quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

ANDRÓGENO

ANDRÓGENO

© De João Batista do Lago

De toda minha prenhez
Somos criador e criatura
Não-sendo nem criador
Não-sendo nem criatura

Sou cultura arquetípica
Da não-cultura do humano
De toda não-literatura
Toda literatura de imagens

Que se revelam na matéria
Do não-humano do humano
E findam na essência criatura

Sou assim: divinal iteridade do ser
Alma-corpo-espírito da ossatura
Eterno mendigo do meu viver

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

O PASSO

O PASSO

© by João Batista do Lago

Restam-me (ainda) sons e
vozes dos passos,
descompasso da insensível
mordaça dos cascos,
desalinho que a cada passo
lança no espaço, no
coração da consciência,
toda arrogância do poder.

Não estou de todo livre dos
passos. Descompassos!
Como rastros (ainda) se alastram!
Sons de cascos reverberam
noutros espaços; noutros lugares…
passos que passam no passo de cascos;
galope que fere com aço a liberdade, fere de
morte a justiça, o direito – toda dignidade.

Não calem as consciências,
nem as canções;
não calem os cantores,
nem os poetas;
não calem as telas,
nem os pintores.
Se calados ficarem
morrerão as flores!

Calem os sons dos passos,
párem a tropeada dos cascos,
estanquem o galope dos aços…
A paz não pode ter espaço para o
cangaço da intolerância,
nem a guerra pode viver como
metáfora da esperança. Dai, pois, o passo.
Sim, mas o passo de uma criança.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

ROSA NEGRA

ROSA NEGRA

© by João Batista do Lago

Da senzala
- a grande casa! –
exala o cheiro de almas
que agora deambulam
pela casa vazia
que grita os berros
que ficaram presos
nas gargantas ornadas
com colares do ferros.

Da senzala
- a grande casa! –
vem-me os gritos das
dores contidas
das costas entrecortadas
pelo gargalhasso da chibata
que estala no dorso encantado
da negra mucama acorrentada
ao dedo-de-deu que aponta para o céu

Da senzala
- a grande casa! –
poder cretino do senhor dengoso
ouve-se, então, o choro do menino
filho do estupro matutino… ou vespertino
daquela escrava que outrora apanhava
ao pelourinho para gozo do senhorinho
que jamais irá saber do filho negrinho
condenado a viver – toda vida! – sem carinho

Da senzala
- a grande casa! –
ouço os acordes duma canção em lamento:
- Não deixem que apaguem das memórias
as histórias de horror
e de sofrimento,
as dores,
os choros,
os tormentos.
Não esqueçam os estupros.
Não! Não permitam que as flores
apesar da beleza e do aroma
escondam o pólen da dignidade,
da justiça e da virtude.
Não! Não permitam que as rosas
apesar do encanto
e da diversidade das cores,
mascarem a beleza da rosa negra.

domingo, 9 de dezembro de 2007

ALMAGORIA

ALMAGORIA

© by João Batista do Lago

(Verso)
Queria guardar minh’alma
Como se fosse um escriturário
Mas minh’alma tomei-a por posse
Assim transformei-me em mercenário
Minh’alma resolveu ser mais capaz que eu
Daí aos poucos, fui plantado num orquidário
A terra-mãe resolveu que me guardaria do mal
Juntou-me aos pedaços e pô-los no seu berçário
Pensei estar de todo seguro do mundo sem-razão
Quanta tolice deste pobre vivente tolo incompetente
Aos poucos fui vendo lentamente: da vida era anedotário

