sexta-feira, 23 de maio de 2008

O "Materialismo Dialético" implícito na poética de João Batista do Lago

O ‘Materialismo Dialético’
implícito na poética de
João Batista do Lago

“(...)
Ao falar mais especificamente do caráter literário da sua poesia JOÃO BATISTA DO LAGO revela que se considera um poeta “surracionalista” (palavra cunhada pelo filósofo francês Gaston Bachelard, para conceituar a poesia inferida ou abstraída de um campo filosófico), isto porque, diz ele: “como nos ensina Bachelard, é necessário estar presente, presente à imagem no minuto da imagem: se há uma filosofia da poesia ela deve nascer e renascer por acasião de um verso dominante, na adesão total de uma imagem isolada, muito precisamente no próprio êxtase da novidade da imagem”. E enfantiza o autor maranhense: “É assim a minha poética: gênese da imagem e do instinto do instante, ou seja, a minha poesia é o resultado da hora presente em toda a sua experiência, experimentação e experienciação do objeto imaginado no instante em que é, por natureza, imaginado”.

A imagem poética é um súbito realce do psiquismo, realce mal estudado em causalidades psicológicas subalternas”; tal qual no surrealismo utilizo as palavras como objeto para alcançar o objetivo de uma ‘experienciação’ para uma nova realidade experimental, sacando-a do campo da simples epistemologia e introduzindo-a no campo da ontologia pura, na qual é operante uma meta-estética da fenomenotécnica; minha proposta é ultrapassar a simples qüididade da palavra e do texto no que se refere à essencialidade ou a substancialidade - seja geométrica, estética ou gramatical. Ora, isso sugere a desverbalização da palavra em si, de si e para si, o que significa a desconstrução do discurso da palavra ou do texto homófono, para constituí-lo e fixá-lo como ‘sujeito’ do discurso substancial, real e concreto”.
(...)”


ALIENATÓRIO

Lá vai um homem
Para o seu trabalho
Para o seu trabalho
Lá vai um homem...

Todo dia é sempre tudo igual
A “Coisa” toma sua dose letal...

Lá vem um homem
Para a sua casa
Para a sua casa
Lá vem um homem...

Todo dia é sempre tudo igual
A “Coisa” prepara seu ato final...

Quando vai para o trabalho
A “Coisa” não desespera...
Espera!
Quando vai para sua casa
A “Coisa” espera...
Desespera!

Toma uma cachaça no boteco
Tira-gosto com lingüiça...
Espreguiça-se no balcão do nada
Troca um lero-lero com a rapaziada...
E aí vai pra casa ruminando a liça

Assoviando um bolero...
Cantarola:
“Eu não sou cachorro, não
para viver...”

Todo dia é sempre tudo igual!


ANOMIA

Por João Batista do Lago

Perambula pela tonta cidade
O exército dos deserdados
Há muito condenado
Perdido e desgraçado da sorte

Anômico mendiga uma naca de felicidade
Esses soldados da infeliz cidade
Não conseguem essa guerra vencer
E assim desesperam dia-a-dia no viver

Vêem dia-a-dia a esperança morrer (mas)
Sem trabalho si morrem em cada alvorecer
E a cidade... Ó, infeliz cidade!
Anônima de toda felicidade

Enfileira sua miséria encantada
E transforma a vida dos deserdados
Em campo de concentração de miseráveis
Ah, povo dos trabalhadores!

Povo deserdado.
Povo condenado.
Povo vexado.
Povo marcado.

Não esperem que o céu resolva suas dores
Essa divinal esperança só aumenta seus horrores
Isso não é destino de Deus: é do homem a miserável economia!
Que encerra todas as gentes no inferno da anomia


BRASÍLIA

Por João Batista do Lago

No paço da República
O passo só descompassa
- a “res” nunca é pública!

No passo da República
- a “res” nunca é pública
O paço só descompassa!


CANÇÃO DO REGRESSO

Por João Batista do Lago

Minha terra tem um rio
Onde se pode navegar
As águas que nele correm
Não mais existem por cá

Minha terra tem um rio
Sob solares e luares
Minha terra tem Quilombos
Onde não há n’outros lugares

Sob os céus de Itapecuru
Há muitas histórias pra contar
A mais bela dentre todas
O povo precisa resgatar

Minha terra tem Orixás
Tem o “Tutor das Liberdades”
Negro Cosme o seu nome
Há de vingar sua dignidade

Não permitam os Encantados
Que eu morra sem antes pra lá voltar
Quero encontrar com todo meu povo
Com todos eles quero brincar e dançar

Minha terra tem Carnaúbas
Nelas também canta o Sabiá
Têm Bem-te-vi e Ioruba
Todos filhos de Oxalá

Não permita Iemanjá qu’eu morra
Sem que eu volte para lá
Minha terra tem um rio:
Rio Itapecuru – dá nome ao lugar
Não permita Deus qu’eu morra
Sem em suas Águas mergulhar


CANTO VIÉS

© De João Batista do Lago

Que adianta o lirismo,
Que adianta a estética,
Que adianta o belo
Residente na poética?

Sim!
Que adianta tudo isso
Se a vida não é assim?

Foges pela tangente do real
Escapas pelos esgotos da beleza
Cegas-te para não enxergar a dureza
Cruel gerada na alma animal
Do homem que da vida é só vileza!

Oh, meu caro João, não me tome por mal;
Bem sei da beleza que na vida há. Bem sei!
E um dia hei-de a cantar nalgum verso toda essa beleza,
Mas agora é prudente falar da maldade que há
Instalada – em qualquer lugar – na beleza
Perdida no barro da criação.

- Não tenho dúvida, João, sou filho da indignação.

Que adianta cantar a esperança, se matam em mim a criança?
Que adianta cantar a paz, se me constroem soldado das guerras?
Que adianta cantar a vida, se dela não me há qualquer guarida?

Não. Não tenho por que sorrir…
Nem mesmo lágrimas me restaram para chorar.
Todo sorriso; toda lágrima
Restaram consumados na insensatez doa próprio Ser.

Quero sim, à vida cantar!
Dizer dela toda beleza no plural e no singular:
A rosa, são rosas
A flor, são flores
O amor, são amores
Na dor, não há-de haver dores
Na fome, há-de haver todo alimento
No Ser, toda solidariedade
Da ação, nenhuma maldade
Quero, pois, assim,
Toda vida cantarolar


CARTA PARA OUTRO-EU

© by João Batista do Lago

Olá, meu caro.
Há quanto tempo não nos falamos!
Gostaria de ter notícias tuas...
Como andas? O que tens feito da vida?
Sabes, ainda ontem andei pensando em nós dois.
Quando éramos crianças (lembras?)
brincávamos no alpendre lá de casa,
corríamos por entre quartos, paredes e corredores...
Ah, o Rex sempre nos atormentando,
atravessando nossos caminhos
mordendo nossos tornozelos...

