quarta-feira, 12 de março de 2008

Os Novos Pecados da Igreja Católica

© DE João Batista do Lago *

Uma das muitas lembranças que carrego comigo, que é ao mesmo tempo "alma" e "espírito" do meu biotipo cognitivista, muito embora, hoje, tenha consciência plena de não fazer parte de quaisquer religiões ou tê-las como foco de primazia para o meu desenvolvimento intelectual – seja na esfera privada ou pública, ou profissional -, é a minha proximidade com a religião católica. Durante toda a minha infância e parte da minha adolescência fui "espiritualmente" ligado a este campo do sagrado. Tão ligado que um dia imaginara ser sacerdote ou, no mínimo, um Imão Marista. Contudo a Natureza (sobretudo a minha natureza pessoal) me encaminhara para outros mundos.

E antes que me acusem de Ateu ou de ateísmo devo sustentar que, hoje, sou Agnóstico ou agnosticista, isto é, imagino-me no campo de uma (1) doutrina que considera impossível conhecer ou compreender, e portanto discutir, a realidade das questões da metafísica ou da fé religiosa (embora admita existirem, como a existência de Deus, por exemplo), por não serem passíveis de análise e de comprovação racional ou científica; ou dentro do campo do (2) conceito (de Thomas H. Huxley) de que só o conhecimento adquirido e demonstrado racionalmente é admissível.

Assim sendo, portanto, posso inferir que o agnosticismo, como atitude intelectual, tem duas vertentes: (a) no terreno filosófico consiste em negar qualquer possibilidade de conhecimento fora do terreno da ciência e do pensamento racional; (b) no terreno religioso consiste não em negar a fé ou as afirmações nela baseadas, mas em negar que essa fé e essas afirmações tenham ou possam ter suporte racional. Em ambos os casos o pensamento agnóstico se baseia na razão, na racionalidade e no conhecimento científico. No segundo caso, especificamente, ao não negar a Metafísica, a Fé e os fenômenos supranaturais está-se, racionalmente, deixando aberta a possíbilidade de aceitá-los, se e quando explicáveis pela razão.

Bem, feitas as ressalvas, partamos para o que se nos interessa, de fato e de direito, neste artigo: no último final de semana, no L’Osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, foi divulgado pelo arcebispo Gianfranco Girotti, o número 2 da alta cúpula da Igreja Católica, que a partir de agora os católicos de todo o mundo passam a viver e a conviver com mais três tipologias de pecados capitais – a poluição, a manipulação genética e as desigualdades sociais -, pois, "se ontem o pecado tinha dimensão mais individualista, hoje possui uma ressonância principalmente social em razão do amplo fenômeno da globalização".

Monsenhor Girotti, nesta sua entrevista dominical, deduz, produz e reproduz uma crítica vaticanicista contundente ao fenômeno da globalização, sobretudo quando assinala que "há diferentes setores nos quais revelamos comportamentos culpáveis em relação aos direitos individuais e sociais"; ou quando diz que "os pobres tornam-se sempre mais pobres, e os ricos sempre mais ricos".

Evidentemente não se pode deixar de aplaudir tais palavras vindas do Vaticano. Elas soam e ressoam no mundo terrestre, que se nos é real, além do que elas refletem preocupação que não é só do catolicismo, mas de todos segmentos que, em sã consciência, não admitem a ideologia do "deus-mercado", assim como os seus ideólogos conservadores, autoritários e ditatoriais.

Pode-se dizer (até!) que a Globalização é uma tipologia de céu dos capitalistas, ou que é (ou seria) a afirmação e reafirmação dum processo de dominação em marcha que se pretende construir como se fora uma verdade absoluta, ou seja, no mais íntimo pensamento capitalista e de seus formuladores, assim como de seus ideólogos, sempre houve, há e haverá o desejo, a necessidade mesma, de construir um mundo futuro no qual os pobres e os desiguais possam um dia alcançar. Isto sugere uma similaridade com um enunciado famosíssimo do cristianismo e do catolismo a respeito desse possível mundo futuro utópico: "não se preocupe, você é pobre aqui (na terra), mas na outra vida (no céu) você será uma pessoa rica". Em ambos os casos o que se percebe é a afirmação de um Ideal metafísico. Em ambos os casos o que se vê a constituição de um idealismo pós-moderno ou modernamente tardio sobre condições efetivas de uma realidade mais que real, de uma verdade que não precisa ser conceituada no campo da sagrado como um "novo pecado capital". De pecado capital nada tem. Tem-o, em verdade mesmo, de "pecado" capitalista.

Ao mesmo tempo é sempre muito bom ter vivo na memória que a Igreja Católica é a precursora da globalização. Mas não só isso! É preciso entender, com clareza imparcial, que o Estado do Vaticano (cidade-estado para alguns historiadores) foi um dos mais violentos na implantação, implementação e institucionalização do seu projeto ideológico: o catolicismo – uma ideologia fundamentada em bases metafísicas (céu, paraíso, etc.) e com um forte apelo do medo, isto é, do pecado que era, então, o "Sujeito" da dor, do infortúnio, da infeliciade, enfim, do inferno... Diga-se mais: foi com esse projeto de globalização que a Igreja Católica tornara-se uma das instituições mais ricas e poderosas do mundo (ainda hoje!), tanto financeiramente quanto economicamente.

