sábado, 22 de novembro de 2008

[Pesquisa] - LAURA SANTOS: A pérola negra do Paraná

LAURA SANTOS: A pérola negra do Paraná

 

 

LAURA SANTOS foi uma peta paranaense. Nasceu em Curitiba em 30 de novembro de 1921. Não se sabe ao certo a data da sua morte.

 

Sobre LAURA SANTOS diz o poeta Tonicato Miranda: “sem complexos, inteligente, elemento positivo e querida nos ambientes onde convivia. Assídua presença nas sessões da Academia José de Alencar, quando e onde lia seus poemas e ouvia a leitura de poesias de outros poetas.

“Jamais queixara-se de discriminação ou de sua situação econômica difícil. Também jamais recorreu a outrem para dizer de suas dificuldades, que se presumia fossem muitas, dado que jamais conseguira publicar sua obra em vida. Segundo Helena Koloky, estrela maior da poesia paranaense, que conviveu com LAURA SANTOS, ‘em sua obra pode-se observar a inexistência de qualquer atitude complexada quanto à sua cor, porque sempre foi recebida em pé de igualdade com outros companheiros de arte e profissão’”.

Segundo consta no livro “Um Século de Poesia”, elaborado pelo Centro Paranaense Feminino de Cultura, LAURA SANTOS fora de “talento precoce desde a adolescência” quando “começou a compor”. Informa “Um Século de Poesia” que, LAURA SANTOS, compôs seu primeiro soneto – Aspiração – aos 13 anos de idade. “Lia muito em criança e o entusiasmo que lhe inspiravam os Sonetos de Olavo Bilac, revelou-lhe a sua vocação de poetisa”.

Depois de um brilhante curso secundário – diz a edição do Centro Paranaense Feminino de Cultura -, ingressou no curso técnico de química, que seguiu durante algum tempo.

Fora “preparadora de alunos, funcionária pública, especializada em enfermagem de guerra e saúde pública, jornalista e colaboradora assídua dos periódicos e revistas literárias, LAURA SANTOS, em meio às suas atividades múltiplas, não abandonou nunca a poesia” – informa o livro.

“Em 1937 venceu um concurso promovido pela Base Aérea, com um trabalho em prosa: História da Evolução da Aviação”. Fora “sócia fundadora da Academia José de Alencar” onde ocupara “a cadeira sob o patrocínio de Júlia da Costa”.

Seus três livros, ainda inéditos, aparecerão pela primeira vez no livro “Um Século de Poesia” e em separata [grifo nosso].

 

BIBLIOGRAFIA:

 

Sangue Tropical – poesia – 1953 – premiado pela Academia José de Alencar;

Poemas da Noite – poesia – 1953;

Desejo – poesia – 1953.

 

* * * * *

 

PRIMEIRO POEMA

 

Quando, envolta em penumbra,

A meditar me ponho,

Na doce exaltação deste exaltado sonho,

Na esplêndida mudez desta noite sem lume,

Principio a sentir em tudo o teu perfume.

Levemente ao redor do meu leito flutuas;

Sinto em meus seios nus as tuas faces nuas,

E o teu vulto sutil, subjetivamente,

Em insano prazer,

Em volúpia fremente,

Como serpe voraz, se enrola no meu ser.

 

E quando eu volto, de repente,

À fria realidade,

Compreendo que é a saudade

Que me fez de sentir,

Que me fez te gozar;

E, nesta noite fria,

Eu encontro somente

A triste solidão de minha alma vazia.

 

 

SEGUNDO POEMA

 

Dentro da noite agreste e sem luar

Ardente

E singular,

Quando um silêncio enorme envolve a natureza

E os vagalumes tremeluzem doidamente,

É que me sinto presa

Pelo polvo sensual do meu desejo...

Sinto o sabor de um beijo,

Que nos meus lábios vibra

E se estorce fremente,

A revolver

Fibra por fibra

Meu nevrótico ser.

 

Dentro da noite agreste e sem luar

De um torpor

Singular,

É que minha alma errática, procura

O teu amor

- falena seduzida

pela chama potente da Ilusão –

sem compreender,

no entanto,

não haver

retribuição de vida

ao seu fervente e desvairado encanto...

É uma sombra perdida

Dentro da noite escura

E no teu coração.

 

 

TERCEIRO POEMA

 

Na limpidez da noite pelo espaço

Há reflexos de aço,

Luminosos...

Dir-se-ia

Que a natureza envolta em véus luxuosos,

Em roupagem de seda,

Macia, se queda,

Toda em ânsia incontida,

Em uma longa espectativa indefinida...

 

A lua,

Inteiramente nua,

De mais alvor que os alcantis polares,

Vem, num desgarre soberano,

Pelos ares,

Linda como Frinéa emergindo do oceano.