- Parem, meninos, parem com essa correria.
Gritava mamãe sempre que passávamos por ela,
escrava que era daquela máquina de costurar:
tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic...
tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic... tchic, tchic...
Assim ela ia cosendo nossas vidas, nossas histórias... e nossas estórias.
Dia após dia de intermináveis costurares!
Mas nós continuávamos a brincar, a correr, a pular:
E ela: - Parem, meninos, parem com essa correria – insistia em nos alertar.
E a máquina: tchic, tchic... tchic,tchic... tchic,tchic... tchic, tchic... tchic,tchic...
tchic, tchic... tchic,tchic... tchic,tchic... tchic, tchic... tchic,tchic...

Ah, meu caro, tenho pavor às saudades, mas
percebo que hoje, ao alcançar esta minha idade,
elas se apresentam tão salientes que são difícil não escutá-las.
Elas estão presentes em tudo e em todos os lugares!
Ó, amigo, essas saudades são de amargar, me
incomodam e se instalam em qualquer lugar
ficam o tempo todo a me vasculhar...
Saudades são como carrapatos de almas,
verdadeiros parasitas inconfessos
sanguessugas de velhas e novas lembranças, (que)
roubam a consciência da presente esperança.

Sabes! Hoje tenho nítida sensação de me haver
internado numa masmorra. Sinto-me preso.
Estou isolado num infinito labirinto.
Não sei quando entrei... e nem por onde.
Não encontro portas de saída. Estou só.
Vago noites e dias entre as paredes frias da
minha masmorra sem portas. Ouço o
lamento do vazio num eterno calafrio de
vozes que me vêm do além mais próximo de mim:
ecos de dores... de horrores. São
quermesses do nada exaltando o meu fim.

Vês, meu caro, o quanto sinto tua falta?
Preciso-te. Necessito alentar minha dor, pois
somente a palavra do poeta – palavra de sofredor! -
não resolve a carência maior de minha paixão em flor.
Sim! Preciso-te, caro amigo, para
novamente corrermos entre quartos, paredes e corredores
conversarmos com o vento e a infância, sem
precisar ficar espantado com a adulta ignorância.
Sim! Preciso-te. Urgentemente preciso-te.
Preciso-te para viver minha eternidade de criança.
Preciso-te para sair desta masmorra. Deste labirinto.

Abraço-te, meu caro.
Eu.


CIRCULAR A MIS HERMANOS

by João Batista do Lago

Hermanos del mundo
La expansión engañosa
La felicidad ilusoria
Ofrecida a nosotros
Hace mucho tiempo
Queda nuestra morada
Desandando nuestras vidas
Asesinando nuestras esperanzas

Hermanos del mundo
La muerte da Gaia
Es el fallecimiento de nosotros...
Con la muerte de Gaia
Fallecemos con ella
Quedados ante la fiesta desgraciada
De hombres carrascos
Productos del capitalismo cruel

Hermanos del mundo
Llanamente morimos...
Que hacer delante de los carrascos
Asesinos indomables del pueblo...
Que hacer hermanos del mundo
Esperar por Dios… Oh, no,
Dios no Es responsable
Por la miserabilidad e ganancia

Hermanos del mundo
La invitación es forzosa
Clama a detenerse la muerte da Gaia
Clama a evitarse la muerte de los hijos – nosotros
Clama a vencerse la ganancia
De los brujos capitalistas
Señores de la miserabilidad
Asesinos de la humanidad


CONTRA-CANALHAS!

© by João Batista do Lago

Quanto tempo ainda restará
Para conviver com os canalhas?

Vive-se um tempo de batalha: a
Virtude é pura moeda rara!
Perdeu-se a vergonha da cara;
Falta coragem de usar a navalha.

Ó, República da vagabundalha,
República de miserável sorte,
Rasgaram-te as vestes da Ética (e)
Curvaram-te ante essa estética

Sangram-te, ó mãe, os canalhas!
Arrancar-te o Direito do peito é
Tudo que deseja a vagabundalha:
Nação inerte; prostrada ao leito.

Sangram-te, ó mãe, os canalhas!
Mas haverá dia que todo malfeito
Restará findo… restará morto…
A nação cativa se levantará do jugo

Então aí – o povo –, plebe ignara,
Tomará as rédeas do desatino e
Fará da nação cativa seu destino:
República de Virtude, Ética e Direito.


DAVOS

Por João Batista do Lago

...e assim calo o meu silêncio,
já tão calado
e tão sofrido,
diante do discurso alegre,
miseravelmente alegre,
dos senhores
donos do mundo,
agora amedrontados
com a hipótese do fim.

...e assim escorrego para dentro de mim,
o mais profundo possível,
para esconder-me das migalhas sobrantes
do banquete hegemônico da dominação,
da farra verberante de enganação
que irá flagelar povos e nações,
num novo modo de enriquecimento
transformando o presente momento
em “belos” discursos de novas flagelações.

...e assim, povos e nações
continuarão reféns do empobrecimento,
sem notar o enredo do esquecimento,
sem perceber a marcha do enriquecimento
que há por trás dos grandes discursos,
sambas-enredos dos carnavais do mundo,
onde o cidadão não passará de mero vagabundo,
modo de produção da dominação
dos senhores comensais donos do mundo.

...e assim o eco – sem eco –
das multidões, enfim,
aceito no banquete dos ricos comensais
será comido como sobremesa,
mas expelido será, como estrume
que adubará o pomar da riqueza,
que irá produzir povos e nações
- belos frutos de miséria e pobreza –
reféns de ricos senhores produtores de dominações.


FIÉIS

by João Batista do Lago

Vês
Quanta gente-nada
Assiste ao sermão da
Mumificação do ser?
Essa gente desesperada na
Eterna busca do não-sei-o-quê
Alimenta a dominação
Enriquecendo a igreja da alienação.

Vês
Quanta alma é contrita na
Infinita diasporia da
Crucificação do não-ser?
Essa alma regalada
Revelada em pecado
Cai de joelhos aos bocados e
Morre dia-a-dia na igreja que não crer.

Quanta gente se acredita
Desgraçada eterna ser
Busca em cada esquina… Em cada igreja
Um deus-qualquer para vencer
Presas fáceis são do falso saber
Cristos de toda alienação
Reféns fiéis da dominação
Proscritos e miseráveis continuarão.