Contudo, o que mais contribuíra para o "desenvolvimento e progresso" da Igreja Católica fora a adoção do "Pecado". Este fora, ao longo dos tempos, a principal moeda de negociação entre o catolicismo e os fiéis. E ainda hoje o é, como o faz crer o Monsenhor Girotti, introduzindo, no campo pecaminoso, portanto no campo do sagrado, ou seja, no campo da metafísica, temas da realidade terrestre - mais que real! - como a poluição, a manipulação genética e as desigualdades sociais. E neste ponto cabe observar o vaticinare do arcebispo com relação ao campo científico, ou seja, com relação ao desenvolvimento da engenharia genética, no qual traduz e retraduz o pensamento do Vaticano, reduzindo esse conhecimento científico à simples condição de "manipulação genética".

Pergunte-se: por quê a Igreja Católica tem tanta resistência, tem tanto medo em admitir a verdade científica? (Ouso fazer aqui algumas inferências como respostas a esta questão).

Pode-se dizer que tanto a resistência quanto o medo da Igreja Católica na admissão da verdade científica se fundamentam em (i) conservadorismo, (ii) poder político-religioso, (iii) eliminação do sagrado. No mínimo essas três hipóteses são o "inferno" para o catolicismo; assim como o é para o capitalismo o (I) conservadorismo, (II) o poder político-capitalista, (III) a eliminação do "deus-mercado".

Enfim, transformar essas realidades terrestres e humanas (por demais humanas!) em pecados é não querer resolver nada. É, em verdade, querer continuar mantendo a tocha do "espírito" da opressão sobre as cabeças dos fiéis; é continuar o processo secular de dominação de um catolicismo tosco e atemporal; é continuar mantendo a espada do pecado apontada para os corações dos fiéis indefesos, "sempre mais pobres", sempre "mais desiguais", que podem ser condenados para todo o sempre a serem torrados ao fogo do inferno, que jamais poderão estar próximo (seja do lado direito, seja do lado esquerdo) de um Deus que já os esquecera ou que jamais existira, a não ser como fonte de de dominação e de opressão do catolicismo cristão.

É disso tudo que nasce o desencanto às religiões. É por isso que as religiões estão perdendo fiéis. É em consequência dessas absurdidades que a Igreja Católica é a igreja que mais perdeu adeptos nos últimos 25 anos do século XX, e continua perdendo nestes primeiros anos do século XXI.

__________

* João Batista do Lago, 58, maranhense de Itapecurumirim, é jornalista, escritor, poeta, pesquisador e pensador empiricista.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Esta poesia eu a dedico a todas as mulheres: negras, brancas, índias, pobres, ricas, loiras, morenas, raínhas, plebéias, casadas, solteiras, donzelas, prostitutas... Todas: Mulher Esperança!

Mulher Esperança!

© DE João Batista do Lago

Nada há por dizer

Além de tudo que já se dissera

És princípio, meio e fim:

Éden, purgatório, jardim!

Entre flores e rosas: jasmim!

No casebre ou no palácio

És a flor do lácio

Seja do lord ou do plebeu

Seja real ou apenas quimera

És a coroa que à vida floresceu.

Quando escrava, rainha ou mesmo nada

Tens anjos e demónios sob os pés

Se cativa, és nobre… és santa… és forte

Não há fogueira que te leve à morte

Pois és de todas montanhas os sopés.

Tens a posse de todos os desejos

Tens poder e dom de todas as magias

Nem mesmo os brutos resistem ao teu Ser

Julgam domar-te! Ah, esses tolos inconsequentes

Não sabem que de ti são eternos dependentes

Confesso: se algo pudera enfim dizer-te

Não o faria. Melhor seria entender-te

Rever meus conceitos de outrora… e de agora

Quedar-me no teu colo sem demora. Como criança!

E adormecer no gozo do teu sexo: Mulher esperança.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

POEMA LOUCO [DE João Batista do Lago]

