quarta-feira, 26 de março de 2008
domingo, 23 de março de 2008
ACABADO O JEJUM... UM NOVOLIVRO FOI PARIDO!!!
Esta é uma poesia do meu novo livro que pretendo lançar após uma revisão final. Penso que até o final de abril ele estará literalmente concluido:
Compreendidade
© DE João Batista do Lago
Disse-o a todos um dia na eterna juventude
Quanto e tanto amo-te pela vida afora
Entretanto, tu, jamais a saberias
Fostes só silêncio! Não sei o que dizer agora
Amo-te, assim… Assim, eternamente
Amo-te por toda vida só em mim
Jamais pude ter-te junto ao peito solenemente
Falar-te do fogo que me queima a alma em paixão
Ebulição tamanha rasgando as veias das minhas emoções
Dilacerados os meus pensares estão
Agora, passado tanto e quanto tempo
Vejo: resta-me de tanto amor apenas solidão
Mas se pudesse dizer-te agora o quanto a amo
Faria deste meu ocaso uma eterna declaração
Diria: sou mais leve agora nesta juventude de ancião
Sou-o mais sábio silenciosamente em mim
Compreendo, pois, o teu eterno silêncio
Mar revolto que me banha o ser sem tormento
Sou-o eterno na eternidade do silêncio do tempo
Compreendido desde a primeira paixão ao último amor
Sou-o, sim, a compreensão do silêncio por toda vida só em mim
__________
Curitiba/2008
sexta-feira, 21 de março de 2008
QUEBRANDO (MOMENTANEAMENTE) O MEU JEJUM...
OUTONAL
© DE João Batista do Lago
As minhas folhas caducas
Começam a desfolhar-me
É chegada a hora de virar planta seca
Preciso desnudar-me
Amarelar-me
Avermelhar-me
Tenho que fechar os poros
Das poucas folhas que se me teimam ornar
Desambiguado na nordestinação
Tornar-me seco feito chão rachado
Ainda que a morte seja meu presente
Preciso reter nas minhas entranhas
Sustentar nas minhas raízes – e na minha mente –
A água da vida que, totalmente,
Gerará no futuro novas primaveras
Que se há de transformarem em novos frutos…
E novas sementes
Preciso desfolhar-me
Dessas folhas verdes, caducas
Promover o mimetismo do meu ser
Só assim poderei sobreviver nesta selva de pedras
Onde não há árvores floridas – e nem Homens! –
Onde a falta de oxigenação me perecerá
De toda água da vida
De toda primavera florida
__________
Curitiba – Paraná – Brasil
20 de março de 2008
quarta-feira, 12 de março de 2008
Os Novos Pecados da Igreja Católica
© DE João Batista do Lago *
Uma das muitas lembranças que carrego comigo, que é ao mesmo tempo "alma" e "espírito" do meu biotipo cognitivista, muito embora, hoje, tenha consciência plena de não fazer parte de quaisquer religiões ou tê-las como foco de primazia para o meu desenvolvimento intelectual – seja na esfera privada ou pública, ou profissional -, é a minha proximidade com a religião católica. Durante toda a minha infância e parte da minha adolescência fui "espiritualmente" ligado a este campo do sagrado. Tão ligado que um dia imaginara ser sacerdote ou, no mínimo, um Imão Marista. Contudo a Natureza (sobretudo a minha natureza pessoal) me encaminhara para outros mundos.
E antes que me acusem de Ateu ou de ateísmo devo sustentar que, hoje, sou Agnóstico ou agnosticista, isto é, imagino-me no campo de uma (1) doutrina que considera impossível conhecer ou compreender, e portanto discutir, a realidade das questões da metafísica ou da fé religiosa (embora admita existirem, como a existência de Deus, por exemplo), por não serem passíveis de análise e de comprovação racional ou científica; ou dentro do campo do (2) conceito (de Thomas H. Huxley) de que só o conhecimento adquirido e demonstrado racionalmente é admissível.
