

© DE João Batista do Lago

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim expectador de toda beleza.

Teus pés pisam o chão com tanta ternura,
Que chego a sentir ciúme dele!
Passo em passo, pela casa, nas pontas dos dedos,
Revelas o salto alto de um sapato imaginário
Que desfila para a procissão dos meus olhos
Tua sântica imagem corporal.
Quando passas por mim, bela e sensual,
Sinto-me cada vez mais teu devoto
Oblata da liturgia do teu corpo
Fiel adorador da tua beleza
Capaz de pagar todos os dízimos
Ficar a esmo como qualquer mendigo
Só não quero ficar sem o pão da tua sacristia:
Teu corpo, vinho e hóstia, meu alimento.

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim expectador de toda pureza.

Teus tornozelos carnudos e arredondados
Que pouco a pouco vão sendo revelados
São como prenúncios de desvelos segredados
Véus, como nuvens, descortinam tuas curvas:
Pernas torneadas; serpenteadas de volúpias,
Dobram-me em oração quando me enlaçam!
Dão-me nós inquebrantáveis quando me abraçam
Deixando meu corpo submisso ao suplício
Ternura agônica sem qualquer sacrifício
Vou-me rendendo, aos pouquinhos, como Tântalo
Quando já quase louco quer a bebida e fruto do teu corpo
Insuperável alimento que produz o teu horto
Jardim das Oliveiras de todos os meus gozos
Terra da minha condenação! Sou teu cristo: aceito a crucificação.

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim um expectador de toda singeleza.

Tuas coxas! Sinfonia do equilíbrio do universo!
Sustentam o sacrário de toda procriação
Guardam e segredam a mais pura flor de lótus
Donde toda espiritualidade nasce em profusão
Tuas coxas! Colunas que sustentam eternidade
Igreja de Lakshmi – a deusa da prosperidade –
Caminho que me conduz ao princípio do ser
Oráculo de raiares de sóis a cada amanhecer.
Venero-te quando me prendes ao teu eixo
Quando me ofereces à flor no mais puro beijo
Quando me pedes, qual zangão, para ungir o teu mel
Quando nos tornamos um no alvéolo sagrado do amor
Quando me tiras do corpo todo amargo do fel
Quando tatuas em mim, do teu gozo, todo odor.

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim um expectador de toda clareza.

Teus seios! Cristais que emolduram teu busto!
Vênus, por certo, de ti sentiria ciúme
A Zeus trataria de fazer queixume
Ao ver tanta perfeição no teu peito robusto
Teus seios são mais que protuberâncias
Também são fontes de enlaçaduras
Ondas que levam meu sexo às loucuras
Quando nos amamos sem quaisquer discrepâncias
Teus seios subjugam minha boca
Seduzem minha língua à presteza de todo carinho
Arrancando de ti frêmitos e loucos gemidos
Teus seios quando tocam em meu corpo
Dá-me uma vontade louca de nos querermos mortos
Para nos perdermos na eternidade sem sentidos

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim um expectador de toda grandeza.

Tua boca! Ah, como é quente tua boca!
Ela não precisa de palavras para falar de sentimento
Di-lo, com a força de um beijo, sem qualquer ressentimento
Todo amor mais profundo que, porventura, sufoca
Tua boca me lambe... Me beija... Me come
Me vira do avesso... Me faz ver estrelas... Me instala no céu
Transforma meu corpo num verdadeiro fogaréu
Tua boca me cala... Me fala... Me grita... Me consome...
Ah! Tua boca diz ao meu corpo o instante do gozo
Mas, teimosa insiste e palpita dentro de mim
Regaça minha razão... Floresce minha paixão...
Tua boca grita: “Não! Não paremos agora...
A sinfonia ainda não acabou! Dancemos...
Há tempo, muito tempo ainda para o amor.”



sexta-feira, 19 de setembro de 2008

TÂNTALO


João da Mata de Oliveira Roma , poeta, teatrólogo, jornalista, jurista, professor universitário, nasceu em Chapadinha, Maranhão, Brasil. Adepto do Simbolismo

TÂNTALO

Conta uma lenda antiga, cuja fama
Pelos tempos modernos inda voa,
Que lá no inferno, condenado à toa,
De fome e sede Tântalo rebrama.