Poema Louco

© DE João Batista do Lago

Durante todo esse tempo

tenho procurado alcançar

um não-sei-quê de divinal

tenho andado atarefado

tropeçando nos meus ais

acordes da canção de uma só nota

venho dos velhos mundos

sem nunca saber do novo

sou filho do moderno

sem a essência do passado

Sou cigano

vagabundo deste mundo

inconfesso

de mim nada sei

nem se sorri

nem se chorei

apelei ao meu sacrário

nele ser guardado

tornei-me mostruário

dessa vida miserável

agora meus velhos ontens

choram a insensatez de meus hojes

Já não existem cristais

que possam quebrar meus olhares

já os feriram tanto

nas sextavadas noites de luares

de negras nuvens

nem mesmo sonhos brilham

diante do meu pranto

Se vago tanto

Inexistente

oro como vagabundo penitente

tento encontrar o inascido

do que só em mim se há gerado

sábado, 16 de fevereiro de 2008

VELÓRIO

Velório

© De João Batista do Lago

No meio da sala velo minh’alma

Que me olha com dentes escancarados

Abrigada nos quatro cantos do mundo

Donde sorri das minhas dores

E qual punhal que sangra ventos

Rasga o meu profundo nada

Donde as vísceras jorram todo escarro

Da hóstia nunca sagrada do homem puro

“És nada!” – grita a alma pois então morta –

Nasceste do miserável sagrado sem Deus.

Como há-de me querer velar como eterno

Se tens apenas teu féretro como única posse?”

E lá do meio da sala onde velo minh’alma

Nada posso fazer para alcançá-la…

E ela se esgarça zombeteira em cada gargalhada

Enquanto eu no meio da sala tramo matá-la

E assim me dano feito cão vagabundo

Que nem mesmo a lepra de Lázaro tem para a lamber

Já que sou única testemunha deste infeliz velório

Da minh’alma que se me sorrir à-toa

[…]

No meio da sala velo minh’alma que aos poucos se afasta…

E de mim voa.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

MINHA SOLIDÃO

Minha Solidão



De João Batista do Lago



Carrego como massa da minha ossatura

a leveza interna do meu espelho

guardado no mais puro sacrário da minh'alma.

É de lá que vem minha hóstia

- seja sagrada; seja maldita -

mas a tomo como alimento de toda vida.

Ah, solidão! Solidão que de mim cria

universos de representações sonâmbulas

contigo levas às almas minha imagem de alegria.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Ipê Amarelo

Ipê Amarelo


De



As flores amarelas

do Ipê amarelo

banham o raiar do dia

e sorriem...

Sorriem desafiando

nuvens cinzas de amarguras

sorriem dissipando chuvas de agruras

sorriem trazendo os sóis de venturas

Assim me recebem

as flores amarelas

do Ipê amarelo...

Vigia da minh'alma



Não há como não amá-las:

as flores amarelas do Ipê amarelo!

domingo, 3 de fevereiro de 2008

CICLO

CICLO

© De João Batista do Lago

Mato-me quando findo dia
Mato-me quando findo noite
E neste ciclo de me morrer
Nasço na morte do dia
Nasço na morte da noite
Nascer do dia! Nascer da noite!
E de cada morrer-me
E de cada nascer-me
Espero o tempo da semente
Que me há na eternidade
Dum espírito superior

SUCESSO

SUCESSO

© De João Batista do Lago

Vês, meu camarada!
Há por aí uma mentira ditirâmbica:
“É preciso educar para o sucesso.”

O “sucesso” para essa gente
É como o suave óleo repelente
Afasta por instantes o mosquito
Mas não impede a ferroada que mata
Que deita por terra qualquer gigante

Dizem não haver sucesso sem o rico vintém
Renegam, assim, a pureza da solidariedade
Não faz sentido NÃO reter a propriedade – dizem
Sucesso é vencer sem medo nem piedade
E do mísero operário assaltar toda dignidade

Estás ferrado, meu caro, se esse sucesso não te compraz!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Viva! Viva! Viva! Vida longa aos senadores "Sem-voto"

Viva! Viva! Viva!
Vida longa aos senadores "Sem-voto".

De João Batista do Lago


Viva! Viva! Viva!
Mil vezes viva!
E viva mais uma vez!

Vida longa aos senadores sem votos
Vida sortida aos párias da pátria
Vida feliz a quem nunca fez nada
Vida alegre aos canalhas de gravatas

Resta para ti, ó santo povo ignaro...
Entrudo que se vai festejando no Carnaval do nada
Sem saber que entre uma dose de cachaça e um pó de arroz no rosto
Vão-te roubando a dignidade
Enquanto entoas a marcha dos deserdados.
Enquanto sambas tua miserável sorte,
Não percebes que bastam três dias para te levarem
- Por um ano inteiro –
À toda morte.
E sambas!
Sambas fagueiro como brasileiro trigueiro dos cantos dos teus verdugos.
Sambas sem saber que velas tua fome e tua falta de trabalho; teu filho sem escola e tua mulher pedindo esmola pelas esquinas do Brasil.

Sambas, ó brasileiros dos canaviais!
Sambas sem saber que todos os teus ideais vão ser furtados nos polpudos salários que irão sustentar a imoralidade dos “Sem-voto”, que se instalam nas mesuras senatoriais.

Sambas, ó letrados de fardas!
Sambas como carrascos que se escondem sob a toga das letras e do direito,
Sentados nas poltronas da inconsciência.

Sambas, ó poetas e trovadores brasileiros!
Sambas sob a inspiração do verso que não traz em si a dignidade da nação, mas sustentas no teu sonhar o verso lírico da alienação.

