segunda-feira, 10 de novembro de 2008
SE EU FOSSE VOCÊ NÃO DEIXARIA DE LER ESTE TEXTO!!!
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
POEMA SEM-CARAS
A POESIA ENTRE A REALIDADE E O REAL
A POESIA ENTRE A REALIDADE E O REAL
© DE João Batista do Lago
Talvez a questão mais complicada para a maioria dos atores da Poesia esteja na complicada equação filosófica de realidade e real. Mesmo aqueles a quem se podem considerar os mais evoluídos são, quando em vez, traídos por essa matemática do pensamento universal. O Poeta, como um pensador do (seu) mundo, isto é, fundamentado nas suas percepções oníricas, intuitivas e sensitivas, não foge a essa regra calculatória. Ele é resultado dessa imbricação fenomênico-escatológica, ou seja, o poeta sempre está a pensar entre dois campos imanentes e latentes na poesia: a Filosofia e a Teologia. Mas isso, contudo, é muitíssimo pouco – ou quase nada mesmo! – compreendido entre os principais agentes da Poesia: poetas, escritores e críticos. Aliás, pode-se mesmo inferir, que são raríssimos os que teriam essa compreendidade. Muitos entendem que, são poetas, somente pelo fato de saberem, habilidosamente, concatenar frases e rimas.
Que se me perdoem os puristas cheios de pruridos de literatura áulica. E que são muitos espalhados por aí afora! Mas o que se vê, e lê, por aí são, para dizer o máximo, uma certa tipologia de prosa poética ou historietas contadas em formas vérsicas. Mas saímos dizendo por aí que esses escritos são Poesias (!), posto que, a sonoridade, a métrica e a rima, ou mesmo nenhuma destas – muitas vezes -, nos agradam e nos elevam a alma e o espírito. É exatamente neste ponto que erramos, ou seja, quando nos deixamos levar e enlevar pelo simplesmente belo ou pela simplória estética musicálica que balança no campo da nossa imaginação palavras, frases e versos condicionados e condicionantes de efeito factível. E quando nos perdemos nessa imaginação criadora, inerente em cada ser humano, por mais humilde que o seja, perdemos a capacidade consciente e ciente de analisar, compreender, sentir, e de, sobretudo, “pensar” a Poesia como uma fonte de águas mais claras que a Filosofia ou a Teologia.
O que ouso, neste ponto, é salientar um posicionamento político, ou seja, dizer com todas as letras que o conjunto de conceitos e práticas que orientam a Poesia não se reduz, nem se traduz, tampouco re-traduz, pura e simplesmente, ao estádio cognoscitivo do pensamento do poeta. Tudo isto não passaria de um paradigma metodológico, isto é, tudo isto não é mais que um obstáculo para o processo consciente e ciente da construção da Poesia. O que afirmo é que, aos meus olhos, a Poesia não pode e não deve ser condicionada somente ao campo da realidade, mas deve, sobremodo, ser criada, ou ser fazida, a partir do campo do real. Realidade é Filosofia; é Teologia. Real é o e-xistente; a práxis do ente no e-xistir do ser, ou seja, é o real do sujeito na sua infra-estrutura. O que afirmo é que, o poeta e a sua poesia são o resultado do pensamento da intuição do seu instante. Ele abstrai duma realidade qualquer a fazedura do seu real: eis aqui o resultado da equação.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
APENAS UMA LETRA DE MÚSICA... [não musicada, ainda]
CAÇA E CAÇADORA
(letra de música)
DE João Batista do Lago
Não posso e não devo negar
Pela vida afora hipnotizada sou
Vivo a vagar... Ao luar!
Sempre a te procurar estou
Todas as noites de bar em bar
Feito um Zumbi entre néons
Afogando-me pelas madrugadas
Vou tropeçando corações pelas calçadas
E vou me morrendo em cada canto
Encruzilhadas de desencontros
Mas não te encontro, meu grande amor
Para aplacar meu peito em dor
E quando raios de sol no céu despontam
Percebo mais uma noite perdida
Sinto a lâmina do nada rasgando meu peito
Deitando-me solitária no meu leito
Daí volto pra casa desiludida...
Mas amanhã serei de novo mais decidida
E voltarei pelas ruas... Nas madrugadas...
Com esperança renovada de te encontrar um dia
Mas, ao te encontrar... Se estiveres acompanhado
Por favor, não baixe a cabeça. Não perca a elegância.
A dor será minha. Só minha. Bem sei!
Não pense que o meu amor é só beligerância. Não!