Assim sendo, portanto, posso inferir que o agnosticismo, como atitude intelectual, tem duas vertentes: (a) no terreno filosófico consiste em negar qualquer possibilidade de conhecimento fora do terreno da ciência e do pensamento racional; (b) no terreno religioso consiste não em negar a fé ou as afirmações nela baseadas, mas em negar que essa fé e essas afirmações tenham ou possam ter suporte racional. Em ambos os casos o pensamento agnóstico se baseia na razão, na racionalidade e no conhecimento científico. No segundo caso, especificamente, ao não negar a Metafísica, a Fé e os fenômenos supranaturais está-se, racionalmente, deixando aberta a possíbilidade de aceitá-los, se e quando explicáveis pela razão.
Bem, feitas as ressalvas, partamos para o que se nos interessa, de fato e de direito, neste artigo: no último final de semana, no L’Osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, foi divulgado pelo arcebispo Gianfranco Girotti, o número 2 da alta cúpula da Igreja Católica, que a partir de agora os católicos de todo o mundo passam a viver e a conviver com mais três tipologias de pecados capitais – a poluição, a manipulação genética e as desigualdades sociais -, pois, "se ontem o pecado tinha dimensão mais individualista, hoje possui uma ressonância principalmente social em razão do amplo fenômeno da globalização".
Monsenhor Girotti, nesta sua entrevista dominical, deduz, produz e reproduz uma crítica vaticanicista contundente ao fenômeno da globalização, sobretudo quando assinala que "há diferentes setores nos quais revelamos comportamentos culpáveis em relação aos direitos individuais e sociais"; ou quando diz que "os pobres tornam-se sempre mais pobres, e os ricos sempre mais ricos".
Evidentemente não se pode deixar de aplaudir tais palavras vindas do Vaticano. Elas soam e ressoam no mundo terrestre, que se nos é real, além do que elas refletem preocupação que não é só do catolicismo, mas de todos segmentos que, em sã consciência, não admitem a ideologia do "deus-mercado", assim como os seus ideólogos conservadores, autoritários e ditatoriais.
Pode-se dizer (até!) que a Globalização é uma tipologia de céu dos capitalistas, ou que é (ou seria) a afirmação e reafirmação dum processo de dominação em marcha que se pretende construir como se fora uma verdade absoluta, ou seja, no mais íntimo pensamento capitalista e de seus formuladores, assim como de seus ideólogos, sempre houve, há e haverá o desejo, a necessidade mesma, de construir um mundo futuro no qual os pobres e os desiguais possam um dia alcançar. Isto sugere uma similaridade com um enunciado famosíssimo do cristianismo e do catolismo a respeito desse possível mundo futuro utópico: "não se preocupe, você é pobre aqui (na terra), mas na outra vida (no céu) você será uma pessoa rica". Em ambos os casos o que se percebe é a afirmação de um Ideal metafísico. Em ambos os casos o que se vê a constituição de um idealismo pós-moderno ou modernamente tardio sobre condições efetivas de uma realidade mais que real, de uma verdade que não precisa ser conceituada no campo da sagrado como um "novo pecado capital". De pecado capital nada tem. Tem-o, em verdade mesmo, de "pecado" capitalista.
Ao mesmo tempo é sempre muito bom ter vivo na memória que a Igreja Católica é a precursora da globalização. Mas não só isso! É preciso entender, com clareza imparcial, que o Estado do Vaticano (cidade-estado para alguns historiadores) foi um dos mais violentos na implantação, implementação e institucionalização do seu projeto ideológico: o catolicismo – uma ideologia fundamentada em bases metafísicas (céu, paraíso, etc.) e com um forte apelo do medo, isto é, do pecado que era, então, o "Sujeito" da dor, do infortúnio, da infeliciade, enfim, do inferno... Diga-se mais: foi com esse projeto de globalização que a Igreja Católica tornara-se uma das instituições mais ricas e poderosas do mundo (ainda hoje!), tanto financeiramente quanto economicamente.
Contudo, o que mais contribuíra para o "desenvolvimento e progresso" da Igreja Católica fora a adoção do "Pecado". Este fora, ao longo dos tempos, a principal moeda de negociação entre o catolicismo e os fiéis. E ainda hoje o é, como o faz crer o Monsenhor Girotti, introduzindo, no campo pecaminoso, portanto no campo do sagrado, ou seja, no campo da metafísica, temas da realidade terrestre - mais que real! - como a poluição, a manipulação genética e as desigualdades sociais. E neste ponto cabe observar o vaticinare do arcebispo com relação ao campo científico, ou seja, com relação ao desenvolvimento da engenharia genética, no qual traduz e retraduz o pensamento do Vaticano, reduzindo esse conhecimento científico à simples condição de "manipulação genética".