Sambas, ó trabalhadores, exército de desesperados!
Sambas sem a preocupação de saber que na quarta-feira serás apenas cinza…
E como cinza retornarás à cruz dos desempregados.

Enquanto isso, lá para bandas do planalto
Uma casta se refastela. Ri desbragadamente da tua desgraça. Bebe teu sangue como o mais puro champanhe. Come o teu fígado como o mais saboroso dos caviares.
E embriaga-se com vinho da tua inconsciência.
E dizem-se:
Viva! Viva! Viva!
Mil vezes viva!
E mais uma vez: Viva!

Viva a nação brasileira,
Viva a mulata trigueira,
Viva assim o brasileiro,
Povo manso e trigueiro.
Viva, ó Brasil varonil, viva!
Viva, ó irmão brasileiro,
Brinques o teu Carnaval
Deixai por nossa conta
Tomar em conta este canavial
Fazer do público dinheiro
Nosso eterno carnaval

sábado, 19 de janeiro de 2008

COMO NÃO VI MUITA COISA PUBLICADA SOBRE ESTE FATO, QUE AOS MEUS OLHOS É IMPORTANTE, ABANDONO POR INSTANTES MEU DESCANSO PARA...

...POSTAR AQUI ESTA MINHA HOMENAGEM.

__________

CANÇÃO PARA ELIS

© De João Batista do Lago

Lá vem… lá vem… lá vem

Elis não vem de trem

Não, não vem de trem!

Menina travessa: pimentinha danada

Lá vém… lá vem… lá vém

Elis é vida em disparada

Chova pau, chova pedra

É ela que chega findando o verão

Trazendo na voz seu coração

Transformando as águas de março

Num país rico de canção.

Caminhando sua dor solitária

Vagou entre becos, ruas e avenidas

Tentou – como bêbado! - beber suas feridas

Jamais perdeu a consciência de ser malabarista

E no fio da navalha sempre foi a equilibrista.

Sabia do dia cantar a resplandecência do sol

Sabia da noite cantar a luminosidade da lua

Durante o dia plantava flores; à noite colhia rosas

Moleca, travessa, pimentinha danada

Há muito trago comigo essa saudade guardada

Lá vem… lá vem… lá vem

Elis não vem de trem

Não, não vem de trem!

Menina travessa: pimentinha danada

Lá vém… lá vem… lá vém

Elis é vida em disparada

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

EU E O TEMPO

EU E O TEMPO



© De João Batista do Lago



Sou, pois, o avesso

Do avesso

No regresso do tempo



Sou, pois, sempiterno

Puras recordações

Das ilusões dos tempos



Sou, assim,

Ternura dos ventos

E dos tempos



E sem o tempo do ser

Sou o ser do tempo

Na eternidade do eu

domingo, 13 de janeiro de 2008

CORPUS (soneto)

CORPUS

© De João Batista do Lago

A argila

Carne que perambula

Vermes – e alma –

Só tornará calma

Se argila tornar Ser

O barro não morre o corpo

Sedento de espírito vira anti-corpo!

E quando a morte se dera

Na alma do corpo que se fizera

Verás desta vida apenas quimera

Santificada seja a morte que me retorna à vida da terra!

Somente lá estarei concluído

Somente lá jamais serei vencido

Somente lá terei a paz sem guerra

__________

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

DEUS-ME [Soneto]

DEUS-ME

© De João Batista do Lago

O meu divino-deus continua embalsamado
Reclama sua eterna existência dentro de mim
Convoca-me a mostrar-me substancialista
Grita do fundo do poço quanto devo ser artista

Ó deus que dentro em mim quer despregar-se
Dizer-me abertamente que sou sujeito, porém
Demônios angélicos lhe pedem em prece:
- Não forneça o Sol da noite a quem não merece

Desgraçado então a vida assim condenado sigo
Sem ter oportunidade de deus-me ser parido
Complexo defunto: amplo encanto do eu-partido

Eu-deus carrega então a cruz dos vencidos
Pleno do pus pútrido de eterno Homem não-nascido
Calado na sua gênese como a essência do vencido

DEUS-ME [Soneto]

DEUS-ME

© De João Batista do Lago

O meu divino-deus continua embalsamado
Reclama sua eterna existência dentro de mim
Convoca-me a mostrar-me substancialista
Grita do fundo do poço quanto devo ser artista

Ó deus que dentro em mim quer despregar-se
Dizer-me abertamente que sou sujeito, porém
Demônios angélicos lhe pedem em prece:
- Não forneça o Sol da noite a quem não merece

Desgraçado então a vida assim condenado sigo
Sem ter oportunidade de deus-me ser parido
Complexo defunto: amplo encanto do eu-partido

Eu-deus carrega então a cruz dos vencidos
Pleno do pus pútrido de eterno Homem não-nascido
Calado na sua gênese como a essência do vencido

sábado, 5 de janeiro de 2008

SEPULCRO (soneto)

SEPULCRO

© De João Batista do Lago

Ainda hoje tive notícias de ti
Soube do teu sepulcro em vida:
Carregas dor de não ser querida.
Pouco falaram, mas eu pressenti!