Junto, corre uma fonte clara e boa.
Perto, um galho de frutas se recama.
Mas, se ele quer comer, se afasta a rama,
E, se tenta beber, a água se escoa.

Tem minha vida e a lenda o mesmo traço,
Flagela-me também um vão desejo,
Fome e sede incontidas também passo.

Punido como Tântalo me vejo:
Tão perto desse corpo, e não te abraço!
Tão junto dessa boca, e não te beijo!”

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LEIA MAIS POESIA DESTE AUTOR AQUI:

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

PRELÚDIO [© DE João Batista do Lago]


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PRELÚDIO

 

© DE João Batista do Lago

 

Sei-te senhor da sabedoria

Sei-te ordenador das luzes

Sei-te fonte de toda caloria

 

Sabes tão pouco do meu ódio

Sabes tão pouco da praga que te jogo

Quando surges, a leste, no teu exórdio:

Ladras manhãs que me roubam.

 

Prefiro teu epílogo quando queda no oeste!

 

Neste instante todas luzes brilham

Todas as estrelas cintilam e bailam sob os telhados

Todos os astros se acomodam

 

É quando surge minha aurora:

Desnuda!

Voa em minha direção e me abre os braços

- e as pernas! –

E num só enlaço me leva ao mais profundo dos mundos

Sol de todas as fontes de felicidades...

 

Mesmo que na manhã seguinte renoves teu discurso

- ainda assim –

Aguardarei o poente da tua sabedoria

Donde surgirá em beleza esplêndida

Nua

Carnuda

Desnuda

Trazendo-me todos os louvores e augures

A mais bela amante da minha alegoria...

 

(E cantamos a inteira noite o prelúdio das cigarras!)

 

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

MENSAGEM DO TINHOSO

MENSAGEM  DO  TINHOSO

O ônibus saiu da Rodoviária às oito horas em ponto. Durante vinte e dois minutos ficou a olhar a paisagem, como num filme de Godard, onde tudo se vê e em nada se fixa. O dia caminhava feio. Tudo cinza abaixo e acima da garoa fina e da névoa intensa que ora mostrava o topo da morraria próxima, ora descortinava os montes mais altos no horizonte. Dia feio e frio. Dia em que perro não sai de cima do jornal na soleira da porta, gato não desenrola do rabo e do canto do sofá, pernilongo não voa, besouro não zumbe. Dia pra beber chimarrão e chupar muita xícara com café fumegante.

Cansado da leitura da paisagem e das viagens mentais abriu a mochila, sacou o livro, retomando a leitura da noite anterior. Grande Sertão e Veredas. Estava ele ainda pela página 45, apesar de 13 dias de leitura, quando o telefone disparou. Disparou e parou antes que pudesse atendê-lo. Voltou à leitura e mais uma vez o telefone esganiçou no seu bolso. Tentou ler a mensagem, mas nada havia. Quem ligou não concluiu a primeira frase – "E ai mano...". Com o olho novamente na paisagem ficou mirando o rendilhado das lavouras de arroz alagadas e algumas que ensaiavam brotar as plantas para fora da água, mas que se mantinham cinzas pela ausência de luz. Estava assim, viajando na viagem, quando o telefone apitou com grunhido doido, insistente. Acelerou o gesto para tentar interromper o barulho incômodo para ele e para os outros passageiros.

Desta vez a mensagem chegou inteira:

_ E ai mano desejo boa sorte pro wil que vá pra ganhar eu estou em uma reunião por isso não estou ai pastor Gelson

Intrigado e chateado com aquela interrupção da sua leitura e da viagem do olhar no interior da paisagem resolveu respondê-la, mesmo não sabendo quem, onde, ganhar o quê, Wil, Gelson, sorte, ganhar, perder, pastor...

Passou os próximos trinta minutos construindo no celular a mensagem-resposta para aquelas palavras vindas do hiperespaço celulante da telefonia mundial. Por estar lendo Guimarães foi influenciado na construção do texto. Foi difícil apertar com precisão aquelas teclas tão pequenas com seu dedo gordo. Mas foi em frente...