Pergunte-se: por quê a Igreja Católica tem tanta resistência, tem tanto medo em admitir a verdade científica? (Ouso fazer aqui algumas inferências como respostas a esta questão).
Pode-se dizer que tanto a resistência quanto o medo da Igreja Católica na admissão da verdade científica se fundamentam em (i) conservadorismo, (ii) poder político-religioso, (iii) eliminação do sagrado. No mínimo essas três hipóteses são o "inferno" para o catolicismo; assim como o é para o capitalismo o (I) conservadorismo, (II) o poder político-capitalista, (III) a eliminação do "deus-mercado".
Enfim, transformar essas realidades terrestres e humanas (por demais humanas!) em pecados é não querer resolver nada. É, em verdade, querer continuar mantendo a tocha do "espírito" da opressão sobre as cabeças dos fiéis; é continuar o processo secular de dominação de um catolicismo tosco e atemporal; é continuar mantendo a espada do pecado apontada para os corações dos fiéis indefesos, "sempre mais pobres", sempre "mais desiguais", que podem ser condenados para todo o sempre a serem torrados ao fogo do inferno, que jamais poderão estar próximo (seja do lado direito, seja do lado esquerdo) de um Deus que já os esquecera ou que jamais existira, a não ser como fonte de de dominação e de opressão do catolicismo cristão.
É disso tudo que nasce o desencanto às religiões. É por isso que as religiões estão perdendo fiéis. É em consequência dessas absurdidades que a Igreja Católica é a igreja que mais perdeu adeptos nos últimos 25 anos do século XX, e continua perdendo nestes primeiros anos do século XXI.
__________
* João Batista do Lago,
58, maranhense de Itapecurumirim, é jornalista, escritor, poeta, pesquisador e pensador empiricista.sábado, 23 de fevereiro de 2008
Esta poesia eu a dedico a todas as mulheres: negras, brancas, índias, pobres, ricas, loiras, morenas, raínhas, plebéias, casadas, solteiras, donzelas, prostitutas... Todas: Mulher Esperança!
Mulher Esperança!
© DE João Batista do Lago
Nada há por dizer
Além de tudo que já se dissera
És princípio, meio e fim:
Éden, purgatório, jardim!
Entre flores e rosas: jasmim!
No casebre ou no palácio
És a flor do lácio
Seja do lord ou do plebeu
Seja real ou apenas quimera
És a coroa que à vida floresceu.
Quando escrava, rainha ou mesmo nada
Tens anjos e demónios sob os pés
Se cativa, és nobre… és santa… és forte
Não há fogueira que te leve à morte
Pois és de todas montanhas os sopés.
Tens a posse de todos os desejos
Tens poder e dom de todas as magias
Nem mesmo os brutos resistem ao teu Ser
Julgam domar-te! Ah, esses tolos inconsequentes
Não sabem que de ti são eternos dependentes
Confesso: se algo pudera enfim dizer-te
Não o faria. Melhor seria entender-te
Rever meus conceitos de outrora… e de agora
Quedar-me no teu colo sem demora. Como criança!
E adormecer no gozo do teu sexo: Mulher esperança.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
POEMA LOUCO [DE João Batista do Lago]
Poema Louco
© DE João Batista do Lago
Durante todo esse tempo
tenho procurado alcançar
um não-sei-quê de divinal
tenho andado atarefado
tropeçando nos meus ais
acordes da canção de uma só nota
venho dos velhos mundos
sem nunca saber do novo
sou filho do moderno
sem a essência do passado
Sou cigano
vagabundo deste mundo
inconfesso
de mim nada sei
nem se sorri
nem se chorei
apelei ao meu sacrário
nele ser guardado
tornei-me mostruário
dessa vida miserável
agora meus velhos ontens
choram a insensatez de meus hojes
Já não existem cristais
que possam quebrar meus olhares
já os feriram tanto
nas sextavadas noites de luares
de negras nuvens
nem mesmo sonhos brilham
diante do meu pranto
Se vago tanto
Inexistente
oro como vagabundo penitente
tento encontrar o inascido
do que só em mim se há gerado
sábado, 16 de fevereiro de 2008
VELÓRIO
Velório
© De João Batista do Lago
No meio da sala velo minh’alma
Que me olha com dentes escancarados
Abrigada nos quatro cantos do mundo
Donde sorri das minhas dores
E qual punhal que sangra ventos
Rasga o meu profundo nada
Donde as vísceras jorram todo escarro
Da hóstia nunca sagrada do homem puro
“És nada!” – grita a alma pois então morta –
Nasceste do miserável sagrado sem Deus.