Toda infelicidade, ó como a senti!
O duro golpe de ser desvalida,
De não ser deusa, mas jóia corroída;
Anestesiada pelo sonho do jaborandi.

Eu que te venho amando por toda vida
Nada posso fazer por mim ou por ti
Nem minha paixão há tanto esquecida

Conseguirá salvar este amor, ó querida!
Viver solitário foi tudo que consegui;
Já nós dois somos nós no olhar da partida.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

O DIA EM QUE O CÉU DO ORIENTE CHOROU FOGO

O DIA EM QUE O CÉU DO ORIENTE CHOROU FOGO
(1989)
(Revistoo: 2008)

© De João Batista do Lago

Procurei todas as razões para entender as guerras
Nunca encontrei qualquer motivo que as justificassem
É por isso que não as entendo…
É por isso que não as compreendo.
Jamais aceitei a idéia da guerra como recurso para a paz. Jamais!
Nenhuma guerra é capaz de traduzir a paz. Nenhuma!
Todas são evolução da ignomínia do homem. Todas!
Em todas há a obsessão dada do poder e da ganância. Todas!
Não há razões para o fazer da guerra!

Que direitos são esses do Ocidente sobre o Oriente?

Oh, noite das noites!
Noites que se fazem meteoritos de estanho
Noites que se matam as crianças
Sem lhas dar as chances de saber da esperança
Oh, noite das noites!
Não posso cantar-te em meus versos
De ti resta-me o odor do sangue escarlate
Que jorra da terra como ouro negro
E que se compraz perseguir a alma dos mortais

Noite em que balas dançam pelos céus dos esquecidos!

Quem dera fosse essa noite o Apocalipse de João.
Quem dera!
Não teríamos o amanhã para chorar os sete arcanos
O céu não fumegaria o horror das bombas atómicas:
Buuuuuuuuuummmmmmmmmm…
Aqui uma cabeça; ali uma perna; mais adiante um braço…
Diante de mim vejo o corpo do amor no seu último abraço
Viro o rosto para não gravar tamanha desgraça…
Mas cai à minha frente um coração que pulsa: brasa!

Noites que rompem o tempo e se fazem espaço de guerras!

Pilhas de corpos que se amontoam sobre a relva
Corpos que depois de lavados são plantados em covas rasas
Covas que darão árvores daninhas no alvorecer do amanhã
Árvores que produzirão frutos de carnes humanas
Frutos que serão no teatro da vida o prato de predileção
Teatro onde se há-de encenar o ato seguinte da nova guerra
Guerra que consumará a vitória dos senhores donos do mundo
Vitória que será húmus da miserável guerra que renascerá na terra.
Ó, Senhor de todos os céus, será assim eternamente a sina dos mortais!?

Noites de miseráveis guerras! Noites assassinas da Paz!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

CÂNTICO INVERSO

CÂNTICO INVERSO

© De João Batista do Lago

Macacos me mordam!
Vê-se animais sagrando o não-Sagrado
Vê-se animais!
Desconfiados dão-se bênçãos
E sentam-se nos colos de assassinos e ladrões
E contentam-se com a miséria que se lhes nasce
E geram a desgraça do abraço
No afeto do beijo de fel: todo feto
Que se lhes apimenta a língua ferina
Que será comida como troféu

Vê-se animais!
Sim, vê-se animais
Nos arraiais do céu!

sábado, 29 de dezembro de 2007

HABITAT

HABITAT

© De João Batista do Lago

Habito-me de versos
Na casa dos meus fragmentos
Todos os meus lamentos
São quartos do meu prédio
Onde resido como ancião
Contestante.

Como minha juventude
– Salada de novas vidas! –
Ocra vermelha salgada
Debulhada na madeira do ser
Que me endurece a alma
Sustentáculo do vir-a-ser.

Habito-me, pois, com pavor
Rasgando os meus fragmentos
Presos pelos discernimentos
Torturados pelos intestinos
Vadios que me ejetam da nave:
Excremento de puro ser.

Assim habito-me: não-Ser
Disfuncional na funcionalidade
Substancial da presença
Marcada pela ausência do ser.
Habito-me, pois, assim:
Escala da vida dantes já morta!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

DIÁLOGO DO TEMPO E DO ESPAÇO

DIÁLOGO DO TEMPO E DO ESPAÇO

© De João Batista do Lago

Eu que não mais estou aqui
Aqui estou para agradecer
As mesuras das tuas palavras
Que nem foram escritas para ti
Mas para um tempo que já não há
Que muito distante está
- seja de mim; seja de ti.