(Reverso)
Aos poucos fui vendo lentamente: da vida era anedotário
Quanta tolice deste pobre vivente tolo incompetente
Pensei estar de todo seguro do mundo sem-razão
Juntou-me aos pedaços e pô-los no seu berçário
A terra-mãe resolveu que me guardaria do mal
Daí aos poucos, fui plantado num orquidário
Minh’alma resolveu ser mais capaz que eu
E assim me transformei em mercenário
Mas minh’alma tomei-a por posse
Como se fosse um escriturário
Queria guardar minh’alma

sábado, 8 de dezembro de 2007

SIMILARIDADE

SIMILARIDADE

© by João Batista do Lago

Soweto
No Brasil
Rima com gueto
Aqui é pardo
Lá é preto

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

RESGATE

RESGATE

© by João Batista do Lago

Carregas contigo a
Vileza do teu breve sorriso
Acomodado à face:
Retrato do disfarce da
Vergonha encalacrada.
Carregamos nós a
Vergonha insidiosa da
Tua representação:
Ferradura dum ladrão que
Rouba do povo o miserável pão.
Maldita sina!
Desde o Império
Essa corja assassina
Rouba e dilapida a nação:
Campo minado pela corrupção.

Até quando havemos de suportar
Esse sorriso de miserável torpor,
Essa sangria da nação em dor?
Até quando?
Até quando?

(Para resgatar a Virtude
Basta apenas a necessidade…
Lutar sem perder a dignidade!
Essa é toda Verdade.
De que adianta todas essa solidariedade,
Se nela não corre o sangue da sanidade?
De que adianta a vã e mesquinha atitude,
Se nela não ocorre o ente revolucionário da Virtude?)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

PINGOS DE CHUVA

PINGOS DE CHUVA

© by João Batista do Lago

O dia amanheceu como as almas tristes!
Cinzento!
Chorando suas mágoas,
Suas dores,
Seus horrores.

Mendigo de amores perdidos nos
Passados dias de sorrisos.

Quanta falta faz ao dia o abraço do sol!

Chora. Chora de mansinho.
Devagarinho vai desfilando sua sorte, pois,
Refém da sua própria morte
Sabe-se, logo ali, ser aluvião na
Vazão das almas que inundam de podridão o
Lixo já sem perdão do humano verme, que
Encalha os esgotos da
Alma já podre de palavras e canções, que
Infectam os corações das miseráveis sensações dos
Dias infelizes gerados nos humanos corações.

O dia cinzento de
Choro cinzento
Revela o espírito do
Ser sem dia…
Amargo…
Sem alegria.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

SIGNIFICANTE VAZIO

SIGNIFICANTE VAZIO

© by João Batista do Lago

Vês, este meu excrito,
não te parece escrito;
na imagem de tua mente
é palavra doente, é
texto proscrito que
nasce de um indolente.
Assim é meu escrito:
significante vazio excrito,
anáfora de si, proscrito do
sujeito que não te faz sentido,
linguagem sem fala no
moderno mundo já perdido.

PENEIRA

PENEIRA

© by João Batista do Lago

o corpo
não côa-o
dissipa-o.
desamor
antecipa
a sua dor.
o corpo
filtra-o:
alma só.
o corpo:
sepulcro
da sua dor!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

ALUCINAÇÃO

ALUCINAÇÃO

© by João Batista do Lago

visagens do dia!
o sol a pique
como um dique:
fome denuncia.
(a cachaça só
aliment’a dor).
Essa, toda filosofia
que o mercado prenuncia:
- fins racionais –
estética do trabalhador.
__________


quinta-feira, 29 de novembro de 2007

LIBERTAÇÃO

LIBERTAÇÃO

© by João Batista do Lago

Essa ambígua ordeiricidade brasileira, e
conseqüentemente, do seu povo:
país do carnaval! da mulata brasileira!
país do futebol! da malandragem fagueira!
é ufanismo trigueiro da burguesa “Luzes”
subjetivismo do discurso da dominação.

Sob este manto praticam-se o
terrorismo social e o econômico, o
político e o cultural, abstrusos, mas
coesos no seu conjunto ideológico
incrustado no terrorismo de Estado, que não
permite aos comuns cidadãos
perceberem, desde sempre, a condenação de
suas almas numa constante subjugação.

A tudo isso se junte, ainda, a
medíocre “democracia racial”:
falsa consciência da inclusão
sob o beneplácito das elites, da
classe média e da burguesia.