Como há-de me querer velar como eterno
Se tens apenas teu féretro como única posse?”
E lá do meio da sala onde velo minh’alma
Nada posso fazer para alcançá-la…
E ela se esgarça zombeteira em cada gargalhada
Enquanto eu no meio da sala tramo matá-la
E assim me dano feito cão vagabundo
Que nem mesmo a lepra de Lázaro tem para a lamber
Já que sou única testemunha deste infeliz velório
Da minh’alma que se me sorrir à-toa
[…]
No meio da sala velo minh’alma que aos poucos se afasta…
E de mim voa.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
MINHA SOLIDÃO
De João Batista do Lago
Carrego como massa da minha ossatura
a leveza interna do meu espelho
guardado no mais puro sacrário da minh'alma.
É de lá que vem minha hóstia
- seja sagrada; seja maldita -
mas a tomo como alimento de toda vida.
Ah, solidão! Solidão que de mim cria
universos de representações sonâmbulas
contigo levas às almas minha imagem de alegria.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Ipê Amarelo
Ipê Amarelo
De
As flores amarelas
do Ipê amarelo
banham o raiar do dia
e sorriem...
Sorriem desafiando
nuvens cinzas de amarguras
sorriem dissipando chuvas de agruras
sorriem trazendo os sóis de venturas
Assim me recebem
as flores amarelas
do Ipê amarelo...
Vigia da minh'alma
Não há como não amá-las:
as flores amarelas do Ipê amarelo!
domingo, 3 de fevereiro de 2008
CICLO
CICLO
© De João Batista do Lago
Mato-me quando findo dia
Mato-me quando findo noite
E neste ciclo de me morrer
Nasço na morte do dia
Nasço na morte da noite
Nascer do dia! Nascer da noite!
E de cada morrer-me
E de cada nascer-me
Espero o tempo da semente
Que me há na eternidade
Dum espírito superior
SUCESSO
© De João Batista do Lago
Vês, meu camarada!
Há por aí uma mentira ditirâmbica:
“É preciso educar para o sucesso.”
O “sucesso” para essa gente
É como o suave óleo repelente
Afasta por instantes o mosquito
Mas não impede a ferroada que mata
Que deita por terra qualquer gigante
Dizem não haver sucesso sem o rico vintém
Renegam, assim, a pureza da solidariedade
Não faz sentido NÃO reter a propriedade – dizem
Sucesso é vencer sem medo nem piedade
E do mísero operário assaltar toda dignidade
Estás ferrado, meu caro, se esse sucesso não te compraz!
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Viva! Viva! Viva! Vida longa aos senadores "Sem-voto"
Viva! Viva! Viva!
Vida longa aos senadores "Sem-voto".
De João Batista do Lago
Viva! Viva! Viva!
Mil vezes viva!
E viva mais uma vez!
Vida longa aos senadores sem votos
Vida sortida aos párias da pátria
Vida feliz a quem nunca fez nada
Vida alegre aos canalhas de gravatas
Resta para ti, ó santo povo ignaro...
Entrudo que se vai festejando no Carnaval do nada
Sem saber que entre uma dose de cachaça e um pó de arroz no rosto
Vão-te roubando a dignidade
Enquanto entoas a marcha dos deserdados.
Enquanto sambas tua miserável sorte,
Não percebes que bastam três dias para te levarem
- Por um ano inteiro –
À toda morte.
E sambas!
Sambas fagueiro como brasileiro trigueiro dos cantos dos teus verdugos.
Sambas sem saber que velas tua fome e tua falta de trabalho; teu filho sem escola e tua mulher pedindo esmola pelas esquinas do Brasil.
Sambas, ó brasileiros dos canaviais!
Sambas sem saber que todos os teus ideais vão ser furtados nos polpudos salários que irão sustentar a imoralidade dos “Sem-voto”, que se instalam nas mesuras senatoriais.
Sambas, ó letrados de fardas!