_ Pastor Gelson, acho que nos desigualamos. Não sou seu mano. No momento estou no sertão de Santa Catarina, que apesar de santa, se hoje viesse pousar aqui, tinha de vir armada, com bala nos dentes, porque a gente daqui é tanto ruim, como um outro ruim dia um. Mas venha. Venha com sua carantonha. Se não prestar, outra cara a ela nois empresta. Causo ela fique muito furada, disminuimos as balas. Não tenha receio, o medo da morte só bate no bobo do corpo, não no interno das coragens. Pois venha.

Enviou a mensagem e, satisfeito com a missão cumprida, retornou ao livro se misturando com Riobaldo, Diadorim, a jagunçada, o tinhoso, a piriquitada e as veredas mineiras de histórias, estórias além de muitas sabedorias "Olhe: Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato..."

Tonicato Miranda

Curitiba, 15/Setembro/2008.

UM POEMA DEDICADO A MINHA AMIGA MITUCHA

BUSCA

(Dedicado a Maria Tereza [mitucha], com todo meu afeto)

 

© DE João Batista do Lago

 

As vozes da minha natureza

Ressoam as melodias dos hinos sânscritos

Que se avolumaram pelos tempos

Agora ressurgem em todos cânticos de meus deuses

Que me moram e de mim fazem igrejas

– ora sagradas, ora malditas! –

Onde procissões de mim(s)

Constroem na profundeza dos meus infernos

A mais rubra torre de pedras que me levam aos céus

Que vergastam minha mente

No silencio do meu mais profundo

Dharma sem deus

Da minha maior profundeza

De me saber-me nada

terça-feira, 16 de setembro de 2008

FRAÇÕES [© DE João Batista do Lago]

FRAÇÕES

 

 

© DE João Batista do Lago

 

 

A noite está fria

Meus pés estão frios

Meu corpo está frio

Meu cérebro está frio

Meus pensamentos... Congelados!

 

 

Sou um móvel.

Tantas são as gavetas!

Penso abri-las:

Tenho medo.

Há muita desordem...

Não quero limpar nada agora.

Prefiro este caos...

 

 

Sinto medo dos sujeitos que as gavetas guardam!

Não sei se eles são melhores ou piores,

Assim como não sei se sou melhor ou pior.

Acredito mesmo que todos são iguais.

Até mesmo a cor ocre do móvel

Equivale à cor ocre do meu espírito

 

 

Cada gaveta, um sujeito.

Cada sujeito, um segredo.

Cada segredo, um medo.

Cada medo, um eu.

 

 

Não! Hoje não!

Abrirei a gaveta...

Sim! Abrirei...

Mas, somente quando eu voltar.

sábado, 13 de setembro de 2008

Quadras ao Gosto dos Devaneios dos Finais das Tardes

Quadras ao Gosto dos Devaneios dos Finais das Tardes

© DE João Batista do Lago

*****

Entre juras de eterno amor
Enamorados tudo prometem
Tempos depois ao ver a dor
Cansados em si – revertem

*****

A flor mais rosa virou Sinhá
hoje vejo a flor mais roxa
num largo sorriso ao luar
me rouba... e prende na colcha

*****

São João... meu são joaozinho
atende depressa minha prece
- não me deixe ficar sozinho
sem ela tudo em mim aborrece

*****

Triste, o canto do sabiá!
Também pudera: está preso.
Nem mesmo Deus sabia:
o homem não sabe cantar


*****

Vô, Papai do Céu de ama
- disse meu neto um dia.
Sua voz em mim reclama:
Será verdade? Será alegoria?


*****

Quanta saudade
mora no meu peito
pensando na idade
fico todo sem jeito


*****

Faz tempo não te vejo
e todo dia te sonho
nesse devaneio tamanho
ser-te minha um dia almejo


*****

Menino de grande pança
lá vai ele correndo pro rio
foi-se aquele tempo de criança
ficou homem no seu desvario


*****

Senhora dona da casa
acolhei este mendigo
não me deixe ave sem asa
quero teu amor como abrigo


*****

Meu irmãozinho Nonato
bem sei estás lá no céu
mas sinto saudade de fato
das crianças brincando ao léu