NÔMADE

© by João Batista do Lago

Caminho-me dentro do eu-cidade
Perambulo entre avenidas sofridas
Vago ermo procurando a felicidade
Deusa ausente desta cidade vencida

(Macabra)

Monstruosa no seu lamento profano
A cidade me açoita feito vagabundo
Insano; escorregadiço entre humanos
Viajo a saudade da solidão do mundo

(Sânscrito)

Entre os tijolos do sagrado vou
Construindo os deuses da cidade
Velha moradia; mórbida felicidade
Onde o ser sem palavra ficou

(Marginal)

Desço às profundezas da marginalidade
Invisível sujeito castigado pelo ócio da
Produção de classes marginalizadas nos
Guetos dos templos sagrados do moderno

[…]

Na cidade macabra
Caminho minhas dores
Sânscrito deserdado
Marginal dos amores


O DIA EM QUE O CÉU DO ORIENTE CHOROU FOGO
(1989)
(Revisto: 2008)

© De João Batista do Lago

Procurei todas as razões para entender as guerras
Nunca encontrei qualquer motivo que as justificassem
É por isso que não as entendo…
É por isso que não as compreendo.
Jamais aceitei a idéia da guerra como recurso para a paz. Jamais!
Nenhuma guerra é capaz de traduzir a paz. Nenhuma!
Todas são evolução da ignomínia do homem. Todas!
Em todas há a obsessão dada do poder e da ganância. Todas!
Não há razões para o fazer da guerra!

Que direitos são esses do Ocidente sobre o Oriente?

Oh, noite das noites!
Noites que se fazem meteoritos de estanho
Noites que se matam as crianças
Sem lhas dar as chances de saber da esperança
Oh, noite das noites!
Não posso cantar-te em meus versos
De ti resta-me o odor do sangue escarlate
Que jorra da terra como ouro negro
E que se compraz perseguir a alma dos mortais

Noite em que balas dançam pelos céus dos esquecidos!

Quem dera fosse essa noite o Apocalipse de João.
Quem dera!
Não teríamos o amanhã para chorar os sete arcanos
O céu não fumegaria o horror das bombas atómicas:
Buuuuuuuuuummmmmmmmmm…
Aqui uma cabeça; ali uma perna; mais adiante um braço…
Diante de mim vejo o corpo do amor no seu último abraço
Viro o rosto para não gravar tamanha desgraça…
Mas cai à minha frente um coração que pulsa: brasa!

Noites que rompem o tempo e se fazem espaço de guerras!

Pilhas de corpos que se amontoam sobre a relva
Corpos que depois de lavados são plantados em covas rasas
Covas que darão árvores daninhas no alvorecer do amanhã
Árvores que produzirão frutos de carnes humanas
Frutos que serão no teatro da vida o prato de predileção
Teatro onde se há-de encenar o ato seguinte da nova guerra
Guerra que consumará a vitória dos senhores donos do mundo
Vitória que será húmus da miserável guerra que renascerá na terra.
Ó, Senhor de todos os céus, será assim eternamente a sina dos mortais!?

Noites de miseráveis guerras! Noites assassinas da Paz!


OBREIRO

© by João Batista do Lago

Desorientado!
Sim, desorientado saíra de casa…
Casebre.
No caminho do trabalho ia mastigando sua febre de 40º,
ruminando desespero do filho sem leite,
da mulher recém parida,
que ficara na casa – casebre! –
já quase sem vida.
E ele, obreiro de muitas obras,
de tantas e quantas obras,
não tinha obra nenhuma para doar à família.
Toda obra que construíra fora para pagar o salário miserável que consumia no dia-a-dia da sua miserável vida.
Ruminava e ruminava.
Ruminava inconsciente a caminho do matadouro
onde entregaria sua mente a preço vil,
sua força de trabalho restaria na produção covil.
No dia seguinte tudo se repetia.
Ainda assim esperançava um dia
ser dono da mais valia que lhe roubava o pão nosso de cada dia.
E pensava:
“Antes de morrer hei de ver meu filho banhar-se de leite,
minha mulher entre sedas, pedras preciosas e ouro…
Hei de ver! Hei de vencer!”
Passava o tempo e todo dia a mesma coisa se repetia:
refém da mais valia, mas esperançava sempre – um dia! –
o velho trabalhador ter a alegria de ser livre,
de não ser apenas um sofredor; ser dono da sua força de trabalho,
não ser apenas o curinga do baralho ou apenas peça descartável do mercado.
Hoje, velho e maltrapilho… (maltratado!), arrasta-se entre ladrilhos de esperanças, contudo espera que sua criança – ainda sem leite! – não perca a esperança de um dia ser dono da sua laborança,
que seja refratário ao vil capital do consumo,
que seja libertário e que não se deixe pregar à cruz,
para de lá, como eu, apenas dizer:
“consummatum est!”


ÓPERA DO HUMANO

© by João Batista do Lago

Proliferam deuses… Senhores donos do mundo!
Surgem da escuridão e das noites dos tempos
Eterno movimento de sanguessugas modernos
Encenam no teatro da vida a tragédia dos infernos

Desventura da miserável ópera humana
O homem protagoniza o enredo da sorte
Entoa em salmos sua oração mais profana:
Vencer o irmão e subjugá-lo até a morte

Oh! Atores das desgraças abissais
Homens desgraçados por séculos serão
Tua triste sina não se findará jamais

E quando tudo restara sem esperança
No encanto da criação só restará do
Humano o homem feito danado cão


POEMA PARA JOÃO*

© by João Batista do Lago

Para ele a vida era apenas um começo!
Tudo era descoberta. Tudo.
Mas a algoz violência calou João.
João está mudo!
Antes mesmo do deserto da vida calaram João.
Mataram João.
Agora João, a esperança, está mudo.
Agora tudo está mudo.

O calvário de João
Tomado de assalto pelo ladrão, que
Sem qualquer perdão
Arrastou o corpo de João pela
Cidade Maravilhosa,
Começou no semáforo,
Anticorpo das artérias da cidade...
Da cidade de João.

Chicoteado pelo asfalto,
Arrastado pelo sonho do consumo,
João desfilava sua dor
Entre os gritos das gentes:
- Párem... párem... párem,
Pelo amor de Deus, párem!
Mas Deus não estava ali
Para salvar o pequeno João.

Golias venceu Davi!
Agora João está mudo, e
Não está mais aqui, e
Não terá mais o Rio para
Batizar a Vida, e
Não terá mais o mundo – este deserto -,
Para deblaterar contra
A insensatez da miséria.

Quanta pilhéria nos
Revela o calvário do pequeno João!
João está mudo,
Mas se instala em cada coração
Para dizer a toda gente:
- prestem atenção senhores dono do mundo,
Eles não têm razão, e vós, que razões querem ter?
Escutai, escutai com coragem a voz do Ser.