Sambas como carrascos que se escondem sob a toga das letras e do direito,
Sentados nas poltronas da inconsciência.
Sambas, ó poetas e trovadores brasileiros!
Sambas sob a inspiração do verso que não traz em si a dignidade da nação, mas sustentas no teu sonhar o verso lírico da alienação.
Sambas, ó trabalhadores, exército de desesperados!
Sambas sem a preocupação de saber que na quarta-feira serás apenas cinza…
E como cinza retornarás à cruz dos desempregados.
Enquanto isso, lá para bandas do planalto
Uma casta se refastela. Ri desbragadamente da tua desgraça. Bebe teu sangue como o mais puro champanhe. Come o teu fígado como o mais saboroso dos caviares.
E embriaga-se com vinho da tua inconsciência.
E dizem-se:
Viva! Viva! Viva!
Mil vezes viva!
E mais uma vez: Viva!
Viva a nação brasileira,
Viva a mulata trigueira,
Viva assim o brasileiro,
Povo manso e trigueiro.
Viva, ó Brasil varonil, viva!
Viva, ó irmão brasileiro,
Brinques o teu Carnaval
Deixai por nossa conta
Tomar em conta este canavial
Fazer do público dinheiro
Nosso eterno carnaval
sábado, 19 de janeiro de 2008
COMO NÃO VI MUITA COISA PUBLICADA SOBRE ESTE FATO, QUE AOS MEUS OLHOS É IMPORTANTE, ABANDONO POR INSTANTES MEU DESCANSO PARA...
...POSTAR AQUI ESTA MINHA HOMENAGEM.
__________
CANÇÃO PARA ELIS
© De João Batista do Lago
Lá vem… lá vem… lá vem
Elis não vem de trem
Não, não vem de trem!
Menina travessa: pimentinha danada
Lá vém… lá vem… lá vém
Elis é vida em disparada
Chova pau, chova pedra
É ela que chega findando o verão
Trazendo na voz seu coração
Transformando as águas de março
Num país rico de canção.
Caminhando sua dor solitária
Vagou entre becos, ruas e avenidas
Tentou – como bêbado! - beber suas feridas
Jamais perdeu a consciência de ser malabarista
E no fio da navalha sempre foi a equilibrista.
Sabia do dia cantar a resplandecência do sol
Sabia da noite cantar a luminosidade da lua
Durante o dia plantava flores; à noite colhia rosas
Moleca, travessa, pimentinha danada
Há muito trago comigo essa saudade guardada
Lá vem… lá vem… lá vem
Elis não vem de trem
Não, não vem de trem!
Menina travessa: pimentinha danada
Lá vém… lá vem… lá vém
Elis é vida em disparada
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
EU E O TEMPO
© De João Batista do Lago
Sou, pois, o avesso
Do avesso
No regresso do tempo
Sou, pois, sempiterno
Puras recordações
Das ilusões dos tempos
Sou, assim,
Ternura dos ventos
E dos tempos
E sem o tempo do ser
Sou o ser do tempo
Na eternidade do eu
domingo, 13 de janeiro de 2008
CORPUS (soneto)
CORPUS
© De João Batista do Lago
A argila
Carne que perambula
Vermes – e alma –
Só tornará calma
Se argila tornar Ser
O barro não morre o corpo
Sedento de espírito vira anti-corpo!
E quando a morte se dera
Na alma do corpo que se fizera
Verás desta vida apenas quimera
Santificada seja a morte que me retorna à vida da terra!