Obrigado a você que me lê agora.
Confesso: gostaria de saber por quê comigo choras!
Estes lamentos descritos noutros tempos;
De aventuras e desventuras sem laços,
Duma alma que passou pela vida sem espaço,
Que nunca sentiu o frescor do próprio ungüento…
Por que merece, agora, roubar esse teu tempo?

Naquele tempo, ó meu caro viajor,
O mundo era um labirinto de dor.
Talvez por isso estranhes o langor da poesia
Reflexo do horror que havia em toda periferia
Macabra terra e residência da miserável guerra
Que nunca se dera a oferecer como anjo da paz
Que sempre se fizera de toda vida só quimera.

Sinto muito, meu caro. E como o sinto
Não poder dar-te outra imagem senão esta.
Bem gostaria de te falar de gloriosas festas…
Bem gostaria! Mas se assim fizesse
Não me restaria outro apelido: farsante!
Tomaste toda poesia para cantar o onirismo presente,
Porém esquecestes do real Ser, ser o principal ausente.

Quando vês que reclamo em mim a criança
Podes crer, estava sufocando sem o ar da esperança
Quando assistes ao meu lamento em pranto
Crê, era a presença do meu eterno (então) desencanto
Já tanto e quanto cansado do grito (sempre) sufocado
Pela cicuta-da-europa ou mesmo pela cicuta-do-norte,
Que me oprimia tanto e quanto até me levar à morte.

Se nessas páginas me vês (por vez) ensandecido
Era o grito mais profundo do ser em mim esquecido,
Era o choro sem lágrimas pelo canto varrido
Das almas penadas. Se me vês assim… Assim eu fora!
Uma voz ao vento feito relincho de jumento em cio
Louco para gerar no ventre do barro e da água
Toda lavoura que se pudera agasalhar a fome e o frio.

Sim, meu caro, sempre me fora assim: princípio, meio e fim.
Mas se princípio fora; meio não me fizera, não me contivera;
Do fim apenas me restara o sabor de nada entender…
E aí sepultado dentro do meu próprio ser
Embalsamado e esquecido na câmara sarcófica do não-Ser,
Trancado pela chave do sagrado na palavra mortal
Aprendera que todo sofrimento resulta do pensar animal.

É possível, sim; ser tudo mentira tudo o que falara.
É possível nem mesmo acreditar no mal que tanto e quanto causou.
Sim, tudo é possível, bem sei! Quem sabe fora apenas mentira!
Só não é possível esquecer que a vida de si esqueceu,
Que a tantos e quantos deu e a tantos e quantos roubou:
Uma rosa murchou; uma flor não floresceu. A vida morrera?
Mas nem mesmo isso regara o coração dos indulgentes.

Lê-me, então, ó viandante de todos os tempos;
Lê-me com os passos do pensamento de um romeiro contrito.
Mas, se porventura vês no meu escrito só dor e lamento
Rogo-te: tomas essa estética do sonho de um poeta maldito
Como a hóstia sagrada da realidade da vida, pois
Mesmo que ela te cause dor ou qualquer ferida
Há-de ser pela eternidade, não teu delito, mas o teu veredicto.

O SER DOS MEUS OLHOS










O SER DOS MEUS OLHOS

© De João Batista do Lago

Meus olhos seguem o ser que se esvai
No esfumacento entardecer
Onde irá o meu ser?
Que visões irão atravessar?
Onde irão os meus olhos?
Meu ser?
Quem sabe!
Eu não sei.
Amanhã, meus olhos já não mais seguirão ninguém
No escurecer da entardecer!
Onde estará meu ser?
Onde estarão meus olhos?
Quem sabe!
Quem soubera?
Quem saberá?

- Eu não sei.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

OBLATAS

CANTO VIÉS

© De João Batista do Lago

Que adianta o lirismo,
Que adianta estética,
Que adianta o belo
Residente na poética?

Sim!
Que adianta tudo isso
Se a vida não é assim?

Foges pela tangente do real
Escapas pelos esgotos da beleza
Cegas-te para não enxergar a dureza
Cruel gerada na alma animal
Do homem que da vida é só vileza!

Oh, meu caro João, não me tome por mal;
Bem sei da beleza que na vida há. Bem sei!
E um dia hei-de a cantar nalgum verso toda essa beleza,
Mas agora é prudente falar da maldade que há
Instalada – em qualquer lugar – na beleza
Perdida no barro da criação.

- Não tenho dúvida, João, sou filho da indignação.

Que adianta cantar a esperança, se matam em mim a criança?
Que adianta cantar a paz, se me constroem soldado das guerras?
Que adianta cantar a vida, se dela não me há qualquer guarida?

Não. Não tenho por que sorrir…
Nem mesmo lágrimas me restaram para chorar.
Todo sorriso; toda lágrima
Restaram consumados na insensatez da próprio Ser.