Ah, João não está mudo!
João agora é cada um... é cada ser.
E cada João não quer esquecer
Que em cada ser há um “bom” ladrão...
Ladrões de joões e josés, de marias e madalenas
Que revelam em suas cantilenas
O sofrimento da hora, da agonia de agora,
Mas logo em seguida esquecem a Maria que chora.

João não está mudo!
Está plantado no alto do morro,
De braços abertos, está
Gritando ao mundo, está
Pedindo socorro, está
A toda gente, a todo crente,
E aos donos do mundo, está
Dizendo: menos riqueza... dai conta da miséria e da pobreza.


ROSA NEGRA

© by João Batista do Lago

Da senzala
- a grande casa! –
exala o cheiro de almas
que agora deambulam
pela casa vazia
que grita os berros
que ficaram presos
nas gargantas ornadas
com colares do ferros.

Da senzala
- a grande casa! –
vêm-me os gritos das
dores contidas
das costas entrecortadas
pelo gargalhasso da chibata
que estala no dorso encantado
da negra mucama acorrentada
ao dedo-de-deu que aponta para o céu

Da senzala
- a grande casa! –
poder cretino do senhor dengoso
ouve-se, então, o choro do menino
filho do estupro matutino… ou vespertino
daquela escrava que outrora apanhava
ao pelourinho para gozo do senhorinho
que jamais irá saber do filho negrinho
condenado a viver – toda vida! – sem carinho

Da senzala
- a grande casa! –
ouço os acordes duma canção em lamento:
- Não deixem que apaguem das memórias
as histórias de horror
e de sofrimento,
as dores,
os choros,
os tormentos.
Não esqueçam os estupros.
Não! Não permitam que as flores
apesar da beleza e do aroma
escondam o pólen da dignidade,
da justiça e da virtude.
Não! Não permitam que as rosas
apesar do encanto
e da diversidade das cores,
mascarem a beleza da rosa negra.


SAGA DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

© DE João Batista do Lago

A saga pelas Liberdades
Singra as águas do Atlântico
Nasce em Porto revoltoso:
Burgueses indignados estão
Com o gerar da nova Nação
Pois não querem dividir o pão
D’Europa colonizadora
Do Portugal imperialista

Revoltam massas os burgos
Cativam nelas a ignomínia
Verberam vozes de mortes
O Clero de pompas cativa
A Nobreza sempre reativa
Aliciam o corpo armado
Do Exército português
Gerando toda insensatez

Criada a Revolução do Porto
Dá-se, portanto o ultimato:
Retorno à Corte para o Reino
Dizem restaurar a dignidade
Criam monarquia institucional
Exigem incluso Pacto Colonial
Reforçam assim a Ideologia
Geram Revolução Liberal

D. João VI agora submisso
Deixa além-mares único filho:
Pedro I – Regente do Brasil
Terra do nativo varonil
Elevado a escravo da Regência
Ligada ao Portugal senil
Mas Pedro há-nos de vingar
Como Proclamador Del Brasil

Assim começa a rica sina
Das Liberdades do Brasil
Porém a volúpia assassina
Da burguesa portugália
Insistia depredar a Nação
Assaltava o ouro e a prata
Matava o índio sem razão
Queria a República imbecil

Foi então que Pedro – o Primo
Resolveu desacatar a Corte
Disse não à frota-prisão
Viver ou morrer seria solução
Rebelar o Brasil por sorte
Dizer ao povo: “Fico, à morte!”
Selava seu pacto de Razão
Mata Portugal sua nação

Conquista a elite brasileira
Perambula revolucionando:
Rio e Minas e São Paulo
Entre afagos da Condessa
Recebe da carioca Corte
Sentença vinda de Portugal
Não mais é Regente do Brasil
Rebaixado foi a “delegado”

Indigno agora é D. João VI
Não merece a comiseração
Quer do Pedro a rendição
Portugal de João é pretexto
O Rei quer manter a condição
Capitula ante a burguesia
Oferece a cabeça do filho
Iluminismo da sua agonia

Pedro I então indignado
Corta os laços da harmonia
Como tal um predestinado
Ser Libertador do Brasil
Reúne a tropa e o povo
Brada a todos – e ao mundo
Às margens do Ipiranga
“Independência ou Morte!” •

Assim libertou o Brasil das
Garras do império português
Aclamado foi Imperador
Contudo continua a dor
O Povo continua oprimido
O Brasil continua freguês
Ameaças há ao Brasil destemido
D’outro imperialismo burguês.


URUBUS DE FOGO
(Para Neiva Moreira e Freitas Diniz)

O céu é de brigadeiro
Lá bem alto o Urubu-rei espreita
Vasculha o terreno com olhos de rapina
Sente o exalar da fedentina vitorinista
Prepara-se então para sua saga carniceira
Que se revelará no futuro imediato
Sob o manto da bossa-nova
O patrono-mor das misérias marânhicas

O Urubu-rei então já possuidor da carcaça
Abre suas asas e anuncia o seu domínio
Deblatera em alto e bom som o seu reinado
E aos poucos vai construindo-se potentado
Sob a mira de olhares das gentes inconscientes
Incapazes de verem à sua frente o fogo voraz
Da mente contumaz da miséria sagaz
Deste Maranhão que dorme sob as suas asas

Mas o Maranhão que não é só maranhão
Não quererá mais quatro décadas de dominação
E grita: “- É chegada a hora da redenção!”
E assim retoma para si toda dignidade
Resgata a honradez cidadã e a liberdade
O desejo de construir o seu novo mundo
Sem permitir que qualquer vagabundo
Subjugue tão-somente a nação marânhica valente

(Urubus são urubus – mesmo os de fogo e rei
Das terras do Maranhão não mais se apossarão
Feitos donatários republicanos de plantão, pois
Em terras do Maranhão há, por certo, nova nação!)


Libertação

© De João Batista do Lago

Essa ambígua ordeiricidade brasileira, e
conseqüentemente, do seu povo:
país do carnaval! da mulata brasileira!
país do futebol! da malandragem fagueira!
é ufanismo trigueiro da burguesa “Luzes”
subjetivismo do discurso da dominação.

Sob este manto praticam-se o
terrorismo social e o econômico, o
político e o cultural, abstrusos, mas
coesos no seu conjunto ideológico
incrustado no terrorismo de Estado, que não
permite aos comuns cidadãos
perceberem, desde sempre, a condenação de
suas almas numa constante subjugação.

A tudo isso se junte, ainda, a
medíocre “democracia racial”:
falsa consciência da inclusão
sob o beneplácito das elites, da
classe média e da burguesia.

E os ladrões de sempre,
que roubaram, que roubam e, por certo,
roubarão este povo que teima em não acordar, que
continua “dormindo em berço esplêndido”,
continuam nos palácios a nos encantar
com a máxima da escravidão:
“O Brasil é uma nação ordeira” – dizem.