Saberei compreender meu destino contumaz
E sairei de mansinho sabendo que não terei jamais
O calor do teu corpo esquentando meu leito frio
O teu corpo dentro do meu dentro do teu corpo
Não posso e não devo negar
Pela vida afora hipnotizada sou
Vivo a vagar... Ao luar!
Sempre a te procurar estou
sábado, 1 de novembro de 2008
SEI LÁ QUE CAMINHOS TRACEI [DE Heloisa B.P.]
**SEI LÁ QUE CAMINHOS TRACEI**
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Sei lá!...
Que caminhos tracei
Por onde andei
que solos pisei!...
Sei lá!...
Qual a força que me atrai
que Magnético Norte me orienta
Que tortuosas veredas
Me desorientam!(?)...
Sei lá...
Se encontra a Estrela Polar
- Estrela do Norte –
Ou a Estrela da Tarde,
Que fulgura e cintila
Ao esmaecer do SOL
Ao “Resplandecer” da LUA!(??)...
- SEI LÁ - !...
Eu sei Lá,
Em que leitos adormeci
Macios
- ou vazios –
Em que linhos Alvos
Ou “Estamenhas”
(De “Antanho”)...
- SEI LÁ!?...
Sei lá...
- SEI LÁ!???...
...Sei Lá,
Que caminhos Tracei
Por onde andei
que Solos pisei...
sei Lá!??
- SEI LÁ!???...
- NEM SEI, SE ME INTERESSA SABER!
...SEI LÁ!???????????????????????????
Heloisa B.P.
Londres, em 20/07/04
Estou relendo, mais uma vez, *Divagando*, livro de poemas de autoria da minha ilustre poeta Heloisa B.P. Um livro que teimo em lê-lo por entender que há nele um conjunto poético tão diverso, e ao mesmo tempo tão uníssono, quanto polifônico e polissêmico.
A poesia acima é uma das que mais me chamou a atenção. E por quê? Porquê nela Heloisa B.P. desveste-se, a si e à sua alma lírica, para sem medo e sem pejo deblaterar:
“Sei Lá...
Em que vales me perdi (...)”
Os “vales” dos quais fala a poeta sempre se encontram nos sopés das montanhas, onde
“Se encontra a Estrela Polar
- Estrela do Norte –
Ou a Estrela da Tarde,
Que fulgura e cintila
Ao esmaecer do SOL
Ao “Resplandecer” da LUA!(??)...”
É muito interessante perceber que no processo dessa “perdição” heloísica, a poeta não esquece sua fonte de saber – o “SOL” – que vai “Resplandecer” do outro lado da sua poética – a “LUA” – ponto facultativo onde guarda todas suas dores num lamento de sabedoria memorável, e diria mesmo, inigualável.
COMO UM ÍCARO [DE João Batista do Lago]
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
RESGATADA LÁ DO FUNDO DO BAÚ...
O Homem Que Ruminava Dívidas no Fundo do Quintal
ali estava ele sentado
se guardando de todos os males
ali estava ele
bem no fundo do quintal
ruminando dívidas
dívidas de vidas
todas divididas
no espectro funeral
daquele homem
então morto de tantas vidas
devidas de divididas dívidas
crescidas em cada amanhecer...
no pé do sapotizeiro
- único confidente solitário
daquele homem solitário -
a molecada gritava sem medo da vida
ainda não dividida pelas dívidas da vida...
e todo aquele zoeiro era observado
pelos olhos dum vivo-morto
aquele homem já velho e cansado
de tanto e tanto e quanto amargurado
de tanta e tanta e quanta dívida
de quanta e quanta e tantas vidas divididas
soletrava com os olhos o carinho que amava a molecada...
mas naquele dia algo estava diferente
sua expressão não demonstrava carinho
tampouco dor ou qualquer horror
não havia como decifrar aquele olhar indecifrável
frágil, distante, com uma pedra de lágrima escorrendo
pelas paredes das narinas até atingir a boca onde ficara parada sem qualquer degustação...
comprendeu-se então que aquele homem
não mais olhava a molecada, não mais sentia
a barriga cheia de dívidas - dor de barriga de dívidas de vidas divididas! -
não mais havia aquele homem ruminando dívidas no fundo do quintal
não mais havia sapotizeiro nem o carinho zombeteiro daquele olhar cheio de dívidas
não mais havia cobrador para dizer: "Ele não está. Saiu. Foi caminhar..."
terça-feira, 28 de outubro de 2008
ORFANDIDADE
ORFANDIDADE
© DE João Batista do Lago
Fez-se-me o alvorecer
Duma manhã friorenta
Entrecortada de neblina
Os nós que me prendiam
Foram todos ablaqueados
E, então, vi-me pássaro
E voei sobre minha eternidade
E lá bem distante grunhi pensamentos
No silêncio da humanidade
Senti de todos os espíritos os lamentos
Passarem ligeiros como tufões
E os vi se transformarem em poeiras
E no encadeamento do grande eterno
Juntei todas aquelas leiras
E ungi meu corpo de sagração
E voei... voei... voei... voei...