Quero sim, à vida cantar!
Dizer dela toda beleza no plural e no singular:
A rosa, são rosas
A flor, são flores
O amor, são amores
Na dor, não há-de haver dores
Na fome, há-de haver todo alimento
No Ser, toda solidariedade
Da ação, nenhuma maldade

Quero, pois, assim,
Toda vida cantarolar.

domingo, 23 de dezembro de 2007

OBLATAS

OBLATAS

© De João Batista do Lago

Sinto deste Natal apenas o gosto amargo do fel
Não vejo nenhuma escritura que fale dessa obsessão
Não há literatura que relate tamanha vergonha
Dessa criatura louvada pela torpeza dos homens
Que buscam uma vez mais a desrazão da riqueza
Na perene sutileza de louvar o Filho do Deus

Possivelmente não terei nenhuma razão
Para contrariar os senhores donos do mundo
Que fazem festa para obrar toda dominação
Que do engodo do mercado fazem uma só oração
Razão suprema dum povo deserdado
Fiéis professos da procissão dos adestrados

Sou de todos assim louco defenestrado
Mago não guiado pela estrela do consumo
Indigno de viver num mundo administrado
Lixo na festa do menino-deus-mercado
Que a todos vê como oradores encantados
Fiéis oblatos da religião dos engalanados

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

REGRESSIÓN

Regresión

© by João Batista do Lago

Vuelvo todos los pensamientos
A los niños desesperanzados
Desabrigados y desamparados
Solos y desnudos de los todos
Descubiertos de la seguridad
Cerrados en sus vidas
Tragados por el camino
desgraciado de la vergüenza
indulgente del capitalismo carrasco

Vuelvo todos los ojos
A todo los niños invisibles
Ocultados y subyacentes de la incapacidad
De todo los seres garantizados
por las monedas usurpadas
por todo los encantadores
por todo los brujos tiranos
cargadores de ganancias
asesinos del futuro y de la existencia

¡Más tardíamente lo pensamiento
revuelto podrá instalarse!
Entonces los soldados de toda la miserabilidad
Los niños sacados de toda la vida
Surgirán de todas las villas engañadas
Y marcharán sobre las ciudades
Sobre todas las metrópolis
Sobre todas las capitales
Sobre todas las naciones
Sobre todos los pueblos

(Y como enjambre de abejas inquietadas
cobrarán al mismo tiempo todo... todo...
la muerte de los tiranos
- e de los inocentes, sin duda)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O BODE DO LAGO - Um conto de Natal

O BODE DO LAGO – Um conto de Natal

© De João Batista do Lago

Nunca imaginei viver uma experiência como a que estou vivendo neste natal. Pela primeira vez resolvi sair do meu ambiente natural. Sempre vivi próximo ao lago; onde sempre me senti seguro; onde nunca fui ameaçado; onde até mesmo as maiores feras possíveis e pensáveis me respeitam. Mas esta experiência tem-me sido de fato muito engraçada. Curiosa mesmo!
Estou na cidade. Cidade de bichos homens e de mulheres! Cidade dos bichos humanos! E somente agora percebo claramente que não sou bicho: sou bode! É estranho este sentimento que sinto agora! Muito estranho mesmo! Queria expressá-lo, mas tenho dúvidas em fazê-lo… Como explicar esses bichos amontoados nesta selva de concreto? Como entender suas ações? Como classificar suas formas de vida? Como justificar seus comportamentos?
Bem, é melhor prestar atenção e pensar mais um pouco…
Pelo que entendi até aqui são muito estranhos esses bichos humanos! Criaram um Ser além deles próprios para adorar. Daí não ficaram satisfeitos e inventaram um filho desse tal que vive nas nuvens, mas logo se zangaram com ele e o crucificaram. Daí criaram um bicho inumano a quem deram o nome de Espírito. Este, de certa maneira substitui o que por eles foi assassinado. Que coisa estranha esses humanos!
Outra coisa que me custa entender é essa mania que esses bichos têm pelos grandes templos. São casas riquíssimas! E eles ainda vão para esses lugares e deixam o seu pão de cada dia num ofertório ao sagrado. Mas que sagrado é esse que esses bichos tanto adoram? (…)
Resolvi então visitar um desses templos. Qual não foi o meu espanto!
Vi bichos ajoelhados diante de estátuas de barro. Uns choravam. Outros rezavam. Aquele pedia perdão pelo mau que praticou durante o ano. Este fazia promessa: “serei um bom homem”. Aquela outra prometia ajudar os pobres. Isto me chamou atenção: que é isso, pobre? Auscultei com mais vagar e calma o que ela dizia. Daí entendi que pobre era um seu semelhante. Engraçado!
Esses bichos se dividem em classes. Tem o miserável, o pobre, o menos pobre menos rico, o rico e o milionário. Que loucura!
Mas hoje, que eles chamam de Natal, que comemoram o nascimento… daquele tal que eles mataram, a quem chamam de Menino Jesus, eles se juntam para uma tal de confraternização. E aí ocorre o mais engraçado: brindam e bebemoram a paz que no dia seguinte vira guerra; juram amor eterno pela mulher e pelo marido, mas no íntimo dizem-se: “que lixo!”; distribuem cinquenta dinheiros, mas amanhã roubam cem; abraçam o negro e a negra – “tens alma branca”, dizem –, mas no dia seguinte mandam entrar pelo fundo da igreja; amam as crianças, mas no novo dia lhas roubam toda esperança; juntam-se numa só ceia; mas amanhã negam o pão que alimenta a multidão…
Esses bichos são mesmo engraçados!
Saio dali da igreja e vou para as ruas. Nestas, os bichos humanos estão de sorrisos largos, o que, de certa forma, me fez lembrar dos lobos e das hienas. Lobos e hienas também sorriem uns para os outros. Lobos e hienas também andam em matilhas. Lobos e hienas são traiçoeiros… Enfim, como se parecem esses bichos humanos, os lobos e as hienas!
Mas continuo em minha peregrinação tentando entender esses bichos humanos. Logo encontro um casebre, mas ao lado há um palácio. Acho estranha essa harmonia! Então resolvo entrar nesses ambientes. No casebre há “fartura” de tudo; no palácio há fartura de tudo. No casebre há uma família miserável; no palácio há uma família milionária. No casebre nenhum pedaço de pão; no palácio há tanto… tanto… tanto… que empanturra até cão. No casebre há um pai desempregado; no palácio há o senhor do mercado. No casebre um filho e todos os degredos; no palácio nenhum filho, mas todos os brinquedos. No casebre a mulher é só pelanca; no palácio a mulher é só botox. No casebre o afeto é um abraço; no palácio o afeto é um carro. No casebre o vinho é água pura; no palácio é champanhe cara. Que loucura! (…)
Estou de novo nas ruas. As matilhas de transeuntes passam por mim. Não me notam. Claro, eu sou bode. Se me notarem serei crucificado, como o tal Jesus, ou simplesmente sacrificado para ser ofertado na ceia dos senhores e (também) dos miseráveis. Serei comprado ou vendido por trinta dinheiros: valor da traição que reside em cada coração depois do beijo…
É melhor mesmo que não me vejam. Se me virem são capazes de se vestirem como cordeiros; daí estarei em perigo. Serei morto e oferecido na ceia dos discípulos de Babel. Não! Não quero ficar nesta selva. Aqui não a relva onde eu possa deitar minha liberdade; nem água pura onde eu possa me embriagar de amor… Meu lugar é à beira do lago. Lá sou bode, não sou animal.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