E assim continuamos nossa sina
- com o apoio do burguês trabalhador que
vendeu sua dignidade, que
teve seu espírito comprado, que se
esconde sob a proteção de sindicatos
fascistas e sustentados pelo Estado terrorista que
assalta, que furta o trabalhador comum
compulsoriamente dilapidando o miserável salário,
que se lhe arranca da boca a comida, do
intelecto a educação, do
corpo a moradia.

Não menos indulgente é a
burguesia intelectual
que num eterno louva-deus
locupleta-se com migalhas furtadas
comprantes das ideologias de
plantão que permite assegurar o
quinhão da dominação.

Da mesma maneira o ramo
podre da religião assim também age
utilizando o campo do sagrado
como fonte inexorável de opressão
fazendo cair sobre os desgraçados da sorte o
fogo do inferno se porventura desejarem libertação.

No mesmo ritual teleológico
segue o burocrata, o empresário e o político,
os três Poderes: o Judiciário, o Executivo, o Legislativo
– a “representação do povo”!

Não é, pois, o momento da indignação?
Porventura não é chegada a hora da libertação?

A nação não pode condescender com seus
detratores, com seus ladrões, com seus
usurpadores, com seus facínoras, com seus
ditadores – falsos democratas, antiprofetas da salvação.

Prestai atenção, ó brasileiros!
Ó povo dos trabalhadores,
povo deserdado, vexado e proscrito!
Povo (que é) aprisionado, (que é) julgado e (que é) morto!
Povo ultrajado, povo marcado!

Não sabeis que mesmo para a paciência,
mesmo para a dedicação, há um limite?
Não deixarás de dar ouvidos a estes
oradores do misticismo que te dizem
para rezar e esperar,
pregando a salvação pela religião ou pelo poder e cuja
palavra veemente e sonora te cativa?

Teu destino é um enigma que nem a força física,
nem a coragem da alma, nem as iluminações e o entusiasmo,
nem a exaltação de nenhum sentimento pode resolver.
Aqueles que te dizem o contrário enganam-te e seus
discursos servem apenas para retardar a hora de tua libertação, que
está preste a soar.

O que são o entusiasmo e o sentimento?
O que é uma poesia vã diante da necessidade?

Para vencer a necessidade há apenas a Necessidade,
razão última da natureza, pura essência da matéria e do espírito.

Dá-me, agora, ó brasileiros, um pouco da vossa atenção!
Tomai como vosso este poema e cantai em toda praça a todo cidadão.
Sustentai este grito de alerta, de levante, de atitude revolucionária
contra os vituperadores que tomaram esta nação:
(é) uma convocação para a revolta,
(é) uma ode à desobediência civil,
(é) um convite à marcha contra os canalhas,
(é) uma incitação à derrubada do Estado terrorista.

Mas também quero vos alertar:
os ladrões do Brasil e de seu povo, a
camarilha instalada nos três poderes, a
elite, a classe média e os burgueses,
jamais concordarão com este deblaterar.
E dirão com certeza:
- Não passa de um ‘esquerdista radical’,
um ‘maoísta’, um ‘leninista’, um ‘marxista’,
enfim...
‘um comunista’.

Ou, no mínimo, dirão:
um “revoltado”,
um “louco”...

Aí então deverás, desde sempre,
rechaçar e repelir veementemente a
prosa ditirâmbica dessa camarilha de ladrões.

Não dareis, jamais, o direito de te definirem,
de te identificarem, de te marcarem (feito gado encurralado)
segundo seus conceitos, seus preceitos, seus preconceitos.

E direis:
- Tens agora, ó indignos bufões, o
vicejar de um novo Sujeito,
tens, aqui, por certo, o
discurso da indignada nação, que
não quer ver o seu povo,
por toda eternidade,
dirigido pela corrupção, que
não deseja ser representado
por congressos de ladrões,
governado por rufiões do poder, que se
escondem sob a toga da inquisição.

E afirmareis a sentença da libertação:
“Se os apelos dos movimentos urbanos não são atendidos,
se os novos caminhos políticos permanecem fechados,
se os novos movimentos sociais não se desenvolvem totalmente,
então, tais movimentos
- utopias reativas que tentarão iluminar o caminho a que não tinham acesso –
retornarão, mas dessa vez, como sombras urbanas,
ávidas por destruir as muralhas cerradas de sua nação cativa”.
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES, 2006, Ed. Lulu Press)



A QUIMERA DA REPETIÇÃO

© by João Batista do Lago

... e de repente de novo o povo é convocado para uma nova quimera
... e de repente de novo o povo atende ao apelo mesmamente

estamos diante de uma nova eleição
parece festa de São João
os brincantes meus-bois-bumbás
não percebem que se encontram curralados
nos arraiais da nação
que seus amos estão sempre-alertas
para lhes arrancar a língua
e servir com o pirão da inconsciência
o farto manjar na mesa da dominação

não basta devorar a consciência da população para ser um bom ladrão...
é preciso mais que isso
é preciso comer a palavra da reação
(mesmo que esta reação
seja instintiva
não pensada
imemoriada
não-reativa)
não permitir que o boi entenda que no interior da sua força carrega tanta e tamanha libertação...
é preciso dissuadir
enganar é preciso
votar não é preciso não... com precisão

renovar a dentadura do Mimoso
é preciso
ajuda ruminar o chibé
(pirão feito com água, farinha de mandioca e açúcar ou mel
e por vezes temperado com cachaça e também com pimentão)

dar novos olhos ao Caprichoso
é preciso
ajuda a enxergar a inação da nação
falsa consciência do democrático
campo real da alienação

... e de repente de novo o povo é convocado para uma nova quimera
... e de repente de novo o povo atende ao apelo mesmamente

e lá se vai o boi
inconsciente
para o matadouro:
manso
tranquilo
calmo
alienado...
sem língua
com dentadura
sem visão
com óculos
feito povo marcado
feito gente desprezada
depositar na urna
o voto da esperança perdida

amanhã...
quem sabe o amanhã

... e de repente de novo o povo é convocado para uma nova quimera
... e de repente de novo o povo atende ao apelo mesmamente

Chamamento [DE João Batista do Lago]

Chamamento

(Poemeto para uma deusa)

© DE João Batista do Lago

Se tu me disseres um dia:

“- Vem.”

Eu irei rapidinho (e)

De mansinho me acomodarei no teu colo.

Ficarei calado.

Não direi uma palavra. Uma sequer!

Serei inerte

Para poder ouvir (e)

Sentir as vibrações que emanam do teu corpo (e)

Ouvir as vozes silenciosas que nascem de dentro de ti dizendo em ritmo frenético:

“- Vem. Desta vez ninguém há de nos separar. Desta vez estou pronta... pronta... pronta para te amar.”