 

E na minha alma

Incalma,

Incandescida,

A estorcer-se em desejos

De lúbrico furor,

Vibra o último som da música proibida...

E em meus lábios flameja o delírio dos beijos

Para imortalizar meu cântico de amor !

 

 

QUARTO POEMA

 

Noite agreste e sem lua,

Sem beleza,

Onda vaga de tristeza,

Opressamente no ar flutua.

De brando...

Pelas alturas pálidas estrelas.

Como lívidas velas,

Espalham sobre a terra o seu clarão sombrio

E se espalham no rio,

Que escorrega, se enleia e espuma, enraivecido,

Cumprindo o seu destino miserando

De ser incompreendido.

 

Então, neste momento

Tendo por teto o firmamento,

Ante o quadro que vejo

E a desvairar conduz

Em cismas vãs,

Merencória

E cheia de cansaço,

Vem-me o estranho desejo

De tornar-me incorpórea

E fundir-me nas lãs,

Finíssimas, de luz,

Que pairam difundidas pelo espaço...

 

 

QUINTO POEMA

 

Na noite erma e profunda

Soam vozes estranhas,

Poemas de amor que nascem das entranhas

Da terra.

E em meus olhos, que são portas escancaradas

Para a vida,

Fulge o desejo intenso,

Singular,

De pecar...

 

Agora,

Após ecoarem de vagar

As doze badaladas

Na velha torre,

Já não se escutam mais vozes estranhas...

Paira em tudo um silêncio incompreensível,

Esquisito,

Como se a alma da noite

Se houvesse diluído no infinito.

 

Só na minha alma ainda há a vida e a vibração,

Sem esperança,

De íntimo ardor,

Toda a ofegar em sonho

E em desejo a fremir;

A vibração e a vida de um amor,

Que, à semelhança

Do tinhorão tristonho,

Jamais há de florir.

 

 

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(In: Poemas da Noite, 1953 – Do livro “Um Século de Poesia”, 1959, pp. 397-8 – Imprensa Oficial do Estado, Curitiba, Paraná, Brasil.)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

UM PRESENTE PARA MINHA AMIGA YARA...

...que enfatizou recentemente num comentário a minha condição de pesquisador. De fato, se pudesse, seria o meu trabalho predileto, mas a minha condição financeira e econômica não mo permitem. Entretanto, quando posso, estou sempre a pesquisar alguma "Coisa",sobretudo quando se refere à Literatura, e mais ainda, quando diz respeito à Poesia. A pesquisa me ensinou algo de muita importância: não ter preconceitos com os gêneros literários. Quando se os tem fica difícil alcançar o campo epistemológico. E como tenho a "arrogância" de pretender absorver todo o Conhecimento, ficou claro, para o meu caso, que jamais deveria deixar que quaisquer preconceitos contra gêneros, estilos ou formas literárias fossem "obstáculos" para as minhas pesquisas.
Veja o que descobri, minha cara Yara:

* * * * *

IDADES

Quando o homem simples, bom
Viu na terra um tesouro,
Em as searas e rebanhos,
Viu passar a idade de ouro.

Passado tempo, a ambição,
Em sua mente retrata,
Planos de força e domínio,
- Foi essa a idade de prata.

Surgiu então a discórdia,
Desunindo a humanidade,
Invento de armas, a conquista
Tornou-se de bronze - a idade.

Ódios funestos, a vingança
Da guerra, o mundo sinistro erro,
Sem liberdade e sem paz
Passou a idade de ferro.

Seguiram-se outras idades
Ao mundo em evolução,
Trazendo a do Cristianismo
A luz da civilização

* * * * *

MONSTRUOSIDADE

As noções mais perfeitas e mais justas
Do humano raciocínio, sobre a terra,
Conjugando opiniões sábias, robustas,
Consideram - monstruosidade - a guerra.

Afronta à civilização e às augustas
Afirmações que a religião encerra
Odioso conflito de ambições injustas
Que o direito implanta e a paz desterra

Adverso ao princípio humanitário
Das instituições democráticas fraternais,
Do progresso eliminando efeito solidário

A guerra - monstro horrível e tenaz
Alimentando o instinto sanguinário
O trabalho dos séculos abate e desfaz

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O poema e o soneto são de autoria de MARIA CÂNDIDA DE JESUS CAMARGO. Esta autora nasceu na cidade de Ponta Grossa, Estado do Paraná, no dia 06 de agosto de 1868, onde foi educada; nasceu no apogeu do período literário que conhecemos como Romantismo, contudo, desenvolveu o gênero parnasiano,sobretudo por intermédio dos sonetos. E, mesmo sendo contemporânea do modernismo e de boa parte do pós-modernismo brasileiro, ele preferira ficar fiel à estrutura parnasiana.
Professora por vocação, exerceu o magistério em Jaguariaíva, Ponta Grossa, Prudentópolis, Cerrado e Morro das Pedras, município de Imbituva, até 1919, ano em que se aposentou, passando a residir em Jaguariaíva.
Colaborou na imprensa do Estado do Paraná, sob diversos pseudônimos: "Stella Maria", "Miriam", "Stella de Jesus", "Aimar", entre outros, e teve seus versos publicados em revistas de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Nada revela melhor a poeta, que esta sua autobiografia em forma de soneto:

MINHA VIDA

Não ambiciono o farfalhar das sedas,
nem o brilho das pedras preciosas;
nem passeio por vastas alamedas
ou luz de asfalto em noites calorosas.