E os ladrões de sempre,
que roubaram, que roubam e, por certo,
roubarão este povo que teima em não acordar, que
continua “dormindo em berço esplêndido”,
continuam nos palácios a nos encantar
com a máxima da escravidão:
“O Brasil é uma nação ordeira” - dizem.

E assim continuamos nossa sina
- com o apoio do burguês trabalhador que
vendeu sua dignidade, que
teve seu espírito comprado, que se
esconde sob a proteção de sindicatos
fascistas e sustentados pelo Estado terrorista que
assalta, que furta o trabalhador comum
compulsoriamente dilapidando o miserável salário,
que se lhe arranca da boca a comida, do
intelecto a educação, do
corpo a moradia.

Não menos indulgente é a
burguesia intelectual
que num eterno louva-deus
locupleta-se com migalhas furtadas
comprantes das ideologias de
plantão que permite assegurar o
quinhão da dominação.

Da mesma maneira o ramo
podre da religião assim também age
utilizando o campo do sagrado
como fonte inexorável de opressão
fazendo cair sobre os desgraçados da sorte o
fogo do inferno se porventura desejarem libertação.

No mesmo ritual teleológico
segue o burocrata, o empresário e o político,
os três Poderes: o Judiciário, o Executivo, o Legislativo
– a “representação do povo”!

Não é, pois, o momento da indignação?
Porventura não é chegada a hora da libertação?

A nação não pode condescender com seus
detratores, com seus ladrões, com seus
usurpadores, com seus facínoras, com seus
ditadores - falsos democratas, antiprofetas da salvação.

Prestai atenção, ó brasileiros!
Ó povo dos trabalhadores,
povo deserdado, vexado e proscrito!
Povo (que é) aprisionado, (que é) julgado e (que é) morto!
Povo ultrajado, povo marcado!

Não sabeis que mesmo para a paciência,
mesmo para a dedicação, há um limite?
Não deixarás de dar ouvidos a estes
oradores do misticismo que te dizem
para rezar e esperar,
pregando a salvação pela religião ou pelo poder e cuja
palavra veemente e sonora te cativa?

Teu destino é um enigma que nem a força física,
nem a coragem da alma, nem as iluminações e o entusiasmo,
nem a exaltação de nenhum sentimento pode resolver.
Aqueles que te dizem o contrário enganam-te e seus
discursos servem apenas para retardar a hora de tua libertação, que
está preste a soar.

O que são o entusiasmo e o sentimento?
O que é uma poesia vã diante da necessidade?

Para vencer a necessidade há apenas a Necessidade,
razão última da natureza, pura essência da matéria e do espírito.

Dá-me, agora, ó brasileiros, um pouco da vossa atenção!
Tomai como vosso este poema e cantai em toda praça a todo cidadão.
Sustentai este grito de alerta, de levante, de atitude revolucionária
contra os vituperadores que tomaram esta nação:
(é) uma convocação para a revolta,
(é) uma ode à desobediência civil,
(é) um convite à marcha contra os canalhas,
(é) uma incitação à derrubada do Estado terrorista.

Mas também quero vos alertar:
os ladrões do Brasil e de seu povo, a
camarilha instalada nos três poderes, a
elite, a classe média e os burgueses,
jamais concordarão com este deblaterar.
E dirão com certeza:
- Não passa de um ‘esquerdista radical’,
um ‘maoísta’, um ‘leninista’, um ‘marxista’,
enfim...
‘um comunista’.

Ou, no mínimo, dirão:
um “revoltado”,
um “louco”...

Aí então deverás, desde sempre,
rechaçar e repelir veementemente a
prosa ditirâmbica dessa camarilha de ladrões.

Não dareis, jamais, o direito de te definirem,
de te identificarem, de te marcarem (feito gado encurralado)
segundo seus conceitos, seus preceitos, seus preconceitos.