Tão alto que me perdi no espaço
E pousei como um anjo no orfanato do sagrado
domingo, 26 de outubro de 2008
DEAMBULATORIUM
DEAMBULATORIUM
© DE João Batista do Lago
Acordo num ofertório do dia
Onde a primavera solícita
Oferece-me o sorriso das flores
Ouço as palavras das rosas
Dizendo-me: “Bom dia!”
O sol oferece-me a luz
Translúcida de ternuras (e)
Banha meu corpo no
Delírio do deslumbramento
Matinal duma primavera única
Sinto o rio que corre dentro de mim
Levando meus pensamentos às
Profundezas rochosas do meu ser
Lavando as pedras ressecadas pelo tempo
Transformando num movimento alquímico
Meus sentimentos em pérolas de esperança
Assim amanheço no meu hoje
Renovando-me do meu divino caos
Recriando-me no ovário do sagrado
Espaço de todas minhas manhãs
Feitas de flores
De rosas
De Primaveras
terça-feira, 21 de outubro de 2008
PAINTING
PAINTING
© by João Batista do Lago
In the wall of the time
I am the instant deepest
Painting in three dimensions
Loaded of tragic traces
In the without-end of the spaces
The multicolorful inks
They reflect in the screen
Forms, models and corpus
Of the tragic and comic magic of the life
- Comedy of dying itself of itself to be born itself -
In double flicks it goes constructing the artist
Its epic diversity in the line of the time
Double of a unit dialectic: Reason and Imagination
In both the deforms poems of gratefulness and oblations
They go disclosing to days and nights of sciences and poetries
All sees thus the painter its workmanship
Looking at the screen of the side nothing
It sees that only of this angle
It has perspective… It has life! It has death!
Succession of the instant deepest
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
PINTURA
PINTURA
© DE João Batista do Lago
No mural do tempo
Sou o instante mais profundo
Pintura em três dimensões
Carregado de traços trágicos
Na infinitude dos espaços
As tintas multicoloridas
Reflexionam na tela
Formas, fôrmas e corpus
Da magia tragicômica da vida
– Comédia do morrer-se do si nascer-se –
Em duplas pinceladas vai construindo o artista
Sua épica diversidade na linha do tempo
Duplo duma unidade dialética: Razão e Imaginação
Em ambas os cânticos e as oblações disformes
Vão desvelando dias e noites de ciências e poesias
Vê assim o pintor toda sua obra
Olhando a tela do lado nada
Vê que apenas desse ângulo
Há perspectiva... Há vida! Há morte!
Sucessão do instante mais profundo
sábado, 18 de outubro de 2008
PASSARINHO
PASSARINHO
© DE João Batista do Lago
Voas sobre mim
Aquém do tempo
Além do espaço
Voas sobre sonhos
Aquém das ilusões
Além do desejo
Em tuas asas de prata
Brilham meus sonhos:
Quimera de solidão
Em tuas asas de bronze
Reluzem meus desejos:
Utopia da visão
Em tuas asas de ferro
Cintilam meus devaneios:
Realidade e paixão
Dão-me as tuas asas?
Quero voá-las!
Ser real na ilusão dos meus desejos
Brilhante nos sonhos da minha solidão
Eterno na utopia da minha visão
Dão-me as tuas asas!
Saberei voá-las?
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
CHUVA TOMBADA [Soneto]
CHUVA TOMBADA
© DE João Batista do Lago
Cai mansamente a chuva na noite terna.
Pingo em pingo encharca meu coração
Tombado de lágrimas da espera eterna;
Carente do adubo para secar a solidão.
Calmamente a chuva de mim se encanta!
Transforma meu ser num túmulo de desejos.
Salivo, então, teu corpo que em mim decanta
Todos os suores; tua boca, volúpia de beijos.
Agora, não mais são os pingos da chuva
Encharcando meu coração vão e solitário.