Nem do capricho as armadilhas tredas
envolvem-se nas redes ardilosas...
amo o sossego dessas noites ledas
íntimas festas, suaves, jubilosas.

Não invejo a riqueza requestada,
a vida quero simples, recatada,
e que o mundo ignore que eu existo

O que mais eu adoro e o que me encanta
é a poesia singela, pura e santa
de uma frase evangélica de Cristo

MARIA CÂNDIDA DE JESUS SANTOS morreu, aos 86 anos de idade, no dia 11 de agosto de 19849.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A CEIA [© DE João Batista do Lago]

A CEIA

 

© DE João Batista do Lago

 

Vindes. Ó criaturas do meu tempo! Vindes.

Vindes e sentai-vos comigo à mesa.

Chegada é a hora de saborear os mortos (e)

Beber o sangue defuntal dos nossos corpos.

Não temeis os sabores do que é vossos

Nenhuma dor será mais doce em vossas bocas

Nenhuma gota de sangue se esgotará...

 

Senteis ao meu lado – lado direito do pai!

E sem medos recebei o pedaço da carne

Matéria que vos ungireis entre anjos e demônios

Hóstia que vos transformareis em sagrados

Não temereis, pois, o beijo do escárnio

Saboreareis no altar das oliveiras

Da oliva mais pura o óleo da vida

 

Porém, ficai atentos, ó convivas deste prato

Comereis de todas as carnes e bebereis de todos os sangues

Contudo, nem mesmo isso vos garantireis a salvação

E quando estiverdes na soleira das tumbas

E quando sentirdes a dor de barriga das sombras

Há-de virdes o teu corpo enterrado

Alimentando todos os vermes da terra

 

Só então percebereis os sabores temperados

Que guardardes nos balaústres de todas as guerras

Para assim cozerdes os corações dos humanos

Só então sabereis da solidariedade defuntada

Da solidão macabra de todas vossas orações:

Tiranias que efetivaríeis entoando cânticos de louvores

Rasgando entre dentes todas as carnes das almas

SALMO DA ANGÚSTIA [© DE João Batista Lago]

Salmo Da Angústia

© DE João Batista Lago


Corpo! Corpo! Corpo!

Infra-estrutura do existir;

dialética dos desejos;



forma da matéria médica;

metafísica da justiça;

igreja de toda semiótica.



Um corpo tão assim:

prenhe de significados (e)

de significantes…



estética da beleza, do amor e da virtude

revela em toda sua vicissitude

o infortúnio duma morada ignota



Ó corpo, único real do existir

corpo que me encorpa a ossatura

num corpo que me mora como casa…



quanto tempo restará da desventura

da poeira concentrada?

Da astúcia dum viver sem ter morada?



Ó corpo!

Corpo que me arrasta pelo espaço (e)

que me tem como leme vagabundo



na proa dum tempo sem sentido

funde esta nau de condenados

no espectro do mar dos desesperados



Não te quero mais sentir,

ó corpo meu… meu corpo – minha casa

Afasta de mim esse cálice



Faz com que meu corpo cale-se

da angústia de todos os desejos…

Faz com que ele alce a taça da virtude

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A IDÉIA [© DE João Batista do Lago]

A Idéia


© DE João Batista do Lago


Um homem é um hominis

que é um homo

nada mais que homem:

Andrógino.

Um homem é um devir

que poderá ser hominis

nada mais será que homo:

Homem.

Um homem é um sentido

que é um homem

nada mais do é, nada mais do que será:

Homem – apenas uma idéia.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

*METAPHYSICAL DIALOGUE*

*METAPHYSICAL DIALOGUE*

 

© By João Batista do Lago/Trad.: Heloisa B.P. (Sabina Vassalo), poeta e escritora portuguesa residente em Bath, Inglaterra.

 

 

The philosopher asked the poet: 

- Which is the nature of life?

- “To exist.”

- Which is the nature of existing?

- “The desire.”

- Which is the nature of the desire?

- “The necessity.”

 

[...]

 

Off went the philosopher, ruminating thoughts...

Remained the poet pregnant with verses.