==========

Porto Alegre/1989

sábado, 3 de maio de 2008

TERCETOS, NADA MAIS QUE TERCETOS (© DE João Batista do Lago)

TERCETOS, NADA MAIS QUE TERCETOS

© DE João Batista do Lago

Aviso aos “haicaístas” de plantão: os versos abaixo não são, em hipóteses quaisquer, Haicai. Segundo a minha concepção são (e nada mais do que isso são) tercetos que fazem parte de um estudo poético que desenvolvo. Nestes tercetos introduzo práxis técnica e metodológica “metricamente” diferentes e contrários àqueles que são utilizados pelo haicai, ou seja, a construção do haicai compõe-se de três versos de dezessete sílabas: o primeiro e o terceiro versos são de cinco sílabas; o segundo de sete. Já nos tercetos que componho o primeiro e o terceiro versos são de sete sílabas e o segundo de cinco sílabas.

Outro aspecto que considero relevante destacar, para delimitar definitivamente a diferença dos tercetos que construo, reside no seguinte fato: o haicai, genericamente, deve concentrar pensamento poético e/ou filosófico inspirado nas mudanças que o ciclo das estações provoca no mundo concreto. Já os “meus” tercetos concentram pensamentos variados (p. ex.: filosofia, economia, sociologia, sociedade e comportamento social, religião, etc.) oriundos da concretitude do concreto da realidade, do real, da infra-estrutura (a partir de conceito filosófico marxista oriundo do “new criticism” da Escola de Frankfurt).

Para, além disso, devo destacar outro ponto que me distancia definitivamente da corrente haicaísta vernacular (até porque só entendo o haicai estruturado a partir da essencialidade vernáculo-epigramático japonês): cada vez mais a minha poética torna-se ôntico-ontológica e caminha no, assim, sentido de se amalgamar no conceito do Surracionalismo bachelardiano, sobretudo quando infere: “O exterior e o interior formam uma dialética de esquartejamento, e a geometria evidente dessa dialética nos cega tão logo a introduzimos em âmbitos metafóricos. Ela tem a nitidez crucial do ‘sim’ e do ‘não’, que tudo decide. Fazemos dela, sem o percebermos, uma base de imagem que comandam todos os pensamentos do positivo e do negativo. Os lógicos traçam círculos que se superpõem ou se excluem, e logo todas as suas regras se tornam claras. O filósofo, com o interior e o exterior, pensa o ser e o não-ser (o caso da ”minha” poética, especificamente). A metafísica mais profunda está assim enraizada numa geometria implícita, numa geometria que – queiram ou não – especializa o pensamento; se o metafísico não desenhasse, seria capaz de pensar? O aberto e o fechado são metáforas que se liga a tudo, até aos sistemas” – Gaston Bachelard in A Poética do Espaço, pp. 215 e 216.

* * * * *

I

Como macho repetem

Elas são assim:

Feministas, competem.

II

O capital confesso:

Homem é peça.

O mercado professa.

III

Amor só é ilusão

Reduz todo ser

À miserável prisão

IV

O cigarro vem antes

O uísque depois

Amor de um não é dois

V

A vida: só um sonho

Simples ilusão

Espera nela ponho

VI

No amor a dominação

Plena sujeição!

No processo: produção

VII

Cantai à felicidade

Diz o profeta

Imita assim ao poeta

VIII

A palavra na arte

Lavra amor e dor

Colhe o fruto sofredor

IX

Fé remove montanha

Demove do homem

Fortaleza tamanha

X

Quem canta, males espanta!

Cantai aos prantos

Desespero vos encanta

XI

A paz da guerra salva

A guerra acalma

Todo poder sem alma

XII

Visitai sempre a alma

Ela é só calma

Na diversa confusão

XII

Corpo reflexo: tempo.

Mente reflete

Toda morte presente

quinta-feira, 1 de maio de 2008

SONETOS LXXVIII - © (DE João Batista do Lago)

SONETOS

© DE João Batista do Lago

LXXVIII

Avara! Mulher sem pena... Sem piedade.

Por que negas tanto a este ser mendigo,

A mim, andarilho, eterno bordigo (e)

Que vivo às margens da tua vontade?

Por que me negas o que Deus proveu,

Em ti, por obra e graça da Sua bondade;

Enfim, por que me negas o amor teu?

Tua beleza – prodígio da natureza! –

É o barco da vida que pretendo guiar

Os teus encantos, águas que pretendo singrar...

Então, por que me negas, avara mulher;

Por que me impões tamanho castigo?

Não! Não quero a sina eterna do bordigo.

Quero ser leme... Singrar teu corpo-mulher.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

SONETOS - LVIII (© (DE João Batista do Lago)

SONETOS

© (DE João Batista do Lago

LVIII

Canta minh’alma triste... Canta! Cant’os

Versos tristes minha solidão inglória

Navegante d’um mar vil e tormentoso.

Não me há-de sobrevir vida sem ti

Sou-me condenado, pobre, desditoso.

Náufrago solitário de vida errante;

Miserável viajor se não te sou amante.

Qu’interesse há desta vida agora

Sem os abraços e o calor do teu corpo quente?

Ah! Quanta saudade do tempo d’outrora

Quanta falta faz o teu beijo ardente.

Não me há maior castigo, nem desdita,

Teus olhos brilharem por figura maldita:

Prefiro morrer à vida de tão triste sorte.

sábado, 26 de abril de 2008

APAGOGIA (© DE João Batista do Lago)

APAGOGIA

© DE João Batista do Lago

Ora a minha solidão

No vazio inerte das igrejas

Busca encontrar na pedra sagrada

A hóstia já sangrada

Pelo vício da palavra.

O verbo está velho e cansado

Não mais atinge a essencialidade

A alma revoltada cancela o oratório

Feito de silêncios:

A pia batismal é seca e rachada.

Procura o confessionário perfeito

Contudo não encontra ouvidos atentos:

Ficaram surdos com a procissão dos gritos

Que soam das cavernas mais torpes

Ecos solenes que vagam nos tempos do Ser.

terça-feira, 22 de abril de 2008

O Fim do Homem (DE João Batista do Lago)

O Fim do Homem

© DE João Batista do Lago

Finda o Homem!

E finda na sua essencialidade

Quando atinge a capacidade

Do excesso...

E quando atinge a incapacidade

Da falta...

Finda pois, assim,

O Homem.