Somente lá estarei concluído
Somente lá jamais serei vencido
Somente lá terei a paz sem guerra
__________
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
DEUS-ME [Soneto]
© De João Batista do Lago
O meu divino-deus continua embalsamado
Reclama sua eterna existência dentro de mim
Convoca-me a mostrar-me substancialista
Grita do fundo do poço quanto devo ser artista
Ó deus que dentro em mim quer despregar-se
Dizer-me abertamente que sou sujeito, porém
Demônios angélicos lhe pedem em prece:
- Não forneça o Sol da noite a quem não merece
Desgraçado então a vida assim condenado sigo
Sem ter oportunidade de deus-me ser parido
Complexo defunto: amplo encanto do eu-partido
Eu-deus carrega então a cruz dos vencidos
Pleno do pus pútrido de eterno Homem não-nascido
Calado na sua gênese como a essência do vencido
DEUS-ME [Soneto]
© De João Batista do Lago
O meu divino-deus continua embalsamado
Reclama sua eterna existência dentro de mim
Convoca-me a mostrar-me substancialista
Grita do fundo do poço quanto devo ser artista
Ó deus que dentro em mim quer despregar-se
Dizer-me abertamente que sou sujeito, porém
Demônios angélicos lhe pedem em prece:
- Não forneça o Sol da noite a quem não merece
Desgraçado então a vida assim condenado sigo
Sem ter oportunidade de deus-me ser parido
Complexo defunto: amplo encanto do eu-partido
Eu-deus carrega então a cruz dos vencidos
Pleno do pus pútrido de eterno Homem não-nascido
Calado na sua gênese como a essência do vencido
sábado, 5 de janeiro de 2008
SEPULCRO (soneto)
© De João Batista do Lago
Ainda hoje tive notícias de ti
Soube do teu sepulcro em vida:
Carregas dor de não ser querida.
Pouco falaram, mas eu pressenti!
Toda infelicidade, ó como a senti!
O duro golpe de ser desvalida,
De não ser deusa, mas jóia corroída;
Anestesiada pelo sonho do jaborandi.
Eu que te venho amando por toda vida
Nada posso fazer por mim ou por ti
Nem minha paixão há tanto esquecida
Conseguirá salvar este amor, ó querida!
Viver solitário foi tudo que consegui;
Já nós dois somos nós no olhar da partida.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
O DIA EM QUE O CÉU DO ORIENTE CHOROU FOGO
(1989)
(Revistoo: 2008)
© De João Batista do Lago
Procurei todas as razões para entender as guerras
Nunca encontrei qualquer motivo que as justificassem
É por isso que não as entendo…
É por isso que não as compreendo.
Jamais aceitei a idéia da guerra como recurso para a paz. Jamais!
Nenhuma guerra é capaz de traduzir a paz. Nenhuma!
Todas são evolução da ignomínia do homem. Todas!
Em todas há a obsessão dada do poder e da ganância. Todas!
Não há razões para o fazer da guerra!
Que direitos são esses do Ocidente sobre o Oriente?
Oh, noite das noites!
Noites que se fazem meteoritos de estanho
Noites que se matam as crianças
Sem lhas dar as chances de saber da esperança
Oh, noite das noites!
Não posso cantar-te em meus versos
De ti resta-me o odor do sangue escarlate
Que jorra da terra como ouro negro
E que se compraz perseguir a alma dos mortais
Noite em que balas dançam pelos céus dos esquecidos!
Quem dera fosse essa noite o Apocalipse de João.
Quem dera!
Não teríamos o amanhã para chorar os sete arcanos
O céu não fumegaria o horror das bombas atómicas:
Buuuuuuuuuummmmmmmmmm…
Aqui uma cabeça; ali uma perna; mais adiante um braço…
Diante de mim vejo o corpo do amor no seu último abraço
Viro o rosto para não gravar tamanha desgraça…
Mas cai à minha frente um coração que pulsa: brasa!
Noites que rompem o tempo e se fazem espaço de guerras!
Pilhas de corpos que se amontoam sobre a relva
Corpos que depois de lavados são plantados em covas rasas
Covas que darão árvores daninhas no alvorecer do amanhã
Árvores que produzirão frutos de carnes humanas
Frutos que serão no teatro da vida o prato de predileção
Teatro onde se há-de encenar o ato seguinte da nova guerra
Guerra que consumará a vitória dos senhores donos do mundo
Vitória que será húmus da miserável guerra que renascerá na terra.
Ó, Senhor de todos os céus, será assim eternamente a sina dos mortais!?
Noites de miseráveis guerras! Noites assassinas da Paz!
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
CÂNTICO INVERSO
© De João Batista do Lago
Macacos me mordam!
Vê-se animais sagrando o não-Sagrado
Vê-se animais!
Desconfiados dão-se bênçãos
E sentam-se nos colos de assassinos e ladrões
E contentam-se com a miséria que se lhes nasce
E geram a desgraça do abraço
No afeto do beijo de fel: todo feto
Que se lhes apimenta a língua ferina
Que será comida como troféu
Vê-se animais!
Sim, vê-se animais
Nos arraiais do céu!