E direis:
- Tens agora, ó indignos bufões, o
vicejar de um novo Sujeito,
tens, aqui, por certo, o
discurso da indignada nação, que
não quer ver o seu povo,
por toda eternidade,
dirigido pela corrupção, que
não deseja ser representado
por congressos de ladrões,
governado por rufiões do poder, que se
escondem sob a toga da inquisição.

E afirmareis a sentença da libertação:
“Se os apelos dos movimentos urbanos não são atendidos,
se os novos caminhos políticos permanecem fechados,
se os novos movimentos sociais não se desenvolvem totalmente,
então, tais movimentos
- utopias reativas que tentarão iluminar o caminho a que não tinham acesso –
retornarão, mas dessa vez, como sombras urbanas,
ávidas por destruir as muralhas cerradas de sua nação cativa”.
__________
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES, 2006, Ed. Lulu Press)

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

OBREIRO

OBREIRO

© by João Batista do Lago

Desorientado!
Sim, desorientado saíra de casa…
Casebre.
No caminho do trabalho ia mastigando sua febre de 40º,
ruminando desespero do filho sem leite,
da mulher recém parida,
que ficara na casa – casebre! –
já quase sem vida.
E ele, obreiro de muitas obras,
de tantas e quantas obras,
não tinha obra nenhuma para doar à família.
Toda obra que construíra fora para pagar o salário miserável que consumia no dia-a-dia da sua miserável vida.
Ruminava e ruminava.
Ruminava inconsciente a caminho do matadouro
onde entregaria sua mente a preço vil,
sua força de trabalho restaria na produção covil.
No dia seguinte tudo se repetia.
Ainda assim esperançava um dia
ser dono da mais valia que lhe roubava o pão nosso de cada dia.
E pensava:
“Antes de morrer hei de ver meu filho banhar-se de leite,
minha mulher entre sedas, pedras preciosas e ouro…
Hei de ver! Hei de vencer!”
Passava o tempo e todo dia a mesma coisa se repetia:
refém da mais valia, mas esperançava sempre – um dia! –,
o velho trabalhador, ter a alegria de ser livre,
de não ser apenas um sofredor; ser dono da sua força de trabalho,
não ser apenas o curinga do baralho ou apenas peça descartável do mercado.
Hoje, velho e maltrapilho… (maltratado!), arrasta-se entre ladrilhos de esperanças, contudo espera que sua criança – ainda sem leite! – não perca a esperança de um dia ser dono da sua laborança,
que seja refratário ao vil capital do consumo,
que seja libertário e que não se deixe pregar à cruz,
para de lá, como eu, apenas dizer:
“consummatum est!”

domingo, 25 de novembro de 2007

MENINAS

MENINAS

© by João Batista do Lago

Quanta saudade tenho
daqueles tempos de criança
daquelas meninas de trança
brincando na corrente mansa
do rio Itapecuru.

Lembro de toda molecada!
Era um verdadeiro sururu
quando saíamos da escola:
correndo em desabalada
íamos olhar as coxas peladas
das meninas de trança que
banhavam no rio Itapecuru.

Passou o tempo! Passa, enfim, a vida!
Passaram águas; ficaram saudades!
E eu, jaburu sem rio e sem guarida
estou à margem das iniquidades.
As meninas de tranças; coxas peladas,
onde andarão? Será que são amadas?
Que águas lavam aqueles mamilos retesados?

Quanta saudade tenho
daqueles tempos de criança
daquelas meninas de trança
brincando na corrente mansa
do rio Itapecuru.

sábado, 24 de novembro de 2007

HISTÓRIA DE POETA

© by João Batista do Lago

O velho poeta descia a serra pontiaguda

Tão ligeiro como pedra desembalada.

No pé da serra esperava sua amada.

Mas, ao descer, teve a perna quebrada.

Coitado! Lá no meio da serra esparramado

Ficou o poeta – e sua dor – impossibilitado.

Não mais era possível alcançar a amada.

E ela, sem perceber, não sentiu a dor do amado.