Nada mais há por Ser

Já que tudo existe no não-Ser.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Soneto Para Isabela (DE João Batista do Lago

SONETO PARA ISABELA

© DE João Batista do Lago

Dá-me o prazer desta valsa

Vem. O salão é todo nosso

Deixa qu’eu te enlace o dorso

Qu’eu me perca numa nota falsa

Dá-me por instante teu virgem corpo

Quero dele calor ardente nesta dança

E como se fosse boneca de criança

Deixa-me sentir as pétalas da tu’alma

Dizer a todos sem nada balbuciar:

És flor! És rosa que fecunda meu horto.

És vida! Enfim, minha falsa valsa de ninar.

Vem! Levanta desta tumba fria, vem!

Vem... Vês, a valsa já vai acabar...

Vem, ó Isabela, esta falsa valsa comigo dançar.

sábado, 19 de abril de 2008

CARNIFICENTE (DE João Batista do Lago)

CARNIFICENTE

© DE João Batista do Lago

Vem!

Rasga meu peito sem medo

Toma em tuas mãos meu coração (e)

Bebe todo o sangue...

Sangue que sangra como rio

Sangue que dá vida ao corpo frio (e)

Que se faz larva do fogo da paixão

Deixa-o correr por entre veias

Vazias.

Deixa-o lavar o esgoto

Deixa-o penetrar as profundezas

Do teu corpo-mar

Deixa-o, enfim, embriagar...

Até – (quem sabe!?) – que o doce tédio dos teus lábios

Alcance a sarjeta do verdugo (e)

Beije silenciosamente a terra que te é pó (mas)

Que nunca se dera como palavra – nem verbo!

E quando sóbrio te encontrares

Com o gosto do sangue à boca

Verás que tens por alimento

A desdita de ser o que nunca fostes

Sendo o que jamais serás

Na eternidade dos tempos – e das almas sem espírito:

Deus maldito que professo fogo

Planta fome (e)

Mergulha no mar de lama

Onde almas sem ser dançam a valsa apocalíptica num

Balé de águas que se vão e que se vêem

Sem jamais serem passageiras da mesma viagem

sábado, 5 de abril de 2008

Velejador [DE João Batista do Lago]

Veleja(dor)



© (DE João Batista do Lago)



sempre sempre

venho volto solto

no fato dos atos

sinto sinto sinto

desacatos velhacos

ser desprendido

rugindo vazio

calafrio

alma alma

nunca calma

depois da calma

gritos dores

silêncio

vazio...

velo velo

veleiro

sem leme

sem navegador

carregas dor

só dor

lamento do vento

sustento do ser

que não quer ser

ser ser ser

faca de dois gumes:

direito esquerdo esquerdo direito

mar de estrumes...

navego ego

cego cego cego

nau de loucos

mortos dos meus cemitérios

condenados todos

loucos loucos loucos

velejam rezas

procissões desejos

pesco versos inconfessos

diversos dispersos

mares de peixes perdidos

sepulcro do ser

ser não-ser ser

nasceres mal-resolvidos...

findo fim enfim

mal-resolvido:

ser não-ser ser não-ser

dizer o quê?

viver morrer:

não-ser ser não-ser ser

ondas sem volume

não-ser ser do lume

topo de águas

volume de mágoas

ser-me não-ser-me

navegante navegador navegado

singrante singrador singrado

mar sujeito desprendido

domingo, 23 de março de 2008

ACABADO O JEJUM... UM NOVOLIVRO FOI PARIDO!!!

Esta é uma poesia do meu novo livro que pretendo lançar após uma revisão final. Penso que até o final de abril ele estará literalmente concluido:

Compreendidade

© DE João Batista do Lago

Disse-o a todos um dia na eterna juventude

Quanto e tanto amo-te pela vida afora

Entretanto, tu, jamais a saberias

Fostes só silêncio! Não sei o que dizer agora

Amo-te, assim… Assim, eternamente

Amo-te por toda vida só em mim

Jamais pude ter-te junto ao peito solenemente

Falar-te do fogo que me queima a alma em paixão

Ebulição tamanha rasgando as veias das minhas emoções

Dilacerados os meus pensares estão

Agora, passado tanto e quanto tempo

Vejo: resta-me de tanto amor apenas solidão

Mas se pudesse dizer-te agora o quanto a amo

Faria deste meu ocaso uma eterna declaração

Diria: sou mais leve agora nesta juventude de ancião

Sou-o mais sábio silenciosamente em mim

Compreendo, pois, o teu eterno silêncio

Mar revolto que me banha o ser sem tormento

Sou-o eterno na eternidade do silêncio do tempo

Compreendido desde a primeira paixão ao último amor

Sou-o, sim, a compreensão do silêncio por toda vida só em mim

__________
Curitiba/2008

sexta-feira, 21 de março de 2008

QUEBRANDO (MOMENTANEAMENTE) O MEU JEJUM...

OUTONAL

© DE João Batista do Lago

As minhas folhas caducas

Começam a desfolhar-me

É chegada a hora de virar planta seca

Preciso desnudar-me

Amarelar-me

Avermelhar-me

Tenho que fechar os poros

Das poucas folhas que se me teimam ornar

Desambiguado na nordestinação

Tornar-me seco feito chão rachado

Ainda que a morte seja meu presente

Preciso reter nas minhas entranhas

Sustentar nas minhas raízes – e na minha mente –

A água da vida que, totalmente,

Gerará no futuro novas primaveras

Que se há de transformarem em novos frutos…

E novas sementes

Preciso desfolhar-me

Dessas folhas verdes, caducas

Promover o mimetismo do meu ser

Só assim poderei sobreviver nesta selva de pedras

Onde não há árvores floridas – e nem Homens! –

Onde a falta de oxigenação me perecerá

De toda água da vida

De toda primavera florida

__________

Curitiba – Paraná – Brasil

20 de março de 2008

quarta-feira, 12 de março de 2008

Os Novos Pecados da Igreja Católica

© DE João Batista do Lago *

Uma das muitas lembranças que carrego comigo, que é ao mesmo tempo "alma" e "espírito" do meu biotipo cognitivista, muito embora, hoje, tenha consciência plena de não fazer parte de quaisquer religiões ou tê-las como foco de primazia para o meu desenvolvimento intelectual – seja na esfera privada ou pública, ou profissional -, é a minha proximidade com a religião católica. Durante toda a minha infância e parte da minha adolescência fui "espiritualmente" ligado a este campo do sagrado. Tão ligado que um dia imaginara ser sacerdote ou, no mínimo, um Imão Marista. Contudo a Natureza (sobretudo a minha natureza pessoal) me encaminhara para outros mundos.

E antes que me acusem de Ateu ou de ateísmo devo sustentar que, hoje, sou Agnóstico ou agnosticista, isto é, imagino-me no campo de uma (1) doutrina que considera impossível conhecer ou compreender, e portanto discutir, a realidade das questões da metafísica ou da fé religiosa (embora admita existirem, como a existência de Deus, por exemplo), por não serem passíveis de análise e de comprovação racional ou científica; ou dentro do campo do (2) conceito (de Thomas H. Huxley) de que só o conhecimento adquirido e demonstrado racionalmente é admissível.