Neste instante é o teu corpo todo o relicário,
Guardião do meu corpo – teu sacrário! –,
Tumba eterna do teu corpo – meu relicário! –,
Terço duma oração eterna deste ser solitário.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
CRONEMA
A CASA DAS ANGÚSTIAS
© DE João Batista do Lago
Sentei-me numa cafeteria da Rua XV, no centro de Curitiba, para tentar esquentar o corpo e a alma do frio de 9ºC. O vento que soprava de Sul a Norte, deixava a sensação que a temperatura estava, pelo menos, quatro graus abaixo. Foi exatamente o conjunto dessa atmosfera que me levou a pensar num café com licor de chocolate acompanhado por um bom e delicioso conhaque, evidentemente enuviado pela fumaça e pela fragrância dum cubano a lá brasileño, comprado no Mercado Municipal, horas antes. E assim procedi.
Depois de servido pela garçonette com rosto de lua e de olhares orientais, lábios finos e de palavras fractais, ocorreu-me investigar o local: um corredor labiríntico com as mesas pregadas à parede. Todas estavam literalmente ocupadas. Eram mesas paralélicas que forçavam, naturalmente, os seus ocupantes a se olharem – mesmo que não pretendessem fazê-lo! – ininterruptamente. Entre as mesas e o balcão de serviços o espaço para os transeuntes não ultrapassava mais ou menos 75cm de largura. Era, pois, impossível, assim, não haver leves esbarrões entre aqueles e aquelas que entravam ou saiam do ambiente. Apesar do furdunço e do vozerio (que em geral me irritam) tinha-se sempre a sensação de estar num local agradável. Toda aquela bagunça... aquele caos (pasmem!) era de uma ordenação e de uma ordenidade inimaginável. Impressionante mesmo! Na desordem dos pensamentos, das palavras, dos gestos, dos grunhidos, dos afagos, dos carinhos, dos beijos, dos olhares, do tilintar de copos e xícaras, de baforadas de cigarros e afins, de tosses, cusparadas e escarros, enfim, dos corpos, havia uma organicidade que me levaram a raciocinar sobre o ponderável e o imponderável de tudo aquilo.
Por alguma razão que, possivelmente saiba, mas não a queira declinar, ocorreu-me imaginar aquele ambiente como sendo a Casa das Angústias. Isso mesmo! Ali estávamos todos – todos mesmo –, inflexivelmente, desfilando angústias de existencialidades não compreendidas, não entendidas, não apreendidas, não assimiladas... E mais que isso: imprecavidamente jamais aceitas como campo do conhecimento humano. Senti naquele instante um desejo imenso de querer ser tudo e todos. Desejei absurdamente tê-las como minhas todas aquelas angústias. Queria-as para torná-las meu conhecimento, de tal forma, que percebi que já não mais me era em toda aquela intuição. Era-me cada um e cada qual. Era-me desde a sobriedade mais retocada da curitibana dissimulada ao imprudente bebum solitário, contudo rico proprietário de vários prédios espalhados naquela rua e em outros lugares da cidade. Era-me desde a moça bonita de olhos azuis da cor do mar que ali se prostrava para ganhar o pão de cada dia para sustentar seu filho e a família ao mais ilustre advogado, o bom ladrão das defesas indefensáveis, entretanto causas ganháveis nos porões e nos labirintos dos corredores da Justiça. Era-me o pastor e o padre que se embriagavam com os dízimos dos fiéis condenados ao fogo do inferno se, porventura, renegassem a santa esmola. Era-me o poeta que deambulava seus devaneios procurando a palavra mais completa ou o verso mais límpido para assim produzir a estética da poesia mais bela. Era-me a criança rica que se empanturrava de hambúrgueres ao menino de pé no chão que pedia uma esmola “pelo amor de Deus” e levava como resposta o “xô... xô... xô...” tocado pelo vigia da casa. Era-me o político e o economista; o professor e o esportista; o jornalista e o palhaço; o patrão e o mercado...
Infernos! Céus! Purgatórios!
- Não os tenho. Infelizmente não os tenho para aplacar o desejo incontido do meu corpo que necessita dessas angústias carregadas de liminaridades angustiadas e sedentas de vivencidades, de angusticidades necessárias e indispensáveis para a compreendidade da infinita sabedoria de ser. Quão pequeno eu sou!
Tomo o último gole do café. Inspiro a última tragada do brasileño. Impregno-me de toda fragrância. E me vou pra casa como humano... Nada mais que humano!
POTÊNCIA
POTÊNCIA
© DE João Batista do Lago
Por quê não estou aqui?
Vivo toda potência da vida
Quero morrer toda potência da morte...
Quanto prazer e alegria
Sobressaem da vida e da morte:
Encontro do divinal paradoxo
Se entendessem o enigma
A tola religião e a inútil filosofia
Não plantariam medos e dúvidas
Reconheceriam por certo
Sem as necessárias representações
A suprema potência de Viver... E de morrer