INFERNO

INFERNO

© De João Batista do Lago

Quem me dera morto havê-lo nascido
A rosa que de mim tão bela não teria murchado
A vida não me houvera como sacrifício
E eu nas alamedas cortando a selva de pedra com o machado

Quem me dera morto não teria crescido
Feito lobo faminto dessa selva de ensandecidos
Não mostraria os dentes para saldar os já vencidos
Desta guerra sem fim dos que em si nunca foram nascidos

Quem me dera morto a rosa sobreviveria
Porque vivo as pétalas choram em mim o eterno
Sabem do tormento que é viver nesse inferno
O morto que mesmo vivo é preso de sua cadaveria
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ALEGORIA



ALEGORIA
© De João Batista do Lago

Quando em vez o irmão da morte
Abraça-me com carinho;
Me faz carícias,
Promete a experiência de novas visões;
Diz que viverei o encanto d’outras belas jornadas,
Que não me arrependerei ao trilhar essas estradas.

Quando em vez sou tentado ao convite:
Viver a magia dos sonhos;
Perder-me nos encantos das bacantes
De deusas oníricas do não-Ser;
Desfalecer feito adolescente
No rubro colo dessa realidade ausente.

Quando em vez aceito a taça do cansaço!
Então, embriagado, o irmão da morte
Me serve o último trago:
sonhos que logo desfaço

Ao ouvir a voz da Sabedoria,
Que logo me alerta contra tais alegorias:
- Junta-te a Dionísio, pois terás muito tempo para dormir.
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Crédito da Ilustração: http://www.rainhadapaz.com.br/projetos/artes/imagens/im_quatrofases/S_alegoria.jpg
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sábado, 15 de dezembro de 2007

ESSAS NOITES...

ESSAS NOITES…

© De João Batista do Lago

Sinto que minhas noites já se transformaram em dias!
Dias negros como os dias dos mortais,
dias infecundos, restos dos dias dos sinais
que vêm da mais profunda eternidade;
dias onde se plantam e condensam as maldades
plantadas nos corações dos homens.

Não! Afastem-se de mim essas noites-dias!
Não as quero por mais belas que se me apareçam
essas noites. Que se percam nos seus dias claros.
Quero-as como dantes
- não como os delírios de Dante –, mas
dionisíacas, donde nas minhas bacantes

Themis reinava em toda sua supremacia
e depois me deitava em sua cama macia,
onde me acariciava e me amava.
E de onde eu acordava qual Vesúvio:
explodindo vida por todos os poros
depois de amá-la como um gigante.
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