Assim sendo, portanto, posso inferir que o agnosticismo, como atitude intelectual, tem duas vertentes: (a) no terreno filosófico consiste em negar qualquer possibilidade de conhecimento fora do terreno da ciência e do pensamento racional; (b) no terreno religioso consiste não em negar a fé ou as afirmações nela baseadas, mas em negar que essa fé e essas afirmações tenham ou possam ter suporte racional. Em ambos os casos o pensamento agnóstico se baseia na razão, na racionalidade e no conhecimento científico. No segundo caso, especificamente, ao não negar a Metafísica, a Fé e os fenômenos supranaturais está-se, racionalmente, deixando aberta a possíbilidade de aceitá-los, se e quando explicáveis pela razão.

Bem, feitas as ressalvas, partamos para o que se nos interessa, de fato e de direito, neste artigo: no último final de semana, no L’Osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, foi divulgado pelo arcebispo Gianfranco Girotti, o número 2 da alta cúpula da Igreja Católica, que a partir de agora os católicos de todo o mundo passam a viver e a conviver com mais três tipologias de pecados capitais – a poluição, a manipulação genética e as desigualdades sociais -, pois, "se ontem o pecado tinha dimensão mais individualista, hoje possui uma ressonância principalmente social em razão do amplo fenômeno da globalização".

Monsenhor Girotti, nesta sua entrevista dominical, deduz, produz e reproduz uma crítica vaticanicista contundente ao fenômeno da globalização, sobretudo quando assinala que "há diferentes setores nos quais revelamos comportamentos culpáveis em relação aos direitos individuais e sociais"; ou quando diz que "os pobres tornam-se sempre mais pobres, e os ricos sempre mais ricos".

Evidentemente não se pode deixar de aplaudir tais palavras vindas do Vaticano. Elas soam e ressoam no mundo terrestre, que se nos é real, além do que elas refletem preocupação que não é só do catolicismo, mas de todos segmentos que, em sã consciência, não admitem a ideologia do "deus-mercado", assim como os seus ideólogos conservadores, autoritários e ditatoriais.

Pode-se dizer (até!) que a Globalização é uma tipologia de céu dos capitalistas, ou que é (ou seria) a afirmação e reafirmação dum processo de dominação em marcha que se pretende construir como se fora uma verdade absoluta, ou seja, no mais íntimo pensamento capitalista e de seus formuladores, assim como de seus ideólogos, sempre houve, há e haverá o desejo, a necessidade mesma, de construir um mundo futuro no qual os pobres e os desiguais possam um dia alcançar. Isto sugere uma similaridade com um enunciado famosíssimo do cristianismo e do catolismo a respeito desse possível mundo futuro utópico: "não se preocupe, você é pobre aqui (na terra), mas na outra vida (no céu) você será uma pessoa rica". Em ambos os casos o que se percebe é a afirmação de um Ideal metafísico. Em ambos os casos o que se vê a constituição de um idealismo pós-moderno ou modernamente tardio sobre condições efetivas de uma realidade mais que real, de uma verdade que não precisa ser conceituada no campo da sagrado como um "novo pecado capital". De pecado capital nada tem. Tem-o, em verdade mesmo, de "pecado" capitalista.

Ao mesmo tempo é sempre muito bom ter vivo na memória que a Igreja Católica é a precursora da globalização. Mas não só isso! É preciso entender, com clareza imparcial, que o Estado do Vaticano (cidade-estado para alguns historiadores) foi um dos mais violentos na implantação, implementação e institucionalização do seu projeto ideológico: o catolicismo – uma ideologia fundamentada em bases metafísicas (céu, paraíso, etc.) e com um forte apelo do medo, isto é, do pecado que era, então, o "Sujeito" da dor, do infortúnio, da infeliciade, enfim, do inferno... Diga-se mais: foi com esse projeto de globalização que a Igreja Católica tornara-se uma das instituições mais ricas e poderosas do mundo (ainda hoje!), tanto financeiramente quanto economicamente.

Contudo, o que mais contribuíra para o "desenvolvimento e progresso" da Igreja Católica fora a adoção do "Pecado". Este fora, ao longo dos tempos, a principal moeda de negociação entre o catolicismo e os fiéis. E ainda hoje o é, como o faz crer o Monsenhor Girotti, introduzindo, no campo pecaminoso, portanto no campo do sagrado, ou seja, no campo da metafísica, temas da realidade terrestre - mais que real! - como a poluição, a manipulação genética e as desigualdades sociais. E neste ponto cabe observar o vaticinare do arcebispo com relação ao campo científico, ou seja, com relação ao desenvolvimento da engenharia genética, no qual traduz e retraduz o pensamento do Vaticano, reduzindo esse conhecimento científico à simples condição de "manipulação genética".

Pergunte-se: por quê a Igreja Católica tem tanta resistência, tem tanto medo em admitir a verdade científica? (Ouso fazer aqui algumas inferências como respostas a esta questão).

Pode-se dizer que tanto a resistência quanto o medo da Igreja Católica na admissão da verdade científica se fundamentam em (i) conservadorismo, (ii) poder político-religioso, (iii) eliminação do sagrado. No mínimo essas três hipóteses são o "inferno" para o catolicismo; assim como o é para o capitalismo o (I) conservadorismo, (II) o poder político-capitalista, (III) a eliminação do "deus-mercado".

Enfim, transformar essas realidades terrestres e humanas (por demais humanas!) em pecados é não querer resolver nada. É, em verdade, querer continuar mantendo a tocha do "espírito" da opressão sobre as cabeças dos fiéis; é continuar o processo secular de dominação de um catolicismo tosco e atemporal; é continuar mantendo a espada do pecado apontada para os corações dos fiéis indefesos, "sempre mais pobres", sempre "mais desiguais", que podem ser condenados para todo o sempre a serem torrados ao fogo do inferno, que jamais poderão estar próximo (seja do lado direito, seja do lado esquerdo) de um Deus que já os esquecera ou que jamais existira, a não ser como fonte de de dominação e de opressão do catolicismo cristão.

É disso tudo que nasce o desencanto às religiões. É por isso que as religiões estão perdendo fiéis. É em consequência dessas absurdidades que a Igreja Católica é a igreja que mais perdeu adeptos nos últimos 25 anos do século XX, e continua perdendo nestes primeiros anos do século XXI.

__________

* João Batista do Lago, 58, maranhense de Itapecurumirim, é jornalista, escritor, poeta, pesquisador e pensador empiricista.