No meio da serra, ao chão então estirado,

O poeta sentiu-se um miserável; desgraçado.

Chorou o abraço não dado na jovem amada.

E ela, sem perceber, não viu que havia-o passado.

Depois de alguns instantes de infinda espera

Resolve a jovem amada subir a serra.

E ao ver o poeta inanimado – como pedra –

Cai sobre seu corpo em pranto. Desespera.

Acaba assim a história do velho poeta:

Jaz na terra versos que se plantariam em sua amada!

Acaba assim a história da jovem amada:

Jaz por terra versos não plantados na Poesia amada!

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

NUVENS

NUVENS

© by João Batista do Lago

Do universo do meu quarto
Vejo o infinito universo!
Lá ao longe as nuvens dançam
Num ballet magistral da natureza,
Capaz de criar em minha mente a
Figura da mulher amada que
Ficara quando me fora adolescente.
Instante de estética fenomenal, mas o
Vento – ciumento e atroz! – baniu a
Amada da minha mente, e para me
Indignar ainda mais, pintou nos
Céus nuvens de monstros, onde
Antes era a imagem genial de Themis,
Agora resta – tão-somente! – a realidade presente.

sábado, 17 de novembro de 2007

SE EU PUDESSE...

SE EU PUDESSE…
(1979) *

© by João Batista do Lago

Deus,
ah se o mundo me
pudesse ouvir
pediria a todas as gentes,
a todas as pessoas,
que gravassem em suas mentes o
Luar do meio-dia,
que fascina e ressoa
Nos lábios do dia
a paz que de mim soa.
Diria a essa gente:
imagine por um instante
um mundo prenhe de paz…
Imagine!
Já seria o suficiente para
aceitar o Sol da meia-noite;
a paz no coração da mente
reluziria incandescente
n’alma de todas as gentes
reféns de guerras indulgentes.

(Se eu pudesses ao mundo falar!)
__________
* Revisada

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

LAMENTO

LAMENTO

© by João Batista do Lago

Ó velhos porões de almas!
Ciganos errantes. Ledos.
Aluviões de antigos medos
que singram os mares com
seus degredos de sorte vil,
ilusões paridas d’um só covil.

Ó velhas embarcações de ossos!
Teus degredos… Teus medos
são fraturas expostas dos teus
crimes de lesa alma, que pungem
toda dor da miserável sorte de
ser, apenas, o ser da morte.

Ó velhas cangalhas de carne!
Tua pena é a cena do afastamento
da divinal condição do ser e
neste teu enclausuramento és,
enfim, todo triste lamento, do
humano que pretendera Ser.



terça-feira, 13 de novembro de 2007

ORFANDADE

ORFANDADE

© by João Batista do Lago

O odor do enxofre dos ventres
Rasgados por obstetras da alma,
Não consegue perfumar o ser.

Ele perdeu-se na miséria
De ser parido de deuses;
Hoje órfão deseja renascer.

- Não há mais obstetras de almas!










segunda-feira, 12 de novembro de 2007

CONTRA-CANALHAS!

CONTRA-CANALHAS!

© by João Batista do Lago

Quanto tempo ainda restará
Para conviver com os canalhas?

Vive-se um tempo de batalha: a
Virtude é pura moeda rara!
Perdeu-se a vergonha da cara;
Falta coragem de usar a navalha.

Ó, República da vagabundalha,
República de miserável sorte,
Rasgaram-te as vestes da Ética (e)
Curvaram-te ante essa estética

Sangram-te, ó mãe, os canalhas!
Arrancar-te o Direito do peito é
Tudo que deseja a vagabundalha:
Nação inerte; prostrada ao leito.

Sangram-te, ó mãe, os canalhas!
Mas haverá dia que todo malfeito
Restará findo… restará morto…
A nação cativa se levantará do jugo

Então aí – o povo –, plebe ignara,
Tomará as rédeas do desatino e
Fará da nação cativa seu destino:
República de Virtude, Ética e Direito.